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sexta-feira, outubro 04, 2013

THE ROSE TATTOO (1955)

A ROSA TATUADA
Um Filme de DANIEL MANN



Com Anna Magnani, Burt Lancaster, Marisa Pavan, Ben Cooper, Virginia Grey, Jo Van Fleet, Sandro Giglio, etc.

EUA / 117 min / P&B / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA a 12/12/1955 (New York)
Estreia em PORTUGAL a 12/4/1956


“The Rose Tattoo” foi distinguido com 3 Óscares da Academia (Actriz Principal, Direcção Artística e Cenários a Preto e Branco, e Cinematografia a Preto e Branco) num total de 8 nomeações (as outras 5 foram nas categorias de Filme, Actriz Secundária – Marisa Pavan, Guarda-roupa, Montagem, e Música). Anna Magnani tinha sobretudo duas concorrentes de peso, Susan Hayward (em “I’ll Cry Tomorrow”, do mesmo Daniel Mann) e Katharine Hepburn (em “Summertime”, de David Lean). Por isso nunca acreditou que viesse a ganhar este primeiro e único Óscar da sua carreira pela interpretação de Serafina Delle Rose, uma viçosa viúva em período de transição amorosa, depois de perder o seu adónis siciliano e o filho que trazia no ventre, logo no início do filme.


“The Rose Tattoo” é um trabalho brilhante de Daniel Mann sobre uma não menos brilhante peça de teatro de Tennesse Williams (escrita quatro anos antes, em 1951), que também escreveu o argumento, de parceria com Hal Kanter. E se pensarmos no personagem de Anna Magnani e no modo soberbo como ela o interpreta, ficamos na dúvida se Williams não terá escrito a sua peça com a actriz italiana em pensamento (já li algures que sim, e a verdade é que mais tarde se tornaram amigos e companheiros de boémia das noites de Roma). Com efeito, custa imaginar qualquer outra no papel de Serafina Delle Rose, mesmo uma actriz tão talentosa como Maureen Stapleton, que lhe vestiu a pele nos palcos da Broadway.


Marisa Pavan oferece-nos também um belo desempenho como Rosa, a filha de Serafina, adolescente sonhadora que por vezes nos faz lembrar a maravilhosa Natalie Wood de “Splendour in the Grass”, filme rodado seis anos depois deste. Ainda no campo dos actores, uma referência obrigatória a Burt Lancaster que terá sido, neste filme, a personagem mais completamente idiota de toda a sua brilhante carreira. O seu indescritível Alvaro Mangiacavallo é o responsável directo pelos momentos mais hilariantes do filme, dando uma réplica convincente aos dotes insuperáveis de La Magnani.


 “The Rose Tattoo” é, na sua essência, uma comédia sobre o amor, algo raro na dramaturgia de Tennesse Williams. Na análise da peça, S. Falk afirma que «Serafina é um retrato lírico da camponesa italiana, sendo também a encarnação de uma crença, a afirmação do sexo como a raiz principal de uma existência completa. A personagem encontra beleza tanto na cama, quanto na imagem de Nossa Senhora que ela venera e renega quando não é atendida nos seus pedidos. Ela acredita ser o sexo a única expressão válida da vida e compreende, perfeitamente, que a paixão opõe-se à morte, subjugando-a no desenlace da peça. Nela, os símbolos eróticos podem ser encontrados em abundância: o bode que berra, o pardal barulhento, os ásperos gritos de pássaros, o ruído penetrante da risada de um negro e a entrada do luar na casa de Serafina. Esses elementos simbólicos descrevem o desejo natural que deve prevalecer sobre a alma reprimida e solitária.»


A propósito do título do filme, é curioso pensarmos que uma tatuagem tanto pode representar uma cultura como a dos marinheiros que tatuam no corpo âncoras e sereias, quanto o nível de desequilíbrio da personalidade. No presente caso, a peça de Tennesse Williams mostra o conflito da viúva que não consegue viver o habitual período de luto, por descobrir que o marido a traía com outra mulher, a qual tinha de igual modo uma rosa tatuada no peito – uma espécie de pacto infantil que “amarra” duas pessoas pelo mesmo fétiche. E quando o seu (provável) novo amante se faz tatuar com o mesmo símbolo, na mesma zona do corpo, em vez do efeito de proximidade por ele desejado, obtém da parte dela um recuo instantâneo, que denota o agravamento da sua neurose.



Relembremos agora parte de um texto que o crítico teatral Tito Lívio escreveu sobre “A Rosa Tatuada”: «Nesta peça existem duas figuras principais; uma a viúva, Serafina Delle Rose, que, após a morte do marido, se enclausura na sua casa, morrendo para um mundo em que Rosa, a filha, surge como a única ponte com os outros e o seu ex-marido, Rosário, um homem que adorava com todas as suas forças, um "barão" siciliano, símbolo de força, beleza e virilidade triunfantes. Curiosamente, à semelhança do que Lorca antes fez em "A Casa de Bernarda Alba" (1936), autor que Tennessee Williams tanto admirava, Rosário é uma personagem fundamental mas sempre ausente. Todavia a sua sombra paira na casa em que a urna com as suas cinzas se encontra em lugar dominante ao lado da Madonna venerada por Serafina e onde a cama, onde celebravam cada noite os rituais de comunhão de um amor exacerbado, é vista pela viúva como um autêntico altar.


