IN THEIR SLEEP Um Filme de CAROLINE et ÉRIC DU POTET Com Anne Parillaud, Arthur Dupont, Thierry Frémont, etc. FRANÇA / 84 min / COR / 16x9 (2.35:1) Estreia em FRANÇA a 27/1/2010
Primeira obra dos irmãos Du Potet (que aqui se estreiam quer na realização quer na escrita do argumento), "Dans Ton Sommeil" é um pequeno thriller de horror, que cedo deixa o espectador colado à cadeira. Sarah (Anne Parillaud) é uma enfermeira que depois da morte acidental do filho se isola do que a rodeia, passando a viver sózinha na sua casa de campo, após o marido a ter deixado entregue à sua dor. No hospital onde trabalha a sua competência começa a ser questionada, e uma noite é aconselhada a ir para casa descansar alguns dias. No caminho de regresso atropela um jovem em fuga, Arthur (Arthur Dupont), e decide levá-lo para casa, afim de o tratar. Mas de repente são seguidos por um motorista enraivecido, que mais tarde se consegue infiltrar na casa de Sarah, tentando a todo o custo dar cabo do jovem. Arthur é salvo no limite pela sua protectora, que mata o intruso à machadada. O jovem confessa que a perseguição tivera origem na sua própria casa, onde surpreendera o homem a tentar roubar na ausência dos pais. Mas as coisas não são aquilo que parecem ser e Sarah ir-se-á arrepender de ter acolhido Arthur...
Com um argumento deveras engenhoso, em que os avanços e recuos da história são constantes, "Dans Ton Sommeil" é um thriller psicológico que mergulha na esquizofrenia de um assassino sem escrúpulos. As personagens interpretadas por Thierry Frémont (o intruso perseguidor) e Arthur Dupont, não cessam de se modificar, obrigando o espectador a reavaliar a história que lhe vai sendo contada, a qual, inclusivé, chega a ter dois finais alternativos. Quanto a Sarah, o papel que lhe está reservado é o de vítima ignorante, uma vez que a compreensão das peças do puzzle que a envolve lhe escapa completamente. Manipulada, Sarah é incapaz de ver o drama que se desenrola sob os seus próprios olhos, e no qual participa quase involuntariamente. Um bom filme de suspense, bem filmado, que apesar de alguma previsibilidade, consegue agarrar o espectador do princípio ao fim.
Com Belén Rueda, Lluís Homar, Pablo Derqui, Francesc Orella, Joan Dalmau, Julia Gutiérrez Caba
ESPANHA / 112 min / COR / 16X9 (2.35:1)
Estreia no CANADÁ a 11/9/2010 (Festival Internacional de Toronto) Estreia em ESPANHA a 7/10/2010 (Festival Internacional de Stiges) Estreia em PORTUGAL a 22/9/2011
¿Y si el universo se há apagado?
Do país de nuestros hermanos continuam a chegar coisas muito interessantes no domínio do cinema de horror. Esta produção de Guillermo Del Toro, mexicano nascido em Guadalajara, a 9/10/1964, e cujo nome podemos identificar com vários filmes, quer como realizador – “Mimic” [1997], “El Laberinto Del Fauno” [2006] – quer como produtor – “El Orfanato” [2007], “Biutiful” [2010] – ou mesmo argumentista – “Hellboy” [2004], “The Hobbit” [2012] – entre outros, dá aqui uma mãozinha a Guillem Morales (espanhol nascido em Barcelona, no ano de 1975) para a realização da sua segunda longa-metragem, após o ainda inédito em Portugal “El Habitante Incierto” [2004], intitulada “Los Ojos de Julia”, e protagonizada por Belén Rueda, a mesma actriz de “El Orfanato”, uma madrilena nascida a 16/3/1965, e cuja presença neste filme é uma das principais razões do seu interesse.
O grande mérito de “Los Ojos de Julia”é o não se deixar comprometer com as suas influências óbvias (Hitchcock e Argento, sobretudo), denotando, pelo contrário, uma forte aposta na originalidade e numa abordagem algo diferente da habitual. No observatório astronómico onde trabalha, Julia Levin tem o presságio de que algo aconteceu com a sua irmã gémea Sara, que vive numa localidade afastada e que padece do mesmo mal, uma doença degenerativa da vista que irá inevitavelmente conduzir ambas à cegueira. Dirige-se, com o marido, Isaac (Lluís Homar) a casa da irmã para descobrir que a mesma se enforcou na cave há já alguns meses (sequência que abre o filme). Mas Julia desconfia da aparente evidência e convence-se de que a irmã foi assassinada. O desenrolar dos acontecimentos dar-lhe-á razão e ela virá a ser eleita como alvo seguinte na lista do assassino. Não necessariamente como vítima a abater, mas isso ficará para ser descoberto pelo espectador numa primeira visão do filme.
