Com Jean-Paul Belmondo, Françoise Dorléac, Jean Servais, Adolfo Celi, Simone Renant, Milton Ribeiro, Ubiracy De Oliveira FRANÇA - ITÁLIA / 112 min / COR / 16X9 (1.66:1) Estreia em FRANÇA: 5/2/1964 Estreia nos EUA: New York, 8/6/1964
Adrien: «Un déserteur qui voyage dans une voiture volée avec une hystérique, de deux choses l'une : ou c'est un névropathe ou c'est un blasé. Choisis !»
"L'Homme de Rio" é, hoje em dia, um perfeito desconhecido para as últimas gerações de cinéfilos. E quando falo em "últimas" estou-me a referir a um período que vem de vinte ou trinta anos atrás. Contudo, no ano em que se estreou [1964], foi um dos grandes sucessos do cinema francês, tendo sido também muito bem acolhido, um pouco por todo o mundo (pessoalmente tive a sorte de o poder ter visto, aos 12 anos, num grande écran de cinema). Trata-se de um filme aparecido na esteira da grande novidade que foi a eclosão da personagem de James Bond no cinema. Mas para além de se constituir num herdeiro directo dos dois primeiros filmes do agente secreto britânico, "L'Homme de Rio" teve ainda o grande mérito de conseguir revolucionar todo o cinema de aventuras. E que aventuras! De construção extremamente simples (como tudo o que é genuinamente bom), num equilíbrio quase perfeito entre a acção, o humor, o romance e o suspense, o fllme contém ainda uns diálogos deliciosos, tendo dado vontade a muito boa gente de fazer cinema.
Outra grande influência de "L'Homme de Rio" é a banda desenhada de inspiração belga, com Hergé e o seu Tintin à cabeça. Relembre-se nomeadamente "L'Oreille Cassée / O Ídolo Roubado", livro no qual o filme vai colher muita da sua inspiração, mas grande parte das sequências fazem lembrar situações de outras obras de Hergé. Ambientado em locais exóticos (o Brasil é o cenário exótico por excelência para os franceses), a obra de Philippe DeBroca(1933-2004) prenuncia de alguma forma a onda de aventuras que haveria de rebentar muitos anos depois pelas mãos de Steven Spielberg, quando este criou a personagem de Indiana Jones e o fez viver mil peripécias, como nos bons tempos dos serials americanos, onde o herói se vai encontrando sempre em situações cada vez mais difíceis e perigosas. Aliás, honra lhe seja feita, Spielberg nunca escondeu a grande influência que este filme teve na criação do seu arqueólogo aventureiro.
Aqui o herói é um simples soldado, Adrien Dufourquet, excelentemente criado por um desenvolto e galanteBelmondo, ainda no seu melhor e sem direito a duplos (executou ele próprio todas as cenas mais arriscadas), que durante a sua semana de licença em Paris se vê envolvido num roubo de uma estatueta do período pré-colombiana que o levará, a si e à sua noiva, Agnès (Françoise Dorléac, a malograda irmã de Catherine Deneuve, aqui com 21 anos, apenas quatro antes de perder a vida num acidente de viação), até ao Rio de Janeiro e posteriormente a Brasília (ainda em construção na época e practicamente deserta) e às florestas do Amazonas, percurso durante o qual os traficantes lhe irão fazer a vida negra. O filme contém cenas inesquecíveis, encadeadas em alta velocidade, que não deixam o espectador respirar por um minuto sequer. Philippe De Broca, que também assina o argumento, conduz a obra com grande agilidade e muito humor, a que não falta sequer um último piscar de olhos aos problemas ecológicos, muito antes de tal se tornar uma moda.
Nomeado para o Oscar do melhor Argumento-Original, com música de Georges Delerue e um punhado de bons actores secundários (nomeadamente Jean Servais, Adolfo Celi e o pequenoUbiracy de Oliveira),"L'Homme de Rio"mantém toda a sua frescura original, constituindo um belissimo divertimento. Realizado numa época em que, felizmente, ainda não podia socorrer-se de efeitos digitais (seria um filme impossível de ser feito hoje em dia), "L'Homme de Rio"ficará para sempre como algo genuinamente inovador, que serviu de inspiração a todos quantos, ao longo dos anos, quiseram elevar o filme de aventuras ao patamar do bom gosto e do grande espectáculo.
Com Jean-Paul Belmondo, Catherine Deneuve, Nelly Borgeaud, Yves Drouhet, Michel Bouquet
FRANÇA / 123 min / COR / 16X9 (2.35:1)
Estreia em FRANÇA a 18/6/1969
Estreia em MOÇAMBIQUE a 8/1/1971 (LM, teatro Gil Vicente)
Louis: "Attends! Je vais t'expliquer. Attends!"
