terça-feira, maio 03, 2011

SHARON & ROMAN - A TRAGIC LOVE STORY


«My whole life has been decided by fate.
I've never planned anything that's happened to me»
(Sharon Tate)

Sharon Tate (nascida em Dallas, a 24 de Janeiro de 1943) conheceu Roman Polanski (nascido em Paris, a 18 de Agosto de 1933) em Londres, no Outono de 1966. Ela tinha 23 anos, ele mais dez. Desde os finais de 65 que Sharon se encontrava na capital inglesa, onde fora filmar “Eye of the Devil”, a sua estreia oficial no cinema, depois de ter participado como figurante em alguns filmes (“Barabbas”, “The Americanization of Emily”) e séries televisivas. Não foi amor à primeira vista. Polanski estava a preparar a rodagem de “The Fearless Vampire Killers” e queria a actriz Jill St. John para o papel principal feminino. Só por insistência do produtor, Martin Ransohoff, é que o realizador acabou por concordar na participação de Sharon Tate no filme.
 

As filmagens decorreram em Itália, e o facto de Sharon falar fluentemente o italiano (tinha lá vivido com os pais nos inícios dos anos 60) facilitou em muito a comunicação com os técnicos locais. A princípio céptico em relação às qualidades da jovem actriz, Polanski, já considerado na altura um director perfeccionista, acabou rendido aos encantos de Sharon. Após a conclusão das filmagens foi o regresso a Inglaterra e Sharon mudou-se para o apartamento de Polanski em Londres. Passado algum tempo o love-affair teve de ser interrompido, pois Sharon regressou aos EUA para filmar “Don’t Make Waves”, com Tony Curtis – uma comédia hedonista sem grandes pretensões, mais preocupada em explorar o sol e as praias californianas.
 

Desapontada com o carácter superficial do filme, onde a sua participação foi mais fotogénica do que artística, Sharon chegou a referir-se a ela própria como “sexy little me”. Na verdade, foram as suas fotografias que serviram de base à pré-campanha publicitária levada a cabo nos foyers dos cinemas mais importantes dos Estados Unidos. O filme foi um fracasso junto da crítica e do público, mas contribuíu decisivamente para dar a conhecer o rosto (e o corpo) da nova actriz. Por curiosidade refere-se que foi a personagem de Sharon neste filme que deu origem à boneca Malibu Barbie.
 

Estamos em 1967 e Robert Evans, o patrão da Paramount Pictures, endereça um convite a Roman Polanski para escrever o argumento e dirigir o filme baseado numa novela recém-publicada de Ira Levin, “Rosemary’s Baby”. Polanski aceita de imediato. Será o seu primeiro filme rodado em solo americano e com um orçamento desafogado. Quer obviamente que Sharon Tate participe no filme, mas a sua relação amorosa com a actriz impede-o de expressar publicamente tal desejo. Os produtores acabam por contratar Mia Farrow para interpretar o papel principal e Sharon limita-se a aparecer uma vez mais como figurante (na cena da festa no apartamento do casal) e a ser fotografada pela revista Esquire no set das filmagens, o que contribuíu bastante para publicitar o filme.
 

“Rosemary’s Baby” viria a revelar-se o enorme sucesso que todos conhecem, o que permitiu a Polanski fazer um intervalo na sua carreira. Grande apoiante do flower power (que por essa altura se encontrava no seu apogeu), Roman via em Sharon Tate um símbolo desse movimento: «Ela era a própria bondade para toda a gente e tudo em seu redor – pessoas, animais, tudo», recordaria mais tarde. «O seu carácter é difícil de descrever. Ela era simplesmente totalmente boa, o ser humano mais generoso que eu conheci, com uma paciência extrema. Viver comigo foi uma prova da sua paciência, porque estar perto de mim deve ser uma experiência penosa.» Por seu lado, Sharon, que se encontrava a filmar “Valley of the Dolls”, confessaria que se encontrava loucamente apaixonada por Polanski.
 

