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quinta-feira, setembro 24, 2015

LE LOCATAIRE (1976)

THE TENANT / O INQUILINO
Um filme de ROMAN POLANSKI

Com Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Shelley Winters, Jo Van Fleet, Lila Kedrova, Claude Piéplu, Rufus

FRANÇA / 126 min / COR / 
16X9 (1.66:1)

Estreia em FRANÇA em Maio de 1976 (Festival de Cannes)
Estreia em PORTUGAL em Novembro de 1976 
(Lisboa, Cinema Mundial)



Trelkovsky: «If you cut off my head, what would I say...
Me and my head, or me and my body?
What right has my head to call itself me?»

“Le Locataire” encerra uma trilogia de Roman Polanski em que o terror psicológico encontra as suas raízes no espaço claustrofóbico de um apartamento. Tal como em “Repulsion” (1965) e em “Rosemary’s Baby” (1968), assiste-se aqui à lenta descida aos infernos de um personagem que se vai desligando da realidade entre quatro paredes. Quer seja em Londres, Nova Iorque ou Paris, o apartamento é para Polanski o berço ideal de todas as nevroses paranoicas. Baseado num romance de Roland Topor, a história adquire alguns contornos auto-biográficos atendendo a que Trelkovsky, o protagonista principal (incarnado pelo próprio Polanski, mas sem qualquer menção nos créditos) é um tímido polaco recentemente chegado a Paris, à procura de duas assoalhadas para viver.


“Le Locataire” é uma obra perfeita no aspecto formal e que consegue desenvolver dentro do espectador um sentimento de inquietação crescente até ao clímax final. Sem grandes dúvidas, estamos diante de um dos pontos mais altos da filmografia de Polanski - ou a temática não fosse uma vez mais o enclausuramento do personagem no seu trágico destino – que reúne todo o seu pensamento, as obsessões, os fantasmas, o pavor que o cinema deste cineasta deixa entrever, por entre insinuações e silêncios. O beco (designação de um seu filme de 1966) é na verdade o cenário por excelência de Polanski - o lugar sem saída para onde são lentamente empurrados os seus heróis amedrontados, tímidos e sensíveis.


Trelkovsky, empregado de escritório, consegue finalmente alugar o apartamento desejado, depois de saber que a antiga inquilina se suicidara, saltando da janela do seu quarto para o pátio das traseiras. O proprietário do imóvel, um certo senhor Zy (Melvyn Douglas), aceita alugar-lhe o apartamento mas com condições previamente definidas. Casa séria e respeitável, não são permitidas visitas femininas, não se toleram desacatos, crianças e animais domésticos é melhor não os ter, o silêncio é de ouro. O tímido Trelkovsky a tudo diz que sim, confessando tratar-se de uma pessoa pacata que a última coisa que pretende é ter conflitos com os vizinhos.


Pouco depois Trelkosky visita a suicidária no hospital, onde trava conhecimento com Stella (Isabelle Adjani), uma amiga da moribunda. Junto à cama, são ambos surpreendidos por um grito lancinante que Simone Choule (assim se chama a vítima) lança na sua direcção, sem qualquer razão aparente. Trelkovsky tenta reconfortar Stella e vão a um cinema local ver um filme de artes marciais com Bruce Lee (“Enter The Dragon), durante o qual se estabelece uma ligação sexual entre os dois. No dia seguinte, ao telefonar para o hospital, Trelkosky é informado da morte de Simone.


Aos poucos o nosso inquilino vai-se começando a familiarizar com as redondezas da nova residência. No café da frente dão-lhe conta dos hábitos de Simone e servem-lhe o leite com chocolate que ela bebia todas as manhãs naquele mesmo local, naquela mesma mesa. E quando Trelkovsky pede os seus cigarros preferidos (Gauloises) não os há, vendem-lhe Malboro, a marca que Simone fumava. A história do “Inquilino” de Polanski afasta-se do tradicional filme de terror (em que a morte é sempre o medo principal), confundindo-se antes com a história da perda progressiva de uma identidade (com a loucura no horizonte), uma transformação dramática que Franz Kafka já descrevera em “A Metamorfose”, obra que terá influenciado seguramente quer a imaginação de Roland Topor, ao escrever “Le Locataire Chimerique”, quer a mestria de Polanski ao dar-lhe vida no écran.


