terça-feira, outubro 19, 2010

THE CROWD (1928)

A MULTIDÃO
Um filme de KING VIDOR



Com James Murray, Eleanor Boardman, Bert Roach, Estelle Clark


EUA / 98 min / PB / 4X3 (1.33:1)


Estreia nos EUA a 18/2/1928 (New York)
Estreia em PORTUGAL a 14/5/1965



John Sims: “Look at that crowd! The poor slobs... all in the same rut!

Para lá do tom melodramático das situações, o que importa reter deste filme é a inovadora técnica de filmagem que tanto influenciou a maneira de fazer cinema na época. Ao longo da sua carreira, King Vidor fez muitas experiências nos seus filmes. “The Crowd” foi um dos primeiros a utilizar intensivamente os diversos locais de Nova Iorque, onde inclusivé chegou ao ponto de se servir de câmaras escondidas para captar a realidade da vida nas ruas. Lembremos algumas dessas famosas sequências:
Com o protagonista do filme, John Sims (James Murray) ainda adolescente, a notícia da morte do pai é-lhe comunicada de uma maneira exemplar e única nos seus propósitos. Não tenho memória de ver técnica que se lhe assemelhe em qualquer outro filme (exceptuando-se talvez alguns exemplos no expressionismo alemão) – o jovem é filmado em plongé profundo, a subir uma longa escadaria, ao cimo da qual o agurda a revelação da tragédia. O lento caminhar lembra o acesso dos condenados ao cadafalso, com a inevitabilidade da morte como meta a ser atingida.
Num plano-sequência de grande complexidade (não nos esqueçamos que estamos ainda nos anos vinte) a câmara, montada numa grua, parte de várias pessoas a entrar e a sair de um edifício de escritórios, sobe pela fachada do arranha-céus até focar uma janela, entra por ela dentro e mostra uma sala descomunal, com centenas de secretárias, até finalmente isolar uma delas, aquela onde diariamente se senta John Sims, na monotonia de um trabalho sempre igual. É a desumanização da vida profissional mostrada em toda a sua crueza. Billy Wilder recriou esta sequência-chave no seu filme de 1960, “The Apartment”, uma versão doce-amarga deste filme de Vidor; e até o génio de Orson Welles não se conseguiu livrar das influências de “The Crowd”, ao levar ao extremo esta mesma sequência em “The Trial”, de 1962.
Quando a filha mais nova do casal é atropelada e levada moribunda para dentro do apartamento, John tenta abafar todo o ruído à volta da criança para tentar adiar o mais possível o desenlace da tragédia que se anuncia. Vem inclusivé para a rua tentar fazer parar o barulho do trânsito e das pessoas que passam incessantemente. Um polícia chega a dizer-lhe: «a vida não pode parar por causa da sua filha estar doente». Mais uma vez a câmara mostra-nos o “rosto” anónimo da multidão que tudo sacrifica à sua voragem.
King Vidor teve neste filme a ousadia de contar a história de um casal como tantos outros, dois elementos da multidão que inunda as ruas de Nova Iorque. O naturalismo profundo de “The Crowd” centra-se no homem comum, sem grandes aptidões ou talentos, que pensa constantemente que há-de subir na vida, mas que nunca passa da cepa torta. O sonho americano é uma ilusão, um conto de fadas, mas onde ainda se consegue ludibriar a realidade, mesmo que seja à custa de nos enganarmos a nós próprios. Como na paradigmática cena final, em que num teatro John, Mary e o filho sobrevivente se riem de um palhaço vestido como um desempregado a pedir esmola. Enquanto eles se riem ao ver a sua própria desgraça representada num palco, a câmara afasta-se dissolvendo-os uma vez mais no anonimato da multidão.
Citando Alain Carbonnier, «Vidor pertence à raça dos cineastas que filmam directamente o desejo, as mais das vezes aliás dos cineastas cristãos, talvez porque sobre eles a censura foi mais importante, mais interiorizada. Eles conhecem bem a força de uma pulsão repelida e sabe-se como é difícil conter as paixões. Irrigada pela violência das relações amorosas, a sua obra exprime a ambivalência do desejo»
CURIOSIDADES:

- Para interpretar Mary, King Vidor escolheu a atraente Eleanor Boardman, sua mulher na altura, e para o papel de John decidiu-se por James Murray, cuja carreira terminaria com um suicídio, passados quase dez anos sobre a realização deste filme

- King Vidor filmou quase uma dezena de finais de modo a poder negociar com a MGM, que queria invariavelmente “fins felizes” nos seus filmes. Pelos vistos conseguiu os seus intentos ao fazer passar a mensagem que idealizara para o final de “The Crowd”

- O filme teve duas nomeações para os Oscars da Academia, nas categorias de realização e melhor filme do ano

2 comentários:

Billy Rider disse...

Uma das minhas grandes referências do Período do Mudo e que me ajudou a perceber que o Cinema é muito mais do que um simples entretenimento. Independentemente do enredo lamechas há aqui um modo muito artístico de contar essa mesma história que faz toda a diferença.

Nowhereman disse...

O melodrama é assumido e intencional. De que outro modo se poderia mostrar o engodo do "american way of life"?