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quinta-feira, julho 12, 2012

SAN FRANCISCO: OS LOCAIS DE "VERTIGO"

Eu já tinha percebido que, cada vez que penso ter uma grande “pancada” por qualquer coisa (um livro, um filme, uma música, ….), aparece sempre alguém que tem exactamente a mesma “pancada” que eu tenho, mas elevada à décima potência. E isso aconteceu-me de novo agora, com a história que vos vou contar. “Vertigo”, que Alfred Hitchcock realizou em 1958, é um dos filmes da minha vida, daqueles que levaria, sem pestanejar, para a tal ilha deserta. Razões há muitas, objectivas e subjectivas, mas não é isso que me trás hoje aqui. Acontece que, neste meu regresso a San Francisco, tinha decidido fazer uma peregrinação mais ou menos exemplar aos lugares onde “Vertigo” foi filmado. Não me perguntem porquê. Apeteceu-me… Podia ter-me dado para outra coisa, mas deu-me para isso…! Ainda em Lisboa, revi pela enésima vez o filme com muito cuidado, tomei as anotações que me pareceram necessárias e, ao chegar a Frisco, meti mãos à obra.
Quanto já estava no Palace of the Legion of Honor, um dos lugares de “Vertigo”, reparei que estava anunciado um ciclo de Cinema exclusivamente com filmes rodados em SF, e vi que esse ciclo se iniciava, precisamente, com o “Vertigo”. Reparei, também, que a sessão de abertura incluía uma palestra de Jef Kraft, um dos autores do livro “Footspeps in the Fog – Alfred Hitchcocks’s San Francisco”. A milésima obra sobre Hitchcock, disse cá para mim, e segui caminho porque, já que tinha vindo ao museu, aproveitaria para ver uma exposição sobre “Women Impressionists” que me pareceu interessante, e era mesmo. No final segui o meu velho hábito de passar pela livraria do museu comprar um catálogo da exposição e reparei numa enorme pilha de livros que lá estavam, que não eram mais do que o tal “Footsteps in the Fog” sobre o Hitchcok de que vos falei. Folheei-o, por curiosidade, e nem queria acreditar no que os meus olhos viam.
O que os malucos dos dois autores (Aaron Leventhal é o co-autor) faziam no seu livro não era mais do que aquilo que eu me preparava para fazer com o “Vertigo”! Eles estavam-se nas tintas para os aspectos éticos, estéticos e técnicos da obra de Hitchcock, e a única coisa que lhes interessava eram os aspectos, digamos, paisagísticos. Propunham-se inventariar todas as cenas de exteriores que aparecem nos filmes do autor de “Os Pássaros” que tivessem sido filmadas na Califórnia, mesmo que o enredo situasse a acção noutro local ou noutro país, como era o caso de “Rebecca”, de que já aqui vos falei. E o objectivo do livro era colocar, a par, um fotograma do filme com uma fotografia do local onde a cena tivesse sido filmada, tal como está nos dias de hoje. Levaram esse propósito até às últimas consequências: se as cenas se passassem em telhados, eles iam à procura dos telhados…; tratando-se de uma cena de interiores, mas com uma determinada vista que se apercebia ao fundo, de uma janela, eles iam à procura dessa vista…; e por aí fora…
É claro que comprei logo o livro e é também óbvio que ele me foi de grande utilidade na minha pesquisa, fazendo-me ganhar tempo e dando-me certezas absolutas em aspectos onde, até então, só tinha dúvidas. A brincadeira que agora vos proponho é essa: passar aqui as minhas fotografias dos lugares de “Vertigo” que seleccionei, e comentá-las. Espero que se lembrem razoavelmente bem do enredo do filme, porque não lhes irei contar a história toda… Mas, como “pontapé de saída”, sempre vos recordarei que Scottie Fergunson (James Stewart) era um detective da polícia de San Francisco que, juntamente com outro colega, perseguia um ladrão pelos telhados de um edifício da cidade quando, ao dar um salto entre telhados, escorregou e ficou agarrado a um parapeito. O colega deitou-lhe uma mão para o ajudar mas Scottie sofria de vertigens e descontrolou-se. 
Acabou por sair ileso da situação, mas pior sorte teve o colega que se despenhou no vazio. Estava Scottie a preparar-se para entrar em pré-reforma quando um antigo colega da Universidade, Gavin Elster, foi ter com ele e lhe pediu ajuda num trabalho. A sua mulher, Madeleine (Kim Novak) estava com comportamentos estranhos e ele queria que Scottie a seguisse. Scottie começou por recusar, mas Gavin assegurou-lhe que não se tratava de nenhum problema passional… Era coisa mais grave que lhe fazia temer pela própria vida da mulher. Combinaram, então, que se encontrariam num restaurante para que Scottie visse a mulher, e depois logo decidiria se aceitaria o trabalho, ou não, … E é claro que Scottie, depois de ver a Madeleine/Kim Novak, aceitou…!

