domingo, novembro 28, 2010

THE EXORCIST (1973)

O EXORCISTA
Um filme de WILLIAM FRIEDKIN


Com Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Jason Miller, Linda Blair, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran


EUA / 122 min (director's cut: 132 min) / COR / 16X9 (1.85:1)


Estreia nos EUA a 26/12/1973
Estreia em Portugal a 1/11/1974
(Lisboa, cinemas Berna, Eden e Caleidoscópio)


Demon: "Stick your cock up her ass, you motherfucking worthless cocksucker!"

Deus e o Diabo, para bem ou mal dos nossos pecados de espectadores cinéfilos, estiveram sempre presentes no écran desde os tempos áureos do cinema mudo. As primeiras adaptações de “Fausto”, onde se esboça já a luta de morte travada entre o Bem e o Mal, datam logo dos anos iniciais do cinematógrafo. O que mudou ao longo do tempo foram as características com que essa dualidade se foi revestindo. No início a luta era linear e simples, de forma a permitir uma opção clara e radical. Mas progressivamente as fronteiras entre os dois conceitos foram-se esbatendo e as dúvidas começaram a se instalar nos espíritos mais críticos. Para baralhar tudo mais um pouco entra em cena um outro conflito, entre a Ciência que procura a racionalização e a Fé que se fica em si mesma, estagnada. O cinema fantástico vai assim ganhando novos adeptos e à medida que atravessa diversos períodos de instabilidade social e económica, consubstancia os temores de uma sociedade que adora ser aterrorizada.
O grande êxito de um filme como “O Exorcista” junto do público assenta portanto num passado que cimentou o apetite pela visualização de histórias demoníacas no écran, mas tem também outras justificações. Por um lado é o primeiro filme que trata o horror com todas as ferramentas de uma grande produção de Hollywood, retirando o género do ghetto de filmes-B em que se inseria, com todos os clichés habitualmente aí existentes. Um bom argumento impecavelmente filmado, óptimos desempenhos e efeitos espantosos e originais, tudo contribuíu para o grande sucesso do filme, que o tornou no primeiro blockbuster do género, facturando mais de 80 milhões de dólares no primeiro ano de exibição. Foi de longe o maior lucro financeiro da Warner Brothers (recorde que ainda hoje se mantém), situando-se na altura entre os cinco maiores sucessos de todos os tempos.
Outra grande razão para o êxito do filme foi sem dúvida a bem oleada máquina publicitária que lhe serviu de rampa de lançamento. Muito antes da sua estreia, no Natal de 1973, já se falava naquele que iria ser “o filme mais chocante, repugnante e aterrorizador que Hollywood alguma vez tinha produzido”. As notícias de variadissimas peripécias surgidas durante a rodagem inundavam os tablóides: um incêndio misterioso e uma inexplicável inundação nos estúdios, os graves ferimentos sofridos por Ellen Burstyn, uma greve dos figurantes com processos em tribunal ou as mortes dos actores Jack MacGowran (o “realizador” Burke Dennings) e Vasiliki Maliaros (a mãe do padre Karras) para além de mais nove pessoas associadas com a produção do filme. Tudo achas para a mesma fogueira – a de alimentar a ideia de que o filme estava realmente possuído por espíritos maléficos. O próprio realizador, William Friedkin, ajudou à festa numa entrevista em que se referiu a toda à quantidade de desgraças que estavam a interferir com o seu filme. Os custos começaram a ultrapassar rapidamente o orçamento inicialmente previsto e os produtores chegaram ao cúmulo de pedir a dois padres jesuítas para exorcizarem os estúdios de modo a banir as influências malignas.
Depois a estreia em Nova Iorque foi o que se sabe: longas filas durante toda a noite para se conseguir o almejado ingresso (apesar do frio intenso que se fazia sentir), centenas de pessoas a desmaiar durante as projecções ou a abandonarem as salas de cinema aos gritos. Diga-se de passagem que as plateias americanas sempre foram pródigas nesses acessos de histeria colectiva ao longo dos anos, mas naquela precisa altura “O Exorcista” era o filme que toda a gente queria ver, nem que fosse para saber quanto tempo aguentavam a ver todas aquelas perturbantes cenas de gritos, blasfémias e vómitos.
Exageros à parte, “O Exorcista” foi na verdade o filme-sensação de 1974, um pouco por todo o lado onde foi sendo exibido. Como já se disse, a engrenagem publicitária promoveu-o - e de que maneira – mas tal não teria tido os efeitos desejados se o filme não fosse efectivamente bem feito, com todo o know-how de Hollywood a funcionar em pleno. Quase sem se fazer notar, a atmosfera inquietante que envolve os personagens vai tomando conta das emoções do espectador até que a noção do sobrenatural se torna plausível, mesmo para aqueles que, à semelhança de Chris MacNeil (Ellen Burstyn), a mãe de Regan (Linda Blair), possuem a inteligência suficiente para não embarcar de ânimo leve nas histórias do demo e do oculto. Aliás, é esse trajecto subliminar que o filme percorre até à cena final do exorcismo (essa sim, de um gosto mais do que duvidoso) que na minha opinião continua a fazer de “O Exorcista” um filme que dá um certo gozo assistir, sobretudo para quem não acredita nem em Deus nem no Diabo mas que gosta de ser assustado por um bom filme de terror.
CURIOSIDADES:

