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domingo, maio 06, 2012

THIS LAND IS MINE (1943)

ESTA TERRA É MINHA
Um Filme de JEAN RENOIR


Com Charles Laughton, Maureen O'Hara, George Sanders, Walter Slezak, Kent Smith, Una O'Connor, Philip Merivale, Nancy Gates, etc.


EUA / 103 min / P&B / 4X3 (1.37:1)


Estreia nos EUA a 7/5/1943
Estreia em FRANÇA a 10/7/1946
Estreia em PORTUGAL a 24/6/1954


O mais desprezado dos filmes americanos de Jean Renoir. A acção desenrola-se (como a do "Journal d'une Femme de Chambre") numa pequena  cidade de França, reconstituída no estúdio, em Hollywood. Este canto de França em estuque é, na realidade, um país imaginário, como o de "Monsieur Verdoux" ou de certos Fritz Lang, como em "Os Carrascos Também Morrem". «Com "Vivre Libre", quis mostrar aos americanos um aspecto um pouco menos convencional da França ocupada... Talvez tenha sido inábil, talvez não haja compreendido o estado de espírito que reinava em França após a libertação. O certo é que fui brindado com inúmeras cartas injuriosas provenientes de França e vilipendiado pela imprensa parisiense. Senti-me sinceramente magoado por não ter sido compreendido.» (Jean Renoir: A minha experiência americana, Cinémonde, 1946).
"This Land is Mine", apesar da realização clássica, de uma prudência nada habitual em Renoir - tratava-se de convencer, custasse o que custasse, o público americano - é um belo filme, em que se reconhece imediatamente o nosso autor, pelo menos no personagem e na representação de Charles Laughton, o qual se assemelha tanto com o realizador como Pierre Renoir em "La Marseillaise". Ê, além do mais, e quer queiramos quer não, um filme tipicamente francês, e não é por acaso que pensamos constantemente em Daudet de "La Derniêre Classe". Bardêche, que fez recuar os limites da desenvoltura crítica ao dar conta, numa das edições da sua História do Cinema, de um filme americano de Renoir que nunca foi filmado ("Terre des Hommes", extraído de Saint-Exupéry!), resgata-se com uma análise muito honesta de "Vivre Libre":
 «Embora cometa o mesmo tipo de erro, o filme de Jean Renoir, "Vivre Libre", é menos chocante para as cobaias convidadas a contemplar as suas proezas. Laughton desempenha um admirável mestre-escola que tem muito medo dos bombardeamentos, que gosta do bem-estar, da malga de leite, da sua velha mãe, que sente um grande respeito pelo inspector da Academia e pelas autoridades de ocupação e que, por fim, se transforma num carneiro enraivecido: as sessões do tribunal militar são públicas como as audiências do civel; o patriotismo é em estilo flamejante; os professores, lágrimas nos olhos, arrancam as páginas dos manuais de história consagrados a Joana d' Arc, à escola laica e a Jules Ferry; e o filme termina com coros de alunos que cantam como salmos os artigos da Declaração dos Direitos do Homem.
Estas evocações altamente republicanas levam-nos a sorrir e o filme foi severamente criticado em França. Foi um acolhimento bastante injusto, pois, com defeitos inevitáveis, tipicamente defeitos de "ausência", Renoir tentava compreender a situação de um país ocupado; o seu filme é o de um homem inteligente que utiliza dados que não se podem imaginar à distância, mas, no fim de contas, há certamente menos disparates e indignidades no seu filme do que noutros posteriormente realizados em França, com temas semelhantes.» Estamos de acordo com as considerações de Maurice Bardêche.
François Truffaut

