WILL PENNY Um Filme de TOM GRIES Com Charlton Heston, Joan Hackett, Donald Pleasence, Lee Majors, Bruce Dern, Ben Johnson, Slim Pickens, etc. EUA / 108 min / COR / 16X9 (1.85:1) Estreia na GB (Londres) a 14/12/1967 Estreia nos EUA a 10/4/1968 Estreia em MOÇAMBIQUE (LM, Teatro Manuel Rodrigues) a 27/4/1969
Depois de terem, durante muitos anos, cantado a epopeia da descoberta do Oeste, os americanos resolveram-se a escrever-lhe a história. Entre a epopeia e a história tal-qual foi vivida, no seu dia-a-dia quotidiano, começou a debater-se o western realmente ianque. Os realizadores começaram a aprofundar a descrição serena de um Oeste nem sempre grandioso, nem sempre heróico, nem sempre jovem. "Will Penny" prolonga o caminho aberto por Ford, Mann e Peckinpah, indo ao encontro do cowboy solitário, desiludido e velho (Will Penny tem 50 anos e recusa o amor que se lhe oferece, por medo, por impossibilidade, mas também porque se sente um homem ultrapassado). Em "Will Penny" não existe acção épica, nem violência explosiva, não há grandes cometimentos nem façanhas a imortalizar. Tom Gries preferiu a tudo isso um bom naco de paisagen inóspita, com neve, frio e vento, preferiu os sorrisos, as pequenas dores, as desilusões diárias, as fraquezas consentidas. Às violentas cenas de pancadaria usuais, preferiu a luta corpo a corpo, imprecisa, incaracterística e desgastante. À luta com as mãos (perguntam a Will Penny: «tu não sabes combater com as mãos?...»), antepõe-lhe a eficácia de uma frigideira na cabeça ou de um pontapé na cara. Ao jovem combativo e vitorioso (que concretiza o ideal americano) prefere Gries o velho sem família, ressequido por dentro e por fora. Ao happy-end possível (e que até nem escandalizaria, nas circunstâncias em que termina o filme) prefere o desencontro irreversível, a solidão conscientemente assumida. Ao brilhantismo gritante de tantos e tantos exemplos prefere Tom Gries (que com 45 anos de idade, aqui se estreava no cinema, vindo da TV) o documentarismo escrupuloso, feito de pequenos apontamentos, de pormenores, de elementos dispersos.
Para a realização deste filme simples, Tom Gries (1922-1977) rodeou-se de uma óptima equipa de trabalho: um fotógrafo esplêndido, Lucien Ballard (1904-1988), de um músico inspirado, David Raksin (1912-2004) e de um grupo de intérpretes notáveis, com Charlton Heston (1923-2008) a compor, uma vez mais, uma figura vigorosa, entrelaçada de nervos e emoção. Mesmo os seus muitos detractores (por razões essencialmente políticas, note-se) tiveram sempre muita dificuldade em não reconhecer os méritos óbvios desse actor incontornável que durante toda a sua brilhante carreira se desdobrou de filme para filme, com uma versatilidade verdadeiramente invulgar. Ao seu lado, Donald Pleasence (1919-1995) compõe uma personagem memorável, um pregador homicida e louco, e Joan Hackett, uma actriz que morreu muito cedo, apenas com 49 anos (1934-1983) completa o trio principal com a sua habitual presença muito pouco convencional e sempre perfeccionista. "Will Penny", no final da sua visualização, irá entusiasmar os apreciadores do bom cinema, daquele que é sinónimo de inteligência, maturidade estilística e fluência narrativa, que o guardarão na memória durante muitos e bons anos. Ao contrário dos fãs dos westerns tradicionais, onde imperam a violência epidérmica e os efeitos imediatos e fáceis, que rapidamente terão tendência a esquecê-lo.
CURIOSIDADES:
- «The script for "Will Penny" was one of the best I ever read. It made a marvelous westen», referiu um dia Charlton Heston, que nunca escondeu a sua preferência por este filme, de entre toda a sua filmografia.
- Bruce Dern referiu a propósito de ter trabalhado com Heston neste filme: «I got to really like the guy. A lot of people told me that I wouldn't like him, but I liked him, and he tried very hard. I mean, "Will Penny" is far and away the best thing he's ever done.»
