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quinta-feira, janeiro 02, 2014

AVANTI! (1972)

AMOR À ITALIANA
Um Filme de BILLY WILDER



Com Jack Lemmon, Juliet Mills, Clive Revill, Edward Andrews, Gianfranco Barra, etc.

EUA-ITÁLIA / 144 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA a 17/12/1972
Estreia em Portugal a 11/10/1973 
(cinema S. Jorge)



J.J. Blodgett: «I don't object to foreigners 
speaking a foreign language. 
I just wish they'd all speak the same foreign language»


Uma das melhores características dos filmes de Billy Wilder é o nunca se saber se deverão ser catalogados como dramas ou como comédias, embora sejam invariavelmente muito divertidos. Herdeiro directo de um Lubitsch que venerava, Wilder sempre se divertiu a sublinhar os aspectos mais frágeis da natureza humana. “Sabrina” (1954), “Love in the Afternoon” (1957), “The Apartment” (1960) ou “The Fortune Cookie” (1966) constituem pinturas da cobiça e da ambição do poder de rara dureza, dentro da comédia americana. Por outro lado, em filmes como “The Seven Year Itch” (1955), “Some Like It Hot” (1958), “Irma La Douce” (1963) ou “Kiss Me, Stupid” (1964), o que se encontra em destaque é a visão muito pouco lisonjeira de Wilder relativa à atitude dos seus concidadãos perante o sexo.

Este “Avanti!” de 1972 (um filme que me traz uma rara e estranha sensação de felicidade sempre que o revejo - e por isso o amo incondicionalmente) tem um pouco de tudo, é uma brilhante e deliciosa comédia romântica, pincelada de humor negro, e onde Wilder corrosivamente se ri (e nós com ele) dos clichés que povoam as mentes dos cidadãos americanos. Quinta colaboração de I.A.L. Diamond e Jack Lemmon com Wilder, “Avanti!” é baseado na peça homónima de Samuel Taylor e fala-nos da viagem dum industrial de Baltimore, Wendell Armbruster III (Jack Lemmon) à ilha de Ischia, em Itália, onde vai buscar o corpo do seu pai, recentemente falecido num desastre de viação. Lá chegado, descobre atónito que no veículo sinistrado se encontrava a amante do pai, também falecida, e cuja existência desconhecia por completo. Rapidamente se apercebe que não se trata de um caso esporádico mas que efectivamente existia uma longa relação de dez anos entre os dois, que todos os anos se encontravam no mesmo hotel, onde já eram figuras populares, respeitadas por todo o pessoal. Irritado por essa inesperada revelação e pela lentidão da burocracia italiana, Wendell tem ainda que lidar com Pamela (Juliet Mills), a filha dessa mulher, que insiste para o casal ser enterrado lado a lado em solo italiano. A intransigência inicial de Wendell vai esmorecendo no contacto diário com Pamela, acabando por se transformar numa nova relação de amor que no futuro irá prolongar a história dos respectivos progenitores.


Mesmo com toda a indulgência do mundo dificilmente se percebe porque é que este magnífico filme de Wilder foi considerado durante anos como uma comédia menor do realizador. Na verdade estamos perante uma atmosfera melancólica e nostálgica, que poderia parecer pouco propícia ao desenvolvimento de uma comédia clássica. Mas tal não impede(antes pelo contrário) que “Avanti!” seja uma das melhores e mais ácidas sátiras de Wilder, e simultâneamente uma comédia romântica e delicada, que se atravessa docemente com um sorriso permanente. Ao longo de duas horas e vinte minutos o lado sórdido do poder, dos compadrios e da corrupção anda de braço dado com a ligeireza contagiante de uma história de amor. Só um grande cineasta, na posse total da sua criatividade, poderia conciliar dois lados tão antagónicos e revertê-los num fabuloso ensaio cinéfilo. Um filme claramente à frente do seu tempo, tendo sido por isso mesmo um rotundo fracasso de bilheteira, a ponto da obra se ter eclipsado durante tanto tempo. Hoje basta vê-la de novo para comprovar toda a sua genialidade.

