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sábado, agosto 01, 2015

MAGIC IN THE MOONLIGHT (2014)

MAGIA AO LUAR
Um filme de WOODY ALLEN




Com Colin Firth, Emma Stone, Eileen Atkins, Simon McBurney, Marcia Gay Harden, Erica Leerhsen, etc.

US-UK / 97 min / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA: 25/7/2014
Estreia em Portugal: 4/9/2014


Stanley: «I can't forgive you, only God can forgive you»
Sophie: «But you said there is no God»
Stanley: «Precisely my point»


 Esta comédia de Woody Allen traz-me ao pensamento o poema-canção de Jacques Brel, "Dites, Si C'était Vrai", onde o genial compositor belga se interroga sobre a veracidade de alguns acontecimentos bíblicos (o nascimento de Cristo, os Reis Magos ou o ressuscitar de Lázaro, por exemplo), para concluir: «Si c'était vrai tout cela / Je dirais oui / Oh, sûrement je dirais oui / Parce que c'est tellement beau tout cela / Quando on croit que c'est vrai». Ou seja, uma metáfora sobre o verdadeiro significado das coisas, que só passam a existir para nós quando nelas acreditamos. Tal como Stanley Crawford (Colin Firth) é convencido dos poderes extra-sensoriais de Sophie (lindissima Emma Stone, cuja bela actuação é claramente influenciada por Diane Keaton, antiga musa de Allen), facto que de certo modo o alivia, por poder assim entregar-se aos prazeres mundanos, sem a companhia incómoda do racional e da lógica das coisas.


Uma das frases-feitas que nos habituámos a ouvir ao longo da vida é aquela que refere que "felizes são os ignorantes ou os pobres-de-espírito". Que é necessária uma dose de auto-engano para nos sentirmos bem, conosco ou com os outros. Ou que a ingenuidade infantil deverá ser preservada na idade adulta. "Magic In The Moonlight" fala-nos um pouco de tudo isso e, como o próprio título sugere, dá-nos a receita: o segredo para experimentarmos um pouco de felicidade está mesmo na magia. Não na magia do ilusionismo (do qual Stanley é um conhecedor exímio), mas na outra, na magia dos sentimentos, que não se consegue explicar, que é avessa a qualquer lógica ou método racional (e nesta, Stanley é um completo analfabeto): «I have irrational positive feelings for Sophie Baker», confessa ele à tia, bastante incomodado.


A verdadeira magia acontece justamente quando Stanley (um profissional que se disfarça de chinês - o grande Wei Ling Soo - para actuar um pouco em todo o mundo em espectáculos de ilusionismo) se vê encurralado num beco sem saída, passando a questionar todas as suas convicções devido às emoções inéditas que ameaçam preencher-lhe o vazio interior, até ali imune a qualquer investida mais importante. Stanley, adepto ferveroso das doutrinas de Nietzsche, é um inglês arrogante e narcisista, com uma enorme aversão aos falsos-espíritas. Persuadido por um velho amigo, Stanley parte em cruzada para a Côte d'Azur dos anos 20,  determinado a desmacarar uma jovem americana, conhecida por ter grandes poderes extra-sensoriais na comunidade local. Mas aquilo que de início parecia uma tarefa fácil, começa a revelar-se problemática, visto Sophie Baker parecer efectivamente ter o condão de adivinhar factos do passado e até estabelecer contacto com o mundo do Além. Mas nem tudo o que parece, é...



"Magic In The Moonlight" não pretende ir mais além nos seus propósitos: os de ser uma comédia romântica, muito agradável de se ver (apesar dos seus "altos e baixos"), e com um lote de óptimos intérpretes (o nome de Colin Firth é por si só uma boa garantia, mas quero destacar também a veterana Eileen Atkins, que aos 80 anos compõe a deliciosa personagem da tia Vanessa) e ainda uma banda-sonora repleta de standards da época, como aliás é característico dos filmes de Woody Allen. Só não gostei da cinematografia, que aposta nos tons berrantes e ultra-saturados. Percebe-se a ideia de realçar o romantismo dos anos 20, mas penso que foi uma opção errada, e que leva a que algumas sequências estejam bastante escuras. A escolha oposta teria, a meu ver, valorizado muito o filme.