- Eva Marie Saint e Lee Remick recusaram o papel de Catherine Allen.
- O argumento é baseado no episódio "Line Camp" (também dirigido por Tom Gries) da série televisiva "The Westerner" (criada por Sam Peckinpah em 1960).
OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM Um filme de SYDNEY POLLACK Com Jane Fonda, Michael Sarrazin, Susannah York, Gig Young, Red Buttons, Bonnie Bedelia, Michael Conrad, Bruce Dern, Al Lewis, Robert Fields, Allyn Ann McLerie EUA / 129 min / COR / 16X9 (2.35:1) Estreia nos EUA a 10/12/1969 (New York) Estreia em Moçambique a 26/11/1971 (LM, cinema Infante)
Rocky: «Yowza! Yowza! Yowza!»
Nos tempos obscuros da Grande Depressão, uma nova moda
nacional nasceu na América – as maratonas de dança. De duração ilimitada, o
objectivo último era a atribuição de prémios aos mais resistentes - valores
irrisórios quando comparados com os ganhos publicitários obtidos pelos
promotores de tais “espectáculos”. Esta primeira grande obra de Sydney Pollack
pega numa dessas maratonas para denunciar o “american dream of life” e
devolver-nos o clima de tragédia que constituía a sobrevivência durante a crise
económica dos anos 30 nos EUA. Estamos num pavilhão localizado numa qualquer
praia californiana, no interior do qual uma imensa pista de dança vai servir de
palco às esperanças ilusórias de uma centena de pares que se preparam para
resisistir estoicamente a longas semanas de sacrifício, físico e psicológico,
no intuito de alcançarem os 1500 dólares anunciados pela organização.
O filme irá acompanhar em especial quatro desses pares:
Gloria (Jane Fonda), uma jovem cínica e amarga, vinda de várias experiências
infelizes, que à última hora tem de substituir o seu par (desclassificado por
indícios de doença) por Robert (Michael Sarrazin), um jovem desconhecido que se
encontrava no local por acaso e simples curiosidade; Alice (Suzannah York), uma
inglesa aspirante a actriz cujo maior desejo é vencer em Hollywood e o seu
companheiro Joel (Robert Fields) que partilha das mesmas aspirações; Sailor
(Red Buttons), um veterano da Grande Guerra com a sua parceira Shirl (Allyn Ann
McLerie); e um casal recém-casado de parcos recursos e à espera do primeiro
filho – Ruby (Bonnie Bedelia) e James (Bruce Dern). A presidir à maratona está
Rocky (Gig Young), um mestre de cerimónias sem escrúpulos que não hesita em
usar todos os meios ao seu alcance para que o espectáculo desperte o interesse
de um público voraz, à procura de desgraças superiores às suas, para assim se
sentir confortado na sua miserabilidade.
Fazendo parte de uma vaga de jovens directores que se iniciaram na
televisão em princípios dos anos 60, Sydney Pollack insere-se numa classe
particular de cineastas cujo estilo se situa a meio-caminho entre o classicismo
reinante nos grandes estúdios e um novo realismo que por vezes faz lembrar o
documentário. À semelhança de um Frankenheimer ou de um Coppola, Pollack foi um
dos responsáveis pela abertura de vias a toda uma geração de novos realizadores
que se viriam a afirmar no decorrer das décadas de 70 e 80: Spielberg, Lucas,
Scorsese ou De Palma, por exemplo. Tendo começado a sua carreira no grande
écran por um thriller psicológico com Sidney Poitier e Anne Bancroft (“The
Slender Thread”) em 1965, é com o filme seguinte, “This Property Is Condemned”
(1966), um argumento assinado por Coppola e baseado numa peça de Tennessee
Wiliams, que Pollack se revela como um cineasta bastante promissor. Foi também
o início de uma grande amizade com Robert Redford, actor que participaria em
mais sete dos seus filmes.
O período da Grande Depressão foi tratado de variadissimas formas no
cinema, mas sempre se destacou (Chaplin à parte) o chamado filme de
gangsters. Desde “Little Caesar”, em 1930, até “Bonnie & Clyde”, em
1967, os exemplos são ricos e variados. Com “They Shoot Horses, Don’t They?”,
Pollack aborda esses anos como um autêntico retrato da sociedade da altura.