Acatando primeiramente as condições impostas para o apartamento, depois os cigarros e o leite com chocolate que lhe servem contra a sua vontade, e de um modo geral todas as convenções e regras estabelecidas à sua volta, Trelkovsky vai lentamente aceitando o seu destino, um destino a que o ambiente irrespirável circundante condena os mais fracos como ele. É o cerco que se aperta (como as mãos que estrangulam), a ameaça que se agiganta, os rostos que se reproduzem, a animosidade que progride, a agressão que se pressente por detrás de cada olhar desconhecido e já inimigo. Tentando libertar-se de todas as pressões, Trelkovsky vai-se isolando cada vez mais, refugiando-se por detrás do rosto, da silhueta, dos maneirismos de quem o precedeu naquele espaço fechado – e sofrendo as mesmas ameaças, envolvendo-se no mesmo pesadelo quotidiano, caminhando inexoravelmente para um fim idêntico.


“Le Locataire” corporiza essas ameaças em nós, espectadores, lembrando-nos das nossas próprias angústias ao personalizar um estado de espírito colectivo que todos sentimos, uma vez por outra, na agressividade latente que nos circunda nas nossas vidas de todos os dias. Razão de ser de grande parte das esquizofrenias de graus variados que a mesquinhês engendra no seio de uma civilização altamente egoísta e competitiva, onde o homem vacila na procura de um lugar e do horizonte claro de um destino a cumprir em plenitude.


Retratista admirável desses temores secretos que atormentam o cidadão normal, Polanski revela-se simultaneamente um cineasta de um realismo de décors e de figuras inultrapassável e um autor particularmente atento à realidade que se esconde para lá das aparências. O fantástico que se respira numa obra como “Le Locataire” é um fantástico que parte de dados absolutamente concretos. O segredo de Polanski é a forma como os manipula, como os interliga uns aos outros, como, em meia dúzia de planos, instala o horror e sabiamente o prolonga até à exaustão, à loucura, ao suicídio. Um suicídio que mimeticamente se imita, um suicídio que se reedita, que se reforça, que encontra forças para recomeçar tudo de novo.


Na adaptação do romance de Topor, Polanski contou com a preciosa colaboração de um seu auxiliar de sempre, Gérard Brach (falecido em 2006, com 79 anos). Ambos reconstruiram o pesadelo da história com a voluptuosidade mórbida de um fabulista requintado. Na cinematografia um mestre, Sven Nykvist (também falecido em 2006, com 83 anos), que neste filme usou pela primeira vez uma câmara dirigida à distância (a Louma IV), que permite filmar em espaços muito reduzidos. Philippe Sarde assinou a partitura musical (além de protagonizar um pequeno cameo – é o homem que se senta atrás de Trelkovsky e Stella no cinema) inovando também através da utilização de uma harmónica de vidro (instrumento de difícil execução e para o qual Mozart compôs algumas peças no seu tempo). Enfim, e não falando já no naipe de excelentes actores que povoam o filme, poder-se-á dizer que Polanski soube rodear-se de muito boas companhias para o seu “Inquilino”. O resultado é brilhante.


Com “Le Locataire” Polanski evita qualquer efeito espectacular, que aliás não se coadunaria com o aspecto kafkiano da obra. Não existem monstros, algozes ou rios de sangue, todos os clichés do género de terror se encontram ausentes. Mas em contrapartida (ou por causa disso mesmo), o cineasta dá-nos um grande filme, provavelmente um dos seus melhores de sempre (pelo menos o mais assustador), servindo-se de pequenos detalhes (os planos da casa de banho tornaram-se numa imagem de marca do filme) num ambiente onde habita o terror mais íntimo e surrealista. “Le Locataire”, nos seus quase 40 anos de existência, nunca deixou de me causar o mais genuíno dos prazeres cinéfilos, independentemente das muitas vezes a que a ele já assisti. Incluindo aquele último plano de gelar o sangue, responsável por tantos pesadelos, mesmo entre os menos sugestionáveis dos espectadores.