PORTFOLIO:

terça-feira, outubro 01, 2013

BLUE JASMINE (2013)

BLUE JASMINE
Um Filme de WOODY ALLEN



Com Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins, Andrew Dice Clay, Max Rutherford, etc.

EUA / 98 min / COR / 16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 26/7/2013 
(Los Angeles / New York)
Estreia em PORTUGAL: 12/9/2013




No meio de uma programação que à medida que os anos passam vai aumentando o seu índice de imbecilidade, tornando uma deslocação ao cinema numa tarefa cada vez mais penosa, ver um filme de Woody Allen é como fazer-se um seguro contra atentados à inteligência do espectador. Com efeito, por mais desinteressante que seja um filme seu, temos sempre a garantia de não sermos agredidos intelectualmente e podermos passar duas horas no mínimo agradáveis. O que no presente caso peca por defeito, uma vez que “Blue Jasmine” nos consegue transportar para níveis superiores, muito mais prazenteiros.

Com efeito, depois do seu mais recente périplo europeu, por cidades como Roma (“Para Roma com Amor”, 2012), Paris (“Meia-noite em Paris”, 2011) ou, lá mais para trás, Barcelona (“Vicky Cristina Barcelona”, 2008), Woody Allen regressa aos Estados Unidos, onde se sente como peixe na água. Desta vez o palco não se cinge apenas à sua querida Nova Iorque mas também a São Francisco - duas cidades que se localizam em zonas opostas do território norte-americano, à semelhança das duas narrativas que nelas se vão centrar.


“Blue Jasmine”, que não conta com Allen entre os intérpretes, alberga uma jóia resplandescente, a prestação fabulosa de Cate Blanchett (seríssima candidata a um futuro Óscar?), a actriz de origem australiana que, entre outras, já nos tinha presenteado com uma interpretação memorável no filme “O estranho caso de Benjamin Button” (2008). Aqui é a neurótica que dá o nome ao filme, uma personagem sempre à beira do precipício, egoísta, desprezível, mas também ardente e até comovente, que vai oscilando entre estados de alma diametralmente opostos, desde a frivolidade característica das classes altas até ao conformismo e frustrações que são apanágio das classes mais desfavorecidas.


Allen apresenta-nos todo o filme em montagem paralela, pelo que podemos ir acompanhando Jasmine (nascida Jeanette) nas suas "duas vidas": no mundo abastado de um marido endinheirado (Alec Baldwin, aqui na sua terceira colaboração com Allen), que acabará por se suicidar por causa de fraudes em negócios escuros e no mundo depressivo que rodeia a irmã Ginger (a também excelente Sally Hawkins), de parcos recursos e horizontes pouco lisonjeiros.


Esta dicotomia entre o modus vivendus de cada uma das duas irmãs (ambas filhas adoptivas), traz à colação Tenesse Williams e "A Streetcar Named Desire", peça que muito provavelmente terá povoado o espírito de Allen enquanto escrevia o argumento de "Blue Jasmine". Sem tomar partido, expondo sem piedade ou relutância aqueles dois extractos tão afastados das sociedades modernas, Allen dá-nos um dos seus registos mais crueis, mas também, e paradoxalmente, um dos mais humanos.