Baseado num livro de um escritor norte-americano injustamente menosprezado,
Horace McCoy, o argumento, brilhante (assinado por James Poe e Robert E.
Thompson), centraliza quase toda a acção num único décor (a pista de dança),
sem que isso belisque minimamente o interesse do espectador.
Pelo contrário, a emoção está sempre presente, fruto de uma montagem
precisa e minuciosa (assinada por Fredric Steinkamp, que a partir deste filme
colaboraria muitas vezes com Pollack), nomeadamente nas diversas sequências do
“derby”, onde atinge um raro virtuosismo ao conseguir integrar o espectador na
dor e angústia daquela louca procissão de desesperados. De salientar ainda a
utilização inteligente de flashbacks e flashforwards na construção narrativa e
que ao longo do filme vão anunciando a sua conclusão trágica, onde finalmente a
expressão que dá título ao filme se revela em toda a sua crueza – «They shoot
horses, don’t they?»
Pollack revela aqui aquela que seria uma das suas imagens de marca – a
brilhante direcção de actores. Susannah York (nomeada para o Globo de Ouro e
Oscar de Actriz Secundária e vencedora do BAFTA inglês para a mesma categoria),
Red Buttons (nomeado para o Globo de Ouro de Actor Secundário), Michael
Sarrazin (nomeado para o BAFTA da revelação mais promissora), Bruce Dern ou
Bonnie Bedelia, constroem todos eles grandes personagens que irão ficar para
sempre nas nossas memórias. Mas o par de cerejas em cima do bolo são efectivamente
Gig Young e Jane Fonda. Young arrebataria quer o Oscar quer o Globo de Ouro
para o melhor Actor Secundário, tendo ainda sido nomeado para o correspondente
BAFTA.
Jane Fonda liberta-se, com este filme, da sua imagem de boneca sexual
(reforçada pelo sucesso de “Barbarella” no ano imediatamente anterior)
provando, sem margens para dúvidas, que estava ali uma digna sucessora do
pai Henry. Teve três nomeações para Melhor Actriz Principal, uma para os
Oscars, outra para os Globos de Ouros e ainda uma terceira para o BAFTA.
Perderia para Maggie Smith nos primeiros (alguém se lembra do filme “The Prime
of Miss Jean Brodie” ???) e para Geneviève Bujold (“Anne of The Thousand Days”)
nos segundos. Quanto ao prémio inglês, o mesmo seria ganho por Katharine Ross
(“Butch Cassidy & The Sundance Kid” e “Tell Them Willie Boy Is Here”).
Jane Fonda seria no entanto distinguida pelas Associações de críticos de Nova
Iorque e Kansas City como a Melhor Actriz de 1969.
CURIOSIDADES:
- Foi o próprio Sydney Pollack quem se encarregou de filmar alguns dos planos constantes nas corridas dos concorrentes. Para isso calçou um par de patins e misturou-se entre os pares que evoluiam à volta da pista
- “They Shoot Horses, Don’t They?”teve 9 nomeações para os Oscars sem conter contudo a categoria de Melhor Filme: Realizador, Argumento-Adaptado, Montagem, Música, Guarda-Roupa, Direcção Artística e Cenários, Actriz Principal (Jane Fonda), Actriz Secundária (Susannah York) e Actor Secundário (Gig Young). Como acima já se disse, este foi o único Oscar conquistado pelo filme.
- A banda sonora está recheada de canções dos anos 30, incluindo algumas escritas propositadamente para o filme por John Green, conferindo assim uma atmosfera de autenticidade. Os temas incluem "Easy Come, Easy Go," "I Cover the Waterfront," "Out of Nowhere" (Edward Heyman, Green), "Coquette" (Gus Kahn, Carmen Lombardo, Green), "Sweet Sue Just You" (Will J. Harris, Victor Young), "I'm Yours" (E.Y. Harburg), "Brother, Can You Spare a Dime" (Harburg, Jay Gorney), "Paradise" (Gordon Clifford, Nacio Herb Brown), "The Japanese Sandman" (Raymond B. Egan, Richard A. Whiting), "Between the Devil and the Deep Blue Sea" (Ted Koehler, Harold Arlen), "The Best Things in Life Are Free" (B.G. De Sylva, Lew Brown, Ray Henderon), "California, Here I Come" (Al Jolsen, De Sylva, Joseph Meyer), "Body and Soul" (Heyman, Robert Sour, Frank Eyton, Green), "I Found a Million Dollar Baby" (Billy Rose, Mort Dixon, Harry Warren), and "By the Beautiful Sea”.