LOBBY CARDS:


NOTA: Vale a pena dar uma olhada no texto que o Sérgio Vaz escreveu sobre este filme no seu blogue, "50 Anos de Filmes"

sexta-feira, setembro 18, 2015

LE CHARME DISCRET DE LA BOURGEOISIE (1972)

O CHARME DISCRETO 
DA BURGUESIA
Um filme de LUIS BUÑUEL

Com Fernando Rey, Stéphane Audran, Jean-Pierre Cassel, Delphine Seyrig, Paul Frankeur, Bulle Ogier, Milena Vukotic, Maria Gabriella Maione, Claude Piéplu, Michel Piccoli, etc.

FRANÇA / ITÁLIA / ESPANHA / 102 min / COR / 16X9 (1.66:1)

Estreia em FRANÇA a 15/9/1972
Estreia em PORTUGAL: Novembro de 1973


Colonel: «Marijuana isn't a drug. Look at what goes on in Vietnam. 
From the general down to the private, they all smoke»
Mme. Thevenot: «As a result, once a week they bomb their own troops»
Colonel: «If they bomb their own troops, they must have their reasons»


Nas suas memórias, Luis Buñuel dedica um capítulo ao que chama "les plaisirs d'ici bas". Ao contrário do que se possa pensar, o sexo não ocupa o primeiro lugar, vem depois do alcool e do tabaco. Buñuel diz mesmo que os dois últimos «acompanham muito agradavelmente o acto de amor. Geralmente, o alcool deve ser antes e o tabaco depois» e acrescenta que ficou muito contente com a desaparição progressiva e finalmente total do seu instinto sexual, mesmo em sonhos, nos últimos anos da sua vida. «Estou muito contente, como se me tivesse, por fim, desembaraçado dum tirano. Se o Diabo me aparecesse a propor uma recuperação do que chamam a virilidade, respondia-lhe: Não, muito obrigado, não quero mais. Fortalece, antes, o meu fígado e os meus pulmões, para poder continuar a beber e a fumar à vontade.»





"Le Charme Discret de la Bourgeoisie" é um divertimento sobre uma burguesia, de que Buñuel não se exclui, e para o qual conta com a nossa cumplicidade ("burgueses somos nós todos / burgueses desde pequenos / burgueses somos nós todos / ou ainda menos", como se diz num poema de Cesariny). Será só isso? Alguns comentadores têm dito que sim e não escondem o seu desapontamento perante um filme divertidissimo, com achados prodigiosos, mas que lhes parece ter perdido muito da violência e virulência das obras anteriores. Por isso, este "Charme" teve o sucesso que teve, teve os prémios que teve e culminou com o mais alto galardão do cinema: o Oscar de Hollywood para o Melhor Filme de Língua Estrangeira, que Buñuel arrecadou aos 72 anos, depois do que Hollywood lhe fez e depois de 30 anos de uma carreira maldita.




Aliás, Buñuel estava perfeitamente consciente do tom ameno que em geral se encontra na obra. A quem falou de sátira feroz à burguesia, respondeu: «Não é uma sátira e muito menos feroz. Creio que fiz este filme com um sentido de humor amável. Mas também não procurei que as pessoas rissem às gargalhadas do princípio ao fim». E mesmo a quem foi mais longe e quis ver no plano várias vezes repetido dos protagonistas a andar pela estrada, sem chegar a parte alguma, uma alegoria à ausência de destino histórico da burguesia, Buñuel desenganou-os: «Compreendo essa interpretação, até porque o filme termina com os personagens a andar pela estrada. Apesar disso, lamento dizer-lhes que não há nenhuma mensagem. Até porque teria vergonha de me ter proposto a mim próprio - vou demonstrar que a burguesia está perdida. Aliás, creio que o que está em vias de extinção não é só a burguesia. Em muitos países, o proletariado vai-se aburguesando pouco a pouco, vai-se tornando menos revolucionário.»