Se há um mito que preside a esta obra, plena de símbolos como todo o teatro de Tennessee Williams, é o de Dionísios, Deus da renovação da Natureza, da sucessão das estações, da fertilidade e do amor carnal. Quando Rosário morre, o mais cruel inverno instala-se, na casa e no corpo de Serafìna como se o sol se apagasse e o dia se fizesse subitamente noite. Ficam apenas as recordações, as lembranças do passado, a celebração dos ritos funerários em sua memória e homenagem. Em que Serafina será a dedicada oficiante num catolicismo siciliano de veia popular onde a superstição e o paganismo se misturam num curioso sincretismo.



Quando, pela primeira vez, Álvaro Mangiacavallo, camionista com um impressionante físico e extraordinariamente parecido com Rosário, lhe entra casa dentro, é Dionísios reencarnado que surge em todo o seu esplendor anunciado de um novo e mais feliz renascimento. Mais ingénuo e menos corajoso que Rosário mais sensível e sentimental também (chora e comove-se com facilidade, o que não é vulgar num macho italiano), em Álvaro se inscrevem muitos dos sinais antes pertencentes a Rosário desde o soberbo tronco que Serafìna tanto admira até a idêntica profissão e a rosa que faz tatuar no peito para se parecer melhor com o ex-marido da mulher que ama e a quem entretanto faz a corte. Que só é possível porque, nesta altura, Serafina já sabe que Rosário não lhe foi fiel como antes pressupunha. O mito desfeito renova-se na figura deste novo Dionísios coroado de Rosas.



No corpo de Serafina, a primavera sucede a um penoso e longo inverno e a árvore seca que em breve dará flores e frutos (uma rosa surge de novo no seu peito, a rosa mística do amor fecundo) através da semente que Rosário aí deixou. E chegamos assim ao fim de um ciclo em que o impulso da vida, e do amor carnal (Eros) vencerá a morte, a reclusão, o luto, a ausência (Thanatos). E Serafina poderá ser, outra vez feliz, celebrando, cada noite, o corpo do homem amado, essa sensualidade e erotismo desinibidos tão mediterrânicos que aliás Tennessee Williams tanto admirava por oposição ao puritanismo hipócrita americano, fonte dos traumas, feridas e tragédias que são um tema constante e primordial do seu teatro.»




Este tema cantado por Perry Como foi criado posteriormente para 
promoção do filme, não fazendo parte da banda-sonora original

quinta-feira, junho 14, 2012

NOVECENTO (1976)

1900
Um filme de BERNARDO BERTOLUCCI


Com Robert De Niro, Gérard  Depardieu, Dominique Sanda, Laura Betti, Sterling Hayden, Anna Henkel, Alida Valli, Stefania Sandrelli, Donald Sutherland, Burt Lancaster


ITÁLIA / 315 min / COR / 
16X9 (1.85:1)


Estreia em Itália a 16/8/1976
Estreia em Portugal a 12/2/1977 (cinemas São Jorge e Mundial)


Alfredo Berlinghieri: «Desejo que o meu siga as leis»
Leo Dalcó: «E eu desejo que o meu seja ladrão»

Com a duração total de cinco horas e vinte minutos, “Novecento” é um fresco empolgante, épico e popular, que ressuscita e reabilita o romanesco, numa tradição que encontra sómente em “Gone With The Wind” um termo de comparação possivel. Simultâneamente crónica de uma família feudal em decadência, e panorâmica histórica, “Novecento” reserva-se já o lugar de clássico absoluto dos anos 70. Todo o filme, que tem por fundo as transformações históricas do século XX, gira à volta de três gerações, correspondentes ao decorrer temporal em dois estratos sociais diferentes e centralizando a acção na terra natal de Bertolucci, o aclamado realizador italiano.

Enquanto concentra a história nos bastidores, Bertolucci descarrega toda a sua nostalgia de encarar a vida na vivência de Olmo e Alfredo, quando eles se abstraem do que os rodeia para se entreolharem nas suas próprias personalidades. Se são a infância e a adolescência os terrenos mais permeáveis ao eclodir dessa nostalgia, será apenas na meia-idade e na velhice que ela atingirá o seu significado maior por entretanto já ser só saudade. Isto é o que Bertolucci nos consegue admiravelmente sugerir ao fazer-nos acompanhar o crescimento de Olmo e Alfredo durante quase meio século.

