segunda-feira, agosto 17, 2015

L'HOMME DE RIO (1964)

O HOMEM DO RIO
Um filme de PHILIPPE DE BROCA


Com Jean-Paul Belmondo, Françoise Dorléac, Jean Servais, Adolfo Celi, Simone Renant, Milton Ribeiro, Ubiracy De Oliveira

FRANÇA - ITÁLIA / 112 min / 

COR / 16X9 (1.66:1)

Estreia em FRANÇA: 5/2/1964

Estreia nos EUA: New York, 8/6/1964



Adrien: «Un déserteur qui voyage dans une voiture volée 
avec une hystérique, de deux choses l'une :
ou c'est un névropathe ou c'est un blasé. Choisis !»

"L'Homme de Rio" é, hoje em dia, um perfeito desconhecido para as últimas gerações de cinéfilos. E quando falo em "últimas" estou-me a referir a um período que vem de vinte ou trinta anos atrás. Contudo, no ano em que se estreou [1964], foi um dos grandes sucessos do cinema francês, tendo sido também muito bem acolhido, um pouco por todo o mundo (pessoalmente tive a sorte de o poder ter visto, aos 12 anos, num grande écran de cinema). Trata-se de um filme aparecido na esteira da grande novidade que foi a eclosão da personagem de James Bond no cinema. Mas para além de se constituir num herdeiro directo dos dois primeiros filmes do agente secreto britânico, "L'Homme de Rio" teve ainda o grande mérito de conseguir revolucionar todo o cinema de aventuras. E que aventuras! De construção extremamente simples (como tudo o que é genuinamente bom), num equilíbrio quase perfeito entre a acção, o humor, o romance e o suspense, o fllme contém ainda uns diálogos deliciosos, tendo dado vontade a muito boa gente de fazer cinema.

Outra grande influência de "L'Homme de Rio" é a banda desenhada de inspiração belga, com Hergé e o seu Tintin à cabeça. Relembre-se nomeadamente "L'Oreille Cassée / O Ídolo Roubado", livro no qual o filme vai colher muita da sua inspiração, mas grande parte das sequências fazem lembrar situações de outras obras de Hergé. Ambientado em locais exóticos (o Brasil é o cenário exótico por excelência para os franceses), a obra de Philippe De Broca (1933-2004) prenuncia de alguma forma a onda de aventuras que haveria de rebentar muitos anos depois pelas mãos de Steven Spielberg, quando este criou a personagem de Indiana Jones e o fez viver mil peripécias, como nos bons tempos dos serials americanos, onde o herói se vai encontrando sempre em situações cada vez mais difíceis e perigosas. Aliás, honra lhe seja feita, Spielberg nunca escondeu a grande influência que este filme teve na criação do seu arqueólogo aventureiro. 

Aqui o herói é um simples soldado, Adrien Dufourquet, excelentemente criado por um desenvolto e galante Belmondo, ainda no seu melhor e sem direito a duplos (executou ele próprio todas as cenas mais arriscadas), que durante a sua semana de licença em Paris se vê envolvido num roubo de uma estatueta do período pré-colombiana que o levará, a si e à sua noiva, Agnès (Françoise Dorléac, a malograda irmã de Catherine Deneuve, aqui com 21 anos, apenas quatro antes de perder a vida num acidente de viação), até ao Rio de Janeiro e posteriormente a Brasília (ainda em construção na época e practicamente deserta) e às florestas do Amazonas, percurso durante o qual os traficantes lhe irão fazer a vida negra. O filme contém cenas inesquecíveis, encadeadas em alta velocidade, que não deixam o espectador respirar por um minuto sequer. Philippe De Broca, que também assina o argumento, conduz a obra com grande agilidade e muito humor, a que não falta sequer um último piscar de olhos aos problemas ecológicos, muito antes de tal se tornar uma moda.

Nomeado para o Oscar do melhor Argumento-Original, com música de Georges Delerue e um punhado de bons actores secundários (nomeadamente Jean Servais, Adolfo Celi e o pequeno Ubiracy de Oliveira), "L'Homme de Rio" mantém toda a sua frescura original, constituindo um belissimo divertimento. Realizado numa época em que, felizmente, ainda não podia socorrer-se de efeitos digitais (seria um filme impossível de ser feito hoje em dia), "L'Homme de Rio" ficará para sempre como algo genuinamente inovador, que serviu de inspiração a todos quantos, ao longo dos anos, quiseram elevar o filme de aventuras ao patamar do bom gosto e do grande espectáculo. 



5 comentários:

Luis F disse...

Este filme que descobri por mero acaso faz-me mais recordar as aventuras de Tin Tin do que do James Bond.
Gosto particularmente das sequências rodadas em Brasília ainda em construção na altura. Belmondo tem uma energia incrível lol

Anónimo disse...

Sr. Jota Marques. Uma honra escrever-lhe essas linhas. Um filme me traz até vossa senhoria, trata-se do L'homme de Rio do excelente Philippe de Broca. Estou há 12 horas fuçando o seu blog, delicioso. serei a partir de agora, seu fiel ledor. Estou publicando umas falações sobre Cultura Brasileira em:

http://www.sambaderaiz.net/bate-boca-com/

Pois bem. Os anos de pesquisa me levaram ao Morro de Mangueira que deves conhecer. Repositório da Cultura Brasileira, há 4 gerações produz o que de melhor a música brasileira pode proporcionar. Lá tenho amigos sinceros e amores de fato. Entre as dezenas de grandes criadores de Mangueira está Padeirinho da Mangueira, músico genial, malandro histórico, já falecido. seu filho, Mestre Birinha é meu amigo dileto e também compositor e instrumentista. O referido compositor está para lançar um cd, com composições suas e de seu pai. Marcamos alguns encontros que serão em breve disponibilizados no sítio. Na conversa, de passagem, o meu querido amigo citou um filme que fizera quando tinha 10 anos. O homemdo Rio. Deixei passar a informação, entretido com os vários assuntos que giravam no momento. Cheguei em casa e veio o estalo. Claro, L'homme de Rio com Belmondo e Dorléac... que maravilha! Mestre Birinha é o menino do L'homme de Rio. Hoje passei o dia emocionado com tal descoberta. Falei com ele várias vezes ao dia e não consegui externar o que serntia, a gratidão em ser aceito por um povo tão brilhante e generoso. Desculpe-me, Jota, tive que escrever essa estória pra ti. Gostaria de conversar mais detidamente com o senhor, se for do seu interesse. Deixo um grande abraço e meu endereço para comunicação.

isaiascaminha@yahoo.com.br

Grato pelo blog, Alexandre Teixeira.

Rato disse...

Muito curiosa essa coincidência, caro Alexandre. Muito obrigado pela partilha

raieldhotmail disse...

A música do filme ficou a cargo de Georges Delerue e não Francis Lai, conforme mencionado.

Rato disse...

Toda a razão, a música é mesmo de Georges Delerue. Vou já rectificar, obrigado!