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terça-feira, agosto 14, 2012

DUEL (1971)


UM ASSASSINO PELAS COSTAS
Um filme de STEVEN SPIELBERG




Com Dennis Weaver, Jacqueline Scott, Eddie Firestone, Lou Frizzell, etc.

EUA / 90 min / COR / 4X3 (1.33:1)

Estreia nos EUA a 13/11/1971 (TV)
Estreia em PORTUGAL a 3/5/1973



David Mann: «Come on you miserable fat-head, 
get that fat-ass truck outta my way!»

A ascensão de Steven Spielberg foi meteórica, como todos o sabem. Começa a brincar ao cinema fazendo pequenos filmes de Super 8 entre os doze e os catorze anos. Aos dezoito experimenta os 35 mm numa curta-metragem de 24 minutos, que lhe abre de imediato as portas do profissionalismo. O título é "Amblin'" (nome que muitos anos depois atribuirá à sua empresa de produções) e vale-lhe um contrato para a televisão, onde, aos 21 anos, dirige Joan Crawford, num episódio ("Eyes") de uma série de sucesso, "Night Gallery". Mantém-se no mundo televisivo por mais alguns anos e é aí que roda o seu primeiro filme, aos 24 anos: este excitante "Duel", cujo êxito e qualidade impõem uma exploração comercial (sendo para isso aumentado de 74 para 90 minutos) nas salas de cinema de todo o mundo, incluindo Portugal, onde o filme se estreia a  3 de Maio de 1973.
Realizado com parcos recursos (que, de certo modo, o caracteriza como um filme independente), "Duel" parte de um argumento original de Richard Matheson (o mesmo de "The Incredible Shrinking Man", aqui já abordado recentemente) e desenvolve-se segundo um esquema simples mas de grande intensidade dramática. David Mann (Dennis Weaver, conhecido actor televisivo, falecido em 2006 com 81 anos), é um caixeiro-viajante que conduz calmamente o seu Plymouth Valiant (matrícula 149 PCE) pelo deserto da California. É pleno Verão, o dia está quente, e o rádio do carro vai debitando as notícias do dia. David tem uma certa pressa em chegar ao seu destino, para poder regressar a casa e fazer as pazes com a mulher, com quem se desentendeu nas vésperas da partida. Subitamente aparece-lhe pela frente um gigantesco camião-cisterna, a expelir um fumo negro e desagradável. Logo que pode, David ultrapassa-o, livrando-se assim da incómoda presença. Mas o condutor do camião sente-se de algum modo "picado" e volta a colocar-se na dianteira.
O que parece ser de início um jogo do "gato e do rato" (quantos de nós já não experimentámos algo semelhante por essas estradas fora?), vai progressivamente tomando proporções alarmantes, a ponto de obrigar David a lutar pela própria vida para escapar ao lunático que se encontra ao volante do camião. Lunático do qual nunca se vê o rosto, ao longo de todo o filme, apenas um braço ou uma silhueta distante. Spielberg filma o seu assassino apenas como uma presença, medonha e ameaçadora, que parece não recuar perante nada para atingir o seu objectivo: atirar David para fora da estrada, destruí-lo sob o seu poderoso rodado, cilindrá-lo a todo o custo. David tenta tudo para se furtar ao perigoso confronto: a abordagem directa, a ajuda de terceiros, a comunicação à polícia, inclusivé usa o subterfúgio ou a fuga temporária. Nada resulta, a ameaça continua bem presente e cada vez mais agressiva. Por fim, esgotadas todas as tentativas, David não tem outro remédio senão arregaçar as mangas, fazer das tripas coração e enfrentar aquele autêntico Golias da estrada.
Com "Duel" (óptima tradução em português para "Um Assassino Pelas Costas"), Spielberg conduz-nos ao mundo do "realismo fantástico", onde o que parece impossível adquire plausibilidade, e a realidade destapa uma outra face, absurda e inquietante. Apelidado de "primeiro filme-modelo" por François Truffaut, aplaudido por Alfred Hitchcock e David Lean, "Duel" é cinema do princípio ao fim, sentindo-se a já segura mão de Spielbeg, logo desde as primeiras imagens, como recorda Clélia Cohen, crítica dos Cahiers du Cinéma entre 1997 e 2004: «na escuridão total, ruídos de passos, o bater de uma porta, um motor que arranca. O écrã ilumina-se, mostrando o fundo de uma garagem, da qual o espectador sai em marcha atrás, para a rua. Os primeiros cinco minutos de filme descrevem o trajecto dum veículo, onde a câmara ocupa o lugar do condutor, desde as ruas calmas de um subúrbio com vivendas até à saída da cidade, e a chegada a uma auto-estrada da Califórnia. Tudo isto em planos que se fundem uns nos outros, ao som do rádio.
Este movimento inaugural majestoso não é apenas a passagem geográfica da cidade para o deserto, é um mergulho numa idade primitiva da América, em que se faziam perseguições a cavalo e "duelos ao sol". É quase um flashback. Excepto que aqui o confronto não é homem contra homem, mas de homem-carro contra camião sem rosto. Esta "desumanização" do condutor do camião é filmada como um velho animal raivoso, ruidoso e ferrugento - o primeiro desse tipo de monstros (tubarões, dinossauros, Tripods) que povoarão o cinema de Spielberg. Quando o camião "morre", no final do filme, é-lhe acrescentado um efeito sonoro singular, uma espécie de grito que se escapa do peso-pesado quando este cai por terra: um estertor de dinossauro?
Há aqui uma ponta de insolência de cineasta ambicioso e com pressa de se distanciar, ao volante do seu belo Plymouth, das figuras e dos métodos de um cinema feito por dinossauros prestes a chegar ao fim do seu tempo. Cada plano deste filme filmado em dezasseis dias revela um instinto orgânico da linguagem cinematográfica. A pureza plástica (o vermelho do automóvel, o azul do céu, os ocres da paisagem), aliada à sensação permanente de progressão e velocidade, contribui para a nitidez rutilante da encenação. Mas esta perfeição rectilínea é atravessada por pulsões selvagens e absurdas que elevam "Um Assassino Pelas Costas" muito para além de um exercício de estilo brilhante.
É, paradoxalmente, mais do lado da identidade do herói (um homem vulgar, perseguido de forma arbitrária) do que do lado da identidade do perseguidor (que permanece misteriosa até ao fim), que é necessário procurar a chave do mistério. Compreendemos, quando Mann telefona à esposa a partir de uma estação de serviço, no início do filme, que o casal se separou essa manhã com uma discussão. Portanto, a voz que ele escutava na rádio a queixar-se da megera da esposa era a sua própria voz, num monólogo interior. A longa etapa do jantar à borda da estrada, na qual Mann observa febrilmente cada um dos cowboys encostados ao balcão, imaginando cada um deles como o seu perseguidor, roça o delírio paranóico. 
E as crianças do autobus que lhe fazem caretas pelo vidro de trás, surgem-lhe como pequenos gnomos turbulentos. Toda a aventura de "Um Assassino Pelas Costas" pode, portanto, ser lida como uma construção mental de um neurótico, vítima frustrada do american way of life (casa, esposa, filhos), um sinal da sua loucura larvar. A paisagem que se desnuda progressivamente, perdendo a sua beleza, evoca um percurso rumo ao vazio que introduz um grau de parentesco inesperado com os westerns existenciais de Monte Hellman, "Ride in the Whirlwind" [1965] ou "The Shooting" [1966].»