"Blue Jasmine" será considerado dentro de alguns anos, tudo o indica, um dos clássicos do realizador, à semelhança do que já acontece há muito com "Annie Hall" ou "Manhattan", por exemplo. Por enquanto não chega lá, até porque ainda não ultrapassou o imprescindível teste do tempo. Mas de uma coisa tenho a certeza: desde "Match Point" (2005) que não sentia um prazer cinéfilo tão genuíno ao visionar um filme de Woody Allen.

terça-feira, setembro 13, 2011

BANANAS (1971)

BANANAS
Um filme de WOODY ALLEN




Com Woody Allen, Louise Lasser, Carlos Montalban, Natividad Abascal, Jacobo Morales, Miguel Suarez, David Ortiz, Sylvester Stallone

EUA / 82 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA a 28/4/1971 (New York)
Estreia em MOÇAMBIQUE a 8/9/1972
(LM, teatro Gil Vicente)


Esposito: «From this day on, the official language of San Marcos will be Swedish. Silence! In addition to that, all citizens will be required to change their underwear every half-hour. Underwear will be worn on the outside so we can check. Furthermore, all children under 16 years old are now... 16 years old!»

Desde o início da sua carreira que Woody Allen nos habituou a vê-lo em várias funções no cinema - como argumentista, como actor, como realizador. Por esta ordem, atendendo a que só depois de ser actor é que dirigiu um filme e porque foi pela escrita que ele começou o seu brilhante trajecto, quando logo aos 17 anos começou a idealizar gags para alguns dos cómicos da época: Sid Caesar, Garry Moore, Sid Corney, tornando-se rapidamente um dos nomes mais importantes do show business e da TV americana. Foi o autor ainda de algumas peças de teatro (mais tarde adaptadas ao cinema), sendo também conhecido por alguns livros e discos humorísticos. A primeira contribuição para o cinema, dá-se em 1965 (no filme “What’s New Pussycat”, de Clive Donner – como argumentista e actor), tendo continuação dois anos depois nos filmes “Casino Royale” (colaborou no argumento, embora não creditado) e “What’s Up Tiger Lily?” (adaptação de um filme de espionagem japonês). 1969 é o ano em que pela primeira vez é o responsável total: pelo argumento, pela realização e como intérprete. O filme chamou-se “Take The Money and Run” e marcou o início do contacto de Woody Allen com o público cinéfilo.

Durante meia dúzia de anos, Allen iria comportar-se como um agricultor que lança as sementes à terra. “Bananas” (1971), “Play It Again, Sam” (1972), “Everything You Always Wanted To Know About Sex, But Were Afraid To Ask” (1972), “Sleeper” (1973) e “Love And Death” (1975), para além do primeiro filme, foram os campos que receberam as ideias, os gags, os tiques de um artista que nunca mais abandonaria as lides cinematográficas. Como sabemos hoje, mais de 40 anos passados, aquelas terras virgens tornar-se-iam extremamente férteis, tendo a primeira grande colheita sido feita logo em 1977, quando “Annie Hall” se estreou.

De todo este seu período inicial, o filme que mais se aproxima de “Annie Hall” é talvez “Play It Again, Sam”, onde, curiosamente, Allen não assina a realização (que esteve a cargo de Herbert Ross), mas no qual a sua imagem de marca se faz sentir fortemente, quer pela autoria do argumento (segundo a sua própria peça) quer pela inesquecível interpretação do herói que sonhava com Humphrey Bogart. Mas hoje quero recordar este seu segundo filme, “Bananas”, que foi um dos grandes responsáveis pela notoriedade que Allen passou a usufruir nos quatro cantos do mundo. Para a grande maioria do público foi mesmo o primeiro contacto com este judeu nova-iorquino, de seu nome completo, Allen Stewart Konisgsberg, nascido em Brooklyn, a 1 de Dezembro de 1935.


Com um orçamento de 2 milhões de dólares, “Bananas” inicia-se com uma reportagem em directo da República de San Marcos, sobre o anunciado assassínio do presidente em funções: «Good afternoon. Wide World of Sports is in the little republic of San Marcos where we're going to bring you a live, on the spot assassination. They're going to kill the president of this lovely Latin American country and replace him with a military dictatorship. And everybody is about as excited and tense as can be. The weather on this Sunday afternoon is perfect; and if you've just joined us, we've seen a series of colorful riots that started with the traditional bombing of the American embassy - a ritual as old as the city itself.»  Ou seja, logo nos primeiros minutos do filme estão lançados os dados para uma comédia subversiva, com muito nonsense à mistura, à boa maneira do humor delirante de uns Marx Brothers.

