quinta-feira, dezembro 24, 2015

BIO-FILMO: FRANK SINATRA

Born 1915, December 12, in Hoboken, New Jersey, US
Died 1998, May 14, in Los Angeles, US





Frank Sinatra foi o único descendente de dois imigrantes italianos, Natalia Garaventa, genovesa, mais conhecida como "Dolly", e Antonino Martino Sinatra, um siciliano, analfabeto e boxeur, que rumaram aos Estados Unidos em 21 de dezembro de 1903, a bordo do Città di Millano SS. Francesco. O avô paterno de Sinatra, já se encontrava em Nova York, sendo empregado numa fábrica de lápis. Onze anos depois, Antonino e Dolly viriam a casar-se, estabelecendo residência em Hoboken, na Rua Monroe, nº 415, onde viria a nascer o seu primeiro e único filho.

Iniciando a sua carreira musical na música swing, Sinatra actuou em diversos clubes locais, começando a marcar presença constante em diversas estações de rádio. Pouco depois já integrava algumas orquestras, como a de Harry James, Billy May ou Tommy Dorsey. Começou a carreira a solo no início dos anos 40, a qual se iria revelar, como se sabe, uma carreira única e brilhante. Em 1943 assinou um contrato de gravação com a Columbia Records, tornando-se rapidamente um ídolo das "bobby boxers" (como eram conhecidas as jovens fãs de swing), tendo lançado o primeiro album primeiro álbum, “The Voice of Frank Sinatra”, em 1946. Nesse ano a sua participação no cinema já era também notória, por causa do musical “Anchors Aweigh / Paixão de Marinheiro”, onde contracenava com Gene Kelly e Kathryn Grayson.  Voltaria a participar ao lado de Kelly três anos depois em “On The Town / Um Dia em Nova Iorque”, e em 1953 ganharia o seu único Óscar (de melhor ator secundário) no filme “From Here to Eternity / Daqui à Eternidade”.

Nesse mesmo ano assinou novo contrato de gravação, desta vez com a Capitol Records, onde, até ao fim da década de 50, viriam a ser editados os seus álbuns mais emblemáticos: “In The Wee Small Hours” (1955), “Songs For Swingin’ Lovers” (1956), “A Swingin’ Affair” (1957), “Come Fly With Me” (1958), “No One Cares” (1959) ou “Nice ‘n’ Easy” (1960). Em 1961, Sinatra funda a sua própria editora, a ainda hoje célebre Reprise Records. O sucesso musical não pára, expressando-se atráves de álbuns como “Come Swing With Me!” (1961), “Sinatra-Basie” (1963), “September Of My Years” (1965), “Strangers In The Night” (1966), “Francis Albert Sinatra & António Carlos Jobim” (1967) ou “My Way” (1969). Numa década em que os Beatles iniciaram uma autêntica revolução musical, com o pop/rock a reinar sobre tudo e todos, Sinatra conseguiu manter sempre o seu lugar. Realizou diversas tournées internacionais, sempre com grande sucesso, vindo a ganhar um Emmy pela produção televisiva “Frank Sinatra: A Man And His Music”. No campo estritamente musical o reconhecimento foi sempre constante, tendo-lhe sido conferidas inúmeros prémios, nomeadamente 13 Grammys. A lista completa de todos as distinções recebidas por Sinatra ao longo da sua carreira, pode ser vista aqui.


Relativamente à popularidade da sua música, basta recordar que Frank Sinatra vendeu mais de 250 milhões de discos em todo o mundo até ao final dos anos 90. A 26 de Janeiro de 1980, Sinatra deu um show histórico no estádio Maracanã do Rio de Janeiro, diante de uma assistência de cerca de 170 mil pessoas, o que lhe valeu uma entrada no Livro dos Recordes do Guiness. Doze anos depois, a 7 de Junho de 1992, seria a vez de Portugal, onde Sinatra daria um único concerto, no estádio das Antas, no Porto. A assistência VIP ficou instalada no próprio relvado, em 350 mesas de 10 lugares, providas de velas, morangos e champanhe Raposeira. A orquestra tinha mais de 40 músicos e foi dirigida pelo filho de Sinatra, que cantou durante 70 minutos, tendo cobrado um cachet de 140 mil contos. Já com 79 anos, Sinatra apareceu pela última vez em palco, no Japão, em Dezembro de 1994, no teatro Fukuoka Dome.


