segunda-feira, março 07, 2011

PLANET OF THE APES (1968)

O HOMEM QUE VEIO 
DO FUTURO
Um filme de FRANKLIN J. SCHAFFNER




Com Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter, Maurice Evans, James Whitmore, James Daly, Linda Harrison

EUA / 112 min / COR / 
16X9 (2.35:1)


Estreia nos EUA a 8/2/1968
(New York)
Estreia em Moçambique a 4/5/1968 (LM, Teatro Scala)




Taylor: «Oh, my God! I'm back. I'm home.
All the time, it was... We finally really did it.
You maniacs! You blew it up!
Ah, damn you! Goddamn you all to hell!»
Este filme faz-me desejar que a máquina do tempo estivesse já inventada neste início do século XXI. Infelizmente a realidade continua muito aquém da ficção e assim não posso concretizar o projecto que tinha em mente: a de pegar em alguém nascido nos últimos 30 anos e fazê-la recuar a 1968. Durante a viagem todas as referências e memórias fílmicas seriam apagadas, de modo a que essa pessoa pudesse assistir à estreia de “Planet of the Apes” com o encantamento próprio de um estado em fase pura. Tal como eu, que tive a felicidade de viver essa experiência aos 15 anos, no próprio ano em que o filme foi estreado. É  que se trata de algo irrepetível, que apesar de se poder sempre lembrar jamais poderá ser revivido.


Nas últimas décadas, a evolução da tecnologia foi conseguindo ultrapassar muitas barreiras; e o advento mais ou menos recente dos efeitos digitalizados - capazes de recriar o imaginário mais secreto - habituou-nos a poder ver tudo o que quisermos num écran de cinema. Mas em 1968 não era assim; e “Planet of the Apes” começou logo por colocar problemas de produção que nunca antes tinham sido resolvidos. O principal foi sem dúvida o de levar as pessoas a acreditar em macacos falantes, sem se cair no ridículo. John Chambers (já falecido, a 25 de Agosto de 2001) seria o homem a conseguir ultrapassar tal desafio, ao elaborar as magníficas máscaras atrás das quais actores talentosos como Roddy McDowall ou Kim Hunter tornaram credíveis os evoluídos símios, transformando-os em personagens inesqueciveis. 

Mas esta foi apenas uma parte do sucesso do filme. Um dos grandes trunfos foi sem dúvida o brilhante argumento, baseado na obra do francês Pierre Boulle (já conhecido, na altura, por ter escrito “The Bridge on the River Kwai”). Michael Wilson, escritor cujo nome esteve na lista negra e Rod Serling, conhecido pela sua criação televisiva “The Twilight Zone”, conseguiram criar, a partir do livro, uma imaginativa sátira sobre a vaidade e o orgulho humanos. Para além da fantasia e da aventura, o filme teve a argúcia de tocar uma corda sensível às audiências de 1968, no modo como fazia a apologia do anti-autoritarismo e do anti-militarismo. E depois, aquela cena final... uma das mais inquietantes e inesquecíveis de que há memória. Pessoalmente, e tendo visto já milhares de filmes em toda a minha vida, não me consigo lembrar de outro final que exercesse em mim um poder tão profundo e arrasador!

O homem que veio do futuro parte de Cabo Kennedy em 14 de Julho de 1972, em expedição destinada a comprovar a teoria de um cientista (no livro o Professor Antelle, no filme o Dr. Haslein), o qual afirmava ser possível viajar no espaço e acompanhar essa viagem de uma outra no tempo. Durante 11 meses os quatro tripulantes da nave espacial percorrem dois mil anos em estado de hibernação (a data registada no painel de bordo, quando a nave se despenha é a de 25 de Novembro de 3978). Depois é o acordar num planeta desconhecido, perdido no tempo e no espaço, e no qual os aguarda uma realidade invertida, aparentemente ilógica, onde os humanos são bestas irracionais e os símios senhores dominantes e todo poderosos.
Cabe aqui referir a surpreendente força que possui a primeira meia hora de filme. Uma força assente na simplicidade, na economia de meios, mas que consegue agarrar desde logo o espectador e guiá-lo através do desconhecido e do misterioso, até ao contacto com os primeiros humanos e a entrada em cena dos macacos. Julgo até que, a par de toda a sequência final, são estes primeiros trinta minutos os responsáveis por, ao longo dos anos, ter regressado tantas vezes a este filme.
Um filme de aventuras adulto, intencional, polémico e inquietante, “Planet of the Apes” permitiu a Franklin Schaffner (falecido a 2 de Julho de 1989) sair temporariamente do anonimato (viria a ganhar um Oscar em 1970 por “Patton” e após a realização da adaptação do best seller “Papillon”, voltaria a caír no esquecimento) por saber rodear-se de uma equipa de técnicos admirável, equipa essa que construiu uma verdadeira obra de arte nos anais do cinema de ficção científica. O filme seria nomeado para 2 Oscars: Música e Guarda-Roupa, tendo apenas obtido um Oscar honorário pelo trabalho de maquilhagem, a cargo de John Chambers. 
Além de poder ser visto como um filme de aventuras (e que aventuras!), “Planet of the Apes” necessita de reflexão. É um filme polémico sobre a animalidade do homem, que fabrica guerras e se destrói a si próprio e aos seus semelhantes só pelo puro prazer de matar. Com os anos o filme tornou-se um ícon da cultura pop dos anos 60. Deu origem a 4 sequelas (de valor e interesse sempre decrescentes) e a uma série televisiva. Finalmente, em 2001, Tim Burton, confesso fan do filme original, atreveu-se a fazer um remake (uma homenagem, como ele afirmou numa entrevista). Com toda a parafernália técnica dos dias de hoje, mas sem conseguir beliscar o estatuto classicista do original. Os tempos são outros e a inocência há muito que foi perdida.
CURIOSIDADES:

- Edward G. Robinson foi escolhido de início para desempenhar o papel do Dr. Zaius, tendo chegado a filmar um teste com Charlton Heston. Aliás, já não era a primeira vez que os dois actores contracenavam juntos. Acontecera em 1956, nos “Ten Commandments” (1956), e mais tarde em “Soylent Green” (1973). Robinson acabou por não fazer parte do elenco devido ao seu estado de saúde: problemas cardíacos impediam que se sujeitasse diariamente aos demorados e cansativos trabalhos de maquilhagem.

- Durante as pausas das filmagens os actores tendiam a agrupar-se segundo as diversas espécies símias: macacos com macacos, chimpanzés com chimpanzés, orangotangos com orangotangos. Não foi nada que tivesse sido organizado ou exigido; simplesmente esse facto curioso acontecia naturalmente.

- A célebre e inesquecível cena final (sugerida por Rod Serling e que os censores da altura chegaram a pensar eliminar devido ao que chamavam ser o seu carácter “profano”) foi filmada na praia Zuma, situada no sul da Califórnia, em Malibu.


- Na novela original a sociedade símia é descrita como tecnologicamente muito avançada. Contudo, as limitações do orçamento obrigaram a uma caracterização mais modesta e primitiva do modo de vida dos macacos.

- Jerry Goldsmith, o compositor da banda-sonora, chegou a usar uma daquelas máscaras de símio enquanto dirigia a orquestra.

- A aldeia dos macacos foi construída com base no estilo arquitectónico do espanhol Antonio Gaudi

- Linda Harrison, a actriz que interpreta Nova, tinha na altura um romance com um dos produtores do filme, Richard D. Zanuck, de quem se encontrava grávida. Na altura da estreia, em Fevereiro de 1968, Zanuck divorciou-se da primeira mulher e casou-se com Linda. A união durou 9 anos, tendo o casal tido dois filhos

- Ter recusado o papel de Zira e não ter podido actuar com Charlton Heston foi uma decisão que actriz Ingrid Bergman lamentou para sempre, como mais tarde confidenciou à filha, Isabella Rossellini

- Para o produtor Arthur P. Jacobs Charlton Heston foi sempre a primeira escolha para o papel principal, apesar de na altura se ter equacionado o nome de Marlon Brando. Jacobs permitiu que vários jornalistas entrassem no filme como figurantes símios, o que de certo modo lhe garantiu boas notícias sobre as filmagens em diversos tablóides.







A banda-sonora original encontra-se disponível neste blogue

9 comentários:

Dezito (André Sousa) disse...

É um grande filme de facto, com um dos finais mais marcantes de sempre, ainda assim tou surpreendido com a tua classificação tão alta.

Cumps

JC disse...

Imagina que só vi o filme na TV, e há poucos anos. Mas impressionou-me na mesma.

Rato disse...

Dezito:
Para além das suas óbvias qualidades, há filmes que entram em nós ainda muito cedo e por lá ficam uma vida inteira. "Planet of the Apes" é para mim um desses filmes.
E o Tim Burton nunca deveria ter feito aquela aberrante versão - sobretudo por ele próprio se considerar um fan deste original. O que seria se não o fosse...

Ganza disse...

Excelente filme... poético.... uma abordagem ingenuamente filosófica... percursora de uma narrativa ou de uma visão de imperativo Ético para a Humanidade... uns trinta anos antes de ser "padrão" académico do pensamento Europeu, de esquerda, mais aceite (pelo menos teóricamente)...
...por essa altura Melanie Safka cantava "I Don't Eat Animals" 1970 .... é, leva tempo a aprender...

Álvaro Martins disse...

Nunca vi e muito por culpa desse aberrante remake do Tim Burtonn que me deixou de pé atrás. Qualquer dia vejo :)

Billy Rider disse...

Um dos grandes filmes da minha (e da tua) idade da inocência, como muito bem referes. E que continua a liderar, a par do "2001" do Kubrick, o TOP dos filmes mais célebres (e amados) da ficção-científica.
Também concordo que o Tim Burton se deveria ter quedado pela admiração.

José Morais disse...

Já perdi a conta das vezes a que assisti a esta maravilha. E comungo da tua opinião sobre aquela primeira meia-hora - um exemplo que os apologistas dos efeitos digitais deveriam ter sempre presente para entenderem que todo aquele clima de suspense, rumo ao desconhecido, não se consegue obter por esses insuportáveis maneirismos digitais. Que o diga o Tim Burton, que hoje em dia já deve estar mais do que arrependido pela "homenagem" prestada a este filme.

Anónimo disse...

Muito obrigado pela (rara) banda sonora

Anónimo disse...

Sensacional e o novo nem chega perto mesmo com os efeitos especiais