Vamos então às cenas:

847 Montgomery Street, o local onde se encontrava o antigo Ernie’s Restaurant, que era um restaurante de sucesso na San Francisco daqueles tempos, onde Hitchcock também costumava ir. Já não existe nos dias de hoje. Num filme tão marcado pelo número dois (duas mulheres, duas subidas à torre, duas mortes, dois julgamentos…), decorrem aqui duas cenas: uma logo no início, quando Scottie vê Madeleine pela primeira vez; outra no final, quando Scottie pensa que transformou Judy em Madeleine e a leva a jantar ao mesmo sítio
1000 Mansion Street, esquina com a Sacramento Street. Era a residência de Madeleine. No filme Scottie espera por ela no passeio em frente (duas vezes…), para a seguir quando a vê sair no seu Jaguar Mark VIII verde. O edifício, que é a sede do “The Brooklebank”, está impressionantemente intacto nos dias de hoje. E eu não deixei de entrar e de dar uma voltinha lá por dentro…
Claude Lane, transversal a Sutter Street. Madeleine vem comprar um “bouquet” de flores à florista “Podesta Baldocchi", entrando pelas traseiras
Madeleine vem recolher-se junto da campa de Carlota Valdez.
"Mission Dolores" em Dolores Street
Foi nesta sala que Madeleine se sentou a contemplar o “Retrato de Carlota Valdez” que, obviamente, é fictício. Scottie repara que o bouquet de flores que ela leva na mão é igualzinho ao do retrato, o mesmo sucedendo em relação à maneira como ela arranja o seu cabelo
Vemos o carro de Scottie subir esta a rampa e dirigir-se a casa da sua amiga Midge (Barbara Bel Geddes), que fica no 296 Union Street.Também há duas cenas nesta casa
Após nova perseguição pelas ruas de San Francisco, o Jaguar verde dirige-se a Fort Point, junto à baia. Madeleine dá uns passos junto à amurada antes de se atirar à água neste local, sendo salva por Scottie. O local exacto da queda está em obras à superfície, pelo que vou poupar-vos à fotografia dos tapumes… Mas desci às rochas para fotografar melhor as águas, na secreta esperança de sentir o perfume da Kim Novak! E senti mesmo…
Recuperada das águas inconsciente, Madeleine é conduzida por Scottie até à sua casa, em 900 Lombard Street, e metida na caminha
No dia seguinte Scottie volta a seguir Madeleine pelas ruas de San Francisco e repara que esta se dirige à sua própria casa. É quando ela lhe diz que fixou o local devido à Coit Tower, e ele lhe responde que foi a única vez que a proximidade da Coit Tower lhe serviu de alguma coisa. Vão dar uma volta a um parque fora da cidade. Toda a gente (Trufaut incluído…) pensou, durante muito tempo, que a cena teria sido rodada em “Muir Woods”, a norte de San Francisco. Mas parece que na realidade o foi no Big Basin Redwoods State Park, a sul de San Francisco e perto de Scotts’s Valleu, onde Hitchcock tinha a sua casa de campo
É mais uma batota, porque o parque natural não fica perto do mar…
O inesquecível beijo que Scottie e Madeleine dão nessa ocasião (um dos mais belos da história do Cinema, garanto-vos…), com a enorme onda a rebentar ao fundo, foi filmado em Pine Cleefs, na zona onde tirei esta fotografia
Madeleine contou a Scottie que um dos seus pesadelos recorrentes se desenrolava numa torre perto de uma igreja, e Scottie identificou o local como sendo a “Mission San Juan Bautista”, que fica a uns 100 km a sul de San Francisco. Quando se dirigem para lá passam numa estrada, com grandes árvores que são filmadas em contre-plongé.Tudo se passa na chamada “Avenue of the Tall Trees”, em plena Highway 101. Mas, não fosse o Cinema o mentiroso que é, estas árvores nunca poderiam ter sido encontradas nesse trajecto porque ficam a sul, e não a norte da “Missão”
A “Mission San Juan Bautista”, com o Plaza Hall e os estábulos
Foi junto a esta charette e a este cavalinho branco que Scottie e Madeleine deram o último beijo, antes dela subir à torre e "morrer”
No Plaza Hall foi onde Scottie foi julgado pelo homicídio involuntário de Madeleine. Mas certamente que me irão fazer uma pergunta oportuna: onde está então a célebre torre, onde morrem duas mulheres…? Resposta: não existe!!! Trata-se de um mero “efeito especial”, tal como eu já sabia antes de cá ter vindo
Hotel Commodore, onde vivia Judy, a reencarnação de Madeleine
Jardins do “Palace of Fine Arts”, em San Francisco, onde Scottie e Judy se passearam. É claro que não fui exaustivo e falta muita coisa. Muitas delas já não existem, como é o caso do Mckittrich Hotel, onde Madeleine entra e sai sem deixar qualquer rasto ao pobre Scottie, ou a St. Pauls Lutheran Church, que se vê bem nessa mesma sequência e que ardeu completamente poucos anos após a rodagem do filme. Ou a “Argosy Book Shop”, onde Scottie e Midge vão à procura de informações sobre Carlota Valdez, que, na verdade, nunca existiu e era uma alusão à “Argonaut Book Shop” da época. As sequências que mais gosto no filme são aquelas que se passam em silêncio, durante longuíssimos minutos (16 minutos numa delas, cronometrados por mim…), enquanto Scottie segue Madeleine pelas colinas de San Francisco