CURIOSIDADES:

- "Duel" foi rodado num período de 22 dias (de 13 de Setembro a 4 de Outubro de 1971) e sempre em exteriores

- O edifício do "Chuck's Cafe" ainda se mantém, sendo hoje um restaurante de comida francesa. Localiza-se poucos kms a sul de Acton, Califórnia

- Spielberg voltou a usar Lucille Benson como proprietária de uma estação de serviço no seu filme "1941". De igual modo o casal de idosos do carro que Mann faz parar, aparece de novo no filme "Close Encounters of the Third Kind"

- Quando Carey Loftin, o actor que guia o camião perguntou a Spielberg qual a motivação para atormentar o condutor do carro, este respondeu-lhe: «You're a dirty, rotten, no-good son of a bitch», ao que Carey respondeu: «Kid, you hired the right man»



- Spielberg decidiu-se por contratar o actor Dennis Weaver para o papel de David Mann depois de o ter visto no filme "Touch of Evil", de Orson Welles

- Filmado para a televisão americana, "Duel" só foi exibido pela primeira vez em salas de cinema quando se estreou na Europa (numa cópia com mais 16 minutos do que a versão original, a qual se mantém até aos dias de hoje)

- Spielberg era um fã de Richard Matheson por causa da sua contribuição para a série televisiva "The Twilight Zone"

- A cena final (a queda do camião no precipício) teve de ser rodada em apenas um take, por causa do baixo orçamento do filme: 450 mil dólares

- "Duel" recebeu o Grande Prémio do Festival Fantástico de Avoriaz e também um Emmy pela montagem do som. Foi ainda nomeado para um Globo de Ouro, na categoria de filmes rodados para televisão






segunda-feira, junho 25, 2012

WAR HORSE (2011)

CAVALO DE GUERRA
Um filme de STEVEN SPIELBERG


Com Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, Niels Arestrup, David Thewlis, etc.

