sábado, março 12, 2016

A HARD DAY'S NIGHT (1964)

OS QUATRO CABELEIRAS 
DO APÓS-CALYPSO
Um filme de RICHARD LESTER

Com John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr, Wilfrid Brambell, Norman Rossington, etc.

GB / 87 min / PB / 16X9 (1.75:1)

Estreia na GB a 6/7/1964
Estreia nos EUA a 11/8/1964 
(New York)
Estreia em Portugal a 11/3/1965 
(Lisboa, cinema S. Jorge)

Reporter: «Are you a mod or a rocker?»
Ringo: «No, I'm a mocker»

Em Março de 1965 estava a um mês de completar os meus 12 anos e vivia em Lourenço Marques, Moçambique. Não havia televisão, pelo que os putos dessa altura se divertiam uns com os outros na rua, na praia (que o tempo era quase sempre convidativo) e numa ou noutra ida ao cinema. Sendo filho único, cedo desenvolvi capacidades para também me entreter sózinho em casa, a maioria das vezes rodeado de livros aos quadradinhos e de muitos, muitos discos, pois a música sempre teve uma importância fundamental ao longo da minha vida. A esmagadora maioria desses discos eram na altura de pequeno formato, os chamados 45 rotações, que eu colocava a rodar horas a fio num daqueles gira-discos portáteis, cuja tampa, destacável, era o respectivo altifalante. 

O som que se desprendia daquelas rodelas pretas vinha portanto de uma única direcção - nada cá de colunas sofisticadas, isso era privilégio apenas do meu pai, orgulhoso possuidor de uma aparelhagem último modelo, em verdadeira estereofonia cujo acesso me estava, como não podia deixar de ser, quase sempre proibido. Mas eu queria lá saber daquelas novas tecnologias - o que me interessava mesmo era o portátil vermelho que colocava no chão do meu quarto para poder ouvir toda a música que me encantava: o Cliff Richard e os seus Shadows, a Connie Francis, o Adamo e a Françoise Hardy, a brasileira Celly Campello e, acima de todos, os meus adorados Beatles.

A paixão pelos quatro de Liverpool já era antiga, dois anos inteiros, e tal como a esmagadora maioria dos meus amigos, conhecia todas aquelas canções de cor e salteado, e a cada novo disquinho que aparecia repetia-se sempre a mesma correria às lojas. Coleccionávamos os discos, as letras das canções e todas as fotografias e notícias que encontrávamos dos nossos quatro heróis guedelhudos, recortando-as de jornais e de revistas, e usávamos aquelas magníficas botas “à Beatle” que criaram moda na altura. Isto sem falar da guerra constante com os nossos pais por causa do comprimento dos cabelos que teimávamos em deixar crescer.

Mas, sem televisão, apenas podíamos imaginar como é que eles andavam ou tocavam em cima de um palco. Por isso, quando se anunciou a estreia de “A Hard Day’s Night” foi toda uma ansiedade que tomou conta de mim. Aquele acontecimento único e de uma importância transcendente veio a dar-se no Teatro Manuel Rodrigues (a sala de cinema mais importante da cidade) e foi a loucura total! Devo ter vivido, nesses dias, as horas mais felizes de toda a minha meninice (e é claro que vi o filme por diversas vezes enquanto se manteve em cartaz).

Em muitas outras oportunidades regressei ao filme ao longo da vida, senão com a euforia daquela primeira vez, pelo menos sempre com uma grande e nostálgica saudade daqueles tempos. E são esses tempos fabulosos que efectivamente “A Hard Day’s Night” ainda hoje nos faz lembrar. Feito num estilo quase documental, o filme acompanha os Beatles durante um dia típico na vida do grupo (mais precisamente 36 horas), passado quase sempre a fugir dos fans, com uma série de peripécias pelo meio e sempre, sempre, com muita música à mistura. Hoje, que conhecemos todas as fases da sua fabulosa carreira, desde os princípios dos anos sessenta até ao seu desmembramento no início de 1970, é curioso constatarmos toda a alegria e despreocupação que existiam nesta altura no seio do grupo - eram tempos de puro prazer e  inocência, que nunca mais seriam repetidos na história dos Fab 4 de Liverpool.