No cinema a sua contribuição não foi tão brilhante como na música, mas mesmo assim há a destacar um punhado de boas representações, em filmes como “Guys And Dolls” (1955), onde começou a sua reputada aversão por Marlon Brando, “The Man With The Golden Arm” (1956) (que lhe trouxe uma nomeação para o Óscar), “High Society”  (1956), onde contracenou com Bing Crosby, o seu grande rival daqueles anos, “Pal Joey” (1957), onde se dividiu entre Kim Novak e Rita Hayworth, “Some Came Running”, talvez a sua melhor interpretação, junto à sublime Shirley MacLaine, ou “Von Ryan’s Express” (1965), de longe o seu maior sucesso da década de 60 e um dos melhores filmes com a II Guerra Mundial como fundo. Em 1968, a preferência dada pela actriz Mia Farrow (com quem casara apenas dois anos antes) em participar no filme “Rosemary’s Baby”, em vez do filme “The Detective”, por ele próprio interpretado, enfureceu-o de tal modo que levou pessoalmente os papeis de divórcio a Farrow, durante as filmagens do filme de Polanski. Muitos anos depois, quando do affair ocorrido entre Woody Allen, então casado com Mia Farrow, e uma das filhas adoptivas desta, Sinatra ofereceu os seus préstimos à actriz, no sentido de mandar alguém dar uma tareia a Allen. Tanto quanto se sabe, Mia Farrow declinou a oferta.


Até aos 55 anos Sinatra pertenceu ao Partido Democrático, tendo sido amigo íntimo do Presidente John F. Kennedy. Em 1970 alterou as suas ideias políticas, tendo apoiado Ronald Reagan para a Casa Branca, e aderido ao Partido Republicano pouco tempo depois. Ao longo dos anos desenvolveu uma amizade muito especial com Dean Martin, com quem viria a criar um grupo restrito de entertainers, o chamado “Rat Pack” (os outros elementos foram Peter Lawford, Joey Bishop e Sammy Davis Jr,), várias vezes conotado com a máfia norte-americana. Foi casado com Nancy Barbato (de 1939 a 1951) de quem teve 3 filhos (Nancy, Frank e Tina) e posteriormente com as atrizes Ava Gardner (de 1951 a 1957), a sua grande paixão, e Mia Farrow (de 1966 a 1968). O último casamento foi em 1975 com Barbara Marx, com quem terminou os seus dias. Possui três estrelas na Calçada da Fama de Hollywood, pela sua contribuição na música, no cinema e na TV norte-americana. Teve um ataque cardíaco em 1997, um ano antes de vir a falecer, com problemas adicionais nos rins e um cancro na bexiga. Nesse último ano, Frank Sinatra nunca mais apareceu em público.


Na sua lápide, no cemitério de Beverley Hills, pode ler-se: “The Best Is Yet To Come”. No funeral, a 20 de Maio de 1998, os amigos colocaram-lhe na urna diversos objectos, incluindo uma garrafa de Jack Daniels, um maço de tabaco Camel, um isqueiro zippo, um anel com a inscrição “dream”, várias velas Tootsie Roll, moedas de 10 cêntimos, um pacote de Black Jack bubblegum, entre muitas outras coisas. Entre a assistência fúnebre encontravam-se muitas dezenas de celebridades, da música e do cinema, nomeadamente Kirk Douglas, Gregory Peck, Jack Lemmon, Sidney Poitier, Jack Nicholson, Nancy Reagan, Jerry Lewis, Bruce Springsteen, Debbie Reynolds, Liza Minnelli, Bob Dylan, Tony Bennett, Mickey Rooney, Shirley MacLaine, Mia Farrow, Sophia Loren, Quincy Jones, Anthony Quinn, Tony Curtis, Angie Dickinson, Paul Anka, Bem Vereen, Johnny Mathis, Ann Miller, Suzanne Pleshette, Dionne Warwick, entre muitos mais.


