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quinta-feira, novembro 14, 2013

THE FRENCH LIEUTENANT'S WOMAN (1981)

A AMANTE DO TENENTE FRANCÊS
Um Filme de KAREL REISZ


Com Meryl Streep, Jeremy Irons, Leo McKern, Hilton McRae, Emily Morgan, Charlotte Mitchell, Lynsey Baxter, Peter Vaughan, etc.
 
GB / 124 min / COR / 16X9 (1.85:1)
 
Estreia na GB em Agosto de 1981
Estreia nos EUA a 18/9/1981
Estreia em PORTUGAL a 25/12/1981
(Lisboa, cinema S. Jorge)

 

Sarah: «I am the French Lieutenant's... whore»


Há já algum tempo que não passava pela FNAC. Esta semana, no Cascais Shopping, tive uma agradável surpresa pela qual aguardava há muito: a edição portuguesa em DVD de “A Amante do Tenente Francês”, filme que nunca mais me saíu da memória, desde que o vi no écran do cinema S. Jorge nos princípios dos anos 80. Data desta altura a minha paixão por Meryl Streep, paixão essa que ao longo dos anos foi murchando pouco a pouco, aliás como toda a boa paixão que se preze. Mas aqui a actriz ainda continuava em estado de graça, depois de ter protagonizado a inesquecível série “Holocausto” (recentemente também disponível em Blu-ray), aparecido fugazmente no “Manhattan” de Woody Allen e assumido papeis relevantes em “The Deer Hunter / O Caçador” (1978) e “Kramer vs. Kramer” (1979). Este seu duplo desempenho como Sarah/Anna seria o arranque a sério para uma carreira fulgurante, mantendo-se ainda hoje como uma das suas prestações mais inesquecíveis.


“The French Lieutenant’s Woman” é baseado num conhecido e homónimo romance do britânico John Robert Fowles (1926-2005), escritor cuja obra é por norma situada entre o modernismo e o pós-modernismo. Harold Pinter (1930-2008), outro britânico célebre (Prémio Nobel da literatura em 2005), escreveu o argumento do que a princípio parecia um romance infilmável, e Karel Reisz (1926-2002), também britânico, mas de ascendência checa, passou para o celulóide as duas histórias da obra, publicada pela primeira vez em 1969. À semelhança desta, em que Fowles aborda os amores proibidos da Inglaterra vitoriana segundo a perspectiva cultural dos anos 60, também o filme vai evoluindo entre as duas épocas, ao introduzir um filme dentro do filme. Mike (Jeremy Irons) e Anna (Meryl Streep) são dois actores que mantêm uma relação de adultério, ao mesmo tempo que vão vivendo uma outra história de amor fictícia (localizada em 1897), nos personagens de Charles e Sarah.


Charles Smithson é um naturalista amador, seguidor das teorias darwinianas, que divide as suas atenções entre o estudo de fósseis e a corte à sua noiva, Ernestina Freeman (Emily Morgan), filha de um rico homem de negócios, e com quem planeia casar-se em breve. Mas um dia conhece Sarah Woodruff (belíssima sequência no paredão do cais, a culminar naquele icónico close-up de Streep) e tudo se altera. Sarah é uma mulher independente, mas estigmatizada por um escandaloso (pelos padrões da época) relacionamento com um tenente da marinha francesa chamado Varguennes, que é casado, e que a teria abandonado depois dela se servir. A população de Lyme, onde a acção se situa, chama-lhe “a tragédia”, ou, ainda pior, “a puta do tenente francês”. É toda essa aura misteriosa que envolve Sarah, aliada ao seu ar frágil e desprotegido, que intriga Charles, vindo a despertar nele uma curiosidade crescente por aquela mulher solitária e proscrita. Pouco a pouco, através de alguns encontros furtivos, a atracção instala-se entre os dois, transformando-se, rápida e naturalmente, numa forte ligação amorosa.


Como não podia deixar de ser (para ser fiel à ideia central do romance de Fowles), Karel Reisz apresenta-nos todo o seu filme em montagem paralela, em que a ficção se confunde com a realidade, entrelaçando-se as duas histórias de amor nos percursos vividos pelos duplos personagens. Daqui resulta um momento único e apaixonante do cinema romântico, meticulosamente construído, e magistralmente servido pelas interpretações brilhantes de Irons e, sobretudo, Meryl Streep, a qual, nunca é demais dizê-lo, tem aqui um desempenho inolvidável, que chega a roçar a perfeição, num jogo de expressões e emoções raramente visto em cinema. A actriz ganharia o BAFTA inglês e o Globo de Ouro na categoria drama, mas perderia o Oscar para Katharine Hepburn (pelo filme “On Golden Pond / A Casa do Lago”). Dá para acreditar?
 

A música de Mozart faz sobressair a excelente cinematografia de Freddie Francis, e o filme está recheado de sequências inesquecíveis, como a já citada cena do paredão, o monólogo de Sarah a contar a sua história a Charles ou aquela única noite de amor vivida no quarto de hotel de Exceter. Dos três finais que Fowles apresenta no seu romance, dois deles são aqui usados para finalizar o filme. Não são alternativos, mas ocorrem como tudo o resto em simultâneo, permitindo ao espectador, tal como ao leitor do livro, uma escolha pessoal, de acordo com a sua sensibilidade e posicionamento. A opção é, uma vez mais, entre a ficção e a realidade. Mas onde começa uma e termina outra?