- Ellen Burstyn só aceitou desempenhar a sua personagem depois da frase “I believe in the devil” ter sido eliminada do argumento. Outras actrizes pensadas para o papel foram Jane Fonda, Shirley MacLaine, Audrey Hepburn e Anne Bancroft

- “O Exorcista” foi o primeiro filme a incluir a técnica das imagens ultra-rápidas, inseridas de modo a actuarem eficazmente no subconsciente do espectador

- Para se conseguir visualizar a névoa da respiração dos actores de modo a transmitir a sensação de frio existente no quarto de Regan, a temperatura foi drasticamente reduzida a 20 ou 30 graus negativos, com o recurso a 4 aparelhos de ar condicionado, o que obrigou a filmagens de planos muito breves durante essas sequências

- Quando “O Exorcista” se estreou em Inglaterra muitas cidades proibiram a sua exibição, o que originou a criação de excursões de autocarros intituladas “Exorcist Bus Trips” que levavam as pessoas à cidade mais próxima onde o filme se encontrava em cartaz. Além disso, a edição em vídeo só aconteceu em 1999, quando o BBFC (British Board of Film Censors) aprovou a sua versão integral


- Stanley Kubrick queria realizar o filme mas pôs como condição ser ele também a produzi-lo, o que não foi aceite pela Warner Brothers. Posteriormente foi o argumentista William Peter Blatty que insistiu para que William Friedkin fosse o director responsável, depois de outros nomes terem sido equacionados: Arthur Penn, Peter Bogdanovich, Mike Nichols e Mark Rydell

- A substância que Regan vomita para cima do padre Karras é essencialmente sopa de ervilhas da marca Andersen. Consta que foi experimentada também a marca Campbell’s mas sem se conseguir os efeitos desejados

- A famosa cena do filme usada na publicidade (a chegada do padre Merrin à mansão) foi inspirada no quadro de 1954, “Empire of Light”, do pintor René Magritte

- A voz do demónio foi providenciada pela actriz Mercedes McCambridge, que chegou a processar a Warner Brothers por não aparecer nos créditos do filme

- Vasiliki Maliaros, a intérprete da mãe do padre Karras que faleceu durante a rodagem do filme, a 9 de Fevereiro de 1973, nunca tinha representado na sua vida. Foi descoberta por William Friedkin num restaurante grego, que a escolheu por ela lhe lembrar a sua própria mãe

- O filme ganhou 2 Oscars da Academia, nas categorias de Som e Argumento-Adaptado. Teve ainda mais 8 nomeações.

- A nova versão (“Director’s Cut” ou “The Version You’ve Never Seen”) editada no ano 2000 e actualmente disponível em blu-ray tem mais 10 minutos do que a versão original

POSTERS

3 comentários:

Dezito (André Sousa) disse...

Só uma dúvida Rato, as outra nove pessoas associadas à produção que referiste, morreram ? E durante esse ano ?

Cumprimentos

Rato disse...

Exactamente, pelo menos é o que rezam as crónicas da época. E tudo aconteceu durante a rodagem do filme, que foi extraordinariamente longa - 224 dias. Encontras essa e muito mais informação no IMDB

Billy Rider disse...

Lembro-me perfeitamente de toda a histeria criada à volta deste filme. Acho que foi a razão principal pela qual o detestei tanto na altura da estreia. Hoje olho para ele de uma maneira totalmente diferente - quase que me atrevo a dizer que virou um clássico do género. Esta última edição em blu-ray, então, é de grande qualidade, e traz um documentário bastante bem feito, onde curiosamente os responsáveis pelo filme atribuem o histerismo da época à cena de pulsão filmada no hospital e não propriamente aos vómitos e outras cenas mais emblemáticas do filme. O que é capaz de ter a sua razão de ser, pois trata-se da única sequência "forte" não fantasista e que poderá acontecer a qualquer um de nós.