Sin embargo, Don Luis... nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se não há sátira feroz, se não há mensagem, se não há irrisão, se não há subversão, se não há crueldade, este filme não é o do fantasma de Buñuel, nem de um Buñuel adormecido. A sua mão (a sua câmera) sente-se do princípio ao fim e o "charme discreto" da burguesia passa pelo desencanto indiscreto duma classe que pretende viver para o prazer, mas que o frustra constantemente. Os dois tipos de prazer sempre invocadas neste filme (os prazeres da mesa e os prazeres da cama) estão permanentemente em cena mas quase sempre são adiados e raramente consumados.

Sucedem-se jantares e almoços, sempre com o mesmo grupo. Fala-se de iguarias de fazer crescer água na boca. Mas, quando se passa ao acto, surge sempre a interrupção. Nunca ninguém come nada, a não ser, no fim, Fernando Rey, acordando do seu último pesadelo, a matar a fome com uns restos guardados no frigorífico. A mesma coisa para as cenas de sexo: Stéphane Audran e Jean-Pierre Cassel são interrompidos pela chegada dos convidados e têm que andar às voltas para conseguir satisfazer o seu desejo; quando Fernando Rey se prepara para ter relações com Delphine Seyrig, toda a espécie de impedimentos acontece até à chegada do marido. Só não se frustra um acto e esse é de tal forma violento que há quem diga que foi para o filmar que Buñuel fez o filme. Refiro-me ao assassinato do moribundo pelo bispo. Por alguma razão essa cena foi cortada pela censura, em Portugal, em 1973...



CURIOSIDADES:

- Luis Buñuel é referido nos créditos finais como responsável pelos efeitos sonoros. No entanto encontrava-se praticamente surdo quando rodou o filme.
   
- Luis Buñuel tinha uma verdadeira obsessão com as baratas que aparecem em muitos dos seus filmes. Aqui veêm-se na cena da tortura na prisão a sair do piano.





«O trabalho foi muito longo. Escrevemos cinco versões do argumento. Era preciso encontrar o equilíbrio certo entre a realidade da situação (um grupo de amigos tentam cear juntos sem o conseguir), que devia ser lógica e quotidiana, e a acumulação de obstáculos inesperados que, apesar disso, não deviam parecer fantásticos ou extravagantes. Nunca quis dizer: Vou demonstrar aqui que a burguesia está perdida. Eu mesmo sou burguês, mas discreto. Se fosse um burguês comme il faut viveria dos meus rendimentos, não faria filmes. Quando seleccionaram o filme para o Óscar e uns jornalistas mexicanos me perguntaram se o ganharia, respondi: Sim, estou convencido que sim. Paguei os 25 mil dólares que me pediram. Os norte-americanos têm os seus defeitos, mas são homens de palavra. Quatro dias depois da brincadeira, escândalo em Los Angeles, mas finalmente ganhei o Óscar, o que me permite repetir que os americanos têm os seus defeitos, mas são homens de palavra.»



sexta-feira, janeiro 13, 2012

LE FANTÔME DE LA LIBERTÉ (1974)

O FANTASMA DA LIBERDADE
Um filme de LUIS BUÑUEL

Com Jean-Claude Brialy, Monica Vitti, Julien Bertheau, Michael Lonsdale, Michel Piccoli, Jean Rochefort, Claude Piéplu, Milena Vukotic, Hélène Perdrière, Paul Frankeur, Adolfo Celi, Adriana Asti, etc.