CURIOSIDADES:

- Nos anos 70 foi feita uma primeira tentativa de adaptação do romance ao cinema (a interpretação estaria a cargo de Vanessa Redgrave), mas a dificuldade de se escrever um guião credível acabou por abortar o projecto.
 
- Chama-se "Cobb" o paredão do cais de Lyme, onde decorre aquela sequência com Sarah, no meio das ondas a rebentarem à sua volta. Pela perigosidade da situação Meryl Streep não participou das filmagens, pertencendo a um dos directores artísticos a silhueta que se vê ao longe. Foi em estúdio que depois foram filmados os magníficos close-ups, que se tornariam na imagem de marca do filme.


quarta-feira, outubro 02, 2013

THE WORDS (2012)

AS PALAVRAS
Um Filme de BRIAN KLUGMAN e LEE STERNTHAL



Com Bradley Cooper, Jeremy Irons, Dennis Quaid, Zoe Saldana, John Hannah, Ben Barnes, Nora Amezeder, Olivia Wilde, etc.

EUA / 102 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA a 27/1/2012 
(Sundance Film Festival)
Estreia em PORTUGAL a 1/11/2012



«We all make our choices in life.
The hard thing to do is live with them»

Há filmes assim, de que pouco ou nada ouvimos falar, e que nos passam completamente ao lado, arriscando um anonimato precoce. Felizmente não foi o caso. Mesmo com um ano de atraso deparei-me uma destas noites com este “The Words”, enquanto fazia o meu zapping habitual pelos canais de cinema. A cena envolvia Jeremy Irons, um dos meus actores de cabeceira, e como não fazia a mínima ideia de que filme se tratava, resolvi premir o botãozinho mágico do comando e começar a ver o filme desde o início. Em boa hora tomei tal decisão, pois caso contrário deixaria de ver um filme interessantíssimo.

Estreia na realização dos argumentistas Brian Klugman (intérprete também de várias séries televisivas) e Lee Sternthal, “The Words” tem como ponto de partida um facto verídico ocorrido em 1922, ano em que a mulher de Ernest Hemingway perdeu vários manuscritos do escritor que se encontravam dentro de uma mala, numa estação ferroviária de Paris. Apesar de se ter tratado de um roubo, consta que ele nunca mais lhe perdoou. Aliás, existe uma cena do filme em jeito de homenagem, onde se mostra a casa onde Hemingway viveu na capital francesa.

“The Words” começa com a apresentação do best-seller de um escritor, Clay Hammond (Dennis Quaid, um actor em via descendente) no auditório de uma livraria em Manhattan. O enredo do livro diz respeito também a um escritor, Rory Jansen (Bradley Cooper, que, “ressacas à parte”, se impõe cada vez mais como um dos melhores actores da sua geração), personagem que tem muito (ou quase tudo) de auto-biográfico, como mais tarde iremos descobrir. Não se conseguindo impor no mundo literário, vivendo à custa do pai, Rory decide casar-se com Dora (Zoe Saldana) e o casal vai passar a lua-de-mel a Paris.

Numa loja de antiguidades descobrem uma pasta bastante antiga que Dora decide oferecer ao recém-marido. Regressados a Nova Iorque a vida retoma a rotina e a frustração do dia-a-dia, com o casal cada vez mais endividado. Numa noite de insónia, ao arrumar uns papeis na pasta, Rory descobre no forro um manuscrito muito antigo, cuja qualidade literária o apaixona. Após algumas hesitações, a obsessão toma conta dele, e começa a transcrever todo o livro para o computador, sem alterar em nada o conteúdo, nem sequer a pontuação ou os erros gramaticais. Leva o “novo” trabalho ao responsável da editora onde trabalha, que de imediato se oferece para o publicar. Escusado será dizer que o livro se torna um best-seller e Rory atinge a celebridade de um dia para o outro.

Só que…, e aqui se inicia a segunda parte da leitura de Clay Hammond, entra em cena um velho – designado por the old man – que se vem a revelar como o verdadeiro autor da obra. Segue Rory até Central Park e, num banco de jardim, conta-lhe toda a sua história, passada no pós-guerra e que esteve na origem da escrita do livro, que ele julgava perdido para sempre. A partir daqui todos os cenários, todas as consequências de tal revelação poderão ser possíveis.

Mas propositadamente não quero revelar esse epílogo, em consideração pelas pessoas que ainda não viram o filme – e que devem ser muitas. Este novo personagem, interpretado pelo veterano actor britânico Jeremy Irons, é razão mais do que suficiente para se assistir ao filme, dada a enorme qualidade da sua prestação, toda ela pautada por grande sobriedade. Chego-me a interrogar se “The Words” seria o mesmo filme sem a presença de Irons; julgo que não, que seria algo completamente diferente.

Mas para uma primeira obra, os estreantes Klugman e Sternthal não se saíram nada mal. O filme está muito bem realizado, o argumento - que concilia inteligentemente o drama e o romance – é dinâmico e envolvente, mantendo o interesse do princípio ao fim (apesar daquela sequência final ser um pouco extensa), os actores são de primeira água, como acima já se referiu (excepção feita a Dennis Quaid), a cinematografia, de Antonio Calvache e, sobretudo, a excelente banda – sonora (música assinada pelo compositor Marcelo Zarvos) contribuem decisivamente para conferir a The Words” um lugar de destaque na produção norte-americana dos últimos anos. A não perder!