A propósito de um dos grandes momentos deste filme, a cena passada na morgue, onde toda a subtileza de Wilder se revela na sua arte de misturar o cómico com o trágico, a ternura e a sátira, a ferocidade e o pudor, dou a palavra a João Bénard da Costa, que numa das suas exemplares “folhas da Cinemateca”, escreveu: «Se pensarmos friamente – tão friamente como Wilder dá a ver naquela radiosa paisagem – não há casal menos atraente do que o que se estabelece entre Lemmon e Juliet Mills. Por alguma razão, estão ligados por cadáveres (os do respectivo pai e da respectiva mãe) e tudo começa, para eles, numa morgue. Eles próprios cheiram tanto a morte como o Barão das enfermeiras e o que os leva um para o outro nada tem de redentor. Querem três exemplos (todos geniais)? O primeiro pode ser o do banho matutino, com o “strip tease” algo obsceno de Miss Piggott e as cuecas perdidas por Lemmon. Quando os dois se aquecem ao sol, no rochedo, não são propriamente Adão e Eva perdidos – ou achados – no paraíso, mas dois corpos de quarentões flácidos em que o erotismo não será seguramente valor predominante. Talvez por isso Lemmon tanto se indigne com as fotos da “Polaroid”, embora, depois de as rasgar, guarde perversamente um bocadinho.

Segundo exemplo é a transferência de Miss Piggott do Quarto 126 para a Suite 121-122. Antecedida pelo passeio matinal da dita carregado de pormenores equívocos (as freiras e o “Love Story”, os quatro gelados todos para ela, etc.) a pujante Pamela entra exultante no quarto de Lemmon, até perceber que só a espera mais uma humilhação. Mas não era uma questão de peso, era uma questão de altura e a balança fatal se encarrega de compensar essa falta de tamanho. E ao segundo “avanti” é de vez, com Juliet Mills a ensinar a Jack Lemmon algumas coisas que provavelmente a mulher nunca lhe ensinou. Ensinamento que tem suprema ilustração no mais perverso plano do filme: Jack Lemmon a receber na cama já compartilhada o telefonema do homem do State Department e o rosto de Juliet Mills espelhado nas costas da cama revelando uma posição mais do que “comprometedora”. E há um pijama dividido ao meio: para ele as calças, para ela o casaco.»


O grande legado de “Avanti!” é a sua simplicidade, o modo fácil com que nos coloca um sorriso na alma, lembrando-nos da beleza do mundo e como a vida pode ser agradável se disfrutada de braços abertos. No princípio Jack Lemmon é um homem de negócios, apressado e rude, que viaja para Itália apenas porque o sentido do dever o impele a fazer tal viagem. No fim do filme é um homem bem diferente aquele que regressa, um convertido romântico em busca do melhor que o futuro lhe poderá trazer ainda. O mesmo ocorre com Juliet Mills. A inglesa infeliz e paranóica com a obsessão das dietas transforma-se numa mulher linda e radiosa, com os mesmos anseios de Lemmon pelos prazeres descobertos.

No final o caixão do pai de Wendell regressará a casa mas com um ocupante diferente lá dentro. No enterro, já em solo americano, Lemmon fará provavelmente o pio descurso que tanto ensaiou. Por outro lado Miss Piggott regressará a Inglaterra onde voltará a ser caixeira onze meses por ano. Mas antes das respectivas partidas ambos selam a garantia de no final desse tempo voltarem a usufruir de uma felicidade conjunta, nem que seja por apenas um escasso mês de ilusão milionária num hotel de luxo de Itália. E não será essa meta de excepção, continuamente renovada, a chave da verdadeira felicidade?

CURIOSIDADES:

- Juliet Mills, irmã mais velha de Haley Mills, engordou cerca de 12 quilos para desempenhar o papel de Pamela Piggott. Foi a única intervenção digna de registo da actriz no mundo do cinema, visto ter-se especializado, ao longo da carreira, em papéis de séries televisivas.