Nos finais de 1967 Roman e Sharon regressam a Londres, onde se virão a casar em Chelsea, a 20 de Janeiro de 1968, no meio de grande alarido por parte dos media. O fotógrafo Peter Evans descreveria mais tarde o casal nos seguintes termos: «They were the Douglas Fairbanks / Mary Pickford of our time... Cool, nomadic, talented and nicely shocking.» A lua de mel seria passada em Belgravia, numa casa que Polanski possuía em Eaton Square. 
 

Após o regresso a Los Angeles integraram-se rapidamente na comunidade artística local, meio onde eram constantes as presenças dos jovens talentos da época, quer no campo do cinema quer no da música: Steve McQueen, Warren Beatty, Peter Sellers, Jacqueline Bisset, Leslie Caron, Peter e Jane Fonda, Jim Morrison, os Mamas and Papas, eram os mais colunáveis, entre muitos outros. Depois de uma estadia no Hotel Chateau Marmont, o casal Polanski mudou-se para Beverly Hills, alugando a casa que outrora pertencera à actriz Patty Duke.
 

No Verão de 68 Sharon Tate iniciou as filmagens de uma nova comédia, “The Wrecking Crew”, com o actor Dean Martin. Desempenhou as cenas mais arriscadas, dispensando ser dobrada, mas para tal teve aulas de artes marciais dadas pelo lendário Bruce Lee. Contrariamente ao filme em si, o desempenho de Sharon foi em geral bem recebido. O crítico Vincent Canby, do New York Times, chegou a escrever: «The only nice thing is Sharon Tate, a tall, really great-looking girl.» Alguns meses antes, em Fevereiro, Sharon tinha recebido a nomeação para o Globo de Ouro na categoria de Actriz Mais Promissora, pelo filme “Valley of the Dolls” (o prémio seria atribuído a Katharine Ross por “The Graduate”).
 

No final do ano Sharon já se encontrava grávida e no dia 15 de Fevereiro de 1969 o casal mudou-se para 10050 Cielo Drive, em Benedict Canyon, para a casa que até então tinha sido ocupada pelo produtor discográfico Terry Melcher e a sua companheira, a actriz Candice Bergen, dois dos seus amigos mais chegados. Radiante e encorajada pelas boas críticas ao seu último trabalho, Sharon decidiu protagonizar “12 + 1”, um filme de produção franco-italiana, onde teria a oportunidade de contracenar com o grande Orson Welles.
 

As filmagens iniciaram-se em Março, em Itália, e Polanski aproveitou para passar esse tempo em Londres. Após a conclusão da rodagem, Sharon reuniu-se ao marido, tendo aproveitado para fazer uma série de reportagens fotográficas para a revista Queen. A 20 de Julho regressou sózinha a Los Angeles, porque o bébé deveria nascer em Agosto. Polanski ainda ficou por Londres em virtude de se encontrar a trabalhar num projecto que se não viria a concretizar: um filme de suspense intitulado “The Day of the Daulphin”.
 

Os dias passavam e Sharon queria que Polanski se lhe juntasse o mais depressa possível, porque o bébé estava quase a nascer. Na sexta-feira, dia 8 de Agosto, Sharon insistiu uma vez mais com o marido por telefone. Mas devido a um problema com o VISA dele só lhe seria possível viajar na segunda-feira seguinte. No sábado o telefone tocou uma vez mais. Polanski ficou surpreendido ao perceber que se tratava do seu amigo e agente Bill Tennant. «Aconteceu um desastre na casa.», disse ele. «Foram todos mortos.» Polanski não conseguia compreender o que aquilo significava: «Foi um desmoramento?», perguntou. «Não», respondeu Billy, «Eles foram todos assassinados. Todos eles.»
 

