sexta-feira, julho 06, 2012

QUARTETO - 4 SALAS / 4 FILMES

Gerido por Pedro Bandeira Freire, o Quarteto teve a particularidade de nascer em 21 de Novembro de 1975, quando os ventos da Revolução de Abril começavam já a amainar. Localizado na Rua Flores do Lima, nº 16 (uma rua sem saída paralela à Av. dos EUA), o Quarteto foi o primeiro multiplex do país: a sua divisa tornou-se rapidamente num slogan querido de todos os cinéfilos: "4 Salas / 4 Filmes". Porque a principal característica daquele saudoso espaço era a atmosfera de cinefilia que por lá se respirava. As salas podiam ser pequenas, os écrãs diminutos e as condições de projecção deficientes; mas nada disso importava muito: quem gostava de bom cinema sentia-se em casa, tanta era a variedade de títulos constantemente à disposição (e quase sempre em exclusivo). 
Lembro alguns dos mais importantes, aqueles que contribuíram decisivamente para a minha formação cinéfila: "E Deram-lhe Uma Espingarda" de Dalton Trumbo (o primeiro que lá vi quando as salas abriram as suas portas), "O Menino" e o "Império dos Sentidos" de Nagisa Oshima", "Delícias Turcas", de Paul Verhoeven "Taxi Driver" de Martin Scorsese, "As Asas do Desejo" de Wim Wenders, "Inserts" de John Byrum, "Nós Por Cá Todos Bem" de Fernando Lopes (cineasta falecido há alguns meses atrás), "Alien, o 8º Passageiro" de Ridley Scott, "Dinheiro do Céu" de Herbert Ross, "Noites Escaldantes" de Lawrence Kasdan e muitas, muitas reposições ("A Memória do Cinema"), ciclos temáticos, sessões da meia-noite, eu sei lá...
Foi lá que aconteceu um dos mais espantosos sucessos do pós 25 de Abril com um filme tão difícil como "A Religiosa" [1966], de Jacques Rivette. De recordar ainda outras coisas impensáveis hoje em dia como a estreia do "All That Jazz" [1979], de Bob Fosse, não apenas em exclusivo, mas... nas quatro salas! Pedro Bandeira Freire (falecido a 17 de Abril de 2008, com 68 anos), lutou como pôde para salvar o seu cinema; mas depois de muitos anos a remar contra a maré da burocracia deste país, acabou por desistir. A 16 de Novembro de 2007, o espaço foi encerrado no seguimento de uma vistoria da Inspecção-Geral das Actividades Culturais: não reunia as condições de segurança exigidas por lei. 
A vereadora da cultura da Câmara Municipal (que chegou a receber Pedro Bandeira Freire pouco antes deste falecer) admitiu não haver dinheiro para comprar o espaço: «a Câmara de Lisboa gostaria de o manter, ou pelo menos preservar a sua memória. O que podemos tentar fazer é classificar o espaço como de interesse cultural da cidade, impedindo que se altere o fim para que foi criado. Estamos a ponderar essa hipótese, mas ainda não estabelecemos negociações.» Já lá vão quase 5 anos... 

4 comentários:

renatocinema disse...

Verdadeira aula de história.......estou adorando.

Fer Gon disse...

Sem palavras, mas com algumas lágrimas. Os meus 70 anos agradecem este maravilhoso trabalho.

Anónimo disse...

Saudades do Quarteto, muitas sessões da meia-noite assisti nesse cinema.

Atomez disse...

As sessões duplas da meia noite eram uma coisa de outro mundo!