A cegueira tem sido, ao longo dos anos, um tema que os chamados horror thrillers têm explorado, com maior ou menor sucesso. Desde os agora considerados clássicos - "Wait Until Dark" (Terence Young, 1967) com Audrey Hepburn ou "Blind Terror" (Richard Fleischer, 1971) com Mia Farrow - até aos mais recentes "Blink" (Michael Apted, 1994) com Madeleine Stowe ou "The Eye" (David Moreau e Xavier Palud, 2008) com Jessica Alba, este último aventurando-se mais no campo do sobrenatural. "Los Ojos de Julia" nada tem de irreal ou fantástico (embora por vezes pareça, mas isso deve-se à arte com que as sequências são filmadas e montadas, numa clara intenção persuasiva), antes envereda pelos caminhos do thriller psicológico, criando atmosferas sucessivas de angústia e inquietação, numa espiral sempre crescente. Sem necessidade de recorrer ao gore ou a efeitos especiais desnecessários, é a realização de Morales, numa hábil e segura mise-en-scène, que está na base do suspense que pouco a pouco se vai instalando no espírito do espectador.
Em "Los Ojos de Julia"Morales usa a cegueira não apenas como uma deficiência física propensa a abusos violentos, mas sobretudo como uma metáfora sobre a vulnerabilidade das pessoas, rodeadas pela indiferença e exclusão social. Simultaneamente, é essa mesma cegueira que está no centro da história de amor que é contada em paralelo e que culmina num final de rara beleza, algo nunca visto neste tipo de filmes. De realçar ainda a fotografia de Oscar Fauro, que de parceria com a cenografia (Didac Bono) e a música (Fernando Vélazquez), contribui decisivamente para a coerência de todos os ambientes do filme, onde predomina o bom gosto e, por vezes, até uma certa poesia.
Mas a grande força do filme reside sobretudo em Belén Rueda, simplesmente magnífica no papel de Julia Levin: ela é o centro em volta do qual tudo o mais gravita. Como se não bastasse ter tido a sorte de poder contar com a actriz perfeita para o papel perfeito, Moralessoube rodear-se por uma equipa técnica de alto gabarito para desse modo conseguir atingir os seus propósitos: um filme de um suspense quase clássico, manipulador, por vezes desconcertante, e desenvolvido através de ambientes únicos, onde a tensão e a poesia se cruzam a cada passo, a cada sequência. “Los Ojos de Julia” não será votado ao esquecimento, como tantos filmes do género, e daqui a alguns anos poderá vir a constituir-se num autêntico filme de culto, uma espécie de giallo castelhano.
Com Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder
EUA / 108 min / COR / 16X9 (2.35:1)
Estreia em ITÁLIA a 1/9/2010 (Festival do Filme de Veneza) Estreia nos EUA a 5/9/2010 (Festival do Filme de Telluride) Estreia em PORTUGAL a 3/2/2011
Nina: «I just want to be perfect»
Confesso desde já que não sentia a mínima vontade de ver "Black Swan", devido sobretudo a "Requiem For a Dream" que, como já tive ocasião de referir neste blogue, me colocou basicamente de pé atrás no que ao nome deste realizador diz respeito. Mas como tenho cá por casa uma ex-bailarina que nos seus tempos áureos chegou a dançar o duplo papel de Odette/Odile e que insistiu em ver o filme devidamente acompanhada, lá tive de condescender. A verdade é que não dei o tempo por mal empregue e realmente a mão que assina este"Black Swan" não parece pertencer à mesma pessoa que borrou completamente a pintura em "Requiem For a Dream". É certo que Aronofskycontinua a ser um realizador hiper-valorizado - sobretudo pela nova geração de cinéfilos - mas neste caso conseguiu dar-nos um filme interessante, do qual se encontra ausente grande parte dos maneirismos insuportáveis de outrora.