FILMOGRAFIA:

- 1984 – Cannonball Run II / A Corrida Mais Louca do Mundo II
- 1980 – The First Deadly Sin / O Primeiro Pecado Mortal
- 1970 – Dirty Dingus Magee / Que Belo Patife!
- 1968 – Lady In Cement / Uma Mulher No Cimento
- 1968 – The Detective / O Detective
- 1967 – Tony Rome / Tony Rome Investiga
- 1967 – The Naked Runner / Golpe Sobre Golpe
- 1966 – Assault On A Queen / Assalto Ao Queen Mary
- 1966 – Cast A Giant Shadow / A Sombra De Um Gigante
- 1965 – Marriage On The Rocks / Divórcio à Americana
- 1965 – Von Ryan’s Express / O Expresso de Von Ryan
- 1965 – None But The Brave / Ninguém Foi Tão Valente (+realização)
- 1964 – Robin And The 7 Hoods / Os Sete Ladrões da Cidade
- 1963 – 4 For Texas / Quatro No Texas
- 1963 – Come Blow Your Horn / Mulheres É Comigo
- 1963 – The List Of Adrian Messenger / As Cinco Caras do Assassino
- 1962 – The Manchurian Candidate / O Enviado da Manchúria
- 1962 – Sergeants 3 / Os 3 Sargentos
- 1961 – The Devil at 4 O’Clock / O Diabo às 4 Horas
- 1960 – Ocean’s Eleven / Os Onze de Oceano
- 1960 – Can-Can


- 1959 – Never So Few / Quando Explodem as Paixões
- 1959 – A Hole In The Head / Tristezas Não Pagam Dívidas
- 1958 – Some Came Running / Deus Sabe Quanto Amei
- 1958 – Kings Go Forth / Só Ficou a Saudade
- 1957 – Pal Joey / O Querido Joey
- 1957 – The Joker Is Wild / A Arte e a Vida
- 1957 – The Pride And The Passion / Orgulho e Paixão
- 1956 – Around The World In 80 Days / A Volta ao Mundo em 80 Dias
- 1956 – Johnny Concho
- 1956 – High Society / Alta Sociedade
- 1955 – The Man With The Golden Arm / O Homem do Braço de Ouro (nomeação para o Óscar)
- 1955 – The Tender Trap / Armadilha Amorosa
- 1955 – Guys And Dolls / Eles e Elas
- 1955 – Not as a Stranger / Médico e Só Médico
- 1954 – Young at Heart / Apaixonadas
- 1954 – Suddenly / O Seu Ofício Era Matar
- 1953 – From Here To Eternity / Daqui à Eternidade (Óscar para o melhor actor secundário)
- 1951 – Dynamite / Casar Não Custa
- 1951 – Meet Danny Wilson / O Ritmo da Vida

- 1949 – On The Town / Um Dia em Nova Iorque
- 1949 – Take Me To The Ball Game / A Linda Ditadora
- 1948 – The Kissing Bandit
- 1948 – The Miracle Of The Bells / O Milagre dos Sinos
- 1947 – It Happened In Brooklyn / Tudo Canta no Meu Bairro
- 1946 – Till The Clouds Roll By / Até as Nuvens Passarem
- 1945 – Anchors Aweigh / Paixão de Marinheiro
- 1944 – Step Lively / Amor, Música e Sarilhos
- 1943 – Higher And Higher / Milionários de Ocasião

segunda-feira, dezembro 14, 2015

SOME CAME RUNNING (1958)

DEUS SABE QUANTO AMEI
Um filme de VINCENTE MINNELLI



Com Frank Sinatra, Shirley MacLaine, Dean Martin, Martha Hyer, Arthur Kennedy, Nancy Gates, Leora Dana, Betty Lou Keim, Larry Gates, etc.

