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quarta-feira, setembro 25, 2013

PORTFOLIO - "NOTORIOUS / DIFAMAÇÃO" (1946)



NOTORIOUS (1946)

DIFAMAÇÃO
Um Filme de ALFRED HITCHCOCK



Com Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Louis Calhern, etc.


EUA / 101 min / P&B / 4X3 (1.37:1)


Estreia nos EUA a 6/9/1946
Estreia em PORTUGAL a 10/11/1947:
Lisboa, cinema Politeama

Na entrevista feita a Hitchcock em 1962, François Truffaut revelava ao mestre do suspense ser "Notorious" um dos seus filmes preferidos (pelo menos a preto e branco, precisava o director francês), apelidando-o mesmo de quinta-essência de Hitchcock. E continuava os elogios, salientando a "magnífica pureza" das cenas, e o “modelo de construção” do guião, do qual Hitchcock tinha extraído "o máximo de efeitos com o mínimo de elementos": o grande êxito do filme teria resultado assim por se ter conseguido atingir "o cúmulo da estilização e o cúmulo da simplicidade". Hitchcock concordava plenamente com essa ideia:

«A simplicidade... É interessante... É muito curioso... Com efeito, o nosso esforço incidiu nesse sentido. Geralmente, num filme de espionagem há muitos elementos de violência, e aqui evitámo-los. Utilizámos um método de assassínio extremamente simples, diria que quase normal, como num fait divers, como na vida. A personagem de Claude Rains vai matar Ingrid Bergman com a ajuda da mãe, envenenando-a muito lentamente com arsénico, exactamente como faz um homem para matar a mulher, de uma maneira autêntica, se assim ouso dizer, como quando se quer dispor da vida de alguém sem deixar marcas.»

"Notorious" é, de facto, na obra de Alfred Hitchcock, um dos filmes mais notáveis, qualquer que seja o ponto de vista pelo qual seja encarado. Nele se reúnem um grande tema dramático com aspectos de tragédia, uma grande sabedoria na dosagem dos momentos fortes, que acabam por surgir quase em surdina, e grandes actores onde sobressai a maravilhosa Ingrid Bergman, num dos seus papeis mais esplendorosos. A fragilidade e a feminilidade da protagonista contrastam com a dureza cruel das propostas que lhe são feitas e que ela acaba por aceitar até às últimas consequências, devido talvez aos sentimentos contraditórios que nela se degladiam.

Recordemos de novo Hitchcock na citada entrevista a Truffaut: «A história de "Notorious" é o velho conflito entre o amor e o dever. O trabalho de Cary Grant é levar Ingrid Bergman para a cama de Claude Rains. É uma situação realmente irónica e Cary Grant é amargo ao longo de todo o filme. Claude Rains é simpático porque foi vítima da sua confiança e também porque amou Ingrid Bergman mais profundamente que Cary Grant. Foi essa série de elementos do drama psicológico que transpus para uma história de espionagem.»

Na verdade, ambos os protagonistas são confrontados com situações que neles geram necessariamente sentimentos de angústia, que contradizem o elo afectivo que os aproxima um do outro, e que vemos materializar-se nas longas e exemplares cenas de amor (o close-up é rei e senhor em todas elas), ao longo do filme. Essas cenas são tão pungentes e comoventes - "puras", como lhes chama Truffaut - que, à luz delas, toda a trama policial é relegada para secundarissimo plano. Excepção feita às sequências da chave, da adega e da descida final pela escadaria, nas quais Hitchcock faz questão de nos lembrar que de facto não houve outro realizador que tão bem soubesse manipular os artifícios do suspense.

"Notorious" é, acima de tudo, o equilíbrio supremo entre o filme de espionagem, a história de amor e a visão oculta do medo e da culpa que vão minando esse mesmo amor. Filme em que cada plano é rigorosamente composto, centrado no mais extraordinário jogo de olhares da sua obra, onde tudo tem «a precisão e o controle do desenho animado» (Truffaut) é mais uma vez um pesadelo sobre gente que faz medo e tem medo. Se quséssemos fazer prevalecer uma imagem, ela estaria nessa chave de mão em mão passada e de mão em mão trocada (de Claude Rains a Ingrid Bergman e Cary Grant) sobre a qual Hitch faz um dos mais geniais travellings da sua obra. Chave que fecha todas as portas sendo o equivalente visual das barreiras que os protagonistas são incapazes de transpôr.

