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sexta-feira, setembro 27, 2013

ULTIMO TANGO A PARIGI (1972)

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS
Um Filme de BERNARDO BERTOLUCCI

Com Marlon Brando, Maria Schneider, Jean-Pierre Léaud, Massimo Girotti, Catherine Allégret, Maria Michi, etc.

ITÁLIA - FRANÇA / 136 min / COR / 
16X9 (1.75:1)

Estreia nos EUA: 14/10/1972 
(New York Film Festival)
Estreia em ITÁLIA - FRANÇA: 
Roma - Paris, 15/12/1972
Estreia em PORTUGAL: 
Lisboa, cinema S. Jorge, 30/4/1974



Após o genérico, onde dois retratos de Francis Bacon se justapõem ao som do saxofone de Gato Barbieri, a câmara inicia um plongé em direcção a uma ponte do metro de Paris e foca-se num homem de meia idade que leva as mãos à cabeça num grito de desespero: «Fuckin' God...!!!». O comboio passa em cima da ponte, enquanto nos apercebemos de uma silhueta feminina ao longe, em passo acelerado, que ultrapassa o homem, deitando-lhe um breve olhar. A jovem (Maria Schneider) e o homem (Marlon Brando), são perfeitos desconhecidos mas em breve irão encontrar-se por coincidência num apartamento vazio que ambos pretendem alugar. Por razões diametralmente opostas: ele para esquecer o passado recente (o suicídio e adultério da mulher); ela pretendendo transformar o noivado com um aspirante a realizador (Jean-Pierre Léaud) numa relação mais duradoura, onde o casamento será provavelmente o patamar seguinte.


É este o início de "O Último Tango em Paris", um dos filmes que me fez saír de Portugal na primeira semana de Setembro de 1973, rumo a Londres, onde então se podia ver a maior parte dos filmes que se encontravam proibidos em território nacional. Vi-o num domingo à noite, 2 de Setembro, no Prince Charles Cinema, bem no meio da capital inglesa, em Leicester Square. Foi uma espécie de ante-estreia, por causa da Revolução do 25 de Abril, cujos ventos de mudança trariam o filme a Portugal apenas 8 meses depois. A estreia ocorreu em Lisboa, a 30 de Abril de 1974, no cinema São Jorge, e no meio de enormes filas que se alongavam no passeio da Av. da Liberdade. Em Moçambique, onde nessa altura eu me encontrava a viver, a primeira projecção de "O Último Tango em Paris" iluminou o écran do Teatro Manuel Rodrigues de Lourenço Marques um pouco mais tarde, nos princípios de Setembro, mas de igual modo entre grande frenesim, agitando filas que ultrapassavam vários quarteirões. Habituais espectadores ou não, toda a gente queria ver aquele filme. Até houve lugar para uma divertida caricatura que reproduzo de seguida.


Na verdade, naqueles princípios da década de setenta, poucos filmes causaram tanto impacto no mundo do cinema (talvez apenas "A Laranja Mecânica" se lhe pudesse comparar) como este "Último Tango em Paris". Banido um pouco por todo o lado, as razões para as proibições sucessivas teriam provavelmente menos a ver com as cenas de sexo (que nunca são explícitas ou muito menos "pornográficas", conforme muitos zeladores da moral pública quiseram fazer crer) e mais com o carácter niilista do protagonista principal (Brando) nas suas atitudes anti-sociais e anti-religiosas. Curiosamente, na tradicionalmente púdica sociedade americana, o filme foi muito bem acolhido, a ponto da respeitada crítica Pauline Kael ter escrito: «Bertolucci and Brando have altered the face of an art form. Who was prepared for that?»

Passados 40 anos, o que prevalece em "Último Tango Em Paris" é de facto a arte suprema de fazer cinema. Esquecidos os estigmas anedóticos que na altura lhe quiseram imputar (como o rabo do Brando ou a muita falada "cena da manteiga"), aquilo que o filme nos lega é toda uma atmosfera única, íntima e envolvente, criada pela mestria de todos os artistas que participaram no projecto: Bertolucci, com certeza, na sua dupla função de argumentista e realizador, mas também Vittorio Storaro, com o seu estilo visual único, Gato Barbieri na sua decisiva contribuição musical ou os editores Franco Arcalli e Roberto Perpignani, autores da magnífica montagem do filme. E, claro, os actores, com grande destaque para Marlon Brando, que depois de desempenhar, no mesmo ano, o papel de Don Vitor Corleone no "Padrinho", nos brindava de novo com esta fabulosa interpretação - era o melhor actor do mundo no seu melhor ano de sempre!


