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sábado, julho 06, 2019

THE FIXER (1968)

O HOMEM DE KIEV
Um filme de JOHN FRANKENHEIMER


Com Alan Bates, Dirk Bogarde, Georgia Brown, Hugh Griffith, Elizabeth Hartman, Ian Holm, David Warner, Carol White, etc.

GB / 132 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 8/12/1968
Estreia em PORTUGAL: 19/10/1969
Estreia em MOÇAMBIQUE: LM (cinema Infante), 20/2/1970


Yakov Bog: «A única coisa que o sofrimento me ensinou
é a inutilidade do sofrimento»


Alan Bates (1934-2003) foi um dos meus actores de eleição dos anos 60 e 70. Era daqueles que invariavelmente me fazia ir ao cinema, independentemente do filme em cartaz, por ter sempre a garantia de uma boa representação. Fez filmes inesquecíveis, que marcaram a história do cinema: “Alexis Zorbas / Zorba, o Grego” (1964), “Far From The Madding Crowd / Longe da Multidão” (1967), “Women In Love / Mulheres Apaixonadas” (1969), “The Go-Between / O Mensageiro” (1971), “A Day In The Death Of Joe Egg / Um Dia na Morte de Joe Egg” (1972). Mas se tivesse de eleger um único filme seu, seria precisamente este “Homem de Kiev”, um filme que me perturbou bastante na primeira vez que o vi (tinha 16 anos nessa altura, razão pela qual nunca mais me esqueci dessa forte experiência), e onde Alan Bates tem um desempenho memorável. Coincidência ou não, foi este filme que lhe trouxe a sua única nomeação para o Óscar de Hollywood. Perderia para Cliff Robertson, em “Charly”, outra grande interpretação do ano, a par também de Peter O’Toole em “The Lion In Winter / O Leão no Inverno”. Um trio de respeito, nessa 41ª edição dos Óscars.


Dalton Trumbo, um dos nomes da “lista negra” de Hollywood, escreveu o argumento, baseado numa novela (Prémios Pullitzer e National Book, de 1967) de Bernard Malamud, publicada em 1966, a qual, por sua vez, era baseada numa história verídica, ocorrida nos primórdios do século XX na Rússia Czarista. Mais concretamente em 1911, ano em que um oleiro judeu, Menahem Mendel Beillis, é encarcerado por um crime que não cometeu, o assassínio de um menino cristão, encontrado morto e mutilado nos arredores de Kiev. O caso causou indignação em todo o mundo e fez com que os governantes russos arrepiassem caminho, soltando o prisioneiro, após longos anos de martírio. No filme o personagem tem outro nome, Yakov Bog, um camponês russo, judeu, que apenas ambiciona ter uma vida sossegada, sem grandes problemas. Não quer saber de engajamentos políticos (embora goste de ler Espinoza) nem muito menos de atitudes belicistas contra os poderes instituídos. Para ganhar a vida, não se importa de trabalhar para um anti-semita, Lebedev (Hugh Griffith), que uma noite encontra na rua, completamente bêbado, ajudando a filha deste a levá-lo para casa. A rapariga, chamada Zinalda (Elizabeth Hartman), é uma solteirona experimentada, que tenta levar Bog para a cama. Quase consegue os seus intentos, mas o facto de se encontrar menstruada inibe por completo o provável parceiro, incapaz de praticar sexo nessas condições.


Curiosamente, pouco tempo depois, Yakov Bog é confrontado de novo com o sangue, desta vez o derramado no assassínio de uma criança, praticado através de um ritual satânico, sendo acusado desse crime hediondo. A própria Zinalda, despeitada, vem ajudar à festa, acusando-o também, mas de tentativa de violação. A partir daqui, e até ao final, iremos assistir à progressiva humilhação de Bog na prisão, sujeito a provocações constantes e a torturas físicas e psicológicas, cada vez mais violentas, por parte dos seus carcereiros, que teimosamente exigem uma confissão por um crime não cometido. Bog tem apenas um aliado na sua trágica odisseia: o advogado Bibikov (Dirk Bogarde), um aristocrata, que irá tentar amenizar as acusações. Mas pouco tempo depois, é o próprio Bibikov que aparece enforcado numa cela da prisão. O caso prolonga-se por vários anos, chegando ao conhecimento do Conde Odoevsky (David Warner), ministro da Justiça, que resolve libertar Bog por entretanto se ter descoberto o verdadeiro assassino, e também por causa de grandes pressões internacionais. Mas Bog, num derradeiro alento para manter a pouca dignidade que lhe resta, recusa ser perdoado por um crime que não cometeu, exigindo um julgamento oficial. O filme termina com Bog a subir a longa escadaria que leva ao tribunal, onde o veredicto final não poderá ser outro senão a da imediata libertação. “The Fixer / O Homem de Kiev” é um filme injustamente esquecido, que nunca teve uma edição decente em DVD. E é pena, por se tratar de uma obra importante, que mantém toda a sua força e actualidade.