Marion: "Je t'attends" Louis: "Je vais plus te parler de ta beauté. Je peux même te dire que t'es moche, si tu veux.
Je vais essayer de te décrire comme si tu étais une photo.
Ou une peinture. Tais-toi. Ton visage... Ton visage est une paysage.
Tu vois, je suis neutre et impartial. Il y a les deux yeux... Deux petits lacs marrons." Marion: "Marron-verts." Louis: "Deux petits lacs marron-verts. Ton front, c'est une plaine. Ton nez... Une petite montagne, petite. Ta bouche, un volcan. Ouvre un peu.
J'aime voir tes dents. Non, non, pas trop. Voilà! Comme ça.
Tu sais ce qui sort de ta bouche, quand tu es méchante?
Des crapauds! Si, si, des crapauds.
Et des colliers de perles, quand tu es gentille. Attends!"
Marion: "J'attends." Louis: "Parlons un peu de ton sourire, maintenant. Pas celui-là! Ça c'est celui que tu fais dans la rue
aux commerçants.
Non. Donne-moi l'autre, le vrai. Celui du bonheur.
Voilà! Cest ça. Formidable! Non. C'est trop. Ça me fait mal aux yeux.
Je ne peux plus te regarder. Attends!"
Marion: "Je t'attends."
Louis: "J'ai les yeux fermés, pourtant je te vois. Je vérifie. Si j'étais aveugle, je passerais mon temps à caresser ton visage.
Ton corps aussi. Et si j'étais sourd... J'apprendrais à lire sur tes lèvres
avec mes doights... Comme ça.
Même si tout ça doit finir mal...
Je suis enchanté de vous connaître, madame."
Apesar de, pela primeira e última vez na sua carreira,Truffautter escrito sózinho o argumento e os diálogos de um filme seu, este era um filme mal-amado pelo cineasta que confessou não gostar de o ver, nem sequer dele ouvir falar. É também o primeiro filme deTruffautcom mais de duas horas de duração. É dedicado a Jean Renoir e percebe-se porquê: é uma história de amor-louco, que lembra"La Chienne", por exemplo. O filme desenrola-se como um filme de acção, sendo ao mesmo tempo um diário íntimo. É a presença deDeneuvea marcar o estilo e a poética de"La Sirène du Mississipi". Comparativamente, é como se ela substituísse a Anna Karina de"Pierrot Le Fou", de Godard. Mas onde este marca um ajuste de contas com a mulher e a sociedade que se procura resolver na violência e no radicalismo revolucionário,Truffautdefine antes um sentimento de nostalgia, de abandono e impotência que reveste o feminino de apelos de retorno ao ventre materno, na ambiguidade lírica doanjoe dasereia.
Por essa coexistência de polos emocionais, de aparentes sinais contrários, de cerrado paralelismo entre a inocência e a culpa, é com Hitchcock que o filme deTruffaut mais se encontra - existe um acumular de suspeitas e presságios, a sobreporem-se aos dados imediatos duma realidade evidente e evidenciada. Cineasta do real e do mistério, é sempre assim queTruffautnos vai fazendo correr o seu filme, cuja intriga policial é apenas pretexto e ponto de partida para o encontro com um mistério maior, com um lirismo denso de loucura e absurdo a sobrepor-se ao linearismo narrativo e à lógica aparente das situações. Aí, o espectador será então livre para optar por coordenadas poéticas e morais divergentes. Aparentemente, terá, por um lado a opção possível pela respeitabilidade e pela lei, o lamento da perdição do "herói"Belmondonos braços duma mulher prostituída e venal, fútil e cruel; por outro, o conhecimento duma salvação trágica, concebida no eleger da beleza e do amor louco contra todas as normas do pensar e do agir, tradicionalmente codificadas.
Catherinetem esse duplo rosto (que mantém a sua incrível beleza nessa dualidade). Ao princípio, vestida de branco na luxuriante paisagem da ilha tropical, aparece-nos, depois, coberta de negro num cenário frio e branco de neve, que é momento de núpcias com a morte, construída pelas sua próprias mãos. Ao inverso do sucedido no"Pierrot Le Fou", o autêntico suicídio físico e social deBelmondonão é na"Sirène du Mississipi"acto voluntário de protesto viril, mas forma de entrega e renúncia. O que Godard deve ao dadaísmo, deveTruffautàs raízes românticas do surrealismo. Por isso, como nos surrealistas, a arte deTruffauté a da ilusão das aparências, sobretudo de indissociabilidade do prosaico e do lírico, do real e do imaginário, que torna a opção proposta um falso dilema.Catherinerevela-se na pele da prostituta e da órfã, do diabólico e do angélico, em aflitiva vulgaridade e digna da adoração do ser insubstituível.