-  Jack Lemmon ganhou o Globo de Ouro na categoria Musical / Comédia, tendo o filme sido nomeado para mais 5 Globos: Filme (Musical / Comédia), Realizador, Actriz (Musical / Comédia), Argumento e Actor Secundário - Clive Revill.

sexta-feira, novembro 19, 2010

BIO-FILMO: BILLY WILDER

Nascido a 22 de Junho de 1906, em Sucha Beskidza, Império Austro-Húngaro
Falecido a 27 de Março de 2002, em Beverly Hills, Los Angeles, EUA


“I don't think that making movies is my entire life. But there's one thing, you know, that I hate more than not being taken seriously, is to be taken too seriously”


Billy Wilder nasceu em 1906 numa pequena aldeia ao pé de Cracóvia, hoje território pertencente à Polónia, mas nessa altura sob domínio austríaco. Os pais, judeus alemães, geriam uma pequena cadeia de cafés nas estações ferroviárias ao longo da linha que ligava Viena a Lemberg, e encontravam-se nessa aldeia, Sucha, por acaso. Era em Cracóvia que a família residia, e foi nessa cidade que Billy Wilder viveu durante a infância, até que o início da I Guerra Mundial levou os Wilders a fixarem-se em Viena. O seu nome de baptismo era Samuel, mas a mãe sempre lhe chamou “Billie”, e foi esse nome, depois “americanizado” para “Billy”, que adoptou para a sua carreira artística. Aluno mediano, os pais ambicionavam que ele viesse a ser advogado ou médico. Em 1918 o irmão mais velho, Wilhelm, parte para Londres e depois para Nova Iorque.
Depois de um ano matriculado na Universidade de Viena a estudar Direito, Wilder desiste da vida académica para começar a trabalhar em 1925 como jornalista num dos mais importantes jornais da cidade. Entretanto desenvolve os seus gostos pelos livros, o desporto, o jazz, os carros e, como não podia deixar de ser, o teatro e o cinema. Pouco depois muda-se para Berlim, onde ingressa na redacção do principal tablóide local; o ordenado não era muito mas Wilder completava-o com actuações como dançarino num cabaret da cidade. Outro dos biscates encontrados por Wilder viria a revelar-se mais frutuoso em termos de carreira: a colaboração com o sector de argumentos da UFA, onde fez amizade com o grande argumentista Carl Mayer.
Depois de algum tempo a rever argumentos escritos por outros, tem finalmente a sua oportunidade quando escreve o célebre “Menschen am Sonntag”, em 1929, um ano depois do falecimento do pai. A escrita de argumentos passa a ser a sua actividade principal, que desenvolve até 1933, ano da subida de Hitler ao poder. No dia seguinte ao incêndio do Reichstag, a 27 de Fevereiro de 1933, Wilder vende todos os seus bens e refugia-se em Paris com a sua namorada do momento. Adora a cidade-luz, onde vem a realizar o seu primeiro filme (“Mauvaise Graine”) de parceria com Alexandre Esway, um cineasta de origem húngara recentemente instalado em França. Em 1934 parte para Hollywood. Quase toda a sua família que permaneceu na Europa (incluindo a mãe) viria a morrer nos campos de concentração nazis, nomeadamente em Auschwitz. Em 1936 casa-se com Judith Cappicus, divorciada e mãe de um filho.
Quando chega aos Estados Unidos, Wilder não tinha dinheiro nem falava inglês. Durante vários anos a sua vida foi pouco menos que miserável, subsistindo à conta da generosidade de Peter Lorre (que se mudara para Hollywood também nessa altura, tendo ambos partilhado o mesmo apartamento) e de esporádicas colaborações na escrita de argumentos. A sua sorte muda em 1937, quando se dá o encontro com o argumentista Charles Brackett. Os dois homens formam uma parceria extremamente frutuosa e bem sucedida, que se mantém até 1950. Escrevem os argumentos de filmes como “Ninotchka”, de Lubitsch ou “Ball of Fire” de Hawks, e a certa altura Wilder sente o desejo de passar à realização.
O sucesso não é imediato – “The Major and The Minor” foi sem grande alarido o filme de estreia – mas ao longo de todos os anos 40, Wilder assinou uma série de títulos fundamentais na história do cinema clássico americano, culminando em “Sunset Boulevard” (1950), que foi o último filme resultante da parceria com Brackett. Por essa altura a reputação de Wilder estava perfeitamente cimentada, e no seu currículo já constava mesmo um Óscar, conquistado por “The Lost Weekend” em 1945 e variadissimas nomeações, quer como argumentista quer como realizador.
Depois do divórcio da primeira mulher (que lhe deu dois gémeos, um dos quais falecido ao cabo de apenas oito semanas) e de um affair com a actriz Heddy Lamarr, casa-se pela segunda vez em 1949 com Audrey Young, actriz e cantora da Tommy Dorsey Band, com quem viverá 53 anos, até morrer.
A partir de 1951 Wilder torna-se também produtor dos seus filmes. Apesar de alguns “flops” ocasionais o total de lucros nos trinta anos seguintes ascenderá a perto de cem milhões de dólares. Em 1960 novo Óscar como realizador do filme “The Apartment”, no qual dirige pela primeira vez Shirley MacLaine (voltaria a encontrar a actriz três anos depois em “Irma La Douce”). Mas o seu actor-fétiche foi Jack Lemmon, que entraria em sete dos seus filmes. 1981 é o ano em que realiza o seu último filme, “Buddy Buddy”, ainda com Lemmon e Walter Matthau.
Wilder decide acabar a carreira no cinema, passando a dedicar-se em exclusivo à sua colecção de arte moderna. As homenagens sucedem-se durante toda a década de 80, culminando na atribuição do Prémio Irving Thalberg durante a cerimónia dos Óscares de 1988, ano do falecimento de I.A. Diamond, argumentista que desde 1957 colaborara com Wilder em 12 dos seus melhores filmes. No ano seguinte vende parte da sua colecção de arte por 32,6 milhões de dólares.
Nos anos 90 o “culto” em torno da sua figura acentuou-se, em grande parte devido a alguns jovens cineastas seus admiradores. Em 1991 preside ao Instituto Billy Wilder, na Alemanha, destinado a formar produtores e argumentistas, abandonando-o ao fim de dois anos. Em 1992 terá mostrado interesse na realização de “Schindler’s List”, tendo Spielberg considerado com alguma seriedade a hipótese de entregar a realização do filme a Wilder, antes de decidir dirigi-lo ele próprio. Wilder chega no entanto a trabalhar no argumento do filme.
Em 1993 Andrew Lloyd Webber adapta “Sunset Boulevard” a musical, tal como “Some Like It Hot” já tinha servido de base para “Sugar” em 1973 e “The Apartment” para “Promises, Promises” em 1968, ambos espectáculos da Broadway. Em 1996, a sua cidade natal, na Polónia, dá o seu nome a uma rua, e em 1999 o realizador Cameron Crowe publica o livro “Conversations with Wilder”. Morre vítima de uma pneumonia a 27 de Março de 2002, em Beverly Hills, com a bonita idade de 95 anos. Nesse mesmo dia desapareciam também os comediantes Dudley Moore, com 66 anos e Milton Berle com 93.

