sexta-feira, abril 01, 2011

SWEET CHARITY (1969)

A RAPARIGA QUE QUERIA SER AMADA


Um filme de BOB FOSSE


Com Shirley MacLaine, John McMartin, Chita Rivera, Paula Kelly, Stubby Kaye, Barbara Bouchet, Ricardo Montalban, Sammy Davis Jr., Ben Vereen


EUA / 149 min / COR / 16X9 (2.20:1)


Estreia nos EUA a 1/4/1969
Estreia em Moçambique a 12/9/1969
(LM, teatro Scala)
Estreia em Portugal a 22/1/1970
(Lisboa, cinemas Mundial e Vox)


Oscar Lindquist: «The odds against us are at least a hundred to one»
Charity Hope Valentine: «Those are the best odds I ever had»

«Adoro o cinema - acho que foi uma paixão que começou quando vi pela primeira vez um filme, qualquer coisa parecida com uma fita de Tarzan. Não vejo limites para as possibilidades do cinema, à excepção dos limites do espírito do realizador. Também acho que fui durante toda a minha vida um pintor frustrado. A câmara permitiu-me finalmente a hipótese de fazer um pouco de pintura. Realizei "Sweet Charity" com base mais na minha ignorância do que na minha coragem.» (Bob Fosse)

O fascínio das "possibilidades do cinema" e o fascínio pela "pintura com a câmara" são constantes óbvias do cinema de Bob Fosse. Neste inovador filme, baseado livremente nas “Noites de Cabíria” (1957) de Federico Fellini, Fosse fragmenta os números musicais, quer multiplicando as interferências dos processos mecânicos do cinema (paralíticos, encadeados, exposições duplas, zooms, etc.) quer coreografando os ângulos de câmara e o que a câmara apanha, mais do que coreografando bailarinos.
Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas basta chamar a atenção para números como "My Personal Property", "If My Friends Could See Me Now" e "I'm A Brass Brand", em que os problemas de transição espacial e temporal dentro do mesmo número são eliminados com o recurso ao jump-cut, recurso que permite a Fosse mostrar Shirley MacLaine a dançar em sucessivos espaços não relacionados, dando a cada número um movimento que a dança de MacLaine, pouco apta nesse campo, não lhe poderia efectivamente proporcionar.
Aliás, quando não é obrigada a dançar, Shirley MacLaine é perfeita no seu papel de anti-Cinderela, uma composição tocante e comovente na sua generosidade e ingenuidade sem limites. E se um dia me perguntarem o que é uma actriz, responderei citando a cena do Registo Civil, em que Shirley vai trauteando a marcha nupcial enquanto Oscar diz que não pode casar com ela. Mais uma fabulosa interpretação da mana mais velha do Warren Beatty, entre tantas outras que a famosa actriz nos habituou ao longo dos anos.

“Sweet Charity” é um filme / peça musical que não poderia ter uma designação mais feliz. Charity Hope Valentine (um nome escolhido a dedo também) é uma acompanhante de um salão de dança de Nova Iorque (evidentemente que nesses antigos espaços a dança mais não era do que um pretexto para outro tipo de companhia…) que ambiciona largar essa vida e assentar com o “homem dos seus sonhos”. Mas a realidade sobrepõe-se a esse desejo, só possível mesmo de concretizar em contos de fadas e príncipes encantados, ainda que Charity possua um coração do tamanho do mundo, onde alberga toda uma paixão pela vida.
Bob (Louis) Fosse (1927 – 1987), coreógrafo e realizador americano nascido em Chicago de mãe irlandesa e pai norueguês (foi o último dos seis fllhos do casal), tentou o Cinema logo no início dos anos 50, com a ambição de se vir a tornar num novo Fred Astaire. Depois de algumas aparições como actor, chega a coreografar dois musicais (“The Pajama Game”, em 1954 e, no ano seguinte, “Damn Yankees”), antes de se mudar, com certa relutância, para a Broadway. É aqui que desenvolve os seus dotes de coreógrafo, incluindo “Sweet Charity” em 1966, peça que o traria de novo ao mundo do cinema dois anos depois.
Quando o filme se estreou nos EUA (faz hoje precisamente 42 anos), auspiciou-se o renascimento do musical como género. É evidente que tal não aconteceu: o género não renasceu e provavelmente nunca mais renascerá - questão que se prende menos com a aparição de génios individuais do que com as estruturas de produção do cinema americano a partir da década de 60 - mas "Sweet Charity" representou um momento de inegável frescura, que hoje em dia ainda se mantém, muito por causa dos fabulosos números musicais, para além da já citada brilhante interpretação de Shirley MacLaine.
Bob Fosse ainda nos deixaria três filmes incontornáveis: “Cabaret” (1972), que lhe valeria o Oscar de melhor realizador; “Lenny” (1974), com mais uma nomeação; e o semi auto-biográfico “All That Jazz” (1979), igualmente nomeado para o melhor realizador e também argumentista, de parceria com Robert Alan Arthur. Este último filme ganharia ainda a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1980. Em 23 de Setembro de 1987 Bob Fosse encontrava-se em Washington, onde uma nova produção de “Sweet Charity” iria subir à cena no National Theater. À hora de início do espectáculo, por volta das 7 da tarde, Bob sofreu um ataque de coração no seu quarto do Hotel Willard. Levado de urgência para o hospital, viria a falecer algumas horas depois. Tinha 60 anos.

Como já vem sendo hábito, quem quiser o DVD do filme terá de o mandar vir de fora, pois infelizmente nunca foi editado cá pelo burgo. Esta edição PAL é facilmente encontrada em qualquer loja da net e por um preço muito acessível. Inclusivé traz legendas em português e diversos bonus, incluindo o final alternativo que Fosse filmou na altura, receando que a Universal não gostasse do original. Pelos vistos gostou, e foi pena. Porque este outro final, apesar de ser um “happy ending”, não o é de modo taxativo. E, por outro lado, é muito mais condizente com o tom geral do filme. Confesso que aquele grupinho “hippie” do final original sempre me soou um pouco a falso e uma cedência aos costumes da época. Uma das facetas mais reconhecidas na personalidade de Bob Fosse sempre foi o cinismo, algo que trouxe mais-valias em outros projectos do realizador. Mas não aqui, em “Sweet Charity”. Por isso façam a experiência de concluir o filme com os dois finais alternativos e vejam como ele pede aquele “happy-ending” – não nos esqueçamos que se trata de um musical, apesar da inspiração colhida no drama de Fellini.
CURIOSIDADES:

- Primeiro filme de Chita Rivera, Lee Roy Reames, Chelsea Brown e Ben Vereen

- A produção original da Broadway (da autoria de Neil Simon e já coreografada por Bob Fosse) estreou-se no Teatro Palace de Nova Iorque, em 29 de Janeiro de 1966, onde se manteve durante 608 apresentações.

- “Sweet Charity” foi nomeado para 3 Óscares (Banda-Sonora, Guarda-Roupa e Direcção Artística e Cenários), tendo concorrido também para o Globo de Ouro do melhor Musical ou Comédia.




LOBBY CARDS:
Para os interessados disponibiliza-se em anexo a banda-sonora original:

3 comentários:

Rato disse...

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José Morais disse...

Uma grave lacuna na minha filmoteca. Vou ver já se o encontro na Amazon.
De qualquer modo obrigado pela banda-sonora.

Close up! disse...

Belo post!
Fiquei com curiosidade de ver este filme!!
Não sabia que a Shirley era irmã do Warren Beauty,também...
Curioso!