EUA / 146 min / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 4/12/2011 (New York)
Estreia no BRASIL a 6/1/2012
Estreia em PORTUGAL a 23/2/2012


“Terminal de Aeroporto” [2004] foi o último filme (bastante) interessante de Steven Spielberg. A partir daí – e já lá vão 8 anos – a carreira do realizador americano não tem parado de me desiludir. Um remake escusado (“Guerra dos Mundos”), um thriller histórico apesar de tudo ainda com algum interesse (“Munich”), o pior de todos os episódios de Indiana Jones (“O Reino da Caveira de Cristal”), feito apenas a pensar no box-office, e a transformação de um ícone da banda desenhada num simples boneco animado (“Tintin – O Segredo do Licorne”) compõem o ramalhete. É demasiado tempo para se poder ainda esperar um retorno aos inquestionáveis méritos do passado.

“War Horse” confirma essa minha desilusão, a qual por certo não será caso único entre os antigos admiradores de Spielberg. Baseado numa novela para crianças escrita em 1982 por Michael Morpurgo (levada à cena em 2007 num teatro londrino) o filme denota toda uma intenção de apelar à emotividade fácil das plateias. Mas Spielberg já não é o feiticeiro de antigamente. Pode voltar a pegar nos ingredientes que usou toda a vida, e seguir a mesma receita, mas claramente já não tem o condão de conseguir obter o feitiço com o qual nos costumava seduzir. Falhada a poção mágica, o que resta é um filme de retalhos, com a lamechice predominante a tentar elevar-se ao nobre panteão das emoções. Que, obviamente, não consegue atingir. As situações de faca e alguidar são tantas que, passado um bocado, ficamos completamente imunes.


Com um argumento frágil e previsível, por vezes incongruente (a dispersar-se por pequenas histórias, cada uma delas mais piegas do que a anterior), um fundo musical cansativo (John Williams a baralhar e a dar de novo) a pautar uma metragem longa demais, e um naipe de interpretações medíocres (salva-se Emily Watson no papel da mãe do protagonista principal), “War Horse” apresenta como única grande qualidade a sua magnífica fotografia, assinada por Janusz Kaminski, colaborador habitual de Spielberg. E mesmo essa vai buscar os seus melhores momentos a clássicos do passado, como os filmes de David Lean (a carga da cavalaria a partir do campo de trigo, a lembrar “Dr. Zhivago”) ou, mais descaradamente, plagiando “Gone With The Wind” naqueles vermelhos intensos do epílogo (até alguns enquadramentos são tirados quase a papel químico da obra imortal de Victor Fleming).

Num filme em que se morre sem se verter uma única gota de sangue (a pensar-se antecipadamente na classificação etária?), é justo no entanto destacar uma sequência pelo seu raro brilhantismo: a corrida desenfreada de Joey (o cavalo-estrela do filme) por entre trincheiras antagonistas, e que acaba com ele imobilizado pelo arame farpado em terra de ninguém. Mas até essa sequência – que é uma das poucas razões pelas quais o filme deverá ser visto - é continuada logo depois por uma ridícula, risível “expedição” de salvação, levada a cabo por dois soldados inimigos, vindos cada um deles do seu lado das trincheiras. Palavra de honra que cheguei a pensar que Spielberg deveria ter ouvido, com muita atenção, a “Ida à Guerra” do nosso saudoso Raul Solnado.



Custa um pouco a acreditar, mas o AFI (American Film Institute) considerou "War Horse" como o melhor filme do ano. Por outro lado, o filme foi nomeado para 6 Óscares, 2 Globos de Ouro e 5 BAFTAS! O que só prova a eficácia que a marca Spielberg continua a ter no mundo do cinema, mesmo que seja roupa em segunda mão. Entretanto, o orçamento inicial (66 milhões de dólares) foi duplicado pelas receitas em todo o mundo (cerca de 134 milhões). Grandes incentivos portanto, para que Spielberg continue alegremente a sua descida imparàvel, rumo à mediocridade. E já se anunciam mais Tintins e também a 5ª parte de Indiana Jones (Harrison Ford de muletas?).

segunda-feira, outubro 24, 2011

ANTEVISÃO: "THE ADVENTURES OF TINTIN"


