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quarta-feira, setembro 02, 2015

JOHNNY GOT HIS GUN (1971)

E DERAM-LHE UMA ESPINGARDA...
Um filme de DALTON TRUMBO




Com Timothy Bottoms, Kathy Fields, Marsha Hunt, Jason Robards, Donald Sutherland, Diane Varsi, Charles McGraw, Sandy Brown Wyeth, Donald Barry, etc.

EUA / 111 min / Cor e PB /
16X9 (1.66:1)


Estreia em FRANÇA a 14/5/1971 (Festival de Cannes)
Estreia nos EUA a 4/8/1971 (New York)
Estreia em PORTUGAL a 23/7/1975 (Lisboa, cinema Império)


Joe: «I don't know whether I'm alive and dreaming 
or dead and remembering»

Dalton Trumbo (1905-1976) foi um prolífero e galardoado escritor de Hollywood, responsável por muitos e célebres argumentos de filmes: “Roman Holiday” (1953), “Spartacus” (1960), “Exodus” (1960), “The Sandpiper” (1965), “The Fixer” (1968), “Papillon” (1973) ou “Always” (1989) são alguns dos seus trabalhos mais conhecidos. Durante 6 anos (1943-1948) esteve filiado no Partido Comunista americano, o que o levou a ser integrado na célebre lista negra – os 10 de Hollywood – durante o período da “caça às bruxas”, tendo passado 11 meses na prisão federal em Ashland, Kentucky. Depois de cumprida a sentença, foi viver para o México, onde continuou a escrever para o cinema, mas sob os mais diversos pseudónimos. Chegou inclusivé a ganhar dois Óscares: o primeiro em 1954, com a assinatura de Ian McLellan Hunter, pelo filme “Roman Holiday”; e o segundo em 1957, dessa vez como Robert Rich, pelo filme “The Brave One”. Nos inícios da década de 60, Trumbo foi finalmente reintegrado no sindicato de argumentistas de Hollywood.


Aos 65 anos, Dalton Trumbo realiza o seu único filme, precisamente este “Johnny Got His Gun”, baseado na sua própria novela, escrita e publicada 33 anos antes, em 1937. Com colaboração de Luis Buñuel, que dirigiu as sequências em que intervém Jesus Cristo (Donald Sutherland), o filme atingiu rapidamente o status de cult-movie, devido à sua pouca visibilidade, um pouco por todo o lado. Proibidissimo no tempo da ditadura, só depois de Abril de 1974, com o fim da censura, é que “Johnny Got His Gun” pôde ser apresentado em Portugal. Vi-o em ante-estreia, a 23 de Julho de 1975, no cinema Império, em Lisboa, integrado no XII Ciclo da Casa da Imprensa.


Trata-se de um filme impressionante, de uma espantosa violência. Não a violência vulgar dos tiros, dos murros, ou do sangue, mas a violência cruel e esmagadora duma realidade diabolicamente viva. De novo a guerra e as suas consequências – ou melhor, uma das suas mais dramáticas consequências. É a história de um homem destroçado, física e mentalmente. Sem pernas, sem braços, com um buraco enorme no rosto - reduzido apenas ao tronco e ao cérebro, devido ao rebentamento de uma granada no último dia da I Guerra Mundial, Joe Bonham (Timothy Bottoms) não é mais do que um pedaço informe de “carne inteligente”, designado por “casualidade não identificada nº 47”. Que teima em não morrer. A medicina e a ciência rejubilam com a vitória alcançada, ignorando o trágico sofrimento daquele ser e vislumbrando apenas matéria-prima para experiências. O médico que o “salvou” esconde-o dos olhos dos leigos e mostra-o como troféu aos seus pares - o  grande momento da sua carreira!

Mas Dalton Trumbo vai mais longe. O seu filme é, também, uma crítica intransigente à mentalidade bélica dos americanos. Em nome de um falso patriotismo (habilmente transformado em sinónimo de interesses) tudo se sacrifica, tudo se justifica. Até (coloquemo-nos na época – 1918 – e no esquema social vigente) a própria virgindade de uma filha... pouco menos do que sagrada. Com efeito, partilhamos com Joe a sua primeira experiência sexual. A rapariga, Kareen (Kathy Fields), está em casa, sentada ao seu colo. O pai chega e surpreende-os em mútuas carícias. Espera-se uma descompostura e a expulsão do rapaz, tal como mandava a tradição na época. Mas após um breve lampejo de fúria a reacção é precisamente a oposta. Que diabo, Joe parte para a guerra no dia seguinte e há que lhe dar as honras devidas aos heróis, há que ser-se condescendente, há que ser-se patriótico.


Duplamente galardoado em Cannes (Prémio FIPRESCI e Grande Prémio do Júri), “Johnny Got His Gun” é de longe o melhor filme anti-guerra jamais realizado. O seu grande horror reside sobretudo no que não é mostrado no écran, uma vez que vemos apenas um lençol branco a cobrir os restos do que em tempos foi um homem. A imaginação transcende sempre a realidade, e Dalton Trumbo soube muito bem passar a sua mensagem. Quer filmando alternadamente a cores (para as fantasias e as lembranças) e a preto-e-branco (para a realidade) quer utilizando a voz-off para que o público pudesse ouvir os pensamentos de Joe Bonham. Socorrendo-se também de cenas de reportagens verídicas, Trumbo destribui a sua narrativa por vários hospitais, onde Joe é mantido em segredo, fechado em quartos vazios, mantido a soro e a oxigénio.