“A Hard Day’s Night” é um filme talhado à medida dos Beatles; para eles e sobretudo para todos os milhões de jovens teenagers que na altura da estreia já os idolatravam em todo o mundo (recorde-se que em princípos de 64 é a primeira digressão aos EUA - com a mítica actuação no Ed Sullivan Show - viagem que os catapultou definitivamente para a fama). Ao contrário dos intérpretes da maior parte dos primeiros filmes de rock ‘n’ roll que tinham de vestir a pele de personagens fictícias para tocarem a sua música, os Beatles não tinham necessidade de assumirem qualquer outra encarnação . Existiam pura e simplesmente. Eram apenas eles,  o John, o Paul, o George e o Ringo - jovens que compunham e tocavam grandes canções. Com personalidades diferentes (cada fan tinha sempre o “seu” Beatle preferido) mas todas elas denotando um grande sentido de humor e um charme natural e cativante. Ainda não o sabíamos na altura, mas todos nós estávamos a crescer com eles.

O verdadeiro foco de “A Hard Day’s Night” é portanto o grupo. Existem quatro indivíduos no filme e cada um deles é distinto. John tem a sua perspicácia sarcástica, Paul tem aquele seu bom ar (e um avô irrequieto, “the clean old man”), Ringo tem a sua amada bateria e uma imagem de órfão solitário e George tem a candura que desarma qualquer produtor ou publicitário. Na realidade nenhum dos quatro teve de representar qualquer papel no filme - bastou terem sido iguais a si próprios. E a característica mais comum a todos eles era o “nonsense” (no estilo anarquizante de uns Marx Brothers) com que usualmente driblavam as perguntas idiotas das muitas dezenas de jornalistas ou simples curiosos que constantemente gravitavam em seu redor. Tal como na vida real.

“A Hard Day’s Night” teve uma importância crucial para que o fenómeno, a chamada “Beatlemania”, se alastrasse ainda mais por todo o mundo. E também para a carreira de Richard Lester, que dirigiu o filme. Jonathan Farren escreveu no Ciné-Rock: «Lester joga com o que à época se sabia dos Beatles, ou pelo menos com aquilo que se propalava publicamente através dos media, e com o que se exigia e se aceitava deles. Mas, é incontestável, Lester “apanhou-os”, deu-lhes uma estatura, um modo de estar, um espírito. É a insolência, perdão, o irrespeito, que governa este filme, e sem esse irrespeito, este manjar fino não existiria.»

Curiosamente descrito pela revista Village Voice como “o Citizen Kane dos filmes jukebox”, “A Hard Day’s Night” não mudou o curso da história mas ainda hoje serve na perfeição a memória de todo o entusiasmo duma época - mesmo “datado por causa do seu optimismo ingénuo”, como mais tarde se lhe referiu o próprio Lester. Com uma montagem trepidante e uma belissima cinematografia a preto e branco, o maior trunfo do filme, quer no passado quer ainda agora, na actualidade, continua a ser a excitante música com que os Fab Four entusiasmam sucessivas gerações de admiradores que continuam a descobrir, década após década, o maior grupo de todos os tempos.

CURIOSIDADES:

- A palavra “Beatle” nunca é mencionada no filme

- Todos os figurantes, que passam o filme em loucas correrias e que assistem ao concerto que encerra o filme, são verdadeiros fans dos Beatles

- O filme esteve para se chamar “The Beatles” primeiro, e “Beatlemania” depois. A frase “it’s been a hard day’s night”, proferida por Ringo no fim de um cansativo dia é que deu origem depois ao título definitivo. Nessa mesma noite Lennon e McCartney compuseram o tema que estava pronto a ser apresentado a Dick Lester logo pela manhã.

- O clube de jogo “Le Cercle” é o mesmo que aparece no primeiro filme de James Bond, “Dr. No”. Outra ligação entre os dois filmes é o guitarrista Vic Flick que toca os instrumentais “This Boy (Ringo’s Theme)” e o “The James Bond Theme”


- Richard Lester pode ser visto ao fundo, no palco, enquanto os Beatles interpretam “Tell Me Why”. Na assistência também se encontrava um muito jovem Phil Collins

- Na resposta escrita que John Lennon dá a uma jornalista que lhe pergunta quais os seus passatempos preferidos, a palavra rabiscada é “tits” (“mamas”)

- Pattie Boyd, a futura mulher de George Harrison, aparece em diversas cenas rodadas no comboio (é a loirinha com quem Paul mete conversa)

- Apesar de todos os Beatles terem estado presentes na Gala de Estreia em Londres, nenhum deles ficou no teatro até ao fim da sessão


- George Martin foi nomeado para o Oscar de Hollywood da melhor banda sonora. Curiosamente, Lennon e McCartney não tiveram tal distinção (seriam apenas nomeados para os Grammy Awards). O filme teria ainda outra nomeação, na categoria de Argumento-original. Os quatro Beatles seriam também nomeados para os BAFTA como os mais promissores estreantes em papeis principais.