Politicamente, o filme tem o mérito de não querer enganar ninguém, de não pretender fazer passar gato por lebre. O dualismo surge desde a primeira cena e Bertolucci nem por um momento se contradiz ao longo de toda a odisseia. Descreve os dois trilhos sobre os quais a humanidade assenta: a classe abastada, prepotente e exploradora e a classe pobre, oprimida e explorada. A partir deste enquadramento histórico, um precipício intransponível: nem os de lá passam para cá, nem os de cá passam para lá.

Mas esta caricatura ideológica é também o lado menos conseguido de “Novecento”. Falta-lhe isso a que poderíamos chamar o “charme discreto” do cineasta em surpreender o espectador. Bertolucci decidiu impor em vez de propor. Se isso pode ser lido como sinal de honestidade, também pode ser interpretado como ingenuidade ou falta de senso. Assim, e visto à distância de 40 anos, “Novecento” surge-nos agora irremediavelmente datado na mensagem política que encerra. Há muito que as sociedades e os regimes políticos deixaram de ser vistos alternadamente como antros de ódios ou espelhos de virtudes. O “bem” e o “mal” não se compadecem com demarcações básicas e existem em todas as gentes e em todos os cantos do mundo. Certamente que sempre assim foi. Só que no fim da 2ª Guerra Mundial as posições estavam extremadas e era muito fácil e prático estabelecer a divisão entre o mundo dos “bons” e o mundo dos “maus”.

Mas Bertolucci é mesmo um realizador de grande talento e por isso fez deste filme um painel de indiscutível beleza. Lírico e épico, viscontiano, profundo e sensível, é um poema de imagens, rostos e movimentos. Tal como o realizador referiu numa entrevista, existem quatro partes distintas na composição do filme, associadas a tantas outras estações do ano: a infância dos dois protagonistas principais (Verão), o seu re-encontro já na fase adulta (Outono), o pesadelo da tirania fascista (Inverno) e por fim a Libertação, no fim da 2ª Guerra Mundial (Primavera).

Mas se Bertolucci foi o artífice principal, o outro grande autor de “Novecento” é sem dúvida Ennio Morricone, pela música magnífica com que revestiu o celulóide. Inspirada na cultura popular e na recolha do folclore italiano, com uma integração perfeita em todo o desenrolar da história, pode-se concluir que a música de Morricone valoriza extraordinariamente o filme de Bertolucci. Quase nos arriscamos a dizer que na sua montagem sonora, estamos perante um outro filme. E isto porque, apesar de técnica e artisticamente impecável, o filme de Bertolucci, à partida vincadamente panfletário, acaba por inexplicavelmente atingir um resultado prático de sinal contrário.

Com argumento do prório Bernardo Bertolucci, do seu irmão Giuseppe e Franco Arcalli, e uma belissima cinematografia de Vittorio Storaro, o filme brinda-nos ainda com um elenco internacional de grande excelência. Com Depardieu (Olmo) e De Niro (Alfredo), ainda nos princípios das respectivas carreiras, mas a encabeçarem composições de personagens inesquecíveis: Donald Sutherland e Laura Betti (nos pérfidos Attila e Regina), Burt Lancaster e Sterling Hayden (nos decanos Alfredo e Leo Dalco) ou ainda as sensuais Dominique Sanda e Stefania Sandrelli (Ada e Anita).

“Novecento” foi estreado em Itália na “Mostra de Cinema de Veneza”, em Agosto de 1976. Em Lisboa a estreia ocorreu no dia 12 de Fevereiro de 1977, em dois cinemas: São Jorge (1ª parte) e Mundial (2ª parte). Lembro-me de ver as duas partes no mesmo dia - matiné no São Jorge e soirée no Mundial - tal a ânsia de consumir sem demoras aquele grande acontecimento cultural. Nos EUA, e para não fugir à regra, o filme foi alvo de censura e drasticamente reduzido a 4 horas, Mais uma vez os americanos não puderam assistir nas salas de cinema à versão original apresentada na maioria das cidades europeias (ao longo dos anos muitos serão os filmes tornados quase que incomprensíveis para o público americano devido a este tipo de aberrações cometidas pelos produtores ou censores). Apenas em 1993, quando a versão video foi editada, tiveram a possibilidade de ver a totalidade da obra. E sómente no pequeno écran, é claro.

CURIOSIDADES:

- O orçamento inicial do filme – 6 milhões de dolares – foi comparticipado em partes iguais por três produtoras: United Artists, Paramount e 20th Century Fox. No fim da rodagem (um longo período de 14 meses, desde Julho de 1974 a Setembro de 1975) elevou-se a ceca de 10 milhões, o que o tornou o filme mais caro de todo o cinema italiano.

- A pintura que aparece durante o desenrolar dos créditios é “Il Quarto Stato”, de Giuseppe Pellizza da Volpedo

- Donald Sutherland detestou de tal maneira o seu desempenho como o sádico Attila, que durante anos não conseguiu ver o filme.

- Mais de 12.000 figurantes participaram no filme