EUA / 137 min / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 18/12/1958
  
Dave Hirsh: «You're right, teacher. You're a hundred percent right.
I've been a bad boy. I've been naughty. 
Matter of fact, I don't even belong in your class»

"Some Came Running" é um dos filmes mais característicos dos anos 50 (falo dos cenários, adereços e locais de filmagem mas também das mentalidades, dos usos e costumes da época); é também o apogeu do melodrama psicológico e da carreira de Vincente Minnelli, e um dos mais belos e pungentes filmes de toda a história do Cinema. Como eventualmente tais predicados ainda seriam poucos para enaltecer um dos meus "filmes da vida", acrescento-lhe ainda mais alguns: uma fotografia panorâmica deslumbrante (nunca a cor e o Cinemascope foram utilizados assim, com tanta precisão e inteligência, de parceria com uma utilização rigorosa dos espaços - o filme é quase todo ele rodado em planos americanos), uma partitura musical de grande qualidade (assinada por Elmer Bernstein) e um punhado de interpretações inolvidáveis, donde se destaca, naturalmente, uma sublime Shirley MacLaine, quiçá no melhor papel de toda a sua vida. Mas não sou o único que nutre um amor desmedido por "Some Came Running". Para João Bénard da Costa, também ele foi um dos "filmes da sua vida", tendo-lhe dedicado um excelente artigo, publicado no jornal O Independente em 23 de Junho de 1989. Deixo-vos com parte dessa homenagem:


A sensação que temos, quando relembramos este filme, é que houve tempo para tudo e subitamente não há tempo para nada. Houve tempo para conhecermos a família de Dave (Frank Sinatra), com o irmão pusilânime, a cunhada sinistra e a sobrinha bonita. Houve tempo para conhecermos a professora puritana, essa Miss French (Martha Hyer) que às vezes lembra Eva-Marie Saint e que usava carrapito com medo que lhe soltassem os cabelos, como Sinatra fez naquela única e incrível tarde de amor deles. Houve tempo para muitos batoteiros e muitas pegas, paisagem acidental e essencial para dela emergirem Bama (Dean Martin), o homem que nunca tirava o chapéu, e Ginny (Shirley Maclaine), a mulher que nunca largava a mala de mão em forma de coelhinho de peluche. Houve tempo, até para uma bela e efémera secretária, Miss Barclay (Nancy Gates), que rima com todo o resto. Só não houve tempo para o tempo do mais belo amor da mais bela mulher, Ginny-Shirley, essa que veio a correr e morreu no fim para salvar Sinatra, que lhe deitou a cabeça em cima da berrante almofada amarela que a pedido dela lhe dera, e que era a coisa de que ela mais gostava no mundo.


«Menina e moça me levaram de casa da minha mãe. Qual fosse a causa daquela minha levada, era pequena não na soube entào.» "Some Came Running" fez-me sempre lembrar o começo da novela de Bernardim. Quando Shirley MacLaine acorda no autocarro onde até aí não a víramos (a câmara só nos mostrara Sinatra a dormir), depois de ler o anúncio da companhia transportadora («and leave the driving to us») ou de ouvir o primeiro diálogo dela com Sinatra («You're a nice kid. I like you. Take care»), sinto essa sensação de «levada», um dia, menina e moça (Shirley MacLaine que o não era, era-o mais do que outra nenhuma), de «casa da minha mãe» (sempre gostei mais dessa variante do texto do que da usual, que diz «de casa de meus pais») por causas que os pequenos nunca sabem, que faz parte de serem pequenos nunca saberem. Há, no filme de Minnelli, uma mesma dupla acentuação da inocência, a mesma saudade por um quente mundo perdido, a mesma viagem, o mesmo lento sublinhar do tempo, do "então". E, mais importante ainda, a mesma equivalência nas cores, no décor e nos olhos de Shirley MacLaine para as labiais de Bernardim, com o corte final (a "dental") do "então", no movimento sublime, duma rapidez feita tanto de reflexo, como da ausência de reflexão, com que a moça menina se atira para cima do corpo de Sinatra, apanhando em cheio nas costas a bala que a ele era destinada.

Centro deste filme prodigioso, o mais bonito personagem que o cinema alguma vez inventou, Ginny é menina e moça perdida na vida e perdida na morte, no sentido em que também se diz "mulher perdida", "mulher da vida", tão belas expressões, E no fim, no enterro dela, percebemos que se Dean Martin nunca tirou o chapéu, foi para o tirar nesse momento, para a única mulher que a esse gesto obrigava. Metera-se, uma noite, num autocarro e atravessara centenas de quilómetros porque Sinatra, sentimental de mais quando bebia de mais, a convidou a segui-lo. Passada a bebedeira, na manhã da chegada a Parkman, ele já nem se lembrava dela. Mas lembrava-se ela e ficava, numa ida sem volta, apesar da nota de 50 dólares que Sinatra lhe metia na mão. E ficava, atrapalhada, atrapalhante, sem perceber de que terra era, sempre com coisas a mais nas mãos (a tal carteira, a tal almofada, as flores artificiais), sempre com os penduricalhos, sempre a pintar os olhos, a pôr rimel nas pestanas, «leaving the drive to others».