Através das convenções do grande espectáculo e do filme de vedetasTruffautexprime os sentimentos mais pessoais, talvez mesmo os mais secretos."La Sirène du Mississipi"é o filme de amor em que o cineasta vai mais longe na pintura de uma paixão (e por isso é também o seu filme mais sensual, mesmo o mais carnalmente sexual), extravazando a contenção com que habitualmente trata as relações eróticas nos seus filmes. A travessia dos obstáculos por um amor que não recua perante nada é uma descoberta fantástica. Nunca a conquista amorosa foi descrita com uma tal determinação: O Amor, diz-nosTruffaut, é um prazer doloroso, angustiante, uma aceitação nua e crua da pessoa amada, tal qual ela é. E Louis compreendeu isso por fim. Nessa cena sublime, no chalet na neve, só a paixão lhe resta. Foram-se as ilusões que arquitectara sobre Marion. Finalmente conhece-a, tal como ela é. Sem fingimentos. Sem máscaras. E ele, embora lúcido, está irremediavelmente apaixonado. Só lhe resta portanto abandonar-se, deixar-se destruir. E então, todo o ódio de Marion se quebra, derretendo-se como neve ao sol. E o filme acaba na brancura da paisagem invernal que envolve o casal, silhuetas cada vez mais distantes a perderem-se na bruma.
Marion: "Bois ça, mon chéri. Ça ira mieux." Louis: "Remplis-le jusqu'en haut. Je sais ce que tu es en train de faire.
Je l'accepte. Je regrette pas de t'avoir rencontrée.
Je regrette pas d'avoir tué un homme pour toi.
Je regrette pas t'aimer.
Je regrette rien, seulement maintenant
ça me fais très mal
dans le ventre. Ça me brûle partout.
Alors je voudrais que ça aille vite.
Très vite. Remplis-le!" Marion: "Tu savais tout et tu te laissais faire!
J'ai honte! J'ai honte! J'ai honte! Aucune femme ne mérite d'être aimée comme ça.
Je suis indigne. Mais il n'est pas trop tard.
Je vais te soigner. Tu vas vivre.
Nous allons partir loin d'ici. Tous les deux.
J'ai assez de force pour deux.
Tu vivras, tu m'entends? Tu vivras!"
Personne ne te prendra à moi. Je t'aime, Louis. Je t'aime. Peut-être que tu ne me crois pas, mas il y a des choses incroyables qui sont vraies.
Courage, mon amour. Nous allons partir loin d'ici,
et puis nous resterons toujours ensemble...
Si tu veux encore de moi." Louis: "Mais c'est toi que je veux. Rien que toi.
Telle que tu es, absolument. Allez, pleure pas.
C'est ton bonheur que je veux, pas tes larmes." Marion: "Je viens à l'amour, Louis.
J'ai mal, Louis. Ça fait mal.
Est-ce que c'est ça l'amour?
Est-ce que l'amour fait mal?" Louis: "Oui, ça fait mal."
Numa entrevista da época,Jean-Paul Belmondoteceu as seguintes considerações sobreTruffaut:«no estúdio de"La Sirène du Mississipi"entendemo-nos bem logo de início, sem que tivessem sido necessárias grandes conversas, tais como o dizermos de que forma imaginávamos os personagens, etc. Há realizadores que durante oito dias explicam o papel, o personagem, a história, isto não é útil de forma nenhuma, porque a partir do momento em que o actor aceita o papel é porque o compreendeu ou sentiu, e quando o realizador lhe propõe o papel é porque pensa que é o personagem desejado, ou então entra-se no lado sórdido desta profissão: o de nos chamarem para um filme apenas porque temos um bom nome e o público vai acorrer em força...»
ECatherine Deneuve, no nº 138 da revista "Cinema 69", afirma:«A rodagem do filme foi maravilhosa... É preciso tê-la vivido ou ter assistido a ela para se poder compreender... A mesma coisa quanto às relações com Belmondo: não nos conhecíamos mas não houve embaraço nem timidez ou tensão entre nós. É preciso fazer notar que, para além de todas as suas qualidades, ele possui uma em grau supremo: a descontração; neste aspecto nunca conheci nada semelhante! Encantaria os americanos que procuram continuamente este "relax", como eles dizem».
Numa entrevista ao "Nouveau Cinémonde" podem ler-se as seguintes palavras deFrançois Truffaut:«Por mim não tenho dúvidas,Jean-Paul Belmondoé o melhor jovem intérprete actual, o melhor e o mais completo.Belmondopode representar com a mesma naturalidade e realidade, um aristocrata ou um homem do povo, um intelectual ou um gangster, um padre ou um palhaço. Esta disponibilidade é de tal ordem queJean-Paulpoderia mesmo representar um homem amado pelas mulheres, um sedutor, ou ao contrário, um homem rejeitado pelo elemento feminino; e estes dois papeis contraditórios representá-los-ia quer em drama, quer em comédia, conforme lhe fosse exigido».