domingo, novembro 14, 2010

AS ESCOLHAS DOS 20

O CINEROAD, um dos mais concorridos blogues de cinema que por aí abundam, está a levar a cabo mais uma excelente iniciativa sobre os gostos particulares dos seus visitantes, desta vez relacionados com os géneros cinematográficos. Fui um dos 20 escolhidos e por isso aqui fica o meu texto de justificação das escolhas feitas. Passem por lá se quiserem ler os comentários.


Quando o Roberto Simões amavelmente me convidou a participar nesta iniciativa, alertei-o para o facto de não se ir chegar a qualquer conclusão válida, dada a infinidade de escolhas para cada uma das categorias. Mas isso só seria verdade se fosse esse o objectivo do Roberto. Não o é de facto. O que realmente este “jogo” accionou foi o acender de 20 rastilhos diferentes que irão explodir (mais de metade já explodiu) em outras tantas e acesas discussões sobre aquilo que une todos os frequentadores deste blogue – o amor pelo CINEMA. Parabéns, portanto, pela faiscante ideia!

Quanto às minhas próprias escolhas, alerto desde já para a necessidade de não as levarem muito a sério, pois tratam-se apenas das escolhas feitas no dia em que enviei o respectivo email ao responsável por este CINEROAD. Se esse email fosse remetido no dia imediatamente a seguir provavelmente alguns desses títulos seriam completamente diferentes. Por outro lado, a obrigatoriedade de nos cingirmos apenas a 4 géneros veio dificultar ainda mais esta missão impossível. A propósito, aproveito para deixar aqui a minha frustração pelo facto do Thriller (algo fundamental no cinema) não constar dos géneros seleccionáveis. Bem que podia ter substituído a Animação (apenas uma pequenina e inocente provocação). E, já agora, porquê a descriminação conferida ao Cinema Oriental? Quem aprecia um Kurosawa, um Ozu ou um Mizoguchi (só para citar três nomes do topo do cinema japonês) facilmente escolheria um dos filmes desses realizadores para figurar em alguns dos outros géneros. Por essa ordem de ideias, então deveriam ter sido incluídos, por exemplo, os cinemas “Latino-Americano”, “Francófono”, “Ibérico”, e por aí fora...