MARNIE Um filme de ALFRED HITCHCOCK Com Tippi Hedren, Sean Connery, Diane Baker, Martin Gabel, Louise Latham, Bob Sweeney, Milton Selzer, Alan Napier, Bruce Dern, etc. EUA / 130 min / COR / 16X9 (1.85:1) Estreia na GB a 9/7/1964 Estreia nos EUA a 22/7/1964 Estreia no BRASIL a 21/8/1964 Estreia em PORTUGAL a 13/1/1967
Mark Rutland: «But I do want to go to bed, Marnie.
I very
much want to go to bed»
"Marnie" foi o filme que me introduziu à obra de
Alfred Hitchcock. Na altura tinha apenas 13 anos e nunca tinha ouvido
falar em semelhante nome. O que era perfeitamente natural, porque desconhecia a
importância do realizador na execução de um filme. O que me interessava eram
apenas os nomes dos actores, e mesmo estes eram quase sempre ilustres
desconhecidos. Como neste caso. Não tinha visto qualquer dos filmes de James
Bond (e já tinham sido rodados quatro) e portanto Sean Connery era uma
autêntica novidade. Bem como Tippi Hendren, entenda-se. Vi o filme durante umas
mini-férias em Johannesburg, num daqueles cinemas de sessões contínuas (que
apelidávamos de "piolhos"), de aspecto sombrio e frequência duvidosa,
mas que faziam as minhas delícias de jovem adolescente.
Havia sempre dois filmes em cartaz e a programação não fugia
muito ao cinema fantástico e de ficção-científica (vi por lá muitos monstros "made
in Japan"), ao western-spaghetti
ou então aos filmes de aventuras, nomeadamente de piratas. Normalmente, quando
entrava na sala, lá para o fim da manhã (as sessões começavam bem cedo), um dos filmes já ia a meio e por isso
passava longas horas no cinema, até a visão do programa em exibição ficar completa.
Lembro-me que havia um tabuleiro corrido à frente e ao longo das cadeiras, onde
se colocavam as bebidas e as sandes que íamos consumindo sem despregar os olhos
do écran: belos hot-dogs, os que eu
comi, com enormes salsichas vermelhas e cheios de tudo e mais alguma coisa.
Mas às vezes os programadores dessas salas deviam enganar-se e
lá passavam um filme ou outro diferente do habitual. Como neste caso, no Royalty
(assim se chamava este cinema). Nesse dia, 24 de Janeiro de 1967, uma
terça-feira, os filmes em exibição chamavam-se "Marnie" e
"Massacre na Cidade do Mármore". Deste último desconheço o título
original ou mesmo o elenco, pelo que não faço a mínima ideia de que filme se
tratava. De qualquer modo não é para aqui chamado, por isso deixem-me avivar as
minhas primeiras memórias sobre "Marnie". Foram essencialmente duas:
o abate de um cavalo depois deste ter batido com uma das patas traseiras num
muro de pedra e o vermelho, uma cor que durante muito tempo associei a
"Marnie". Com toda a razão, diga-se, conforme pude constatar em
futuras visões, já mais esclarecidas. Mas foi um filme que de certo modo me
perturbou na altura, sem contudo ter percebido a razão de tal perturbação. Até
porque houve muita coisa da história a que passei ao lado: não havia legendas e
a minha compreensão da língua inglesa era practicamente nula naquela altura.
Ao longo dos anos vi todos os agora célebres filmes de
Hitchcock (a grande maioria por diversas vezes), tenho os meus favoritos bem
sedimentados ("Vertigo", "Notorious", "North By
Northwest", "The Wrong Man", "The Birds", "Dial M For Murder", a 2ª versão de "The Man Who
Knew Too Much" e este "Marnie" fazem sempre parte do meu Top 10 hitchcockiano), mas aquela primeira
visão do filme ainda hoje me assombra, perdurando nas minhas memórias cinéfilas.