Textos e fotografias de Luís Mira

quinta-feira, dezembro 22, 2011

BIO-FILMO: FRANK CAPRA

Nascido a 18 de Maio de 1897, em Bisanquino, Itália
Falecido a 3 de Setembro de 1991, em La Quinta, Califórnia, EUA

«There is one word that aptly describes Hollywood - nervous»

Uma das mais discutidas personalidades do cinema americano, estabeleceu a sua reputação - sólida e popular - nos anos 30, ao identificar-se, melhor que nenhum outro, ao "new deal" rooseveltiano, e aos seus ideais democráticos e humanitários. Os seus filmes da época ilustram exemplarmente essa ideologia e valeram-lhe um grande sucesso e múltiplos prémios. Depois, as modas foram-lhe hostis, mas, nos últimos anos, e já depois de terminada a carreira, Capra conheceu de novo e graças aos filmes dessa época, os favores do público e da crítica jovens que procederam à sua reabilitação.
Nasceu a 18 de Maio de 1897, sexto dos sete filhos de Salvatore e Sara Nicolas Capra, camponeses sicilianos de Bisanquino, aldeia perto de Palermo, tendo emigrado para os Estados Unidos, juntamente com os pais e os três irmãos mais novos, apenas com 6 anos (só voltou à Itália em 1976, onde foi alvo de uma grande homenagem). Frank vende jornais nas ruas de Los Angeles mas, ao contrário dos irmãos, frequenta a escola, termina o liceu com distinção e matricula-se na faculdade, cujos estudos consegue financiar através de bolsas e em diversos trabalhos a tempo parcial. Em 1918 licencia-se em engenharia química pelo Troop Polytechnic Institute e em 1921 ingressa no cinema, onde foi assistente de realização. De 1922 a 1924 trabalha na montagem e escreve os argumentos para Mack Sennett, especializando-se como gag-man. Em 1925 inicia a sua colaboração com Harry Langdon, sendo, ao que parece, o criador do personagem mais popular desse actor. Rompeu com Langdon e realizou o primeiro filme sózinho, que foi um fracasso. Em 1927 divorcia-se da actriz Helen Howell que conhecera durante a rodagem de "Greed", de Stroheim, e com quem estivera casado 4 anos. A partir de 1928 começa a definir-se o seu estilo, que lhe vai valendo crescente popularidade. A glória começa com "Lady For a Day" [1933], passa por "It Happened One Night" [1934], um dos filmes de Hollywood mais premiados de todos os tempos e prolonga-se até 1941.
Por esta altura, Capra conquistara uma importante posição no interior do sistema dos estúdios, desenvolvera estreitas relações de trabalho e granjeava a reputação de conseguir manter uma boa atmosfera de trabalho durante as rodagens, bem como uma excelente relação com os seus actores. Para além disso conseguira o privilégio de exercer o controle pessoal sobre o argumento, o casting e a montagem dos seus filmes. O respeito pelo seu nome no interior da comunidade cinematográfica acentua-se, sendo-lhe atribuídas um total de 28 nomeações pelo conjunto da sua obra (seis dessas nomeações saíriam vencedoras, incluindo as de melhor realização por "Mr. Deeds Goes To Town" [1936] e "You Can't Take It With You" [1938]. Capra assume igualmente um papel de relevo na definição da política dos estúdios.
Durante a guerra trabalha nos Serviços Cinematográficos (série "Why We Fight") e em Setembro de 1943 comanda uma equipa especial que fotografa a frente de guerra. Nesse mesmo ano, Winston Churchill concede-lhe a Ordem do Império Britânico e em 1945 o General Marshall distingue-o com uma medalha pelos serviços prestados. Regressa a Hollywood no Verão desse ano para fundar, com William Wyler e George Stevens, a Liberty Films que se viria a fundir com a Paramount em 1947. Os seus filmes do post-guerra não são bem recebidos (o belissimo "It's a Wonderful Life"  [1946] só muito mais tarde seria considerado um dos melhores e mais populares filmes do cineasta) e Capra permanece fora do cinema durante quase toda a década de 50, trabalhando então para a televisão. Apesar de nunca ter tornado públicas as suas convicções políticas, descobre em 1952 que fora rotulado como simpatizante do partido comunista.
As suas últimas obras datam do fim dos anos 50, em colaboração com Frank Sinatra e Glenn Ford. Sempre mal acolhidas, Capra decide terminar a sua carreira em 1961, com um remake de "Lady For a Day". Entre 1969 e 1970, Frank Capra dedica-se a escrever a sua autobiografia: "The Name Above the Title". Dela se depreende como estes anos foram difíceis para o orgulhoso e, em tempos, poderoso cineasta. A publicação do livro lança Capra numa carreira de conferencista, fazendo-o encontrar no público estudante americano uma nova audiência. Finalmente, em 1977, a América prestou-lhe uma grande homenagem na passagem do seu octogésimo aniversário. Recebe um título honorário pela Universidade de Wesleyan em 1981 e o décimo American Film Institute's Life Achievement Award em Março de 1982. Quatro anos depois do desaparecimento da sua segunda mulher, Lucille Reyburn, com quem casara em Brooklyn em 1932 e de quem tivera quatro filhos, vem a falecer no dia 3 de Setembro de 1991, devido a um ataque de coração durante o sono. Tinha 94 anos.

