sexta-feira, março 25, 2011

A PLACE IN THE SUN (1951)

UM LUGAR AO SOL
Um filme de GEORGE STEVENS



Com Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Anne Revere, Keefe Brasselle, Raymond Burr


EUA / 122 min / PB / 4X3 (1.37:1)


Estreia nos EUA a 14/8/1951
(Los Angeles)
Estreia em PORTUGAL a 13/10/1951
(Porto, cinema Coliseu)


George Eastman: «Love me for the time I have left, then forget me»

Elizabeth Taylor, que nos deixou na última quarta-feira, era já, aos 17 anos, uma mulher deslumbrante: cabelos negros brilhantes, olhos de um azul profundo com tons violeta, pele cor-de-rosa e traços que só um pintor muito inspirado conseguiria conceber. Tinha uma aparência adulta demais para uma adolescente mas na realidade era alguém dócil, maleável, algo inculta e que se encontrava totalmente dependente da mãe, que nessa altura assumia por inteiro as rédeas da sua carreira e da sua vida. Ao contrário das suas amigas, não se lhe conheciam namorados e, conforme confessará mais tarde, dá o seu primeiro beijo poucos meses antes de ser escolhida para o elenco deste “A Place In The Sun”, sem sequer se aperceber que ele se tornaria no seu primeiro grande filme.
George Stevens, um dos realizadores americanos mais reverenciados pelos seus pares, resolve filmar o famoso e polémico romance “Uma Tragédia Americana”, de Theodore Dreiser, que já tinha sido levado ao cinema em 1931 por Josef Von Sternberg. É uma temeridade, pois Hollywood encontra-se assolada pelo mccartismo, que desencadeia uma “caça às bruxas” no mundo das artes e da cultura. Pessoas suspeitas de actividades anti-americanas são colocadas na “lista negra” da comissão do senador McCarthy e impedidas de exercer a sua profissão. Stevens precisa de muito jogo de cintura para que o seu filme – cujo argumento põe a nu o lado obscuro e corrupto do sonho americano – não seja tachado de anti-americano e, portanto, condenado. A primeira medida é a alteração do título: “Uma Tragédia Americana” passa a denominar-se “Um Lugar Ao Sol”.

Depois, e para que o filme não se revelasse demasiado sombrio e acusatório, foi-lhe introduzida uma certa atmosfera romântica focalizada na figura de Elizabeth Taylor que, mercê da sua beleza e graça juvenil, consegue contrabalançar até certo ponto o rumo obscuro que a história vai tomando. E contudo o resultado final de tal alternância deve ter agradado, e muito, a George Stevens, uma vez que é nesse contraste que reside a grande força do filme. Utilizando sistematicamente a técnica de imagens sobrepostas na transição entre sequências, Stevens consegue dar-nos através desse artifício as diferentes perspectivas entre duas classes antagónicas.

Recorda-se aqui que o projecto inicial de Sternberg estivera para ser um filme de Sergei Eisenstein, quando este peregrinou por Hollywood no final dos anos 20. E Stevens deve ter ido beber muita inspiração ao cinema do grande cineasta russo para filmar algumas das sequências do seu filme. Recorde-se por exemplo a iluminação do quarto sombrio em que George Eastman (Montgomery Clift) sonha com um lugar ao sol. Vê-se pela janela o néon publicitando o nome Vickers, mostrando que era esse nome (e os milhões de dólares a ele associados), muito mais do que a rapariga que o usava, Angela Vickers (Elizabeth Taylor) o factor maior da sua motivação para se livrar de Alice (Shelley Winters) e alcançar assim as benesses com que o outro lado o seduzia.