- Na cena rodada no campo (“Can’t Buy Me Love”), uma das mais célebres do filme, John Lennon não esteve presente por se encontrar a promover o seu recente livro, “John Lennon: In His Own Write”. Foi utilizado um duplo e mais tarde inseridos alguns close-ups de Lennon

- “A Hard Day’s Night” custou a módica quantia de 500 mil dólares mas logo na primeira semana de exibição rendeu 8 milhões, o que o coloca, percentualmente, na lista dos filmes mais lucrativos de sempre.




Pela primeira vez reúne-se num mesmo album todas as doze canções do filme, incluindo também os quatro temas instrumentais interpretados pela Orquestra de George Martin e que só tinham aparecido na edição americana da United Artists (UAS 6366), em 26 de Junho de 1964 (um grande obrigado ao Luís Pinheiro de Almeida, que mos conseguiu arranjar). Em Inglaterra, o album homónimo (PMC 1230 / PCS 3058), publicado a 10 de Julho de 1964, só continha, na face A, sete temas do filme, uma vez que os outros cinco já tinham sido editados em 1963. Aproveitem portanto esta edição da Rato Records, que vale mesmo a pena.

Por curiosidade reproduz-se de seguida o cartaz e o programa distribuído ao público quando o filme se estreou no cinema S. Jorge, em Lisboa. Mais uma vez uma cortesia do Luís Pinheiro de Almeida

LOBBY CARDS:

8 comentários:

Fur disse...

Great, thanks again

InimaGoncalves disse...

Ó grande Rato, beleza pura, meu caro! Que presentão! Continue com este método, existem muitos filmes que tem uma trilha sonora genial. Parabéns!!!
INIMÁ - Brasil em 14/12/2010

Yerblues disse...

Amigo Rato, eu adoro a cena em que o George se encosta no amplificador e quase desaba (curiosamente durante a execução de "If I Fell"), levando os demais besouros a quase estragarem a cena de tanto rir. Fosse em Hollywood, a cena teria sido refeita, e a gente perderia aqueles close-ups de John, Ringo e Paul rindo. Até nisso os Beatles levavam sorte, quando algo dava errado, acabava dando certo... it really doesn't matter if I'm wrong I'm right... abraços.

Billy Rider disse...

Pois é, os 4 de Liverpool sempre despertaram paixões como esta. Eu também fiquei "apanhado" há quase 50 anos atrás e o "vício" ainda dura (e continuará, até ao fim dos meus dias)
Mas aqui o que interessa perguntar (responda quem souber) é a razão pela qual este album, com todas as 12 canções do filme (mais o bonus das faixas instrumentais) nunca foi editado comercialmente. Se em 1964 havia uma guerrilha anglo-americana para a edição dos discos dos Beatles que em parte poderá servir de justificação, agora, a toda esta distância, não faz muito sentido. Até porque a obra dos Beatles passa a vida a ser reeditada (originais e coletâneas) e sempre com sucesso garantido.
Por isso aqui fica o reconhecimento por mais esta brilhante ideia do Rato que, com a sua habitual dedicação, nos antecipou uma bela prenda de Natal.
UM GRANDE OBRIGADO!

Gerard disse...

Thanks Rato.

José Morais disse...

Um post fabuloso, este. Desde a evocação da meninice do Rato, passando pelo presente original (de facto é a primeira vez que vejo reunidas todas as 12 canções num só disco, ainda por cima com as rarissimas faixas instrumentais) até ao pormenor nostálgico do programa do cinema São Jorge.
É como regressarmos ao passado numa qualquer máquina do tempo.

Anónimo disse...

Rato:
Obrigado por mais essa raridade!
valeu!!
Miguel

Anónimo disse...

Adorei o post. O meu primeiro contacto com a filmografia da banda seria através da revista Plateia, posteriormente num ciclo na RTP (anos 70), só muito mais tarde em VHS e actualmente em DVD e BD (o ano passado saiu finalmente uma versão restaurada do Magical Mistery Tour). Recordo-me sim também dos anúncios do filme no Diário Popular mas era muito jovem e a minha onda era mais "italiana". Hoje sou um grande fâ e tenho este, o Magical Mistery Tour e também o Help, que revejo com regularidade. O talento de Lester cuja carreira acompanhei com bastante interesse é inegável e os filmes do Beatles surgiram na minha vida como os "primeiros" telediscos numa época em que as bandas promoviam os seus trabalhos com apresentações ao vivo no Top of the Pops (por cá o POP 25 na RTP apresentado ao sábado pelo José Nuno Martins) Mais uma vez parabéns e obrigado por partilhar connosco estas bela memórias.

Anónimo Veneziano