E há as duas sequências mais inesquecíveis. A primeira é quando decide ir até à escola, conhecer a professora por quem Sinatra se apaixonara, para "tirar a limpo" aquela história. A professora ensina literatura e explica aos alunos que as bebedeiras de Poe, as drogas de Quincey, a "neurótica promiscuidade" de Baudelaire não os tornavam menores. «Eram grandes homens, grandes na força, grandes nas fraquezas.» A campainha toca no fim desse parvo discurso. E enquanto os estudantes saem, aparece na frente daquela mulher que sabe tudo e não percebe nada, a mulher que não sabe nada e percebe tudo. Vem nervosíssima, timidíssima, amedrontadíssima. Se a professora gostar tanto de Sinatra quanto Sinatra gosta dela, todos os seus sonhos morrerão ali. Como ela própria diz, na profundidade de campo da aula vazia, contra um quadro onde está escrito um texto de Zola: «You don't know how scared I was. I want him to have whatever he wants. Even if it means you instead of me.» Durante toda a sequência, não disse nem fez uma coisa feia. Só ganhou o campo-contra campo porque a professora era incapaz de olhar para além do campo dela e ver para além das aparências a "rival" que não tinha nada, «not even a reputation».

A segunda sequência é pouco depois, quando Sinatra chega a casa, possesso de dor de corno, porque Miss French lhe dera com os pés («I don't like your life. I don't !ike what you think. I don't like the people you like») na ressaca desse face a face com a "pega". Sinatra insulta-a a despropósito. Há uma panorâmica sobre ela e ela a dizer «You gotta remember I'm human. I've feelíngs». Depois, Sinatra arrepende-se. Mas tudo quanto tem para dar àquela mulher que antes tinha dito que era capaz de fazer tudo, tudo quanto ele lhe pedisse (e veio a fazer mais) é perguntar-lhe: «Do you clean that place for me?» E o que a frase podia ter de horrível ou frustrante é salvo pelo sorriso de Shirley e aquele «Oh! Could I?», como se acabasse de receber o mais belo dos presentes. Corte e Sinatra lê-lhe o romance com que acabara de ganhar um prémio. Sentada no chão, os braços à volta dos joelhos, de calças cor-de-rosa, Shirley está toda nele e nada no que ele diz.

E, quando ele a acusa de não ter percebido uma palavra do que ouvira, ela responde com esta tirada prodigiosa: «No, I don't. But that don't means I don't like the story. I don't understand you, neither, but that don't means I don't like you. I love you, but I don't understand you. What's the matter?» Vira a cara para o lado, amuada. Há uma "pausa côncava de assombro" preenchida apenas pela espantosa partitura de Elmer Bernstein. A câmara fica fixa no rosto de Sinatra, e tudo quanto o filme e a vida até aí acumulara nele (tempo, décor, cidade, néons, família, a loura e frígida professora) sai cá para fora no inesperado pedido de casamento. Segue-se a incredibilidade de Shirley («Não deves brincar com essas coisas») e depois o abraço, abraço incrível de entrega e doação. Há o degrau e a coda volta ao início: «You gotta remember, I'm human.»

Nestas duas sequências - como na sequência final do crime, como em todo o filme - Minnelli atinge o apogeu da sua arte. Há cineastas, como há pessoas, que procedem por silogismos e assim destroem tudo e se destroem a si próprias. Há cineastas, como há pessoas, que estão para além de qualquer lógica e transfiguram tudo o que tocam em oração e oblação. Nessa delirante irracionalidade do amor, apanágio de tão raros. Como diria Shirley MacLaine: «Thanks, awfully, so awfully much.»