Bom, mas vamos lá então ao que interessa, aos porquês da minha selecção, feita escrupulosamente dentro dos parâmetros pré-definidos. Para já dizer que tenho 57 anos e que adoro cinema desde tenra idade. Acho isso importante, até porque tanto quanto julgo saber a grande maioria dos intervenientes neste blogue é de uma idade bastante inferior à minha. E tenho constatado, ao longo dos anos, que a vida nos vai moldando lentamente os gostos, inclusivé no modo como vemos e apreciamos os filmes que acabam por fazer parte intrínseca dessa mesma vida.
"INGLORIOUS BASTERDS", de Quentin Tarantino (2009)
A escolha do filme do último triénio foi a mais fácil de todas, Tenho para mim que o cinema sempre assentou em dois pilares fundamentais – a coluna da indústria e a coluna da arte. Durante muitos anos conseguiram equilibrar-se uma à outra e assim sustentar o templo; mas é minha convicção que com o passar dos anos esse último suporte foi sendo minado por térmitas vorazes (não, a “culpa” não foi do Sansão do DeMille) e hoje em dia, já em pleno século XXI, só através de escoragens esporádicas é que ainda se vai conseguindo, a muito custo, manter o edifício em pé. Portanto, a missão de escolher um filme que representasse estes últimos três anos teria forçosamente muito que ver com a coerência desta minha maneira de pensar. Se não me quisesse enganar a mim próprio e seguir fielmente as minhas ideias, a escolha só poderia recair no filme “Avatar” que infelizmente acredito ser o verdadeiro arauto do cinema do futuro. Mas mesmo em tempos de naufrágios o meu instinto de sobrevivência sempre me ajudou e, por isso, fui buscar forças ocultas e agarrei-me em desespero a uma das (poucas) tábuas de salvação que ainda consegui encontrar à minha volta (sabe-se lá se ainda restos do Titanic). E escolhi, quase por instinto, a que me pareceu mais sólida e capaz de me trazer a sobrevivência no futuro (considero que o Quentin Tarantino já nos deu provas suficientes de que o seu nome funcionará quase como um cheque em branco para o cinema que está para vir). Só não sei é quanto tempo mais andarei a boiar…
"WEST SIDE STORY", de Robert Wise e Jerome Robbins (1961)
Dos géneros por mim escolhidos o mais fácil de lhe colocar uma “máscara” na cara foi sem dúvida o Musical. Mesmo assim ainda experimentei uns vinte ou trinta modelos e, acreditem, todos lhe assentavam que nem uma luva. Mas depois lembrei-me que só por volta dos meus 18/20 anos é que me comecei a interessar por esse género tão específico e que até então arrogantemente desdenhava (convém lembrar que a juventude dessa época, a “minha” juventude, queria era “sex, drugs and rock ‘n’ roll” – nunca um epíteto foi tão apropriado a um tempo). Foram responsáveis por essa mudança radical filmes como “Cabaret” (1972), “Sweet Charity” (1969), “Fiddler on the Roof” (1971) ou “Paint Your Wagon” (1969). E esses primeiros incentivos levaram um grande safanão quando pela primeira vez vi o “West Side Story” em reposição, numa sala enorme e no esplendor dos 70 mm e das 6 bandas estereofónicas (a técnica de ponta desses anos). Fiquei completamente siderado e a partir dessa altura iniciei uma viagem no tempo para descobrir todos os grandes tesouros musicais do passado. Trata-se portanto de uma homenagem e também de uma escolha do meu foro íntimo (para além de pessoal), tal como de certo modo o foram as restantes três, nas quais no entanto as dificuldades aumentaram exponencialmente.
"LOVE STORY", de Arthur Hiller (1970)
Abreviando: depois de recordar muitas dezenas de histórias de amor, todas elas vividas por terceiros nos écrans das minhas memórias, acabei por concluir que o “maior” Romance de todos só poderia mesmo estar ligado ao meu primeiro amor de juventude (o tal que nunca se esquece). Nessa premissa, apenas três filmes se colaram, indissociavelmente, a essa ligação a dois – o “Friends”, de 1971 (quando é que falas dele, Roberto?), “Romeu e Julieta” (1968) e este “Love Story” de 1970. A opção entre os três seria completamente arbitrária, não fosse o caso de ter reencontrado esse primeiro amor da juventude aqui há uma dezena de anos atrás e de, uma vez mais, termos revisto esse último filme na companhia um do outro. Querem melhor justificação para a escolha final?
"THE FLY", de David Cronenberg (1986)
Para o cinema Fantástico (como eu gosto de chamar a tudo o que se considera de horror, gore, terror, sobrenatural e por aí fora) a tarefa da escolha complicou-se ainda mais, até porque neste caso não podia deitar mão a qualquer subterfúgio íntimo que me pudesse sossegar o espírito na decisão a tomar. Ainda por cima sou um grande fã do género e as referências surgem-me de todo o lado: os clássicos dos anos 30 e 40, os filmes ingleses da Hammer, toda a escola italiana (Dario Argento, Mario Bava, Lucio Fulci), a originalidade dos orientais, alguns dos mais perturbantes Polanski, enfim, aqui o termo “infinito” tem toda a razão de poder ser aplicado. Acabei por me decidir pelo Cronenberg, por ser um realizador que já me deu muitos prazeres, todos eles maravilhosamente horripilantes. O maior dos terrores será sempre o psicológico, o que sentimos bem dentro de nós. E Cronenberg, que usa a mente e o corpo humano para molde das suas fantásticas histórias é certamente um mestre no género. Além do mais, esta versão da “Mosca” tem o aliciante extra de ser simultâneamente uma história de amor-louco, o que contribuíu ainda mais para ter sido a feliz seleccionada (naquele preciso dia do envio do email, convém relembrar).
"THE PARTY", de Blake Edwards (1968)
Finalmente a Comédia, uma das maiores artes do cinema de todos os tempos. Estive quase a optar por outro género, dada a tarefa gigantesca que se me deparou pela frente. Mas enchi-me de coragem e, tal como no género do fantástico, fui revendo os filmes das minhas memórias: os clássicos do Chaplin e do Keaton, os filmes subversivos dos Irmãos Marx, as “screwball comedies”, as paródias do Jerry Lewis, o mundo tão particular do Jacques Tati, o Mel Brooks e o Woody Allen dos primeiros anos, as italianadas deliciosas da Sofia e do Mastroianni, o Brel no “L’émmerdeur”, o requinte do Lubitsch ou a acutilância de um Wilder, eu sei lá..., o céu é o limite para todos esses paliativos da infelicidade. Por fim, socorri-me uma vez mais de uma artimanha íntima e perguntei-me quais os filmes em que o elemento dramático se encontrava reduzido à expressão mínima ou mesmo inexistente (a ideia de encontrar a “comédia total”) e que hoje em dia ainda têm o condão de instantâneamente aplacarem os meus maus humores e que por isso tenho sempre “à mão de semear” para uso urgente. Aí as hipóteses foram drasticamente reduzidas a meia dúzia de títulos e esta “Festa de Loucos” ocupou naturalmente o lugar da frente. Para quem nunca viu (e acredito que sejam muitos entre vocês), este delirante filme de Blake Edwards (que foi responsável também pela série da pantera-cor-de-rosa) é filmado quase inteiramente dentro de uma faustosa mansão de um produtor de Hollywood na qual se realiza uma festa para a qual é convidado por engano um infeliz actor indiano que tinha sido despedido alguns dias antes durante a rodagem de um filme. A personagem é desempenhada, com sotaque incluído (“birdie-num-num”), pelo genial actor inglês Peter Sellers, que atinge aqui o apogeu máximo de toda a sua comicidade.


E pronto, caros amigos e cinelovers, desculpem a extensão invulgar desta missiva, mas penso que no fim de contas é no uso (e abuso) de todas as caixas de comentários que reside a força e o grande interesse deste CINEROAD. Uma longa vida recheada de bons filmes é tudo quanto vos desejo. E não se fiquem só pelas “obras-primas”, vejam também os rascas e os supérfluos, que de igual modo vos trarão memórias deliciosas no fim da estrada.

2 comentários:

Roberto Simões disse...

Agradeço as palavras e a estimada participação na iniciativa ;)

Cumps.
Roberto Simões
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Maria João Falcão Lopes Cardoso disse...

Concordo com as escolhas. nem todas, por alguns filmes não vi. Mas The Party é o melhor filme do mundo! Bom em todas as estações, com diferentes "moods":sempre!
E Love Story e etc.
Gostei...