A chacina ocorrera pouco depois da meia-noite de sexta-feira e por mais incrível que possa parecer as vítimas não deveriam ter sido  Sharon e as pessoas que lhe tinham feito companhia ao jantar. Terry Melcher, o antigo residente na mansão, tinha em tempos sido apresentado por Dennis Wilson (dos Beach Boys) a Charles Manson, um cantor fracassado que tinha passado a maior parte da sua vida na cadeia. Este, que ambicionava gravar um disco a todo o custo, nunca mais largou Melcher insistindo vezes sem conta por um contrato de gravação. Como este lhe foi sendo sempre negado, Manson perdeu a paciência e resolveu vingar-se do produtor. Ordenou então aos elementos do seu gang (que viviam com ele num rancho, em San Fernando Valley) para invadirem a casa e darem cabo de todos quantos lá se encontrassem.
 

Charles Watson, Susan Atkins e Patricia Krenwinkel foram os assassinos que levaram a cabo as ordens de Manson. Amarraram as vítimas e esfaquearam-nas dezenas de vezes (o primeiro confessou na sua biografia ter esfaqueado Sharon Tate por 16 vezes, enquanto ela lhe suplicava pela vida do filho que trazia no ventre). Os corpos foram encontrados na manhã seguinte pela governanta, Winifred Chapman. Sharon e Jay Sebring (um cabeleireiro de celebridades que chegou a ter um caso com a actriz antes desta conhecer Polanski) encontravam-se na sala de visitas, com uma longa corda a uni-los pelo pescoço; Voytek Frykowski (amigo de longa data de Polanski) e a sua mulher, Abigail Folger, jaziam na relva, junto à entrada. Nas paredes, um pouco por todo o lado, figuravam inscrições com o sangue das vítimas, a maioria alusiva a canções do Album Branco dos Beatles (“Piggies”, “Helter Skelter”, “Blackbird” “Revolution nº 9”). Num carro estacionado na rua a polícia encontrou ainda o corpo de um jovem, Steven Parent, que não tinha qualquer relação com os habitantes da casa e que só por acaso ali se encontrava.
 

Quando chegou a Los Angeles, o sofrimento de Polanski transformou-se em raiva ao dar-se conta que a memória da mulher e dos amigos estava a ser vilipendiada pelos meios de comunicação social, que inventaram uma série de razões (desde orgias sexuais a rituais satânicos) para justificaram os crimes. Na quarta-feira seguinte, dia 13 de Agosto, Sharon Tate foi sepultada no cemitério Holy Cross, juntamente com o filho, Paul Richard Polanski (nome atribuído por Roman e pelos pais de Sharon). Jay Sebring seria também enterrado nesse mesmo dia mas várias horas depois.
 

Só passados 4 meses, em Dezembro, é que a polícia conseguiu desvendar o crime e prender a então chamada “família Manson”. O julgamento teve início em 1970 e só terminou um ano depois. A primeira sentença foi a condenação à morte mas devido aos recursos dos advogados foi depois comutada em prisão perpétua. Com excepção de Susan Atkins, que morreu em 2009, com 61 anos, todos os restantes se encontram ainda presos, pois foi negada qualquer petição de liberdade condicional das interpostas ao longo dos anos. Polanski escreveria mais tarde nas suas memórias:  «a morte de Sharon foi o único momento crítico na minha vida que realmente teve importância.»
 

A casa de 10050 Cielo Drive foi demolida em 1994 e em seu lugar foi construída uma mansão de estilo italiano. Posta à venda por 12,5 milhões de dólares não conseguiu atrair qualquer comprador, devido aos acontecimentos lá ocorridos. E isto apesar da direcção da rua também ter sido alterada. Recentemente o preço baixou para cerca de 8 milhões mas a casa continua por vender. 


3 comentários:

José Luís disse...

Esta fotografia é lindíssima; já a guardei no meu PC.
Abraços.
Zé Luís

Billy Rider disse...

Lembro-me muito bem dos rios de tinta que o caso Manson originou, cada um deles mais delirante do que o precedente. Nessa altura, como hoje, já se queriam vender jornais e revistas a todo o custo. Até a respeitada LIFE editou um número mais ou menos escabroso com várias fotos da matança.

José Morais disse...

Texto e imagens impecáveis, como sempre. Obrigado, Rato!