Num desses hospitais Joe encontra uma enfermeira que se interessa humanamente por ele: toca-o sem repulsa, beija-lhe a fronte, chega mesmo a masturbá-lo, ao dar-se conta que é um prazer que ele ainda é capaz de sentir. Entre os dois conseguem estabelecer uma via de comunicação (por sinais em linguagem morse) o que possibilita Joe a dar a conhecer o seu desejo: quer ser exibido de feira em feira, quer que as pessoas se apercebam daquilo que uma guerra pode criar. A recusa dos médicos a tal pedido é obviamente a reacção esperada e a Joe só lhe resta implorar por uma morte piedosa. Mas uma vez mais esbarra na cegueira de todos para quem a práctica da eutanásia é imoral, por muito desesperados que sejam os seus apelos: «SOS – help me – SOS – help me – SOS – help me...» Dalton Trumbo realizou um filme onde a fronteira entre a vida e a morte se reduz a uma linha terrivelmente difusa. Onde – ainda mais importante – a guerra e os sistemas políticos que a alimentam (quase sempre em nome da paz) são intransigentemente denunciados. Por alguma razão Dalton Trumbo foi um dos “malditos” do cinema americano.




domingo, agosto 30, 2015

C’ERA UNA VOLTA IL WEST (1968)

ACONTECEU NO OESTE
Um filme de SERGIO LEONE

Com Claudia Cardinale, Henry Fonda, Jason Robards, Charles Bronson, Gabriele Ferzetti, Paolo Stoppa, Woody Strode, Frank Wolff, Keenan Wynn, etc.

ITÁLIA-EUA-ESPANHA / 165 min /
COR 16X9 (2.35:1)

Estreia em ITÁLIA: 21/12/1968
Estreia nos EUA: NY, 28/5/1969
Estreia em PORTUGAL: 31/3/1970

Frank: «Keep your lovin' brother happy!»

Encomenda aceite por Sergio Leone como condição necessária para que lhe fosse autorizada a realização do projecto “Once Upon A Time In America” (filme que seria a sua derradeira obra, já nos anos 80), este western-súmula de todos os westerns viria a tornar-se um dos mais amados clássicos do género. Escrito por Bernardo Bertolucci, Dario Argento e o próprio Leone, como homenagem aos westerns mais célebres da história (onde pontificam, pela referência mais óbvia, “High Noon”, “Johnny Guitar”, “The Last Sunset”, “My Darling Clementine” ou “The Iron Horse”, entre várias dezenas de outros filmes), “Once Upon A Time In The West” viria a tornar-se, porém, num western completamente atípico, onde os diversos personagens estão envolvidos num véu de mistérios sombrios, que seriam paulatinamente revelados ao público durante o decorrer da história. Ou seja, contrariamente ao que se possa pensar, Leone não se limitou a decalcar situações já existentes em outros filmes, mas, pelo contrário, reinventa-as dentro do seu estilo muito particular.


Filme lento e contemplativo (sugerindo “os últimos suspiros” antes da morte, como Leone o caracterizava), rodado em cenários inóspitos do Utah (no Monument Valley, onde muitos filmes de John Ford foram feitos) e de Almeria, no sul de Espanha (onde a cidade de Flagstone foi erigida), “Aconteceu no Oeste” é um autêntico bailado operático, onde a música de Morricone e as imagens de Tonino Delli Colli coreografam sequências admiráveis em que a lentidão de processos atinge picos inusitados de uma beleza sufocante, raras vezes transmitida com tamanha carga hipnótica de encantamento. «Para mim», disse Leone na altura, «a banda sonora é o verdadeiro diálogo do filme. Nesse sentido, Ennio é o meu melhor argumentista». Cheio de razão, o genial cineasta italiano.


Na realidade, e contrariamente ao usual procedimento em cinema, Morricone compôs toda a partitura (um tema distinto para cada personagem) antes até das filmagens se iniciarem, o que permitiu que a música acompanhasse ao vivo a maior parte da rodagem. Daí talvez a explicação pela sensação constante de estarmos perante um espectáculo de acentuado cunho operático. Mesmo quando a música é substituída por sons, como na inesquecível sequência de abertura, onde durante cerca de 15 minutos somos como que hipnotizados por aquilo que se passa (ou não se passa) no écran.  Assim, e uma vez mais, Leone prefere contar a sua história através de meios essencialmente visuais, o que só engradece a obra em termos cinemáticos (na maior parte dos grandes filmes da história do cinema pode-se constatar esta preferência pelo olhar, em detrimento da palavra).