Aliás, de todos os cómicos emergentes no final dos anos 60, Woody Allen era aquele que mais se aproximava do humor de Groucho Marx. E que utilizava melhor o diálogo nesse sentido, soltando réplicas repentistas que liquidavam o interlocutor pela lógica e pela agressividade. Neste início de carreira Allen não tinha já qualquer problema em assumir as suas origens, usando o riso como uma espécie de exorcismo para controlar uma realidade que lhe escapa. Kafka demonstrou-o na literatura. Woody Allen repete-o em cada filme seu. Albert Memmi, um outro judeu lúcido, escreveu: «Quando o revoltado não pode revoltar-se, ri.» É isso que Allen faz. Inventa a ironia para desarmar a adversidade, antecipa a crítica pela auto-crítica, expondo-se tal como é (ambições e desejos, mesmo os mais íntimos) perante a câmara que ele próprio vai orientando.

Woody Allen gosta de fazer cinema e gosta de fazer rir. Olha para a sociedade que o rodeia, arranca-lhe os podres, toca-lhe nos pontos fracos, destrói-lhe a camada de verniz que a cobre, e atira-a para a tela, com o ar truculento e brincalhão dum menino que, com a maior das inocências, desmanchou a telefonia do pai, só para ver como era. O resultado é quase sempre pouco cerimonioso, Allen diz o que tem a dizer sem papas na língua. Mostra o que tem a mostrar sem filtros nas lentes. E sabe muito bem que o burlesco, quando verdadeiramente burlesco, é duma agressividade feroz e acerada que não perdoa.

Nunca teve o génio de um Chaplin ou de um Bergman, mas reconheceu-o sempre, ao elogiar sem reservas todos os seus ídolos, ao longo dos anos e no decurso de muitas entrevistas e escritos. E a prestar-lhes os devidos tributos, como não se coíbe de o fazer neste seu segundo filme. Como por exemplo a Eisenstein (um carrinho de bébé a descer umas escadarias, tal como no “Couraçado Potiemkin”) Keaton (a cena das execuções em série) , Bergman (o sonho descrito na psiquiatra, com conotações óbvias a “Wild Strawberries”) ou a Chaplin: as sequências da experimentação dos novos dispositivos nos locais de trabalho e a liderança de um grupo de religiosos com a chave de porcas em cruz (alusões directas a “Modern Times”).

Mas para lá destes piscar de olhos aos clássicos, os gags são o elemento fulcral de “Bananas”, acumulando-se ao longo dos 82 minutos de duração do filme: a compra das revistas pornográficas, a ajuda eficaz ao parqueamento de um carro, a pequena orquestra de cordas a acompanhar o jantar que toca sem instrumentos, os preparativos para a sedução de Nancy (Louise Lasser, actriz acabada nessa altura de se divorciar de Allen), os treinos de guerrilha, toda a sequência do tribunal, a publicidade na igreja de uma nova marca de cigarros, o “Novo Testamento” («eu fumo», diz o padre. E acrescenta: «e Ele também!»), que originou um voto de protesto da Igreja católica sobre o filme, ou ainda a última reportagem em directo sobre a noite de núpcias do casal, a evocar certamente o bed-in de John e Yoko em Amsterdam alguns anos antes.

“Bananas” é uma comédia hilariante, que poderá parecer datada aqui ou ali, mas que continua a divertir-nos porque, no fim de contas, o mundo não mudou assim tanto. E as repúblicas das bananas, chefiadas por pequenos ditadores, continuam a existir, um pouco por todo o lado. Além disso é um filme-charneira, tremendamente inovador, que influenciou muitos realizadores das décadas subsequentes, nomeadamente Mel Brooks, Jim Abrahams e David Zucker, herdeiros legítimos deste humor absurdo e delirante mas extremamente eficaz. E que nos continua a fazer muito felizes.