FRANÇA - ITÁLIA / 104 min / 
16X9 (1.66:1)

Estreia em FRANÇA a 11/9/1974
Estreia em PORTUGAL a 22/11/1974
(Lisboa, cinema Londres)



Penúltimo filme de Luis Buñuel, realizado dois anos depois do “Charme Discret de la Bourgeosie” e do qual se poderá considerar como legítimo descendente (embora não tão brilhante), este “Fantôme de la Liberté” é uma sucessão de quadros  desconcertantes, que vão sendo introduzidos por personagens de ligação entre eles. É um filme que dura cerca de 104 minutos mas a sua construção encadeada faz supor algo sem fim, o que evidentemente é impossível de cinematizar, salvo em círculo fechado (com retorno ao princípio), o que não é o caso, apesar do filme começar e acabar com fuzilamentos.

Daí uma certa frustração que nos fica após o seu visionamento, apesar do grande divertissement que é mais este ensaio do Pai do Surrealismo. Mas tal frustração encontra-se, ainda assim, muito longe das críticas nada lisonjeiras com que o filme foi acolhido na altura da estreia em Lisboa, cinco meses após o 25 de Abril de 1974. Bem sei que as prioridades eram outras nessa altura, mas dizer que “Le Fantôme” «já não era surrealismo, mas sim neo-dadá» (Mário Cesariny), ou que se tratava do «filme mais desinteressante de Buñuel» (João Bénard da Costa) é no mínimo injusto para com todas as qualidades que a obra obviamente possui.

Mas recorde-se o que o próprio Luis Buñuel disse sobre o seu filme: «Este novo título, já presente numa frase de “A Via Láctea” ("a vossa liberdade não passa de um fantasma"), pretendia ser uma discreta homenagem a Karl Marx, àquele espectro que percorre a Europa e se chama comunismo, no início do Manifesto. A liberdade, que na primeira cena do filme é uma liberdade política e social (esta cena é baseada em acontecimentos reais, o povo espanhol gritava de facto "Vivam as algemas!" a favor do regresso dos Bourbons, por ódio às ideias liberais introduzidas por Napoleão), essa liberdade adquire rapidamente um novo sentido, a liberdade do artista e do criador, tão ilusória quanto a anterior.

O filme, muito ambicioso, difícil de escrever e de realizar, foi algo frustrante. Inevitavelmente, alguns episódios são melhores do que outros. Mas não deixa de ser um dos filmes que fiz que prefiro. A sua dinâmica é interessante, gosto da cena de amor no quarto da estalagem entre a tia e o sobrinho, também gosto da busca da rapariga que se perdeu (uma ideia que tinha há muito tempo), a visita dos dois comandantes da polícia ao cemitério, uma longínqua recordação do Sacramental de San Martin, e o final no jardim zoológico, aquele olhar insistente da avestruz que parece ter pestanas falsas.


Hoje, quando penso nisto, creio que “A Via Láctea”, “O Charme Discreto da Burguesia” e “O Fantasma da Liberdade”, todos nascidos de um argumento original, formam uma espécie de trilogia, ou melhor, de tríptico, como na Idade Média. Encontram-se nos três filmes os mesmos temas, por vezes até as mesmas frases. Falam da procura da verdade, da qual há que fugir assim que pensamos tê-la encontrado, do implacável ritual social. Falam da indispensável busca, do acaso, da moral pessoal, do mistério que há que respeitar.

Numa entrevista dada na altura a Tomás Perez Turrent e a José de La Colina, Buñuel fazia ainda as seguintes considerações sobre o filme: «O título surgiu-me irracionalmente, como o de “Un Chien Andalou”. Não obstante, não julgo que outro se pudesse adequar melhor, em cada caso, ao espírito do filme. (…) Creio que o acaso, a casualidade, governam as nossas vidas. Estou aqui a falar com vocês porque um espermatozoide paterno penetrou no óvulo materno em que viria a formar-se. Porque é que esse espermatozoide entrou e não outro dos milhares que rabiavam à volta? (e peço desculpa pelo rabiavam). “Le Fantôme de la Liberté” é uma imitação dos mecanismos do acaso. Foi escrito num estado consciente. Não é um sonho, nem uma corrente delirante de imagens. Os episódios do filme são autónomos, mas a narração é a mesma, através de personagens diferentes que se vão sucedendo.