CURIOSIDADES:

- Joanne Woodward não aceitou desempenhar o papel de Ginny Moorehead por não querer trabalhar com Frank Sinatra

- A revista alemã Der Spiegel classificou "Some Came Running" como o melhor filme de todos os tempos

- Na cena da morte de Ginny, Shirley MacLaine não era suposta colocar-se à frente da bala. Foi Frank Sinatra o autor da ideia: «Let the kid take the bullet; maybe she'll get an Oscar.» O argumento foi alterado e Shirley recebeu a sua primeira nomeação.

- "Some Came Running" obteve 5 nomeações para os Óscares, nas categorias de Actriz Principal (Shirley MacLaine), Actor Secundário (Arthur Kennedy), Actriz Secundária (Martha Hyer), Guarda-Roupa (Walter Plunkett) e Canção Original ("To Love and be Loved", música de Jimmy Van Heusen e letra de Sammy Cahn). Shirley MacLaine foi ainda nomeada para o Globo de Ouro. Mas foi Susan Hayward, no filme "I Want To Live!" quem arrebatou os dois troféus nesse ano.


quarta-feira, novembro 25, 2015

THE SEVEN YEAR ITCH (1955)

O PECADO MORA AO LADO
Um filme de BILLY WILDER

Com Marilyn Monroe, Tom Ewell, Evelyn Keyes, Sonny Tufts, Robert Strauss, Oscar Homolka, Marguerite Chapman, Victor Moore, etc.

EUA / 105 min / COR / 
16X9 (2.55:1)

Estreia nos EUA a 3/6/1955
Estreia em PORTUGAL a 6/2/1956


Tom MacKenzie: «What blonde in the kitchen?»
Richard Sherman: Wouldn't you like to know! 
Maybe it's Marilyn Monroe!»

“The Seven Year Itch” está longe de ser o melhor Wilder ou a melhor Marilyn (apesar de conter a cena mais icónica da deusa). O filme resultou de uma encomenda da 20th Century Fox, a quem a Paramount emprestou temporariamente o seu realizador. Devido a exigências dos produtores, Wilder viu-se impossibilitado de contar com o actor Walter Mathau para o papel principal, como pretendia. Em alternativa foi-lhe imposto Tom Ewell, que já tinha protagonizado Richard Sherman na Broadway. Quanto a Marilyn, foi de igual modo uma escolha da 20th Century Fox (aqui acertando em cheio!), que assim substituiu Vanessa Brown (actriz de origem austríaca, nascida em 1928), que tinha desempenhado o papel da "vizinha de cima" nos palcos, e estava conotada de início com o projecto.



Outro facto que contribuiu para o desagrado de Wilder em relação a este filme, foi a intromissão dos censores, os quais, recorrendo ao tristemente famoso Código Hayes então em vigor, alteraram substancialmente a peça original de George Axelrod, a ponto da relação sexual que chegava a existir entre os protagonistas ter sido pura e simplesmente eliminada. Wilder ainda tentou, através da introdução de algumas elipses, sugerir o que não podia ser mostrado, mas o resultado final ficou algo equívoco e pouco convincente. Além disso, o realizador viu-se obrigado a cortar algumas cenas (que podem ser vistas na recente edição em blu-ray). Wilder vingar-se-ia quase uma década depois quando filmou “Kiss Me Stupid”, comédia fabulosa (e muito superior a este “Seven Year Itch”), na qual as relações sexuais eram assumidas sem qualquer subterfúgio.


Como escreveu João Bénard da Costa, o nome da personagem de Marilyn em “The Seven Year Itch” presta-se a uma clássica rasteira de adivinhas cinéfilas, que é perguntar o nome do personagem interpretado por Marilyn Monroe. «Efectivamente, não tem nome e efectivamente essa elipse não é óbvia. Quando ela se encontra no filme com Richard Sherman (Tom Ewell) este, de tão atrapalhado, jamais pergunta como se chama a vizinha de cima. E no único momento em que Richard tem que lhe dar um nome (quando quer impedir Tom MacKenzie de entrar na cozinha, onde ela está) titubeia e, já irritado, lhe responde que a rapariga escondida deve ser Marilyn Monroe. E é. Se aquele personagem tem nome é mesmo - e só pode ser - o nome de Marilyn. Nesta astúcia do argumento resume-se o apogeu de um mito. Uma tal aparição só pode ser Marilyn e é mesmo. Como a história daquele polícia que mandou parar um condutor a 200 à hora e lhe pergunta indignado: "Quem é que você julga que é? O Fangio?". E era…»