Como se começou por referir, dois quadros de Francis Bacon abrem o filme. São imagens de carne ensanguentada, de olhos desorbitados, de músculos contorcidos, que anunciam desde logo o tom geral, um misto de solidão e desespero existenciais. A utilização dessas pinturas não é inocente ou arbitrária - Bertolucci inspirou-se nelas para reproduzir no seu filme as cores e as técnicas do artista e assim definir a relação dessacralizada entre Brando e Schneider. Os protagonistas entregam-se a um jogo erótico onde tudo é permitido, porque só interessam os momentos partilhados no isolamento daquele apartamento. Tudo o que fica para lá da porta de entrada não interessa, o passado de cada um deles não interessa, o futuro também não. «No names», é a regra de ouro imposta por Paul.


Relutante ao princípio, Jeanne acaba por aceitar as exigências de Paul, por sentir naquela relação anónima, sem compromissos, a excitação da descoberta de novos prazeres. Entrega-se alegremente, sem restrições ou pudor, porque se sente protegida pelo anonimato. Coisa que não acontece na sua relação normalizada com o noivo, onde a chatice e a ausência de prazer são notas dominantes. Mas um ponto de viragem irá ocorrer na nova relação: Paul liberta-se de toda a sua raiva interior junto ao leito de morte da mulher (magnífico monólogo de Brando) e sente-se como renascido, pronto a iniciar uma nova relação com a rapariga do apartamento. É a esperança que volta - a mudança radical de visual e indumentária indica-o - e corre para junto de Jeanne. O décor é o mesmo do início do filme (a ponte da estação de metro) mas os personagens são já muito diferentes.


Perante a hipótese de um futuro (que até aí nunca surgira naquela relação), Jeanne sente-se traída. O que anteriormente se tinha revelado aventura inconsequente, passará a ser intromissão. Os sentimentos impõem-se, o mistério quebra-se, o jogo chega ao fim. Agora Jeanne já só quer libertar-se daquele homem incómodo para reassumir a sua verdadeira condição pequeno-burguesa. E por isso lhe foge, indo refugiar-se na casa paterna. A insistência de Paul, que a segue até aí, só irá agravar ainda mais a insegurança de Jeanne face à escolha que lhe é exigida. O medo invade-a, a desorientação começa a tomar proporções alarmantes. E o ponto crucial, de não retorno, chega quando Paul confessa que a ama e que quer saber o nome dela. «Jeanne», responde, ao mesmo tempo que dispara a pistola retirada momentos antes de uma gaveta.
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«Our children... our children will remember», balbucia Paul enquanto se dirige para a varanda (close-up magnífico do rosto de Brando), onde acaba por sucumbir. A câmara regressa lentamente a Jeanne, que ensaia já uma auto-justificação para o crime:

«Je sais pas qui c'est...»
«Il m'a suivie dans la rue...»
«Il a essayé de me violer...»
«C'est un fou...»
«Je sais pas comment il s'appelle...»
«Je connais pas son nom...»
«Je sais pas qui c'est...»
«Il a voulu me violer...»
«Je sais pas...»
«Je le connais pas...»
«Je sais pas qui c'est...»
«C'est un fou...»
«Je connais pas son nom...»




CURIOSIDADES:

- A ideia central para o filme teve origem nas fantasias sexuais de Bertolucci, que um dia sonhou encontrar na rua uma mulher muito sensual e ter tido sexo com ela, sem saber de quem se tratava.

- De acordo com Maria Schneider, a famosa “cena da manteiga” não estava no argumento, tendo sido decidida durante as filmagens por Brando e por Bertolucci, sem sequer a consultarem. Apesar de, como é óbvio, o acto de sodomia ter sido fingido, as lágrimas dela no filme são verdadeiras, por se sentir humilhada daquela maneira. Só pouco antes da sua morte, em 3 de Fevereiro de 2011, é que voltou a falar com Bertolucci.

- Depois da estreia do filme em Itália, o tribunal de Bolonha intimou Bertolucci, Brando, Schneider e o produtor Alberto Grimaldi, sob a acusação de terem feito um filme “pornográfico”. Apesar de todos terem sido ilibados, Bertolucci perdeu os seus direitos civis (incluindo o “direito de votar”) durante 5 anos.


- Na sua auto-biografia, “Songs My Mother Taught Me”, Brando confessa a razão porque recusou fazer uma cena de nu frontal: «o meu pénis ficava do tamanho de um amendoim no set de filmagens»

- Jean-Pierre Léaud tinha um tal respeito por Brando que tudo fez para não se encontrar nunca com ele. Por causa disso, todas as sequências em que entra foram filmadas aos sábados, dia da semana em que Brando recusava trabalhar.