Mas depois do filme acabar e as luzes se acenderem (é verdade, cheguei a ver esta pérola numa sala de cinema), uma constatação parece-me óbvia: é Ingrid Bergman a grande força motriz de "Notorious". O filme roda permanentemente à sua volta, e todas as cenas em que ela está presente - e são a grande maioria - atingem uma força emocional muito grande pela forma espantosa como ela é o personagem; personagem esse que vai atravessando várias cambiantes ao longo do filme: desde atrevido e sedutor na festa inicial («How about we... have a picnic?») até aos momentos de perturbação e mal-estar físico que o definem na última parte do filme («If you had only once said that you loved me...»).
CURIOSIDADES:

- O produtor David O. Selznick pretendia que a actriz Vivien Leight (a Scarlet O’Hara de “Gone With The Wind”) interpretasse a personagem principal

- O habitual cameo de Hitchcock surge já com cerca de uma hora de filme: é um convidado na festa realizada na mansão de Alex Sebastian, que se serve de uma taça de champanhe.

-Tendo em vista a criação de um mcguffin para o filme, Alfred Hitchcock e o argumentista Ben Hecht consultaram Robert Millikan, galardoado com um Prémio Nobel, sobre como fazer uma bomba atómica. Robert recusou-se, tendo apenas confirmado o urânio como o principal ingrediente, o qual caberia facilmente dentro de uma garrafa de vinho

- A lendária sequência dos múltiplos beijos entre Cary Grant e Ingrid Bergman foi arquitectada daquela maneira para tornear as directivas do famigerado Código Hayes que restringia a duração dos beijos a um máximo de 3 segundos. É caso para dizer “abençoado Código, que assim permitiu filmar-se uma das cenas mais sensuais do cinema”!

- Depois das filmagens terminarem, Cary Grant ficou com a chave de marca “UNICA”, usada na famosa sequência da adega. Guardou-a durante 10 anos, tendo-a depois oferecido a Ingrid Bergman, dizendo-lhe que a considerava um amuleto de sorte. Passaram-se mais 20 anos, e em 1976, durante o tributo com que o American Film Institute consagrou Hitchcock, Ingrid fez questão de oferecer a chave ao velho mestre.

- "Notorious" foi nomeado para 2 Óscares da Academia, nas categorias de Argumento Original (Ben Hecht) e Actor Secundário (Claude Rains). Hitchcock seria nomeado para o Grande Prémio do Festival de Cannes de 1946.
LOBBY CARDS:

segunda-feira, maio 07, 2012

AS VOZES DE GRANT E TURNER


Cary Grant em 1963

Entra pelos ouvidos. Mas quando não entra por um e sai pelo outro, para onde é que vai a voz de quem fala connosco?