Antecedido por uma agressiva operação de marketing, é já nesta semana (quinta-feira, dia 27 de Outubro), que se estreia em Portugal o filme “The Aventures of Tintin”, a adaptação feita por Spielberg e Peter Jackson de dois dos livros (“Le Secret de La Licorne” e “Le Tresor de Rackam Le Rouge”) do famoso repórter francês, criado em 1929 por Georges Prosper Remi (1907-1983), autor que ficou conhecido em todo o mundo pelo nome bem mais simples de Hergé. Não vou lá estar na estreia nem muito provavelmente em qualquer outra sessão. Existem filmes para os quais me descubro completamente desmotivado a comprar o respectivo bilhete de ingresso e este é um deles. Neste particular caso devido a três razões fundamentais: por ser realizado em 3D, por não ser falado em francês e, sobretudo, por eu próprio ser um grande fã de Tintin, o meu herói preferido de todo o mundo da banda desenhada.
Spielberg nunca tinha ouvido falar de Tintin quando realizou os "Salteadores da Arca Perdida" em 1981. Foram algumas críticas, escritas em França, que lhe despertaram a atenção por repetidamente mencionarem o nome de Tintin como uma das grandes influências do filme. Só então, e pouco a pouco, é que o realizador norte-americano se foi apercebendo da existência daquela personagem icónica da banda-desenhada, uma das mais queridas e conhecidas de várias culturas da Europa à Ásia, mas perfeitamente desconhecida em terras do Tio Sam. Apesar de, ao que dizem, se ter tornado um leitor assíduo das aventuras do popular repórter, Spielberg chegou demasiado tarde àquele universo muito particular criado por Hergé. Para se amar, para se sentir a personagem de Tintin e de todas as outras que gravitam em torno dele, há que ser-se criança primeiro e só depois crescer com elas.
O que provavelmente Spielberg se apercebeu, como profundo conhecedor dos meandros da produção cinematográfica, foi que tinha ali um filão capaz de lhe adicionar mais alguns milhões de dólares à conta bancária. Daí, a parceria feita com Peter Jackson, por causa dos efeitos digitais necessários à feitura do filme, foi um pequeno passo. Jackson tem sobre Spielberg a vantagem de, segundo ele, ter crescido a ler as aventuras de Tintin, mas a sua obsessão pelo CGI (computer generated imagery) usada (e abusada) em filmes como “King Kong” ou a trilogia do “Senhor dos Anéis” não augura nada de bom. Já tive ocasião de ver alguns dos trailers que proliferam por aí, e as expectativas não são nada estimulantes. Com toda a probabilidade teremos mais uma aventura digital, exemplarmente filmada (pese embora os bonecos me parecerem muito toscos e inexpressivos), mas que não se diferenciará de tantos outros produtos com que Hollywood tem inundado as plateias mundiais nos últimos anos.

Conforme escreve Eurico de Barros num artigo publicado ontem no Diário de Notícias, «há mais coisas a separar a banda desenhada e o cinema do que a aproximá-los, estética e tecnicamente. Imaginados para o papel, é muito difícil tirar de lá para a tela heróis como Astérix, Lucky Luke, Blueberry ou Tintin, quer se recorra à animação quer à imagem real. Os filmes ficam sempre aquém do original». Corroboro integralmente este ponto de vista, e penso que neste particular caso de Tintin as diferenças serão ainda mais abismais. A imagem de marca do traço de Hergé, conhecida como “linha clara e legível”, estará, com quase toda a certeza, ausente no filme, bem como o humor subtil ou o ritmo narrativo criados pelo escritor e desenhista belga. Em seu lugar haverá doses maciças de acção e efeitos espectaculares que se limitarão a repetir, ad nauseum, tudo aquilo que as actuais gerações estão já habituadas a esperar de cada novo filme.
Tanto Spielberg como Jackson afiançam não terem pretendido mais do que prestar uma homenagem ao universo e imaginário de Tintin através de uma abordagem inédita. Inclusivé, tiveram o beneplácito dos herdeiros de Hergé, que apoiaram o projecto desde o início: «deixaram-nos mesmo consultar o seu enorme arquivo e, em particular, toda a documentação (desenhos, mapas, etc.) que ele acumulou para construir as suas histórias – ironicamente, Hergé viajou muito pouco». Mas, no final, receio bem que as boas intenções não passem disso mesmo. Tal como as remakes de filmes clássicos que se vão anunciando cada vez com mais frequência, sempre com o substantivo “homenagem” na boca de todos os que ousam adulterar o que não precisa de ser refeito. Felizmente que, no caso presente, continuaremos a ter os livros sempre à mão (350 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, e em cerca de 80 idiomas diferentes) para, aí sim, nos podermos deliciar com todas as aventuras de Tintin.