Exceptuando-se alguns facilitismos a nível do argumento (os mais óbvios serão os de conotar o sexo com o lado mais obscuro do ser humano), "Black Swan" consegue, à parte certos exageros, trazer à colação os aspectos mais comuns no mundo do bailado: a dureza da profissão (amesquinhada pelas intrigas e pelas invejas), o desejo de afirmação a todo o custo ou a busca permanente pela perfeição são apenas alguns exemplos, mas que se encontram devidamente enquadrados. Acrescente-se a excelente fotografia, de matizes expressionistas, e um punhado de boas interpretações (que deu este ano a Natalie Portman um merecido Óscar, até porque os papeis das suas competidoras eram bem mais fraquinhos) e podemos considerar"Black Swan"uma agradável surpresa, sobretudo se pensarmos na pessoa por detrás da câmara. Entretanto descobri na internet um interessante e pertinente comentário, assinado por Daniel Dalpizzolo, que no essencial espelha aquilo que eu próprio penso, e que por isso transcrevo já de seguida:
Tentativa válida de um cineasta pueril
A imprensa norte-americana sente frequentemente uma necessidade de encontrar novos “gênios” do cinema, artistas que, mesmo com seus filmes ainda em produção, já são assunto das principais revistas e sites especializados, emplacando publicidades gigantescas que assolam nossa visão a todo instante e não nos deixam esquecer esses filmes nem por um dia sequer. O tempo geralmente trata de mostrar se eram realmente bons autores ou meros exemplares de uma tendência, e foi desta forma que muitos diretores tidos como bons durante certo tempo simplesmente sumiram alguns anos depois, revelando filmografias frágeis que, passada a moda na qual embarcaram, não despertavam mais o mesmo interesse.
É neste universo que, acredito, vivem os realizadores mais comentados pela imprensa norte-americana em 2010: Christopher Nolan e Darren Aronofsky. O primeiro, com seu"A Origem"/ "Inception", tornou-se símbolo de um suposto cinema de entretenimento “com cérebro” ventilado aos quatro cantos do mundo; o segundo, com este"Cisne Negro", um realizador que estaria trazendo profundidade psicológica ao cinema mainstream. Convenhamos: em 2010, quem negasse a existência destes dois fenômenos estaria naturalmente fadado a parecer desatualizado. Quem falasse mal, por sua vez, era visto como maluco.
Embora filmes diferentes no resultado – e também na qualidade – que vemos em tela, são trabalhos que dividem características em comum em seus processos de concepção, na forma como se relacionam com o público e desenvolvem os seus discursos. Ambos respondem a uma necessidade de buscar-se no cinemamainstream contemporâneo algum respiro criativo, algo que nos conforte numa época em que cada vez mais os filmes comerciais parecem feitos para cachorros, muitas vezes sendo menos interessantes vê-los do que sentar numa cadeira de praia em frente ao forno giratório de assar frango e olhar o troço girar até dourar. É sim uma busca louvável, mas, até então, executada de maneira bastante pueril.
Tanto "A Origem" quanto"Cisne Negro"miram neste público, e acertam em cheio. Filmes que abordam temas pouco usuais ao cinema pop, derivados da psicologia, e que se utilizam do impacto das trucagens narrativas tão caras a estes dois diretores para venderem-se como filmes “originais” e “complexos”.Darren Aronofskye Christopher Nolan são diretores cujo sucesso se construiu justamente na abertura de espaço para uma nova safra de cineastas, que representam o cinema moderno, cinema do século XXI, cinema do novo milênio; cinema que foge da estrutura classicista de narração e aproveita-se da fragmentação, da pós-produção digital, dos truques modernos para impressionar. Nas mãos de ambos o cinema é um quebra-cabeças, e existem duas preocupações que, nestes filmes, parecem interessar muito mais do que a própria pintura contida nele: em um primeiro momento, bagunçar as peças, desnortear o “jogador”; em seguida, conferir cada uma dessas peças cuidadosamente para ver se todas estão em seus lugares específicos. É assim que a brincadeira acaba. Quem montou, é claro, sai com um sorriso no rosto.