FILMOGRAFIA:

1981 – Buddy Buddy / Os Amigos da Onça
1978 – Fedora / O Segredo de Fedora
1974 – The Front Page / A Primeira Página
1972 – Avanti! / Amor à Italiana
1970 – The Private Life of Sherlock Holmes / A Vida Íntima de Sherlock Holmes
1966 – The Fortune Cookie / Como Ganhar Um Milhão
1964 – Kiss Me, Stupid / Beija-me, Idiota
1963 – Irma La Douce
1961 – One, Two Three / Um, Dois, Três
1960 – The Apartment / O Apartamento
1959 – Some Like It Hot / Quanto Mais Quente Melhor
1957 – Witness for the Prosecution / Testemunha de Acusação
1957 – Love In The Afternoon / Ariane
1957 – The Spirit of St. Louis / A Águia Solitária
1955 – The Seven Year Itch / O Pecado Mora ao Lado
1954 – Sabrina
1953 – Stalag 17 / O Inferno na Terra
1951 – Ace in the Hole or The Big Carnaval / O Grande Carnaval
1950 – Sunset Boulevard / O Crepúsculo dos Deuses
1948 – A Foreign Affair / A Sua Melhor Missão
1948 – The Emperor Waltz / A Valsa do Imperador
1945 – The Lost Weekend / Farrapo Humano
1944 – Double Indemnity / Pagos a Dobrar
1943 – Five Graves to Cairo / Cinco Covas no Egipto
1942 – The Major and the Minor / A Incrível Susana
1934 – Mauvaise Graine (parceria com Alexander Esway)

Billy Wilder foi também o argumentista e produtor da maioria dos seus filmes