Continuando a citar JBC: «São os supremos momentos em que o mito faz vacilar a realidade e em que, de facto, os objectos dessa mitificação surgem como criaturas do impossível, lendas que se encontram a infinita distância da nossa condição de mortais. “The Seven Year Itch” é o filme construído em torno dessa suprema mitificação de Marilyn, no auge da sua carreira e do seu estatuto de "Star". Por mais extraordinária que tivesse sido antes Marilyn (e basta pensar no “Gentlemen Prefer Blondes” para pensar que foi) é aqui, graças a Wilder e a Axelrod, que o mito se fixou. Aqui e a partir daqui, nos sete anos que lhe restavam para viver, Marilyn foi plenamente Marilyn, o sexo culpado no sexo inocente, e o muito mais que sobre ela tantas vezes se tem dito.


Que o "símbolo do sexo" se transformasse na própria inocência perversa, como se não desse pelo que era e por quem era, foi a portentosa ideia de Wilder (e Axelrod) que subitamente põe tudo e todos de cabeça à roda. Marilyn dissocia a ideia de pecado da ideia do sexo (ao contrário do seu vizinho) e transforma tudo pela varinha mágica da sua inocência, sempre incrível e sempre crível. Está no limite de todas as situações, como os seus célebres planos o demonstram, sabendo e não sabendo do seu poder erótico, usando-o e não o usando, e transformando a imaginação mais delirante (a de Ewell) num imaginário que em muito a ultrapassa. Como Wilder disse: «faz viver uma cena pelo simples facto da sua presença (...) Nas cenas de “Seven Year Itch” em que está no quarto de Ewell praticamente nem precisa de representar: é já e à partida, a mulher mais excitante do mundo, a que faz melhor amor (não sei se é verdade ou não, mas toda a gente o pensa) e toda a sua pessoa faz a cena existir. Há coisas muito especiais que só Marilyn pode fazer.» 


E são, quase ao acaso, a conversa sobre o dedo do pé enfiado no ralo da banheira («But it was sort of embarrassing... Honestly, I almost died. There I was with a perfectly strange plumber and no polish on my toenails», confessa Marilyn), a sequência dos "martelinhos", a recusa perante o "ataque" de Ewell, os vestidos que lhe pede que ate e desate, as propostas para vir dormir para o andar de baixo por causa do ar condicionado, etc., etc., etc. Mas é também (reverso do mesmo verso) os sapatos atirados a Ewell no fim, quando o protagonista foge espavorido depois dos beijos de Marilyn e de ela lhe ter explicado que é de homens assim  que gosta. "Homens assim". A outra ideia genial de Wilder e Axelrod (porventura inspirada nos "homens" de Marilyn no “Gentlemen Prefer Blondes” de Hawks) é fazer coexistir Marilyn com aquele fabuloso personagem, o obcecado sexual, com a própria obsessão sexual. A partir daí tudo pode acontecer e acontece. 




Esta deliciosa comédia vive num triplo registo: as "imaginações" de Ewell, a sua realidade condicionada por elas e o real imaginário de Marilyn, de que nunca sabemos ao certo se parte dumas ou doutra. Ou seja, Marilyn bem pode ser mais uma invenção de Ewell (esse homem com excesso de imaginação - «I think it's just elegant to have an imagination. I just have no imagination at all. I have lots of other things, but I have no imagination», diz Marilyn) e bem pode ser resultante desse imaginário. Anula a distinção entre os dois planos, que aliás o protagonista nunca faz. Se passamos dum plano a outro, sem transição ou com ela, é sempre graças a Marilyn que permite a fabulosa fusão de fabuloso mundo. É a "Líttle Woman" transformada em "The Secret's Life Dormitory", o retrato de Dorian Gray, ou o livro do psiquiatra. Pela varinha dela (a mais mágica de todas) tudo ainda se transforma.