CURIOSIDADES:

- Numa entrevista da época perguntaram a Woody Allen qual a razão do título do filme. A resposta foi: «chama-se “Bananas” por não existirem bananas nele»

- A grande maioria das cenas foram todas improvisadas.

- O facto de não aparecer uma gota de sangue no filme, mesmo nas cenas das execuções, foi deliberado e intencional, devido a Allen ter pretendido manter um tom de farsa em todo o filme

- A sequência dos músicos a tocarem mimicamente ficou a dever-se aos instrumentos encomendados não terem sido entregues a tempo e horas. Allen não pensou duas vezes e filmou toda a cena sem os instrumentos.

- O actor Sylvester Stallone pode ser visto no papel de um deliquente que juntamente com outro atacam Allen no metropolitano.


quarta-feira, setembro 07, 2011

Entrevista a WOODY ALLEN: «Gostava de ter sido um grande músico»

Retrato de uma lenda viva na primeira pessoa. Levanta-se às 6.30 horas da manhã, exercita-se numa passadeira rolante, escreve, toca clarinete e vê jogos de basquete. Diz que leva uma vida de classe média. Rodou os últimos filmes na Europa, mas preferia não sair de Nova Iorque. Apesar da sua falta de auto-estima, de que faz prova nos seus filmes, Woody Allen já foi nomeado para mais de 20 Óscares, nas categorias de realizador, produtor e argumentista. A esse sucesso contrapõe o que diz ser uma vida desinteressante e metódica, feita de hábitos peculiares, em que invariavelmente entra o exercício na passadeira rolante, duas horas de escrita e ensaios de clarinete.
E para os tempos livres? Gosta de beber uma cervejinha diante da televisão, em t-shirt, e sai de casa para assistir jogos de basquete. Em “Meia-Noite em Paris” o realizador norte-americano prega-nos uma partida aos disfarçar-se de Owen Wilson e revive a nostalgia da Belle Époque, privando com Hemingway, Dali, Picasso e Buñuel, numa aproximação à “Rosa Púrpura do Cairo” que conta com Marion Cotillard, Rachel McAdams e até a primeira-dama francesa, Carla Bruni. Durante meia hora partilhámos com Woody Allen um mundo que está para lá do ecrã. As suas conversas filsóficas conduzem irremediavelmente à sua crença num derradeiro final inapelável e finito. Mas por que será que nos deixa sempre um sorriso nos lábios?
- Você deve ser um homem muito atarefado. Ainda consegue encontrar tempo para descansar entre os vários projectos que tem em mãos?
- Parece que sou uma pessoa muito ocupada, mas na verdade não sou.

- Não me diga!
- É verdade. Não sou muito ocupado. Durante o ano tenho tempo para fazer o meu filme, para escrever, fazer o casting, realizá-lo e montá-lo. E ainda me resta tempo para tocar com a minha banda, fazer digressões de jazz. Mas também para brincar com os meus filhos, levá-los à escola, fazer os meus exercícios, assistir aos jogos de basquete, ver filmes, passear...Pode parecer que trabalho muito mas não é verdade.

- Como é o seu dia típico?
- Levanto-me de manhã cedo, por volta das 6.30h, levo os miúdos à escola e escrevo. Por volta do meio dia, pratico um pouco de clarinete, e posso ir a um jogo de basquete. No dia seguinte se não me apetecer não escrevo. Mas normalmente apetece-me. Está a ver, não é o mesmo que uma professora ou um médico. Todos os dias têm de estar presentes à mesma hora até ao fim do dia. A minha vida é muito mais preguiçosa.
- A sua família também gosta desta parte de ir aos festivais e ficar fechada num hotel?
- Eles gostam imenso. Sempre que faço um filme em Barcelona, Londres, Paris ou Roma eles podem passar vários meses num hotel e fora de Nova Iorque. Gostam mais do que eu que preferia não sair de lá. Até porque em casa tenho tudo o que preciso. O ar condicionado, os medicamentos, o clarinete. Está tudo ali.