No que diz respeito ao elenco, Leone desenvolveu pela primeira vez um personagem feminino forte, à volta do qual todo o filme se constrói, e a que Claudia Cardinale transmite uma dimensão épica de pioneira do novo oeste. Ela é Jill McBain, apelido conseguido através do casamento recente com Brett McBain (Frank Wolff), por procuração. Antiga prostituta, vinda de New Orleans com o intuito de refazer a vida, mas que à sua espera tem os corpos do novo marido (e dos seus filhos) brutalmente assassinados. Jason Robards está magnífico como Cheyenne, um pistoleiro cansado e já desencantado pela vida, e Charles Bronson nunca foi filmado desta maneira em toda a sua carreira; a gaita de beiços que ele toca persistentemente, como augúrio de desgraças – e que dá nome ao seu personagem (“Harmonica”) – tornar-se-ia, ela própria, um instrumento fétiche do filme. Mas a grande surpresa é sem dúvida Henry Fonda, que aqui cria uma das figuras mais sádicas da história do cinema, ele que até então personificava sempre os maiores heróis americanos. De tal modo a sua interpretação foi conseguida que a cena do assassínio da criança foi sistematicamente cortada em todas as exibições comerciais do filme nos Estados Unidos. É que os americanos sempre gostaram muito de preservar os seus mitos pessoais...


Como seria de esperar, o filme foi na altura da sua estreia um autêntico fracasso, até porque nesse final dos anos 60 o western estava já morto e enterrado. Sobretudo nos Estados Unidos, onde mais uma vez uma obra de arte foi mutilada (em cerca de 20 minutos) em nome do comércio e do lucro fácil. A versão completa foi apenas exibida em França, onde, aí sim, o filme começou a ganhar rapidamente um público fiel que o iria transformar num objecto de culto e arte. Hoje, e como geralmente o tempo é bom conselheiro, “Aconteceu no Oeste” figura quase sempre nas listagens dos melhores filmes de sempre, tendo mesmo um lugar cativo no Top 10 dos melhores westerns. Partilho essa preferência, ao ponto de o considerar pessoalmente o melhor western de todos os tempos, e um dos filmes mais belos da história do cinema.


A edição especial de coleccionador vinda a público em duplo DVD (e mais recentemente em blu-ray) é um pequeno tesouro para todos os fans do filme, porque para além da completa e magnífica remasterização digital efectuada, oferece-nos ainda uma série de extras, entre os quais se destacam um trio de documentários (legendados em português) sobre a produção, o realizador e o elenco e também um comentário áudio brilhante do historiador de cinema Sir Christopher Frayling (onde transparece toda a fascinação sentida pela obra em análise) ao qual se juntam também outras pessoas ilustres da sétima arte: John Carpenter, Bernardo Bertolucci, John Milius e até a própria Claudia Cardinale.


CURIOSIDADES:

- Al Mulock, que interpreta um dos três pistoleiros da sequência de abertura, veio a suicidar-se durante as filmagens, tendo-se atirado da janela do hotel onde os actores e técnicos se encontravam hospedados (localizado em Guadix, a cerca de 80 km de Almeria). O actor tinha perdido a mulher um ano antes, vítima de cancro, tendo-se tornado viciado em drogas desde essa altura.

- O futuro realizador John Landis participou como duplo neste filme.

- Henry Fonda, que de início não queria entrar no filme, foi convencido por Leone que o queria pela primeira vez a interpretar um personagem malévolo, nada condizente com a imagem a que o actor tinha habituado o seu público. Como consequência, o cinema ganhou para o seu album de memórias, um dos mais frios e sinistros vilões da história. Outro pormenor, ilustrativo da perspicácia de Leone, foi o facto do realizador querer aproveitar a cor dos olhos do actor, o qual pretendia usar lentes de contacto para os escurecer.

- Mais de metade do orçamento do filme foi gasto no pagamento dos salários dos actores.




- Leone pretendia reunir os três actores de " The Good, The Bad and The Ugly" (Clint Eastwood, Lee Van Cleef and Eli Wallach) para interpretarem apenas a célebre sequência inicial (sendo mortos por Harmonica ao fim dos primeiros 15 minutos). Mas dada a indisponibilidade de Clint Eastwood abandonou a ideia.

- A filmagem do duelo final entre Frank e Harmonica é practicamente decalcada da que consta no filme de Robert Aldrich, “The Last Sunset” (entre Rock Hudson e Kirk Douglas), filme de que Bernardo Bertolucci era grande fã.

- Charles Bronson foi a terceira escolha para o papel de Harmonica, depois de Clint Eastwood e James Coburn o terem recusado. Esatwood por se encontrar indisponível e Coburn por ter exigido muito dinheiro.

- Quando a equipa de filmagens chegou a Almeria encontrou grandes pilhas de madeira, deixadas no local desde que em 1965 Orson Welles aí tinha rodado o filme “Falstaff”. Essas madeiras foram aproveitadas para erigir a plataforma onde decorre o início do filme e também na construção da cabana do rancho de Brett McBain. Esse local foi preservado, com o nome de “Rancho Leone”, e ainda hoje se encontra aberto ao público. Quem passar por Almeria…

- As filmagens concluíram-se nos finais de Julho de 1968, tendo totalizado 110 dias.

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