Efectivamente, não é difícil admitir que "This Land Is Mine" não é a mais requintada das obras de Renoir em matéria de nuances psicológicas, antes utiliza o cliché sobre diversos temas da época: a França ocupada, os nazis, o colaboracionismo ou a resistência. Mas uma vez aceite a veia propangadista do filme - não esqueçamos que foi esse o seu objectivo principal - resta-nos, ainda assim, um belo objecto cinematográfico, mesmo sem conseguir atingir o esplendor das grandes obras de Renoir. "This Land Is Mine" é, sobretudo hoje, visto à distância de várias décadas, um filme bastante emotivo e agradável de se (re)ver. A cena final, então, ainda que de todo inverosímel (um resistente a defender liricamente as suas ideias diante de um tribunal colaboracionista, sem que ninguém o impeça, mesmo os nazis que se limitam a abandonar a sala), é um grande momento desse enorme actor que foi Charles Laughton, permitindo-se figurar entre as melhores sequências jamais rodadas sobre os estigmas da segunda guerra mundial.
Apesar (ou por causa) de uma grande economia de meios, Renoir consegue evidenciar algumas sequências memoráveis deste filme, para além da já citada cena final do tribunal: a introdução da personagem de Lory (submisso a uma mãe castradora que não hesita em obter ilicitamente o leite matinal para o seu menino), o jantar de conveniência em casa de Louise e Paul (atente-se nesse momento único e hilariante que é a iniciação de Laughton no tabagismo), a censura dos livros em plenas salas de aula (em que os alunos vão seguindo o exemplo dos professores e arrancando uma a uma as páginas proibidas) ou ainda a visita do Major Von Keller a Lory na prisão (e o testemunho deste dos fuzilamentos que ocorrem no pátio). Tudo cenas que nos fazem recordar o grande cineasta que Renoir sempre foi, mesmo filmando, em solo americano, um filme de encomenda como este. "This Land Is Mine" viria  a receber o Óscar do Melhor Som, único na filmografia de Renoir. Um filme que se aconselha (re)descobrir, sobretudo por parte daqueles que sempre o votaram ao ostracismo.


CURIOSIDADES:

- George Sanders, o actor que no filme interpreta o papel de Georges Lambert e que acaba suicidando-se, fez idêntica opção na vida real. Aos 65 anos, no dia 25 de Abril de 1972, isolou-se num hotel de Castelldefels, perto de Barcelona, e ingeriu 5 garrafas de nembutal. Deixou a seguinte nota escrita: «Querido mundo, deixo-te porque estou aborrecido. Sinto que já vivi o suficiente. Deixo-te com as tuas preocupações idiotas. Boa sorte!»

domingo, outubro 31, 2010

HEAVEN CAN WAIT (1943)

O CÉU PODE ESPERAR




Um filme de ERNST LUBITSCH




Com Gene Tierney, Don Ameche, Charles Coburn


EUA / 112 min / COR / 4X3 (1.37:1)


Estreia nos EUA a 11/8/1943
Estreia em Portugal a 10/4/1944 
(Lisboa, cinema Tivoli)




Henry Van Cleve: "And when I awakened, there where all my relatives, speaking in low tones, and saying nothing but the kindest things about me. Then I knew I was dead"