Falando por mim, quando se trata de arte, sou muito mais contemplar a pintura. E é por isso que, diante de um filme como"Cisne Negro", acabo acompanhando tudo com uma distância significativa. Neste caso em especial, e ao contrário de "A Origem", que é tão somente um filme muito ruim, existe algo interessante por debaixo do rocambole mirabolante, e não são poucos os momentos que realmente conseguem impressionar. Algumas sequências, beneficiadas pela atmosfera de paranoia trazida de filmes como"Repulsa ao Sexo" / "Repulsion" (Roman Polansk, 1966) e"Suspiria"(Dario Argento, 1977), fazem de "Cisne Negro"uma emulação juvenil interessante de um cinema psicológico que já não se faz mais; a relação da personagem deNatalie Portman com o trabalho em que tanto busca a perfeição, por sua vez, carrega quês de"A Hora do Lobo" / "Vargtimmen" (Ingmar Bergman, 1968) e"Videodrome – A Síndrome do Vídeo"(David Cronenberg, 1982), outros grandes clássicos desta escola de cinema que se utiliza da diluição entre o real e a alucinação para fazer suspense.
Analisando por esta definição (“diluição entre o real e a alucinação”) se percebe que, por mais interessante que possa ser, ainda existe muito caminho para filmes como"Cisne Negro"percorrerem até alcançar a mesma qualidade do grupo mencionado. E não seráAronofskyo homem a fazer isto, simplesmente porque seu estilo narrativo não permite tal desprendimento. Tudo é muito certinho, calculado, premeditado e principalmente explicitado – quando não radicalmente moralizado e induzido dentro de um discurso prévio, como no caso de "Réquiem Para um Sonho" / "Requiem For a Dream" (2001) e em algumas características deste - para que esta atmosfera se sustente após a sessão. Não há espaço para dúvidas ou abstrações, as imagens surgem para detalhar e reafirmar - depois, é claro, de brincar de confundir - as anteriores num fluxo intenso de narração que, impreterivelmente, parece sempre induzido a contar algo novo minuto a minuto, não sobrando tempo para executar seu princípio básico: observar, fazer da câmera o olhar do espectador.
Por conta disso,"Cisne Negro"carece de sequências atmosféricas e imersivas como destes filmes citados, em que seus diretores (Polanski, Argento, Bergman e Cronenberg – todos nascidos fora dos Estados Unidos, o que não passa de uma curiosidade) realmente compreendiam o peso de se penetrar na mente de uma personagem. Existem sim bons momentos em"Cisne Negro", como quando a personagem inócua e frígida dePortman, depois de ter estas características reforçadas incessantemente durante os 40 repetitivos minutos iniciais, sai com uma garota, bebe uns drinks, toma umas drogas sem saber e trepa com ela numa sequência lésbica extremamente erótica e de tirar o fôlego; ou como quando o professor interpretado porVincent Cassel, ao tocar o corpo de Portman, deixa a bailarina excitada e solitária na pista de ensaios – para fazê-la sentir, algo que o filme de Aronofsky não faz conosco. Mas, assim como outros, são momentos que passam por este processo tão tedioso de preparação / explicação que, apesar de sua funcionalidade imediata, produzem uma empolgação que logo se esvai.
É neste vai-e-vem, através de uma história tradicional de paranóia obsessiva, que se instala"Cisne Negro", e assim Aronofskyconduz o espectador por sobre um modelo narrativo aparentemente bastante eficiente que vai fechando sua trama em explicações e truques (imagéticos e principalmente de roteiro, o que preserva o fascínio dos cinéfilos amantes de “roteiros intrincados e complexos” do cinema moderninho) cada vez mais ligeiros, até que a história chega ao seu ápice e implode em uma sequência que já nasce planejada para ser épica, antológica, apoteótica e poética para dar a"Cisne Negro"os contornos grandiosos e a definição de clássico do cinema contemporâneo que, a julgar pelos comentários tão empolgados que surgem semanalmente em listas de discussão, blogs e fóruns de internet, realmente ficará junto do filme por algum tempo. Definição que, acredito, não durará mais que uma geração.