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quinta-feira, julho 14, 2011

THE GO-BETWEEN (1970)

O MENSAGEIRO
Um filme de JOSEPH LOSEY


Com Julie Christie, Alan Bates, Margaret Leighton, Michael Redgrave, Dominic Guard, Michael Gough, Edward Fox, Richard Gibson


GB / 118 min / COR / 16X9 (1.85:1)


Estreia na GB em Dezembro de 1970
Estreia nos EUA a 29/7/1971 (New York)
Estreia em Moçambique a 22/9/1972
(LM, cinema Infante)


O que de início nos surpreende em "O Mensageiro" é uma discreção, uma reserva no plano dos acontecimentos que não parece estar na tradição de Losey. Grande parte dos seus filmes anteriores caracterizava-se por uma sobrecarga de eventos e significações que por vezes atingia certos limites (jà) perturbantes. Não acontece isso com “O Mensageiro”. Sentimos aqui a plenitude afirmativa duma maturidade, dum classicismo: o curso linear do filme capta-nos pela nitidez, pela transparência dos propósitos, pelo equilíbrio das propostas.
Os eixos da ficção movem-se com uma segurança irrepreensível, e o jogo dos temas desenrola-se sem quebras, sem desvios: é a polarização já conhecida entre a brutalidade natural e o requinte social (entre o instinto e o protocolo); são alguns emblemas que nos restituem um longínquo dinamismo de infância (as corridas e lutas dos dois rapazes pelos corredores e pelas escadas da grande casa que habitavam); é a evocação duma certa mitologia de que dificilmente nos desprendemos (o gosto de exercer a omnipotência da magia); é ainda o borboletear ofegante de Leo em torno de um determinado saber sexual (dum saber sabido, dum saber insciente: a ver, a reconhecer) que o filme circunscreve sem nunca nomear; há ainda uma caracterização dos lares e dos grupos sociais assinalados nas suas mais gritantes diferenças de classe; é o traçado eufórico de correrias através dos campos.
Com tudo isto Losey narra uma história que nos interessa, sem sabermos muito bem onde está o nosso interesse, e sem nunca nos demarcarmos com precisão do próprio interesse que agita os passos e gestos de Leo, o protogonista. Porque, quer se saiba o que se pergunta, quer se não saiba, todo o saber (sobre o) sexual é um saber que esbarra nos seus próprios evidentes limites de se referir a algo que se situa numa dimensão outra, que é a da verdade como história pessoal e assunção do próprio não saber como núcleo irredutível e fundamento da proliferação fantasmática.
Todo o mensageiro pressupõe uma mensagem. A vulgaridade desta mensagem (a que vem nas mãos de Leo) aparece como o véu que oculta outra mensagem: mas qual? Porque Leo, ao transportar, é ele o transportado, porque é o desejo de saber mais que o move e o justifica. E, com ele, nós, seguindo as linhas duma ficção que não tem outras razões para nos atrair. Que o filme nos transpor­te, eis o que deriva sem dificuldades do seu agenciamento cuidadoso e inteligen­te. Que a nossa atenção se deixe conduzir para estes percursos do prazer, nada disso constitui motivo de surpresa. Mas sucede que o filme não parece ultrapassar esse plano da fascinação envolvente, do esteticismo depurado.
É certo que a narrativa se desenrola na voz e na memória da personalidade que muitos anos an­tes a viveu, e que é o seu drama (viveu ele sem amor? porque se recusou a saber? porque fugiu às respostas? corria em direcção à verdade, ou corria para a contor­nar e dela fugia?) que, no final, se vem sobrepor aos dados da história que durante todo o tempo nos preocupou. Mas tal artificio narrativo não chega para criar fendas num filme em que chegamos a deplorar a ausência de um pouco de desmesura que desarrume o concertado trabalho de um cineasta tao competente como o é Losey. “O Mensageiro” é uma das obras mais frias e reflectidas do autor de “O Criado”. Que o tom do filme coincida com o próprio protagonista é circunstância interessante, mas que não basta para nos implicar no espaço demasiado pré-construído da ficção que esse protagonista suporta.
Eduardo Prado Coelho in “Isto é Espectáculo” nº 7, Junho de 1977