- A verdade é que faz quase uma filme por ano. Trabalhar parece ser quase uma necessidade. Está a ver-se trabalhar quando tiver, por exemplo, a idade de Manoel de Oliveira, que tem 103 anos e ainda muitos projectos para concretizar?
- Isso seria óptimo. Acho que vou continuar a trabalhar até não poder mais ou até deixarem de financiar os meus filmes. Obviamente não tanto quanto o Manoel, pois ele é um fenómeno. Trabalharei enquanto a saúde não me falhar.

- A personagem de Owen Wilson parece estar com uma mulher que não ama. Isso sucede várias vezes nos seus filmes. Acha que por as pessoas não gostarem de estar sózinhas aceitam viver com pessoas que não amam?
- Há uma quantidade enorme de pessoas que têm essa vida. Muitas estão em relações em mesmo em casamentos porque têm medo de estar sózinhas. Preferem o compromisso de um casamento em que estão contentes 20% do tempo e descontentes os outros 80% a não ter ninguém. Se fosse possível acabar com uma relação premindo um botão penso que muitos o fariam mas como é complexo e leva algum tempo, a solidão com companhia acaba por tornar-se mais agradável.
- A personagem de Hemingway diz no filme que o amor de uma grande mulher pode fazer-nos esquecer a morte. É a opinião de Hemingway ou a sua?
- É a de Hemingway.

- Concorda com ele?
- Não, não concordo. Concordo mais com a personagem do poeta [W.H.] Auden, que fala na morte ser o som de uma tempestade ao longe durante um piquenique. Sobre a morte eu tenho uma posição muito concreta: sou contra.

- Mas identifica-se mais com a opinião de Auden?
- É isso que eu sinto. É algo que está sempre lá fora. Mesmo nos melhores momentos. Mesmo nas celebrações, nos casamentos, nos melhores momentos. A morte está lá sempre.

- É o seu maior receio?
- Sim, é o meu maior receio. Não é o seu?
- Mas o Hemingway também diz que «quem não desafiar a morte não poderá escrever nada grandioso»...
- Isso é verdade. A minha cobardia em vida custou-me muito. No meu quotidiano e na minha arte. Se eu fosse mais corajoso e menos cobarde, poderia ter alcançado mais, ido mais longe. Teria escrito melhor e faria melhores filmes. Em geral teria uma vida melhor. Bom, por outro lado, se fosse demasiado ousado também poderia já não estar vivo.

- Porque não se considera um grande artista ou grande escritor?
- Porque é verdade, não sou. Mas mesmo se fizesse essa pergunta a um grande mestre, digamos Picasso, ele diria a mesma coisa. Teria alcançado mais se os seus eventuais limites tivessem sido ultrapassados. Todos os artistas são muito conscientes das suas falhas.

- Conheceu alguns dos artistas que aparecem no seu filme, como Dali, Buñel ou Picasso?
- Conheci algumas pessoas que foram bons artistas. De todos, o primeiro que conheci depois tornou-se meu amigo, o Groucho Marx. Sempre achei divertido e sempre gostei dele. Quando o conheci, ele foi muito simpático. Mas eu pensei: «estou eu aqui num restaurante com o Groucho Marx e ele não tem o seu bigode...» Parecia um tio judeu, um parente afastado da minha mãe. Ele foi sempre humano, o que me desgostou um bocadinho, por não ser aquele tipo que estava sempre a contar piadas. Por isso, quando tive a oportunidade de conhecer Louis Armstrong, acabei por não arriscar...