O grande interesse cinematográfico de “A Place In The Sun” é justamente o modo como a narrativa oscila no decorrer da história, evidenciando constantemente os contrastes morais entre as duas classes mostradas no filme. À ingenuidade e despreocupação de Angela e dos seus amigos opõe-se o pragmatismo e o temor de Alice, tão bem representados naquela sequência da consulta médica. Aos planos intimistas e precisos (belissimos close-ups) do romance entre Angela e George opõem-se as composições algo aleatórias da relação entre este último e Alice, captadas quase ao estilo do cinema noir. Sentimentos diferentes, mostrados de modos diferentes – a luz para o sonho, as trevas para a realidade.
Para além das duas presenças femininas colocadas nos pratos da mesma balança, o grande suporte do filme é sem qualquer dúvida o fiel dessa balança – Montgomery Clift está fenomenal no papel central da sua martirizada personagem, desfazendo qualquer dúvida que pudesse existir a respeito do seu enorme talento. Em muitas das cenas nem sequer precisa falar para expressar tudo aquilo que está a sentir – basta o olhar e os gestos para nos transmitir todos os conflitos que se desenvolvem dentro de George Eastman. A forma como o seu brilho se apaga à medida que vai pondo de lado os princípios morais é um indicador sintomático da sua genial interpretação. Elizabeth Taylor afirmou mais tarde que foi o desempenho de Clift que a incentivou a aperfeiçoar os seus dotes de actriz, ela que nunca teve aulas na arte de representar.

Quando viu o filme, Charles Chaplin disse que “A Place In The Sun” era o melhor filme que tinha assistido na vida por registar a supremacia do cinema sobre todas as outras formas de arte. Inclusivé, chegou a enviar uma carta a Montgomery Clift, manifestando-lhe admiração pela sua extraordinária actuação. Não é difícil entender o porquê de tanto apreço vindo do criador de Charlot. Afinal ele próprio tinha usado todo o seu talento para criticar os princípios que regem o sistema capitalista durante a sua brilhante carreira.

“A Place In The Sun” foi nomeado para 9 Óscares da Academia de Hollywood, tendo arrebatado 6 estatuetas nas categorias de Realização, Argumento, Montagem, Cinematografia, Música e Guarda-Roupa. Perdeu nas outras três: Filme, Actriz Secundária (Shelley Winters) e, incrivelmente, Actor Principal (Montgomery Clift). Lembra-se que outro dos actores nomeados nesse ano foi Marlon Brando por “A Streetcar Named Desire”, o único concorrente de peso que caso houvesse justiça poderia também ter ganho. Mas ambos veriam o troféu escapar-se para as mãos de Humphrey Bogart (em “The African Queen”). O filme seria ainda agraciado com um Globo de Ouro para o melhor drama do ano.

CURIOSIDADES:

- Foi durante a rodagem deste filme que Elizabeth Taylor conheceu e se apaixonou perdidamente (para toda a vida, segundo referiu) por Montgomery Clift, então com 28 anos. Mas o homossexualismo (apenas parcialmente assumido) do actor reverteu essa paixão numa forte e íntima amizade que duraria até à sua morte prematura em 1966, aos 45 anos.

- A idílica sequência entre Elizabeth e Montgomery foi filmada em Outubro, no Lago Tahoe, California. As margens encontravam-se cobertas de neve que teve de ser removida. Não admira portanto que no filme Elizabeth se queixe por se encontrar gelada quando sai da água.

- O romance original de Theodore Dreiser é baseado em factos verídicos ocorridos em 1906. Chester Gillette, que assassinara Grace Brown, a sua namorada grávida, foi condenado à morte e executado em 1908.

- Para interpretar a sequência final, Montgomery Cliff passou uma noite inteira fechado numa cela do corredor da morte da prisão de San Quentin.






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2 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Uma bela homenagem a Liz, Rato. Depois de QUEM TEM MEDO DE VIRGÍNIA WOOLF? é seu melhor momento no cinema. Já vi e revi esse filme várias vezes. É uma obra-prima.
Abraços,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

José Morais disse...

Belo texto (e imagens) para um filme inesquecível