terça-feira, agosto 25, 2015

LES VACANCES DE MONSIEUR HULOT (1953)

AS FÉRIAS DO SENHOR HULOT
Um filme de JACQUES TATI

Com Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Louis Pérault, André Dubois, etc.

FRANÇA / 114 min / PB / 
4x3 (1.37:1)

Estreia em França: 25/2/1953
Estreia em PORTUGAL: Lisboa (cinema Tivoli), 22/2/1954




O sr. Hulot chega no seu velho e fumarento carro a uma pacata vila à beira mar. Amistoso, prestável e simpático, Hulot deixa sem querer atrás de si um rastro de caos e desastres. Se abre uma porta um vendaval vira o hotel de pernas para o ar. Um passeio de canoa termina, inevitavelmente, na maior confusão. Se sai a cavalo o animal vira-se contra ele. Uma partida de ténis pode deixar os seus adversários à beira de um ataque de nervos. Um piquenique a bordo do seu carro evolui para uma monumental barafunda, e até na véspera da sua partida consegue despedir-se com um desastre de proporções alarmantes.

Depois de "Há Festa na Aldeia" Jacques Tati assina em 1953 "As Férias do Sr. Hulot", o filme onde nasce a fabulosa personagem de Hulot. Vencedor do Prémio Louis Delluc, nomeado para o Grande Prémio do Festival de Cannes e para o Oscar de Melhor Argumento Original da Academia de Hollywood, "As Férias do Sr. Hulot" é curiosamente um filme construído em torno de situações pitorescas, hilariantes e inesperadas, sem um verdadeiro enredo. Na verdade, Tati limita-se a colocar o seu alter-ego Hulot no meio de uma pacata vila da costa da Normandia para umas férias sossegadas. Um quotidiano relaxante e despreocupado que se vai tornando numa corrente de confusões, incidentes e barafundas à medida que o simpático e prestável Hulot vai atravessando as mais banais situações.

Jacques Tati utilizou tão subtilmente a voz humana neste filme, que chegou a provocar mal-entendidos: alguns espectadores criticaram o “defeito de gravação” que não permitia ouvir distintamente o diálogo dos veraneantes na sala ou no terraço do pequeno hotel. Mas foi intencionalmente que Tati tornou essas conversas quase inaudíveis para revelar a insipidez que as caracterizava. Os hóspedes do hotel são para Tati pessoas insignificantes e sem interesse. A sua quase inexistência revela-se através desta confusão sonora. Tati procura também tirar um certo efeito ao acentuar a sonoridade das informações fornecidas pela rádio, sublinhando assim a solenidade ridícula do locutor.

A cada novo visionamento “Les Vacances de Monsieur Hulot” revela-se um filme cada vez mais conseguido na sua arte de mostrar o modo como o tempo passa para aqueles banhistas da classe média que o acaso reuniu e que o acaso separará. Para Tati, tratava-se de adoptar uma estética relacionada com a matéria psicológica e social que pretendia estudar. Ora, ao longo dos longos dias de lazer, o universo mental dos banhistas revela, devido precisamente à inclusão desse admirável catalisador que é Hulot, a sua inconsistência fundamental e vai diluir-se como se fosse atacado por uma doença desconhecida. Para impor esta densidade do não-ser em plena germinação, era necessária uma estética maleável. Daí a ausência propositada de estruturação dramática, de progressão, de continuidade. Daí, esse maravilhoso rigor na incerteza, essa perfeição do inacabado.

Todas as vezes a que assisti a este filme ímpar sempre o fiz com um sorriso permanente, com uma sensação de felicidade serena. Porque é sempre um prazer ver Tati a manipular de forma genial o seu irónico espírito de observação, capaz de criar uma inesperada e fabulosa perspectiva das situações mais vulgares, enquanto dá forma acabada ao delicioso homem das calças curtas, passadas largas, gestos sincopados, eterno cachimbo e pequeno chapéu, que se tornou numa das mais imortais e geniais criações cómicas de toda a História do Cinema.


Estátua de Jacques Tati junto ao Hotel de la Plage, 
em Saint Marc Sur Mer, onde o filme foi rodado

6 comentários:

Roberto F. A. Simões disse...

E acredito piamente na tua avaliação do filme. Ainda só conheço do autor O MEU TIO, que passei a adorar adorar adorar, mas estou para comprar o PLAYTIME e quem sabe logo este também.

Cumps.
Roberto Simões
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JC disse...

Tati foi mtªs vezes acusado de reaccionarismo, de ser avesso ao progresso, de representante de um França "poujadiste" e pequeno-burguesa. C/ alguma razão, principalmente se tivermos em conta alguns dos valores de uma França rural de "Jour de Fête". Mas é impagável!

Rato disse...

Caro Roberto
Se o "carcanhol" pesar, então compra primeiro e logo logo estas "férias" e só mais tarde o "Play Time". Caso contrário compra os dois, claro!

nowhereman disse...

Para quem ainda não está totalmente familiarizado com a pequena mas genial obra de Tati (como parece ser o caso do Roberto Simões aí de cima) sempre adianto que na minha opinião e provavelmente uma grande maioria estará comigo, "As Férias" é o melhor filme do realizador francês, pelo que a "viagem" ao seu universo deverá ser feita a partir daqui.
Em "Play Time" e sobretudo no "Traffic" já o génio estava em declínio, o que não obsta a ainda assim serem ambos excelentes filmes.

JC disse...

Sugiro se vá por ordem cronológica, começando, portanto, por "Jour de Fête".

José Luís disse...

Este tenho este em DVD e amanhã vou revê-lo com todo o gosto. Tenho mais 2 filmes de Mestre Tati - "Há Festa na Aldeia" e "Playtime"; "O Meu Tio" desapareceu misteriosamente.
"As Férias do Sr. Hulot" é o meu favorito. Recomendo vivamente.