Realizado em 1964, logo após "The Birds", o filme é a última grande obra de Hitchcock, que depois dela rodaria apenas mais 4: "Torn
Curtain" [1966], "Topaz" [1969], "Frenzy" [1972] e
"Family Plot" [1976]. Com "Marnie"Hitchcock retomava os
temas da anormalidade de comportamento originada na infância, que são comuns a
"Spellbound" e a "Psycho", mas agora referentes a um
personagem feminino.
Inicialmente Hitchcock tinha pensado em Grace Kelly para
protagonista (seria a sua quarta colaboração com o mestre, depois dos êxitos
"Dial M For Murder" e "Rear Window", ambos de 1954, e de
"To Catch a Thief", de 1955). Mas Grace tornara-se já princesa do
Mónaco e o seu regresso ao mundo do cinema (por ela tão desejado) teve de ser
plebescitado pela minúscula população do Principado. O resultado foi um rotundo
"não"! Grace teve de se contentar com a sua nova condição de soberana
e Hitchcock resolveu apostar de novo em Tippi Hedren, que tão boa conta tinha
dado de si nos "Pássaros".
"Marnie" é portanto Tippi Hendren, uma mulher
solitária, traumatizada, cleptomaníaca, e, como tudo isso não bastasse,
sexualmente frígida, com uma repulsa constante a ser tocada pelo sexo oposto,
aqui representado pelo charmoso e atlético Sean Connery então nos píncaros da
fama por causa dos seus filmes de agente secreto 007 com ordem para matar. Mark
Rutland (assim se chama o personagem de Connery), assume o papel de libertador
dos traumas de Marnie, a ponto de forçar um casamento sem grandes perspectivas
de futuro. Hitchcock joga com a complexidade das relações
Marnie-Mark, procurando tornar evidente a sua interdependência, os seus jogos
de ocultações e de disfarces, de mistérios e de surpresas, de aparências e de
realidades.
Ao contrário de outros filmes, Hitchcock não se fica pela
alusão e chama as coisas pelo seu nome. Marnie é mesmo frígida, apesar de tanto
nós como Sean Connery só darmos por isso quase a meio do filme. A viagem de
núpcias por barco é um desastre. Depois da consumação à força do casamento
(trata-se inequivocamente de uma violação), Marnie chega a tentar o suicídio,
atirando-se para a piscina do barco. Aterrorizada pela cor vermelha, vítima de
horríveis pesadelos, Marnie é uma neurótica e a cleptomania não é mais do que
uma compensação para a frigidez.
Truffaut tinha uma predilecção especial por
"Marnie" e numa das suas célebres entrevistas com o mestre do
suspense, Hitchcock confessava-lhe: «Se eu tivesse utilizado, como no meu velho
filme inglês "Murder", o processo do monólogo interior, ouviríamos
Sean Connery dizer a si próprio: - "Desejo que ela se apresse a cometer novo
roubo, para poder apanhá-la em flagrante e possuí-la finalmente". Desse modo,
conseguiria um duplo suspense. Filmaríamos sempre Marnie do ponto de vista de
Mark e mostraríamos a sua satisfação quando vê a rapariga cometer o roubo. Para
falar cruamente, deveria ter mostrado Sean Connery surpreendendo a ladra diante
do cofre-forte, desejoso de lhe saltar para cima e de a violar ali mesmo. Mas
não podemos realmente representar estas coisas no écrã, porque o público
recusaria, dizendo. «Oh, não! Isso não!...»
Transcreve-se de seguida um extracto da crítica de João
Bénard da Costa sobre o filme: «Tal como "Spellbound","Marnie"só aparentemente é um filme sobre a psicanálise. É um filme
sobre o desejo sexual, correlativo, no universo católico que forma e informaHitchcock, do tema da culpa. Se "The Birds" é o ponto culminante da
interrogação de Hitchsobre a culpa,"Marnie"é o seu equivalente
sobre o tema do desejo e da sua culpada associação ao Mal. Porque nenhumas das
associações psicanalíticas do filme explica Marnie ou Mark, ou explica a
atracção que os leva um para o outro, ou um contra o outro.