A voz de Cary Grant, quero é falar da voz de Cary Grant. Um dia, a secretária virou-se para ele, telefone na mão, e murmurou: «Está aqui o Presidente Kennedy a querer falar consigo…» O actor, que por acaso era inglês e se chamava Archie, foi ao telefone: «Sr. Presidente, em que posso ser útil?» (Toda a gente queria ser útil ao Presidente Kennedy). John estava na Sala Oval, com o irmão Bobby ao lado, e contou-lhe que ambos queriam falar com ele. «Pois não, e como posso ajudá-los?», insistiu o actor de Hitchcock. Encabulado, o Presidente balbuciou: «Bom, na verdade nós ligámos-lhe por uma razão simples. Queríamos ouvir a sua voz!». Eram dois miúdos, sentados ao colo duma nação, a quererem realizar um sonho: ouvir a voz de Cary Grant. Como o melhor café, a voz dele era uma mistura excepcional de arábica e robusta. Um sotaque mais elegante do que petulante, uma pronúncia muito acentuada da primeira sílaba de cada palavra, a nonchalance de uma hesitação, o timbre de tenor, um pó de ligeira ironia a aromatizar, picante, o fim de frase.
Kathleen Turner
 A voz de Cary Grant levava os Kennedy ao céu. A de Kathleen Turner levou William Hurt para a cama. Vamos admitir que a voz de Grant se instala nas limpas assoalhadas do cérebro a que chamamos lobos temporais. Entra e delicia, primeiro o córtex auditivo primário dos Kennedy, depois a área auditiva secundária, a deles ou a da princesa Grace Kelly, em “To Catch a Thief”. As frequências baixas da voz de Kathleen Turner não param aí. Décadas antes, já Lauren Bacall ensaiara rouquidão semelhante. Para resistir, Bogart, essa antítese de Ulisses, fugia-lhe de iate para o alto mar. Em “Body Heat”, Hurt não tem fuga: a voz de Turner atravessa-lhe o córtex e vem por ali abaixo, com tal fragor muscular que o jovem Hurt rebentaria portas e janelas – e rebenta! – para colher a ressonância profunda que emana da boca dela.
Kathleen Turner e William Hurt em "Body Heat" (1981)
A voz de Grant pára na sala civilizada do cérebro, a de Turner já vimos onde. Outras vozes infectam a alma, como o verme de Blake adoece o botão de rosa. As vozes de certos padres ou mestres são melífluas, carregadas de persuasão e algemas. Dão o ouvinte como certo e enfraquecem-no, cortando-lhe o cabelo como Dalila a Sansão. Chatos como a potassa. Quando ouvirem vozes dessas, lembrem-se do grito do catolicissimo Hitchcock. Descendo uma sinuosa colina suíça, ao ver um rapazinho a caminhar ao lado de um padre – a protectora mão deste por cima do jovem ombro, uma neblina de conselhos a esvoaçar já sobre a fresca cabeça –, Hitchcock abriu a janela do carro e gritou: «Run for your life, boy!» Com quem diz: Salvem esse coiro, rapazes. Há vozes piores do que grilhetas.
(Manuel S. Fonseca in Jornal Expresso)

quinta-feira, dezembro 22, 2011

BIO-FILMO: FRANK CAPRA

Nascido a 18 de Maio de 1897, em Bisanquino, Itália
Falecido a 3 de Setembro de 1991, em La Quinta, Califórnia, EUA

«There is one word that aptly describes Hollywood - nervous»