Algo disto já havia em “L’Âge d’Or”, onde comecei com os maiorquinos, prossegui com bandidos, depois com a fundação da cidade, a seguir com os amantes e a festa no salão e acabei com os personagens de “As 120 Jornadas de Sodoma”. A diferença é que, em “Le Fantôme”, os personagens  estão mais ligados, chocam menos entre si. “Fluem” naturalmente. (…) Há sequências que são um bocado independentes do percurso do filme. Uma delas é a do rapazinho e da tia. É um episódio que está muito concentrado, havia ali matéria para um melodrama de hora e meia, não? O facto de, na estalagem, várias histórias se cruzarem, talvez seja uma recordação do albergue do Dom Quixote, onde chegam os protagonistas e outros personagens e cada um conta a sua história. É lá que Dom Quixote rebenta com os odres de vinho.»

“Le Fantôme de la Liberté” pode também ser encarado como uma sucessão de portas a abrirem-se umas atrás das outras - como aquela sequência surrealista do filme “Spellbound” de Hitchcock (devida a Salvador Dali) – onde cada episódio abre para outro episódio, cada personagem para outro personagem e assim interruptamente, ad infinitum. Concordo com Buñuel, quando ele afirma que alguns dos episódios são melhores do que outros, como aliás é perfeitamente natural. Mas todos eles têm em comum o espírito crítico - subtil ou agressivo - do pensamento buñueliano: os postais pensados “pornográficos” (vistas turísticas de Paris) que levam à repreensão da garotinha e ao despedimento da criada; o sonho delirante de monsieur Foucauld (Jean-Claude Brialy) (com o avanço dos ponteiros do relógio, a travessia do quarto pelo galo e pela avestruz e a chegada do carteiro).

Ou ainda a subversão total dos espaços da casa (a mesa enorme da sala usada para as conversas e alívio das necessidades básicas, em contraponto com o cubículo onde cada um se isola para jantar); a procura da garotinha perdida com a própria a tentar chamar a atenção para a sua presença; os acontecimentos simultâneos ocorridos na estalagem – com frades viciados no jogo à mistura com um masoquista, uma bailarina de flamengo ou um estudante numa escapatória amorosa com a tia (único nu integral de toda a filmografia de Buñuel); a aula infantilizada dos polícias (constantemente interrompida pelas exigências da profissão); a escapatória do prefeito da polícia para jogar dominó no café e o telefonema que a irmã morta lhe faz do jazigo; enfim, episódios indiscritíveis que só a visão do filme permite saborear em toda a sua plenitude.

Luis Buñuel, para além do grande cineasta por todos reconhecido (um dos maiores), foi um poeta surrealista cuja obra sempre teve como principal objectivo o de questionar a ordem estabelecida na sociedade burguesa. O significado dessa obra, aparentemente desarticulada, descobre-se reunindo símbolos e sugestões diversas, que normalmente proliferam em todos os seus filmes. "Le Fantôme" não é excepção. Com uma intuição profética, Buñuel reproduz cenas da vida burguesa e, pelo absurdo, destrói o equilíbrio dos "quadros". Demonstrando a vulnerabilidade dos conceitos, a instabilidade das convenções, Buñuel estilhaça o código moral, social e político da burguesia.


A liberdade de que o título do filme fala é a liberdade ilusória dessa burguesia, que se encontra alicerçada num conjunto de preconceitos e convenções perfeitamente arbitrários. Uma burguesia de raízes europeias, vista pelos olhos de um espanhol que não consegue (nem pretende) ocultar a sua formação humana, histórica, religiosa e cultural. Em parceria com o “Charme Discreto da Burguesia, Buñuel dá-nos com “Le Fantôme de la Liberté” os dois filmes mais hilariantes da sua brilhante carreira. Um humor inteligente, satírico, corrosivo, que se utiliza do absurdo e do nonsense para construir duas grandes antologias do cinema surrealista.