terça-feira, outubro 01, 2013

STARMAN (1984)

STARMAN, O HOMEM DAS ESTRELAS
Um filme de JOHN CARPENTER



Com Jeff Bridges, Karen Allen, Charles Martin Smith, Richard Jaeckel, etc.

EUA / 115 min / COR / 
16X9 (2.20:1)

Estreia nos EUA a 14/12/1984
Estreia em PORTUGAL a 28/6/1985

Starman: «Shall I tell you what I find beautiful about you? 
You are at your very best when things are worst»

Filme atípico na filmografia de John Carpenter, "Starman" é um "E-T." para adultos, um conto de fadas em que o príncipe é um extra-terreste. Pela primeira vez Carpenter relega a ficção científica para segundo plano e dá-nos um filme na linha de um "It Happened One Night”, de Frank Capra, uma espécie de road-movie que atravessa o sudoeste dos EUA. Serenamente intenso, o filme equivale a uma visão da América pelos olhos de uma criança e por isso resulta na obra mais pura e mais bela do realizador norte-americano. A criança é aqui um alienígena que chega à Terra na sequência de um convite («Venham visitar-nos!») formulado muitos anos antes pelas autoridades norte-americanas, quando em 1977 a nave Voyager II tinha sido lançada para o espaço. Afim de passar despercebido toma a forma do corpo do marido recém-falecido de Jenny Hayden, uma jovem viúva que habita sozinha uma casa perto do local onde a nave se despenhou.

A mutação é presenciada diante dos olhos incrédulos de Jenny, que acaba por desmaiar na sala de visitas. Quando acorda julga que tudo não passou de um pesadelo, mas rapidamente se dá conta de que algo de extraordinário ocorreu ao deparar-se de novo com a réplica perfeita de Scott. É esta a sequência que vai despoletar o desenrolar do filme. Mas à semelhança dos filmes de Hitchcock, esta descida à Terra de um extraterrestre não passa de um mcguffin, ou seja, de algo que só serve para fazer evoluir a história. O importante no filme, a ideia que Carpenter teve ao realizar “Starman”, é a aprendizagem recíproca de um casal em corrida contra o tempo, na tentativa urgente de encontrarem as razões pelas quais a vida merece ser vivida num mundo dominado pela intolerância.

Recordemos o que escreveu João Lopes numa crítica publicada no Jornal Expresso, no dia seguinte à estreia do filme em Portugal, «Se Carpenter filma a constituição de um homem a partir do nada - nada de matéria, nada de memória, nada de comunicação - filma também a linguagem como entidade exterior ao corpo, dele separada, a ele devolvida. Aplicando a terminologia de Carpenter, a linguagem é uma coisa, a linguagem é a coisa de "O Homem das Estrelas". Não admira que, mesmo apaixonando-se, o homem das estrelas não possa deixar de querer cumprir o trajecto que, no fim do prazo pré-estabelecido, o devolverá ao seu mundo. Se é verdade, como diz Godard, que a linguagem é a casa onde o homem habita, então o tema de Carpenter em "O Homem das Estrelas" não é senão o exterior dessa casa.»

“Starman” está recheado de cenas magníficas, encadeadas num ritmo harmonioso de aventura, humor, romance e suspense. Uma delas é uma das mais belas passagens da obra de Carpenter - depois de Jenny (Karen Allen) ser abatida, o extraterrestre (Jeff Bridges no papel de uma vida) leva-a para uma caravana que segue em direção a Oeste. Durante toda a noite exerce a sua cura milagrosa, que nos é apresentada em montagem paralela com paisagens mudas, de uma beleza quase austera, conforme a camioneta passa por elas e a noite dá lugar à madrugada e esta dá lugar à manhã com o novo despertar de Jenny. A cena é muito típica de Carpenter: engenhosamente calibrada e ritmada, bem texturada, com uma estranha coordenação entre pessoas e objectos inanimados.

A cena final da despedida (aquele belissimo e último close-up de Karen Allen fica-nos para sempre gravado na memória) é muito característica da idade de ouro do cinema hollywoodiano. Segundo Carpenter constitui o ponto culminante do filme: «Devo reconhecer que esta sequência entre Jenny e Scott é uma das melhores que Dean Reisner escreveu. Acrescentei simplesmente um néon de luz muito vermelha por trás dos dois actores. Foram ambos muito bons. Estavam os dois muito motivados pelo filme, e em especial por esta cena. O plano final que mostra Jenny a levantar os olhos para o céu e depois baixá-los foi conseguido graças a um movimento de grua. Para este plano utilizei uma objectiva de 75 mm, o que me permitiu atenuar consideravelmente o movimento mecânico. Creio que isso deu a esta imagem um lado ao mesmo tempo triste e estranho. Como se Scott se afastasse de Jenny e dos espectadores.»

Jeff Bridges e Karen Allen roçam os limites da perfeição nesta história de amor e inocência contada magistralmente por um John Carpenter em estado de graça, estado esse que não mais se repetiu em toda a sua obra posterior. Por isso "Starman" continua a constituir uma jóia rara e preciosa, completamente imune à lapidação do tempo. De realçar também a excelente fotografia em widescreen (formato de que Carpenter é o mestre do cinema contemporâneo), bem como a banda sonora com uma belissima partitura musical assinada por Jack Nitzche.


Termino citando uma vez mais a crónica de João Lopes do Expresso: « Estamos para o cinema como Jenny Hayden está para o seu companheiro. Não é possível que ele exista, porque não é possível que haja alguém tão diferente e tão parecido com o seu marido - e, no entanto, aquilo é forma e verdade, fala e sentido. Se ela o perde, devolvendo à eternidade o seu amor, isso fica a dever-se, talvez, à impossibilidade de integração pelo extraterrestre da palavra morte. Quando ele devolve à vida o veado abatido pelos caçadores, não é um simples gesto de profilaxia ecológica que resume o acontecimento - de certo modo, é a mão divina do cinema que através dele se exprime. O cinema é um país mais vasto que a linguagem.»




1 comentário:

Billy Rider disse...

Um dos filmes do meu lado esquerdo do peito, que pelo menos tenho de ver uma vez por ano. A magia do cinema passeia-se por aqui...