Uma das mais discutidas personalidades do cinema americano, estabeleceu a sua reputação - sólida e popular - nos anos 30, ao identificar-se, melhor que nenhum outro, ao "new deal" rooseveltiano, e aos seus ideais democráticos e humanitários. Os seus filmes da época ilustram exemplarmente essa ideologia e valeram-lhe um grande sucesso e múltiplos prémios. Depois, as modas foram-lhe hostis, mas, nos últimos anos, e já depois de terminada a carreira, Capra conheceu de novo e graças aos filmes dessa época, os favores do público e da crítica jovens que procederam à sua reabilitação.
Nasceu a 18 de Maio de 1897, sexto dos sete filhos de Salvatore e Sara Nicolas Capra, camponeses sicilianos de Bisanquino, aldeia perto de Palermo, tendo emigrado para os Estados Unidos, juntamente com os pais e os três irmãos mais novos, apenas com 6 anos (só voltou à Itália em 1976, onde foi alvo de uma grande homenagem). Frank vende jornais nas ruas de Los Angeles mas, ao contrário dos irmãos, frequenta a escola, termina o liceu com distinção e matricula-se na faculdade, cujos estudos consegue financiar através de bolsas e em diversos trabalhos a tempo parcial. Em 1918 licencia-se em engenharia química pelo Troop Polytechnic Institute e em 1921 ingressa no cinema, onde foi assistente de realização. De 1922 a 1924 trabalha na montagem e escreve os argumentos para Mack Sennett, especializando-se como gag-man. Em 1925 inicia a sua colaboração com Harry Langdon, sendo, ao que parece, o criador do personagem mais popular desse actor. Rompeu com Langdon e realizou o primeiro filme sózinho, que foi um fracasso. Em 1927 divorcia-se da actriz Helen Howell que conhecera durante a rodagem de "Greed", de Stroheim, e com quem estivera casado 4 anos. A partir de 1928 começa a definir-se o seu estilo, que lhe vai valendo crescente popularidade. A glória começa com "Lady For a Day" [1933], passa por "It Happened One Night" [1934], um dos filmes de Hollywood mais premiados de todos os tempos e prolonga-se até 1941.
Por esta altura, Capra conquistara uma importante posição no interior do sistema dos estúdios, desenvolvera estreitas relações de trabalho e granjeava a reputação de conseguir manter uma boa atmosfera de trabalho durante as rodagens, bem como uma excelente relação com os seus actores. Para além disso conseguira o privilégio de exercer o controle pessoal sobre o argumento, o casting e a montagem dos seus filmes. O respeito pelo seu nome no interior da comunidade cinematográfica acentua-se, sendo-lhe atribuídas um total de 28 nomeações pelo conjunto da sua obra (seis dessas nomeações saíriam vencedoras, incluindo as de melhor realização por "Mr. Deeds Goes To Town" [1936] e "You Can't Take It With You" [1938]. Capra assume igualmente um papel de relevo na definição da política dos estúdios.
Durante a guerra trabalha nos Serviços Cinematográficos (série "Why We Fight") e em Setembro de 1943 comanda uma equipa especial que fotografa a frente de guerra. Nesse mesmo ano, Winston Churchill concede-lhe a Ordem do Império Britânico e em 1945 o General Marshall distingue-o com uma medalha pelos serviços prestados. Regressa a Hollywood no Verão desse ano para fundar, com William Wyler e George Stevens, a Liberty Films que se viria a fundir com a Paramount em 1947. Os seus filmes do post-guerra não são bem recebidos (o belissimo "It's a Wonderful Life"  [1946] só muito mais tarde seria considerado um dos melhores e mais populares filmes do cineasta) e Capra permanece fora do cinema durante quase toda a década de 50, trabalhando então para a televisão. Apesar de nunca ter tornado públicas as suas convicções políticas, descobre em 1952 que fora rotulado como simpatizante do partido comunista.
As suas últimas obras datam do fim dos anos 50, em colaboração com Frank Sinatra e Glenn Ford. Sempre mal acolhidas, Capra decide terminar a sua carreira em 1961, com um remake de "Lady For a Day". Entre 1969 e 1970, Frank Capra dedica-se a escrever a sua autobiografia: "The Name Above the Title". Dela se depreende como estes anos foram difíceis para o orgulhoso e, em tempos, poderoso cineasta. A publicação do livro lança Capra numa carreira de conferencista, fazendo-o encontrar no público estudante americano uma nova audiência. Finalmente, em 1977, a América prestou-lhe uma grande homenagem na passagem do seu octogésimo aniversário. Recebe um título honorário pela Universidade de Wesleyan em 1981 e o décimo American Film Institute's Life Achievement Award em Março de 1982. Quatro anos depois do desaparecimento da sua segunda mulher, Lucille Reyburn, com quem casara em Brooklyn em 1932 e de quem tivera quatro filhos, vem a falecer no dia 3 de Setembro de 1991, devido a um ataque de coração durante o sono. Tinha 94 anos.

FILMOGRAFIA:

1961 - Pocketful of Miracles / Milagre por um Dia (+ produção)
1959 - A Hole In the Head / Tristezas Não Pagam Dívidas (+ produção)
1951 - Here Comes the Groom / A Sorte Bate à Porta (+ produção)
1950 - Riding High / Desejo (+ produção)
1948 - State of the Union / Um Filho do Povo (+ produção)
1946 - It's a Wonderful Life / Do Céu Caíu uma Estrela 
          (+ argumento + produção)
1944 - Arsenic and Old Lace / O Mundo é um Manicómio
1941 - Meet John Doe / Um João Ninguém (+ produção)
1939 - Mr. Smith Goes to Washington / Peço a Palavra
1938 - You Can't Take It with You / Não o Levarás Contigo
1937 - Lost Horizon / Horizonte Perdido
1936 - Mr. Deeds Goes to Town / Doido com Juízo
1934 - Broadway Bill / Derradeira Vitória
1934 - It Happened One Night / Uma Noite Aconteceu
1933 - Lady For a Day / Milionária por um Dia
1933 - The Bitter Tea of General Yen / A Grande Muralha (+ produção) 
1932 - American Madness / Loucura Americana (+ produção)
1932 - Forbidden / O Seu Grande Amor (+ produção)
1931 - Platinum Blonde / Loira Platinada (+ produção)
1931 - The Miracle Woman
1931 - Dirigible / O Dirigível (+ produção)
1930 - Rain or Shine (+ produção)
1930 - Ladies of Leisure
1929 - Flight (+ produção)
1929 - The Donovan Affair
1929 - The Younger Generation / A Geração Moderna
1928 - Submarine / O Mergulhador
1928 - The Power of the Press
1928 - Say It with Sables / O Preço do Amor
1928 - The Way of the Strong
1928 - The Matinee Idol (+ produção)
1928 - So This Is Love?
1928 - That Certain Thing (+ produção)
1927 - For the Love of Mike / Os Três Pais
1927 - Long Pants / Calças Compridas
1926 - The Strong Man / Atleta à Força

segunda-feira, agosto 29, 2011

PORTFOLIO - "AN AFFAIR TO REMEMBER" (1957)

AN AFFAIR TO REMEMBER (1957)

O GRANDE AMOR DA MINHA VIDA
Um Filme de LEO McCAREY



Com Cary Grant, Deborah Kerr, Richard Denning, Neva Patterson, Cathleen Nesbitt, Charles Watts, etc.

EUA / 119 min / COR / 16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 2/7/1957
Estreia em PORTUGAL a 7/10/1957




Terry McKay: «Winter must be cold for those with no warm memories. We've already missed the spring! »

Se alguém me pedisse para caracterizar rapidamente “An Affair To Remember” diria que se trata da 5ª essência do romantismo, o melodrama dos melodramas e um dos grandes clássicos do cinema norte-americano. Remake de “Love Affair”, realizado dezoito anos antes pelo mesmo Leo McCarey (com Charles Boyer e Irene Dunne nos papeis principais), esta nova versão é um filme bem representativo da década de 50, quer pelos costumes, códigos morais e mentalidades que atravessam a história quer pela grande qualidade com que McCarey filmou esta obra imortal. O uso do écran largo (em Cinemascope) em enquadramentos precisos e milimétricos, as cores vivas e esplendorosas, a riqueza dos cenários e adereços, tudo se conjugou harmoniosamente para fazer de “An Affair To Remember” um dos melhores exemplos do cinema daqueles anos. Aconselha-se vivamente a recente edição em Blu-Ray que expande todos esses atributos de uma forma ainda mais magnífica - uma autêntica festa para os sentidos.


Antes de “Sleepless in Seattle”, a homenagem que Nora Ephron realizou em 1993 sobre este filme (com Tom Hanks e Meg Ryan), nunca tinha tido grande curiosidade em vê-lo. Desde então são  já várias as vezes a que ele regressei. “An Affair To Remember” conta-nos o romance ocorrido numa viagem da Europa para a América, entre o playboy Nicky Ferrante (Cary Grant) e uma cantora de night-club, Terry McKay (Deborah Kerr). Ambos comprometidos com terceiros, combinam encontrar-se de novo, e passados 6 meses, no cimo do Empire State Building, para desse modo testarem a longevidade da relação surgida durante a travessia do Atlântico. Mas na data aprazada Terry vê-se impedida de comparecer ao encontro devido a um acidente automóvel que a atira para uma cadeira de rodas.


“An Affair To Remember” está exemplarmente dividido em duas partes distintas, ambas de igual duração: 60 minutos. A primeira, que abarca toda a viagem, contém na sua essência todos os elementos típicos das screwball comedies americanas, pontuados aqui e ali por algumas pinceladas dramáticas, nomeadamente na visita à avó de Ferrante, a octogenária Janou (Cathleen Nesbitt). O acidente de Terry é o ponto de viragem para a segunda metade do filme, onde o drama ocupa a maior parte, mas em que o humor continua bem presente. Como naquela pungente cena final em que Terry diz: «se tu consegues pintar eu também consigo voltar a andar – tudo pode acontecer, não é? (If you can paint I can walk - anything can happen, don't you think?)». Voltando ainda à cena do acidente, é de realçar o modo como McCarey filma o Empire State – num lento contra-plongé iniciado ao nível da rua, conferindo ao edifício a conotação trágica de um monumento funerário. É um simples movimento de câmara mas que foi suficiente para torná-lo num dos ícones mais duradouros da cidade de Nova Iorque.