A um homem de meia-idade reprimido (e reprimido principalmente pela visão que dele tem a mulher), cai-lhe do céu aos trambolhões (do andar de cima e do vaso que caiu) aquele ser em casa. E tudo o que lhe contou é muito mais do que sonhou com as famintas secretária, enfermeira e amiga da mulher. Não é preciso Rachmaninoff para aquele resultado. Bastam os "martelinhos" - e já está. A fabulosa sequência imaginária que precede a primeira visita de Marilyn (Ewell de roupão encarnado, lenço de seda, com aquela voz, o 2° concerto, o «Please do») é ultrapassada pela ainda mais fabulosa sequéncia da visita de Marilyn, em que a "Rachmaninoff Girl" se transforma na explicadora de que com um homem casado as coisas são muito mais “elegantes”: «I think it's wonderful that you're married! I think it's just elegant!»; e que o cúmulo da felicidade reside na combinação "a married man", champanhe, ar condicionado e batatas fritas. 


A única coisa que pedimos é que aquilo não pare e que haja mais e mais imaginação de Ewell (e não resisto a sublinhar a famosa história da carroça de feno) e mais e mais aparicôes de Marilyn. Porque à medida que as coisas avançam com Marilyn (ou não avançam) mais o culpado Ewell (vítima de todos os mecanismos que o convenceram das tais comichões) vai vendo culpas à roda dele. Não só toma como real o que imaginou (a recepcâo feita ao amigo) como o que vive transforma o seu imaginário. Assume-se como monstro, criatura de vício, luxo e corrupção, denunciado a toda a América pela televisão e pela sua suposta vítima, e assume que tudo e todos à roda dele têm o comportamento que ele desejava ter.


Enfiado nas psicanálises, nas histórias do polegar, nas capas dos livros, nos tabus sucessivos (do tabaco ao álcool, do álcool às mulheres), é Ewell que reflecte a proibição, carregando o imaginário com os desejos que se proíbe (e que jamais passam a acto). Dentro desse mundo (uma casa, um verão, uma cidade de homens) Marilyn é o mais portentoso dos seus fantasmas, porque é o mais e o menos pecaminoso. É a imagem da própria repressão e a imagem da própria divisão, transformando tudo em uno - no plano do imaginário que é o único a permitir-nos rir tanto desta triste história, padrão de todos os nossos "interditos" e de todas as nossas "clandestinidades". Poucos filmes terão sido tão perversos dessa deterioração duma moral no reverso dela. Nas fronteiras entre a passagem duma moral a outra, dum código a outro e duma repressão a uma permissividade.»


CURIOSIDADES:

- Foi durante a rodagem deste filme que terminou o casamento de Marilyn com o herói do baseball americano  Joe Di Maggio, celebrado nove meses antes

-  A célebre cena do vestido esvoaçante de Marilyn, que o vapor vindo de uma grade do metro faz subir até níveis bem sugestivos, foi inicialmente filmada à uma da madrugada do dia 15 de Setembro de 1954 na Manhattan's Lexington avenue, junto à 52nd street. Apesar da hora, encontravam-se presentes cerca de cinco mil pessoas que iam assobiando e aplaudindo as dezenas de takes que iam sendo filmados. Devido ao constante barulho, Wilder teve de repetir as filmagens mais tarde, nos estúdios da 20th Century Fox, onde foi criada uma réplica do local original. Mesmo assim foram precisos cerca de 40 takes para que a cena ficasse do agrado do realizador. A sequência integral seria no entanto proibida, ficando na montagem final apenas uma parte

- A peça original de George Axelrod estreou-se na Broadway, no Fulton Theater, a 20 de Novembro de 1952, com Tom Ewell (vencedor do Tony Award em 1953) e Vanessa Brown nos principais papeis. Teve 1141 representações

- O célebre vestido branco de Marilyn foi leiloado em Junho de 2001, tendo atingido a cifra de  cinco milhões e meio de dólares, incluindo taxas

- Tom Ewell ganhou o Globo e Ouro para o melhor actor num musical ou comédia. Marilyn Monroe foi nomeada para o BAFTA, na categoria de melhor actriz estrangeira. O prémio foi para Betsy Blair no filme "Marty" 




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