CURIOSIDADES:
- Vincent Casselcompara a sua personagem a George Balanchine, fundador do New York City Ballet, por este ter sido um perfeccionista do controle, usando muitas vezes a sensualidade para dirigir os seus bailarinos
- Meryl Streep chegou a ser considerada para interpretar Erica, a mãe de Nina (que na peça original se chamava Alexandria)
- Natalie Portman teve aulas com o New York City Ballet durante um ano (tendo pago do seu próprio bolso a maioria dessas aulas), antes das filmagens se iniciarem. No entanto, a actriz só aparece nos números filmados da cintura para cima. Quando se vê o corpo por inteiro foram usadas duas bailarinas profissionais, Sarah Lane e Kimberly Prosa. A primeira foi quem dançou a maior parte dos ballets, tendo algumas vezes sido usados efeitos digitais para lhe colocar a cabeça de Portmanno corpo. Por sua vez, Mila Kunis (que desempenha o papel de Lily), foi dobrada pela bailarina Maria Riccetto
- O toque no telemóvel de Nina é o "Theme of the Black Swan"
- Natalie Portman ganhou uma série de prémios pela sua interpretação, incluindo os três mais importantes: Óscar, Globo de Ouro e BAFTA. O filme foi ainda nomeado para mais 4 Óscares, 3 Globos e 11 BAFTA's. Ver listagem de prémios aqui
Com Amber Heard, Mamie Gummer, Danielle Panabaker, Laura-Leigh, Lyndsy Fonseca, Jared Harris, Sydney Sweeney EUA / 88 min / COR / 16X9 (2.35:1) Estreia no CANADÁ a 13/9/2010 (Festival Internacional de Toronto) Estreia na GRÃ-BRETANHA a 21/1/2011 Estreia em PORTUGAL a 8/9/2011
Dr. Stringer: «What's the first thing you remember?» Kristen: «Fire»
Nove anos – o período que intervala a estreia das últimas duas longa-metragens de John Carpenter(este “The Ward”, no Festival de Toronto do ano passado, e “Ghosts From Mars” no Verão de 2001) – é tempo demais, mesmo que durante todos os anos noventa o seu cinema tenha estado longe do brilhantismo conseguido nas décadas anteriores (a última grande obra de Carpenterdata de 1988 e chamou-se “They Live”). Pelo meio ficaram apenas dois filmes para a série televisiva “Masters of Horror”: os episódios “Cigarette Burns” (2005) e “Pro-Life” (2006).
Por isso a impaciência não me deixou esperar por Outubro (mês em que se anuncia a edição europeia em DVD e Blu-Ray) e ontem, ao fim da tarde, rumei até Lisboa para ver o filme numa sala da capital. Tratou-se de uma atitude muito pouco usual em mim, atendendo a que há muito tempo que perdi a paciência para ver cinema num espaço público. Mas desta vez os índios não eram muitos, estavam mais ou menos pacíficos, e deixaram-me ver o filme em relativa calma e sossego.
Valeu a pena o sacrifício? Relativamente: não saí eufórico da sala (longe disso) mas também não dei o tempo por perdido.“The Ward” vê-se bem, sobretudo para os fanáticos do género (sim, sou um deles e sem cura possível), apesar de não apresentar nada de original e, pelo contrário, percorrer muitos dos clichés do filme de terror. Tudo o que “The Ward”mostra já estamos fartinhos de ver noutros filmes. Nem sequer falta o twist final (apenas uma semi-surpresa, visto ser facilmente adivinhada a partir do meio do filme), que o aproxima muito descaradamente de “Shutter Island”, de Scorsese, mas sem a classe deste. Ou o inevitável arrepio-final, moda lançada pela obra-prima de Brian DePalma (“Carrie”), e que desde então não há filme de terror que se preze que não recorra a esse artifício final. Mesmo que o faça de forma perfeitamente gratuita, como é o caso aqui.
O que resta é uma mise-en-scène perfeita (único contributo reconhecível de Carpenter, que desta vez não é responsável pela música, como tantas vezes sucedeu no passado), uma fotografia a realçar convenientemente todo o clima claustrofóbico da clínica onde se passa a grande parte da história (apesar de alguns escuros demasiado acentuados), uma jovem actriz muito sensual (Amber Heard, na beleza dos seus 24 anos e bem rodeada por um elenco maioritariamente feminino) e sobretudo um delicioso momento musical ao som de “Run Baby Run (Back Into My Arms)”, o hit original dos Newbeats (escrito por Joe Melton e Don Gant) de 1965, recriado posteriormente por Roy Orbison e The Tremeloes (e que muito boa gente da minha geração irá redescobrir nas suas memórias musicais). Mas a frase incluída nos posters do filme - “Carpenter proves he is still the master of shock” -não contem, obviamente, qualquer ponta de verdade - o “master” há mais de 20 anos que foi de férias e ainda não foi desta que regressou ao convívio de todos os seus fans de outros tempos.