Ernst Lubitsch morreu em 1947, com 55 anos. Mas, doente desde 1934, sabemos pelos seus biógrafos que, a partir dessa data, a ideia da morte o obsecava. Em 1943, teve uma crise grave e convenceu-se que ia morrer. Foi então que escolheu a peça do húngaro László Busfeketé, "Birthday", como base para o que pensou ser o seu último filme. Três anos depois Lubitsch referia-se assim a "Heaven Can Wait": «Penso que é um dos meus filmes mais importantes, porque tentei, sob vários pontos de vista, sair das convenções então vigentes do cinema. Por várias vezes, tive de enfrentar uma grande resistência durante a preparação desse filme, que não continha nenhuma mensagem e não queria demonstrar o que quer que fosse. O herói era um homem que só se interessava em viver bem, sem procurar realizar qualquer obra, nem fazer nada de particularmente nobre. Quando o estúdio me perguntou porque é que eu queria fazer um tal filme, respondi que esperava apresentar ao público um certo número de seres humanos e que se o público os achasse simpáticos, isso chegaria para tornar a obra num sucesso. Aliás, mostrei um casamento feliz a uma luz mais verdadeira do que habitualmente é mostrada nos écrans, onde um casamento feliz é muitas vezes pintado como uma ligação aborrecida e monótona, à lareira».
Conhecendo o estado de espírito de Lubitsch e esta declaração, há alguns pontos a sublinhar. Um homem que pensa que vai morrer escolhe - contra tudo e contra todos - uma história que, embora fiel às constantes convenções e registos do seu discurso, vem marcada pelo signo da morte (o flashback que constitui a maior parte do filme é a narrativa de Henry ao personagem lubitschianamente tratado por "Sua Execelência" e comummente designado por Diabo ou Príncipe das Trevas). É uma obra onde as duas sequências capitais são sequências de morte: a valsa dançada por Don Ameche e Gene Tierney, quando esta oculta ao marido a gravidade do seu estado e a porta fechada entre a saída duma enfermeira e a entrada doutra, ouvindo-se, na banda sonora, a mesma valsa. Não vemos - já se disse que é a suprema elipse de Lubitsch - nenhuma dessas mortes (como também não vemos a dos avós ou dos pais), mas exactamente porque as não vemos, o "buraco" que deixam é maior (mesmo ou porque Lubitsch multiplica conotações amargas ou cruéis, como o facto da valsa ser a da "Viúva Alegre").
E, quando Lubitsch diz o que diz, sobre a sua saída das "convenções vigentes" não é ousadia pensar que se refira ao uso do tempo, que conhece neste filme, a partir do casamento e mais particularmente quando o protagonista dobra os 50 anos (idade que Lubitsch então tinha) uma aceleração extremamente insólita. A festa das bodas de prata (de facto a festa da morte da mulher) vai fazer raccord com os bolos de velas («cada vez mais velas e menos bfff...») com a imagem fixa (a fotografia dos filhos e o comentário à soma das idades), com a crueldade da conversa com o filho em torno dos oculistas e das "jovens leitoras", com o grande plano dos remédios (os 70 anos), com o desejo de «flutuar num oceano de whisky e soda», até culminar nas duas enfermeiras, e na imagem destas (ao espelho) enfeitando-se para velar o moribundo.
Para lá da ironia, há qualquer coisa de "horrível" nesse modo como metade duma vida é despachada, como se a morte real tivesse intervindo na sequência (não menos cruel) em que Henry falha a favor do filho (cujo retrato finge não reconhecer) a "conquista" da actriz, assumindo o comportamento que antes víramos no pai dele (e não o avô, personagem fabuloso, mas que já só em imagem emoldurada continua a presidir à decadência de Henry). Como há qualquer coisa de horrível na "cena de ciúmes" (ciúmes afinal da morte) e naquela dança final, com um longo travelling com grua, que confere ao par um tom espectral, varrendo - doce e cruelmente - Gene Tierney do campo.
Se aproximarmos tudo isto de:
a) a sequência em que a velha é "despachada" pelo Diabo, depois de mostrar as pernas (Sua Excelência não perdoa o mau gosto);
b) a simpatia da Excelência pelo protagonista e o tratamento daquele como "great tycoon" em grande gabinete, examinando dossiers e descrevendo o que chama, com alguma contida irritação, "above";
c) a repetição do "rapto" de Tierney - 16 anos depois do primeiro - depois desta informar o marido que "da primeira vez" não teve medo, mas fingiu que teve medo e depois de se revelar que a separação tinha tido como prinxcipal fundamento uma questão comparativa de preços e jóias;
d) o tema de "How to make your husband happy" que finalmente se volta contra Henry e não contra Albert, e que o protagonista reencontra perto do fim, entre os livros da mulher.
Se aproximarmos tudo isto, dizia, teremos algumas razões para pensar que para lá da "simpatia" e da "felicidade" a que se refere Lubitsch, os sentimentos do realizador para consigo próprio e para com a humanidade em geral, eram tudo menos simpáticos e felizes e que "Heaven Can Wait", se de facto foi pensado como despedida deste mundo, é uma das mais amargas despedidas que alguma vez alguém fez dele. Evidentemente, não há choro (e como poderia havê-lo?) mas os dentes rangem bastante. E a saudação ao outro mundo não é mais optimista.
Admiravelmente construído (apetecia dizer genialmente), com alguns dos melhores gags (visuais e de diálogos) da obra de Lubitsch, com uma direcção de actores magistral, "Heaven Can Wait" é um filme que pode fazer rir tanto como os melhores filmes do seu famoso autor. Mas é um riso que progressivamente se vai gelando, quando nos damos conta que o nunca consentido é o "abandono ao instante", ou seja ao tempo real, sempre filtrado e finalmente devorado pelo tempo do filme. É esse tempo que impõe a "regra do jogo", muito menos carnal, mas não menos mortal, que a do filme de Renoir que "Heaven Can Wait" (por caminhos diametralmente opostos) não deixa de evocar. Só que em Renoir vem da carne um peso que neste filme não existe. Foi Truffaut que disse, uma vez, referindo-se às célebres elipses lubitschianas ( o Lubitsch touch) que "no 'gruyère' Lubitsch cada buraco é genial". Em "Heaven Can Wait" o queijo quase desapareceu e só ficou o buraco. O que talvez seja ainda mais genial.
João Bénard da Costa

CURIOSIDADES:

-  "Heaven Can Wait" foi o único filme a cores de Lubitsch

- Gene Tierney descobriu que estava grávida durante a rodagem deste filme

- Em entrevista dada em 1983, Don Ameche considerou "Heaven Can Wait" como o favorito da sua filmografia

- O filme teve 3 nomeações para os Oscares da Academia nas categorias de Filme, Realizador e Cinematografia