O primeiro plano do filme mostra-nos as imagens de um livro
a desfolhar-se. Como esse livro, Marnie é um personagem que quer ser aberto. Ao
cavalo que Mark lhe dá e que tanto ama, dirá a certa altura: «Se queres morder
alguém, morde-me a mim.»Depois dessas imagens, destacam-se no silêncio os
passos de Marnie, levando na mão duas carteiras de pele de crocodilo, uma
cinzenta, outra amarela. Essas duas cores acompanham a protagonista ao longo de
todo o filme. E na cantilena final das crianças faz-se referência a uma
"senhora de carteira de crocodilo" chamada em vez do médico, quando
tudo fica pior. A referência é obscura, mas não será ousado ver nessa senhora uma
metáfora da morte. Por isso, a revelação do episódio da infância nada resolve.
A frigidez de Marnie é a máscara do seu desejo, forma suprema de voracidade
sexual.
A certa altura do filme, a mãe diz a Marnie que as únicas
coisas que amamos são aquelas que nunca conseguimos dizer."Marnie"é
um filme sobre o indizível do sexo e do desejo e sobre o absurdo de os tentar
compreender através da psicanálise ou de outra explicação qualquer. Num filme
em que estamos sempre descentrados
(nunca nos identificamos com Mark, nunca nos identificamos com Marnie - o que
é, de certo modo, novo na obra deHitch- e talvez daí a perplexidade do
espectador), o ponto de vista é o da fissura entre a total assunção do desejo e
a sua total recusa. Para desejarmos totalmente, temos totalmente que nos reter.
Nenhuma explicação explica, nenhuma palavra liberta. Só o mistério total pode
conduzir ao que é totalmente misterioso."Marnie"é o filme do
indizível. Por isso acaba, sem saída, em trompe
l'oeil, num cenário em que todas as perspectivas estão distorcidas.»
CURIOSIDADES:
- Evan Hunter, argumentista que já tinha trabalhado com Hitchcock em "The Birds", opôs-se fortemente a escrever a cena em que Mark viola Marnie durante a lua-de-mel. Hitchcock despediu-o de imediato e contratou uma mulher, Jay Presson Allen, que não teve qualquer problema, dizendo inclusivé que a cena realçava o carisma de Sean Connery. Hitch confessou mais tarde que aquela cena tinha sido a razão principal pela qual fizera o filme - Para filmar as cenas de Marnie a cavalgar, Hitchcock usou um cavalo mecânico da Disney. Aliás, é bem visível a utilização de cenários durante essas sequências (um dos aspectos menos conseguidos do filme) - Depois de filmar algumas cenas com Connery, Tippi Hedren perguntou a Hitchcock se ela tinha mesmo de ser frígida. «Have you seen him?», perguntou a actriz, referindo-se ao jovem e musculado Connery. «Yes, my dear, it's called acting», respondeu Hitchcock. - Tippi Hedren e Hitchcock desentenderam-se variadíssimas vezes no set, tendo a actriz mais tarde confessado que a amizade que a ligara ao realizador tinha acabado no final das filmagens, apesar de "Marnie" ser o seu filme favorito entre todos aqueles que protagonizou - Foi depois de verem algumas cenas do primeiro filme de Sean Connery como James Bond ("Dr. No"), que Hitchcock e a argumentista Jay Presson Allen decidiram de imediato contratar a jovem estrela para o papel de Mark, apesar de o não considerarem como o típico aristocrata americano retratado no livro de Winston Graham
- A música de "Marnie" foi a última colaboração de Bernard Harmann com Hitchcock - O filme estreou-se em Nova Iorque numa sessão dupla. O outro filme, "Never Put It In Writing", era interpretado por Pat Boone
- Depois de se ter visto impossibilitado de contratar Grace Kelly (por imposição da população do Mónaco, que não viram com bons olhos que a sua soberana voltasse ao mundo do cinema), e antes de se decidir por Tippi Hedren, Hitchcock ainda pensou nas actrizes Eva Marie Saint, Lee Remick, Vera Miles, Claire Griswold e Susan Hampshire. Catherine Deneuve declarou mais tarde em entrevistas que teria adorado interpretar o papel de Marnie - O filme foi filmado entre 26 de Novembro de 1963 e 19 de Março de 1964, e teve um orçamento de cerca de 3 milhões de dólares - A aparição de Hitchcock (cameo obrigatório em grande parte dos seus filmes), ocorre logo no início, a saír de uma porta no corredor do hotel onde Marnie se dirige para trocar de identidade
Com Chris Massoglia, Haley Bennett, Nathan Gamble, Teri Polo, Bruce Dern, Quinn Lord EUA / 92 min / COR / 16X9 (1.85:1) Estreia em ITÁLIA a 11/9/2009 (Festival de Veneza) Estreia nos EUA a 31/10/2009 (Festival AFI) Estreia em PORTUGAL a 21/4/2011
«Cresci a adorar filmes de suspense e de criaturas. Na minha carreira já realizei uma série de filmes de terror e também sobre a adolescência, como “Gremlins”. Mas nenhum deles tinha a mesma mistura daqueles arrepios de nos fazer saltar da cadeira com elementos de drama humano como o que esta história me ofereceu.»