- Jean-Louis Trintignant e Dominique Sanda chegaram a ser equacionados para interpretarem os personagens principais. Por outro lado, Jean-Paul Belmondo e Alain Delon recusaram o papel de Paul

- O filme teve duas nomeações para os Óscares, nas categorias de Realizador (Bernardo Bertolucci) e Actor Principal (Marlon Brando).

LOBBY CARDS:


quinta-feira, agosto 19, 2010

MASCULIN FÉMININ (1966)

MASCULINO FEMININO
Um filme de JEAN-LUC GODARD



Com Jean-Pierre Léaud, Chantal Goya, Marlène Jobert, Brigitte Bardot ,etc.


FRANÇA / 110 min / PB / 4X3 (1.37:1)


Estreia em FRANÇA a 22/3/1966
Estreia em PORTUGAL: Maio de 1973
(Lisboa, Cinema Estúdio 444)


A Coca-Cola, a C.G.T., De Gaulle, Paris 1965, o Vietname, os Beatniks, Bessie Smith, Bob Dylan, France Gal, Françoise Hardy, Sylvie Vartan, Bach, o Amor, o Sexo, o Erotismo, a Pornografia, a Violência. a Luta de Classes, a Adolescência, a Vida. Tudo isto é o filme de Godard. Não existe dum lado a Arte e do outro a Vida. Depois de Jean Rouch ter feito “Chronique d'un Été” (Paris 1961) essa obra extraordinária de humildade, sinceridade e pesquisa, Godard dá-nos a sua crónica de Paris 1965. E para Godard Paris 1965 é, antes de mais, a adolescência, isto é, a esperança.


A juventude que vive na sociedade de consumo, que aprecia os seus produtos e que ao mesmo tempo a contesta, os que lutam e os que se divertem, os que admiram os que lutam e os que nem sabem que se luta. Ano de 1965, ano de eleições, ano de esperança e ano de desencanto. Paul (Jean-Pierre Léaud) procura participar na luta política sem deixar por isso de ter o direito de ter problemas de mulheres e encontra (a deliciosa) Madeleine (Chantal Goya) a quem se lamenta das agruras dos 16 meses de serviço militar que acaba de cumprir.


Depois é uma série de apontamentos duma extraordinária sensibilidade e frescura sobre a vida quotidiana de alguns adolescentes - jovens de Paris com as suas preocupações (frívolas e sérias), utilizando o cinema verdade como uma técnica (como o próprio Godard diz), com longos interrogatórios, em 15 partes. E é essencialmente pelos olhos de cinco adolescentes (que já deixaram de o ser) que Godard nos mostra o mundo, «este mundo de homens mais crueis que as pedras». São os longos diálogos em que os assuntos mais frívolos alternam com os mais sérios, fazendo-se a transição duns para outros com uma candura exemplar.


Trata-se de um filme tão rico, tão cheio de referências, que se torna difícil sintetizá-lo. E existem pormenores que facilmente escapam num primeiro visionamento. Por exempIo; o carácter lésbico das relações de Madeleine e Elisabeth (Marlène Jobert), que aliás nada tem de culposo. Simone de Beauvoir disse-nos que quando era rapariguinha também ela teve uma fase homossexual como todas as adolescentes. São os ciúmes de Elisabeth pelo primeiro beijo de Paul e Madeleine que quando são referidos ainda não se sabe se são dele ou dela, são as carícias furtivas de Elisabeth a Madeleine logo que Paul vira as costas (para ir protestar à cabina de projecção ou para assobiar uma área de Bach), é o seu desacordo final sobre o desejo de Elisabeth ir viver com eles.


Há também a questão do título. Godard diz no filme que «esta é a geração dos filhos de Marx e da Coca-cola» e acrescenta «que entenda quem quiser».
De facto trata-se da geração dos filhos do socialismo e da sociedade de consumo, quer se queira quer não. Mas porquê este "Masculino-Feminino"? Seria demasiado simplista dizer-se que Paul é um filho de Marx e Madeleine uma filha da Coca-Cola (ou melhor da Pepsi-Cola). Também se poderá querer salientar o espírito masculino, interrogador e aventureiro, e o feitio feminino mais resignado e acomodadiço, sendo este último o que de facto sobrevive. No final é-nos dito que Paul morreu porque se afastou demais para ter o enquadramento que desejava para uma fotografia e caíu. Na impossibilidade de abarcar a totalidade da vida escolheu a morte. Talvez traumatizado com a opacidade da vida.