FILMOGRAFIA:

1961 - Pocketful of Miracles / Milagre por um Dia (+ produção)
1959 - A Hole In the Head / Tristezas Não Pagam Dívidas (+ produção)
1951 - Here Comes the Groom / A Sorte Bate à Porta (+ produção)
1950 - Riding High / Desejo (+ produção)
1948 - State of the Union / Um Filho do Povo (+ produção)
1946 - It's a Wonderful Life / Do Céu Caíu uma Estrela 
          (+ argumento + produção)
1944 - Arsenic and Old Lace / O Mundo é um Manicómio
1941 - Meet John Doe / Um João Ninguém (+ produção)
1939 - Mr. Smith Goes to Washington / Peço a Palavra
1938 - You Can't Take It with You / Não o Levarás Contigo
1937 - Lost Horizon / Horizonte Perdido
1936 - Mr. Deeds Goes to Town / Doido com Juízo
1934 - Broadway Bill / Derradeira Vitória
1934 - It Happened One Night / Uma Noite Aconteceu
1933 - Lady For a Day / Milionária por um Dia
1933 - The Bitter Tea of General Yen / A Grande Muralha (+ produção) 
1932 - American Madness / Loucura Americana (+ produção)
1932 - Forbidden / O Seu Grande Amor (+ produção)
1931 - Platinum Blonde / Loira Platinada (+ produção)
1931 - The Miracle Woman
1931 - Dirigible / O Dirigível (+ produção)
1930 - Rain or Shine (+ produção)
1930 - Ladies of Leisure
1929 - Flight (+ produção)
1929 - The Donovan Affair
1929 - The Younger Generation / A Geração Moderna
1928 - Submarine / O Mergulhador
1928 - The Power of the Press
1928 - Say It with Sables / O Preço do Amor
1928 - The Way of the Strong
1928 - The Matinee Idol (+ produção)
1928 - So This Is Love?
1928 - That Certain Thing (+ produção)
1927 - For the Love of Mike / Os Três Pais
1927 - Long Pants / Calças Compridas
1926 - The Strong Man / Atleta à Força