Joe Dante
Filmado no agora muito em voga 3D, “The Hole”não necessita desse complemento técnico para ser aquilo que é – um bom entretenimento de suspense genuíno. Aliás, diz quem viu, a versão em 3D fica muito aquém da versão “normal”, o que em nada vem abonar esta nova moda, feita exclusivamente a pensar em lucros adicionais. Pessoalmente recuso-me a ver tais filmes que, no meu entender, vêm desvirtuar o cinema, transformando-o numa mera atração de feira. Um pouco como acontecia com o Cinerama dos anos 50 e 60, mas sem as características espectaculares desse sistema. Já não bastavam os efeitos digitais, usados quase sempre despudoradamente, agora a grande indústria tenta também cativar os mais incautos com uma dimensão extra. Felizmente que a “novidade” não tem tido grande impacto junto do público e o mais natural será o seu desaparecimento a curto prazo.
Joe Dante tem passado a maior parte da sua carreira entretido com produções para televisão, sobretudo realizando episódios para séries. “CSI: Nova Iorque”, “Masters of Horror”, “Night Visions”, “Amazing Stories” ou “The Twilight Zone” (nova edição) são algumas dessas séries, de maior ou menor sucesso. A sua estreia no cinema data de 1978, com o filme “Piranha”, onde dirige Kevin McCarthy, o intérprete de “Invasion of the Body Snatchers”, após o que realizou alguns filmes durante a década de 80 e no domínio do fantástico, tais como “The Howling” (1981), “Gremlins” (1984), “Explorers” (1985) ou “Innerspace” (1987). Por causa desses títulos é vulgar designar-se o seu cinema como “terror familiar”, significando isso uma ausência de violência gráfica (o chamado gore), antes privilegiando a emoção e o suspense. Este “The Hole” não foge à regra, distanciando-se por isso das características mais comuns do filme de terror; apesar do seu início, já visto muitas dezenas de vezes – a mudança para uma nova casa de uma pequena família, aqui formada por uma mãe e dois filhos. Mas as semelhanças ficam-se por aqui.
Na cave da nova casa, os dois irmãos, Dane (Chris Massoglia) e Lucas (Nathan Gamble), descobrem, com a ajuda da nova vizinha, Julie (Haley Bennett) um misterioso buraco, fechado a sete chaves, que depois de aberto apresenta a inquietante particularidade de não ter fundo. Não, não é nenhum portal para o inferno, como os três adolescentes chegam a pensar, pelo menos aquele “inferno bíblico” povoado de diabretes. O inferno, aqui, são os medos pessoais de cada um, são os pesadelos mais sombrios e ocultos que se vão pouco a pouco materializando. Com argumento de Mark L. Smith, “The Hole”enquadra-se melhor no género do filme de aventuras, como aliás é compreensível face aos antecedentes deDante, não descurando contudo todo um clima de grande suspense que mantém sempre alerta a atenção do espectador . De realçar ainda a fotografia e também uns cenários pouco vulgares neste tipo de produção, os quais, na parte final do filme chegam a invocar alguma pintura moderna, nomeadamente a de Salvador Dali.