- Porquê?
Estas pessoas são deuses para mim e  gosto de os manter assim.
- Como se sentiu então ao construir estas personagens? Divertiu-se a recriar Hemingway e Picasso?
- Claro, foi divertido colocar-me na pele deles. Ao longo da minha vida conheci alguns artistas importantes. Nunca conheci Hemingway, mas conheci outros escritores famosos. Conheci e trabalhei com o Saul Bellow, conheci o Gabriel Garcia Marquez. Ambos venceram o prémio Nobel. Conheci pessoas muito famosas, mas normalmente nunca fico amigo delas porque não as quero conhecer melhor do que aquilo que elas representam.


- Que encanto especial tem para si a nostalgia? O filme salienta que devemos viver o presente. Mas há também este lado nostálgico...

- Está a tocar no ponto. Nós extrapolamos apenas o melhor. Quando vejo certos objectos, um livro por exemplo, recordo-me de quando era jovem, dos comic books que lia. Mas quando vou mais longr, percebo como certas coisas eram terríveis... A escola, a II Guerra Mundial estava a decorrer... Na realidade era horrível. Quando pensamos na Belle Époque, pensamos na Gigi, nas roupas, no champanhe. Mas aconteciam coisas horríveis ao mesmo tempo. As mulheres morriam ao dar à luz, não havia cura para a tuberculose, sífilis ou poliomielite. Eram tempos terríveis. Seria óptimo poder recuar no tempo e passar lá um dia. Almoçar e regressar.

- Se pudesse fazer isso, a que época recuaria?
- Provavelmente iria à Paris da Belle Époque. Também adoraria conhecer Viena no virar do século, cheia de génios, compositores e artistas.

- Sei que trabalha com a sua irmã, como produtora. É um homem de família?
- Sim, sou um homem de família. Não vivo a vida dos boémios dos anos 20, isso é certo. Tenho uma vida muito de classe média. Vivo num bairro rodeado por corretores de bolsa e banqueiros. Não conheço ninguém. Tenho o meu dia-a-dia. A minha diversão é ver televisão com uma t-shirt vestida e beber uma cerveja a ver football.

- Pensa que poderia ter sido outra pessoa, com outra queda artística que não realizador?
- Não que eu quisesse ser outra coisa, mas às vezes penso que gostaria de ter tido um talento diferente. Gostaria de ter tido um grande talento musical. Gostava de ter sido um grande músico.

- Além do clarinete, há outros instrumentos que o tentem?
- Não, isso não. O clarinete é o meu instrumento. Não o trocaria pelo piano.

- Se encontrasse um génio da lâmpada, o que lhe pediria?
- O que eu quero não é possível. Gostaria que a condição humana fosse muito diferente do que é. Que não envelhecêssemos depois de uma certa idade, que não ficássemos doentes. A condição humana é trágica, pois todas estas coisas acontecem. E rápido. Eu gostaria de uma mudança redical. Acho que a única forma de se fazer essa mudança é mesmo a magia. Não acho que seja a ciência, nem os filósofos, psicólogos ou políticos. Enquanto não aparecer alguém com esse toque de magia, acabaremos todos na mesma situação terrível.

- Como olha para os seus filmes antigos? Há algum de que goste particularmente?
- Sim, tenho alguns filmes de que me orgulho. Sempre gostei de “A Rosa Púrpura do Cairo”, “Maridos e Mulheres”, “Balas Sobre a Broadway”. Recentemente tenho gostado de “Match Point” e de “O Sonho de Cassandra”, talvez por serem temas mais negros.