Contrariamente ao pretendido por Cary Grant, McCarey decidiu rodar a maior parte de “An Affair To Remember” em estúdio. Uma decisão acertadissima, visto assim ter conseguido introduzir um elemento-chave do filme – a irrealidade. Com efeito, a disponibilidade total dos meios técnicos permitiu ao cineasta iluminar todas as cenas de acordo com o seu particular (bom) gosto, realçando deliberadamente os seus personagens. Tal intencionalidade fez de Ferrante e McKay um casal por quem o público se apaixona quase de imediato, sentindo que no termo da viagem a realidade de todos os dias vai estar à espreita, pronta a contaminar o idílico romance.

Cary Grant estava na altura profundamente enamorado por Sophia Loren (uma paixão não correspondida que, segundo consta, durou até ao final da vida do mítico actor) e Deborak Kerr encontrava-se numa encruzilhada do seu primeiro casamento (o divórcio chegaria três anos após a rodagem do filme). De algum modo os dois actores tentaram libertar-se dos seus problemas pessoais, vivendo intensamente no écran aquela história de amor. A química entre os dois é bem notória e o grande êxito de “An Affair To Remember” a eles se deve em grande parte, sobretudo pela espontaneidade de muitos dos diálogos que foram inteiramente improvisados. Leo McCarey nunca foi cineasta de ligar muito à rigidez dos scripts e sentiu-se como peixe na água ao poder contar com a excelência das interpretações de Grant e Kerr. Foi o segundo dos três filmes que os dois actores rodaram juntos. Os outros foram “Dream Wife” (1953) e “The Grass is Greener” (1960).
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Leo McCarey foi sobretudo um cineasta de comédias. Depois de ter lançado a dupla Laurel & Hardy em 1927 e trabalhado com os Irmãos Marx em “Duck Soup” (1933), viria a realizar uma das mais brilhantes comédias do cinema americano, “The Awful Truth” (1937), com Irene Dunne e Cary Grant (a primeira das quatro colaborações entre os dois). Mas McCarey tinha ainda uma grande virtude – compreendia instintivamente o ridículo e o absurdo do comportamento das pessoas. Contudo, em vez de fazer a sua condenação, celebrava esta qualidade particular, que conduzia a comédias excepcionais, mas também, nas suas melhores obras, a um sentimento do futuro negro que nenhum riso ou irresponsabilidade podia aliviar duradouramente.


Por isso era típico de McCarey começar os seus filmes de um modo cómico, frívolo até, e lentamente dar tonalidades escuras à sua história, transformando-a num drama ou mesmo numa tragédia. Como neste “An Affair To Remember”, o filme que se distinguirá sempre (quer artisticamente quer pelo enorme sucesso junto do público), entre as vinte e poucas longa-metragens que realizou entre 1929 e 1962. Leo McCarey viria a falecer de uma doença pulmonar, um enfisema, a 5 de Julho de 1969, aos 72 anos. Mas nunca deixou de fumar regularmente as suas famosas cigarrilhas – um último gesto de desafio, que parecia exemplificar os mais persistentes elementos da sua obra.




CURIOSIDADES:

- “An Affair To Remember” foi eleito pelo American Film Institute como o 5º melhor romance de todos os tempos e nomeado para 4 Óscares nas categorias de Cinematografia, Guarda-Roupa, Música e Canção-original.

- Ingrid Bergman foi a primeira escolha para o papel de Terry McKay. A actriz, a viver na Europa nessa altura, recusou viajar para os EUA.

- O belissimo tema "An Affair To Remember (Our Love Affair)" é interpretado por duas vezes: nos créditos iniciais (Vic Damone) e numa cena do filme (Marni Nixon a dobrar Deborah Kerr, tal como já tinha feito no filme "The King And I")