domingo, setembro 05, 2010

O CINEMA E EU

Há já mais de meio século que gosto de Cinema. Desde tenra idade que me habituei às emoções da sala escura – aos risos, às lágrimas, aos temores, aos sobressaltos, até aos enfados quando as melhores perspectivas saem goradas. Mas nunca me revi naqueles que só procuram a diversão e o entretenimento fácil quando se predispôem a ver um filme. Pelo contrário, sempre procurei “o outro lado” do écran, de entender a razão pela qual a mesma história nos pode ser apresentada de maneiras diferentes. Não, não falo de técnicas (que também têm o seu papel) mas de algo que lhes é transcendente: a Arte da narração. Porque todo o verdadeiro Cinema passa pela arte de nos contarem uma história. Ou então não seria mais do que uma curiosidade de feira, como na realidade foi nos seus primeiros anos, antes dos artistas perceberem que tinham ali à mão um veículo ideal para poderem expressar toda a sua criatividade.

O Cinema sempre foi feito para o indivíduo, para os grupos e para as multidões. Ele mesmo é múltiplo, tem mil rostos, como os espectadores. É feito por homens de negócios, financeiros e operários mas os grandes intervenientes são os artistas, quer estejam à frente quer estejam, sobretudo, atrás das câmaras. Um filme é, em primeiro lugar, uma história, assim como um quadro é, em primeiro lugar, um assunto; mas esse em primeiro lugar é de ordem cronológica. A história não seria história se os personagens não correspondessem a definições precisas de carácter, de idade, de classe social. A história acontece aos personagens, mas os personagens acontecem na história. Só podemos compreender a história e, mesmo, deixar-nos subjugar por ela, se nos interessarmos pelos personagens.

Uma mesma história pode fazer rir ou chorar, ou ambas as coisas ao mesmo tempo, o que se verifica muitas vezes em literatura. Acontece o mesmo com o Cinema. O que faz com que esta história nos interesse vivamente, nos faça rir ou chorar? Não é propriamente a história, mas algo mais que a história encerra. É o sentido profundo que lhe dá o narrador – e o narrador, no Cinema, tem um nome: chama-se realizador. Dada a pequena duração de um filme, é impossível dizerem-nos tudo sobre os personagens que vivem uma história. Há pois que se fazer uma escolha. Essa escolha e o que ela vai revelar, constituem o trabalho do realizador. É ele que nos vai orientar no conhecimento dos personagens, que nos influencia no modo como vemos aquela história. É por isso que o realizador tem de ser considerado, em última análise, o único responsável pelo facto de o Cinema não ser literatura, pintura, teatro ou circo. Pode englobar todos esses modos de expressão mas é uma arte única. 


Qualquer argumentista está pronto a escrever imediatamente meia dúzia de histórias, curtas ou longas, interessantes ou não. Difícil é fazer com que uma história, que se encontra escrita nas linhas do papel, se torne única, insubstituível, bela e fascinante. É todo o trabalho do Cinema. É toda a arte do realizador e da equipa que ele dirige. que faz com que o espectador não se limite a assistir ao filme, mas que consiga vê-lo através do olhar do seu criador. Ao longo destas cinco décadas muitos são os realizadores cujos nomes ficarão para sempre gravados no meu livro pessoal de memórias. A eles ficarei eternamente grato por terem contribuído para alguns dos momentos mais felizes da minha provisória existência. A lista é longa e seria enfadonho enumerá-la toda. Mas aqui ficam alguns nomes desses magos do écran: Allen, Capra, Carpenter, Cassavetes, Coppola, Cronenberg, Cukor, Dreyer, Eastwood, Fellini, Ford, Godard, Hawks, Keaton, Kurosawa, Lean, Lubitsch, Kazan, Mizoguchi, Murnau, Polanski, Pollack, Ray, Resnais, Scorsese, Sirk, Spielberg, Tarantino, Wenders, Wilder. A ordem é alfabética, propositadamente para não me esquecer de nenhum dos meus favoritos. Citei trinta, mas poderia referir facilmente mais dez ou vinte.


É claro que faltam aqui alguns nomes. Mas esses deixei-os de propósito para o fim. São apenas doze, mas sem eles o Cinema nunca teria ultrapassado a mediania, nunca teria sido tocado pelo génio. A eles se deve tudo ou quase tudo. Permitam-me então citar os seus nomes em jeito de profunda e sentida homenagem. A ordem é cronológica, por ano de nascimento:

DAVID WARK GRIFFITH (1875 – 1948)

CHARLES CHAPLIN (1889 – 1977)

FRITZ LANG (1890 – 1976)

JEAN RENOIR (1894 – 1979)

SERGEI EISENSTEIN (1898 – 1948)

ALFRED HITCHCOCK (1899 – 1980)

LUIS BUÑUEL (1900 – 1983)

LUCHINO VISCONTI (1906 – 1976)

ORSON WELLES (1915 – 1985)

INGMAR BERGMAN (1918 – 2007)

STANLEY KUBRICK (1928 – 1999)

FRANÇOIS TRUFFAUT (1932 – 1984)

7 comentários:

Roberto F. A. Simões disse...

50 anos de memórias, it is something. Gostei da retrospectiva, da homenagem e do carinho com que falas dos realizadores, como se fossem os cromos preferidos da tua colecção.

Cumps.
Roberto Simões
» CINEROAD - A Estrada do Cinema «

Luís Figueiredo disse...

Crónica à parte, que muito prazer me deu ler (a propósito, os meus realizadores preferidos estão todos aqui citado, não falta nem um), fiquei maravilhado com essa imagem da sala privativa de cinema. Se eu fosse rico era assim que eu imaginava a "blueroom" dos meus sonhos. E ainda por cima está a passar um dos grandes filmes da minha vida, o BEN-HUR.

Karocha disse...

Rato
Favor por seguidores ;-)
Muito bom!

Rato disse...

ROBERTO: "Cromos" sim, mas únicos. Não dão para a troca

LUÍS: A "blueroom" também me fascinou, e por isso a coloquei aqui. Agora cada um de nós pode sonhar um bocadinho.

KAROCHA: Não tinha colocado o widget pois julgo que este blogue de cinema terá um público muito mais restrito, em nada comparável com o Rato Records. Mas pronto, aí está ele, para o que der e vier.

OBRIGADO A TODOS!

nowhereman disse...

Concordo com os DOZE, penso que todos eles são no mínimo fundamentais. O único nome que eventualmente poderá suscitar algumas dúvidas será a do "benjamim" Truffaut (morreu tão novo... 52 anos!). Mas só àqueles que não conhecem a sua obra.
Truffaut amava os actores (vêmo-lo aqui com o seu alter-ego Jean-Pierre Léaud) e o Cinema como poucos e "ensinou" muita gente a ver e a gostar dos filmes. Além disso é o melhor representante da "Nouvelle Vague" e o homem que colocou Hitchcock no lugar merecido. Sem ele o Cinema seria sempre diferente.

Karocha disse...

Rato
Já 4 seguidores :-)
Eu adoro cinema, passava as 4ªs no Império!
Truffaut e a noite americana...

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

amigo, um texto perfeito, uma ode ao verdadeiro cinema. Penso exatamente assim.
Muito bacana.
Parabéns.

www.ofalcaomaltes.blogspot.com