- E de quais gostou menos?
- O filme que gostei menos de fazer foi “A Maldição do Escorpião de Jade”. Não deveria ter-me contratado a mim próprio para o papel principal. Tinha óptimos actores e acabei por os desiludir. Se tivesse contratado o Jack Nicholson ou alguém como ele – um protagonista mais sólido – teria tido um filme melhor. Fui fraco nesse papel e o resultado final acabou por se ressentir disso. Existem alguns filmes meus que me fazem sentir melhor, mas não são muitos.
- “Annie Hall”?
- Foi um grande sucesso comercial, mas essa é já uma boa razão para não gostar dele [risos]. Mas não desgosto. Diverti-me imenso a fazê-lo. Lembro-me de fazer “Maridos e Mulheres” e de me divertir a vê-lo. Com o “Match Point” e o “Balas na Broadway” passou-se o mesmo. Mas a “Rosa Púrpura” acho que foi aquele que mais me satisfez. A maior parte dos filmes que fiz nunca mais os vi.

- Não me diga que não gosta de “Manhattan”...
- Não lhe posso dizer porque nunca o vi...

- Porquê?
- Não quero voltar a ele porque me arrisco a ficar destroçado.

- No entanto, mesmo depois disso, já teve bastantes mulheres dos seus sonhos...
- Sim, posso dizer que conheci algumas mulheres dos meus sonhos. A minha segunada mulher [Louise Lasser] – a primeira não conta, pois tinha apenas vinte e poucos anos – foi uma mulher dos meus sonhos. Era fantástica e demo-nos muito bem, mas depois não deu certo. Entretanto, conheci mulheres realmente incríveis, que deram grandes contributos para a minha vida. Mas nem sempre resulta. Nem sempre podemos viver juntos, e aí é que está o problema. Quando se está no show business há uma tendência para conhecermos muitas mulheres de sonho. Se eu trabalhasse num escritório talvez conhecesse mulheres agradáveis, mas nunca mulheres do outro mundo. Quem é que no seu emprego conheceria alguém como a Scarlet Johansson, ou a Penélope Cruz ou agora a Naomi Watts? Isso não acontece. Agora, eu posso trabalhar com elas o dia todo. Tenho essa possibilidade de conhecer estas mulheres fantásticas, mesmo que nada aconteça.
- Pode dizer-se que os filmes são sobre a procura do sentido da vida? Sente que já o encontrou?
- Não, e o problema é que, quanto mais velhos ficamos, mais esse problema se agrava. Tudo se torna mais deprimente.

- A que é que hoje atribui mais valor na sua vida?
- Bom, acho que é ao ar.

- Está a falar a sério?
- Para mim o mais importante é ter saúde. É o meu valor prioritário. O conhecimento seria a minha segunda escolha, depois o dinheiro, e a seguir o amor. Serão essas as quatro coisas mais importantes para mim.

- E nessa ordem?
- Talvez. A saúde é definitivamente o mais importante. Depois vem o conhecimento. O dinheiro é muito importante, muito mais importante do que eu achava quando era mais novo. O amor também é muito importante, mas se tivermos saúde, conhecimento e uma certa estabilidade financeira, normalmente temos boas oportunidades de encontrar o amor. E será até algo mais divertido. É divertido procurar o amor.

(Entrevista de Paulo Portugal, publicada na revista Tabu nº 261, de 2 de Setembro de 2011)

terça-feira, janeiro 11, 2011

ANTE-ESTREIA - "YOU WILL MEET A TALL DARK STRANGER" (2010)

Segundo o IMDB trata-se do 45º filme de Woody Allen como realizador – mais quatro do que o nº de filmes em que Allen entrou como actor. “You Will Meet A Tall Dark Stranger” tem argumento também do próprio e algumas estrelas de primeira grandeza: Anthony Hopkins, Naomi Watts, Antonio Banderas. Nicole Kidman esteve para interpretar o papel principal, mas depois afastou-se e foi substituída por Lucy Punch
Charles H. Joffe, produtor de Allen durante crca de 40 anos, faleceu em Julho de 2008, sendo este o primeiro filme dirigido por Allen sem a sua assinatura na produção. O filme estreou-se no Festival de Cannes a 15 de Maio de 2010 e a sua chegada aos écrans portugueses está agendada para o próximo dia 20 de Janeiro.