Um
Filme de BRIAN DE PALMA
Com William Finley, Paul Williams, Jessica Harper, Gerrit Graham, George Memmoli, Archie Hahn, etc.
EUA / 92m / COR / 16X9 (1.85:1)
Estreia
nos EUA a 31/10/1974
Estreia
em PORTUGAL a 22/4/1976
(Lisboa,
cinema Londres)
Este
foi o primeiro título da filmografia de Brian de Palma a conseguir atingir o
mercado português. Estávamos em 1976, quando "Phantom of the
Paradise" se estreou a 22 de Abril, no Cinema Londres, em Lisboa. Oitavo
filme do realizador norte-americano, então um ilustre desconhecido entre nós,
esta brilhante opereta-pop não teve o
sucesso merecido e só muitos anos depois conseguiu reunir um amplo consenso à
sua volta. Hoje tornou-se na quinta essência do filme de culto, amado por
cinéfilos de várias gerações, estando já anunciada para os finais deste mês uma
luxuosa edição, comemorativa do 40º aniversário (em blu-ray e dvd).
Swan:«Phoenix, Swan here. I want you to answer
a
question for me»
Phoenix: «Yes?»
Swan: «What would you give me to sing?»
Phoenix: «Anything you want»
Swan: «Anything? Would you give me your voice?»
Brian
de Palma, que acumula também o crédito pelo argumento, baseou-se em três
clássicos da literatura fantástica - "Fausto" (Wolfgang Goethe,
1806), "O Retrato de Dorian Gray" (Oscar Wilde, 1890) e "O
Fantasma da Ópera" (Gaston Leroux, 1910) - para criar uma obra
inesquecível nos domínios do cinema de terror, utilizando o todo como uma
violenta crítica aos bastidores das editoras musicais, engrenagens
maquiavélicas que fazem e desfazem vedetas ao ritmo dos interesses comerciais
mais imediatos. Winslow Leach (William Finley) comparece a uma audição da Death
Records para descoberta de novos talentos, e a qualidade da sua música chama a
atenção do mítico dono da editora, o sempre jovem Swan (Paul Williams), que
rapidamente se apropria da partitura de Leach, expulsando-o do teatro, o
"Paradise" do título. Humilhado, ferido no seu orgulho, o compositor
acabará numa penitenciária, como um vulgar criminoso. Consegue evadir-se algum tempo depois e
o seu único objectivo é vingar-se do homem que lhe roubou a música para a
adulterar a seu belo prazer. Phoenix (a estreante e talentosa Jessica Harper) é
a sua musa inspiradora, a voz escolhida para interpretar a sua cantata.
Filme
rigoroso e com um ritmo sempre frenético, "Phantom of the Paradise",
campeão das sessões da meia-noite, é uma autêntica festa para os sentidos,
destacando-se sobretudo a excelência musical, assinada pelo próprio Paul
Williams – a banda-sonora (nomeada quer para os Óscares quer para os Globos de
Ouro) libertou-se do celulóide e adquiriu vida própria, tornando-se num dos álbuns
obrigatórios da música pop/rock. Temas como “Special To Me” ou “Old Souls”
(ambos cantados por Jessica Harper) ou ainda as interpretações de Paul Williams e
William Finley de “Faust”, tornaram-se clássicos absolutos. Temáticamente, o
filme é de igual modo apaixonante, uma meditação catártica a propósito do
mercantilismo que perverte toda a obra artística. De Palma tem essa mesma consciência
da sociedade moderna, ao confessar a sua incapacidade dela se libertar, apesar
de abominar os seus valores tradicionais: «lidar com o diabo faz de nós uns
demónios».
Contrariamente
à comédia musical clássica, “Phantom of the Paradise” é uma metáfora que vai
muito além das simples composições cénicas. À maneira de um Berthold Brecht, a
música e o espectáculo tornam-se comentários irónicos sobre a tragédia, incrementando
a tensão dramática no écran. E isso apesar dos variados apontamentos cómicos,
um pouco por todo o filme. Inteligente e subtil, divertido ou trágico, “Phantom
of the Paradise” foi o filme de que Brian De Palma necessitava para que a sua
carreira disparasse de vez. Nos anos subsequentes surgiriam filmes como “Obsession”
(1976), “Carrie” (1976), “The Fury” (1978), “Dressed To Kill” (1980) e “Blow-Out” (1981),
conjunto de obras que até hoje constitui o melhor que o realizador nos
legou.
CURIOSIDADES:
-
Linda Ronstadt, bem como Sissy Spacek (que viria a protagonizar a inesquecível “Carrie”)
foram preteridas a favor de Jessica Harper
-
A sequência “time bomb in the car trunk”, filmada num único take, foi uma pequena homenagem que
Brian De Palma quis fazer à abertura do célebre filme de Orson Welles, “Touch
Of Evil” (1958)
- Gerrit Graham encontrava-se doente durante a rodagem do número musical "Life at Last" e mal conseguia andar. A sua voz foi dobrada por Ray Kennedy
- Gerrit Graham encontrava-se doente durante a rodagem do número musical "Life at Last" e mal conseguia andar. A sua voz foi dobrada por Ray Kennedy
4 comentários:
Também vi este grande filme há pouco tempo. É um autêntico repasto para os cinéfilos. Gostei de saber quando e onde estreou o filme em Portugal. Você dá importância não só aos filmes mas à experiência social de ver um filme. Gosto disso.
O seu blogue é excelente.
Joao Neves
parisvertigo.blogspot.fr
Obrigado, João Neves, volte sempre
Olá, tudo bem?
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Desde já agradeço e aguardo retorno,
Grato!
Ótima crítica, muito bem elaborada e escrita. Eu gosto muito de quase todos os filmes que vi do Brian De Palma. Ainda não tinha visto este "phantom of the paradise" que é um filme muito louco e divertido constituindo uma inteligente sátira à industria musical da época. Este tipo de filmes geralmente não têm uma receção imediatamente positiva do público e da crítica, mas alguns acabam por tornar-se, com o passar do tempo, filmes de culto com legiões de seguidores. Veja-se, por exemplo, o caso de "scott pilgrim vs. the world", do realizador Edgar Wright, de 2010, cujo humor tem algumas semelhanças com este filme do De Palma. Também teve uma receção fria inicialmente, mas com o passar dos anos é cada vez mais apreciado, sendo já considerado por muitos também um filme de culto. Fazem falta ao cinema de hoje filmes assim, diferentes, de grande liberdade criativa e que satirizem muitos dos aspetos da sociedade atual, tão adormecida e amorfa ela está.
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