domingo, outubro 28, 2012

ROSEMARY'S BABY (1968)

A SEMENTE DO DIABO
Um filme de ROMAN POLANSKI




Com Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans


EUA / 136 min / COR / 16X9 (1.85:1)


Estreia nos EUA a 12/6/1968
Estreia em MOÇAMBIQUE a 12/10/1969
(LM, Teatro Manuel Rodrigues)


Rosemary: "What have you done to him?
What have you done to his eyes, you maniacs!"
Roman: "He has his father's eyes"



Em tempo de estreia do novissimo Polanski (“The Ghost Writer” / “O Escritor Fantasma”) sabe bem regressar aos tempos áureos do realizador polaco, em que ele se encontrava no auge de uma clara felicidade na sua vida pessoal. O que não o impediu de arquitectar uma das obras mais inquietantes da sua filmografia. Tudo começa (intencionalmente) num tom cor-de-rosa de novela, em que nos são introduzidos os protagonistas do filme, um jovem casal (Guy e Rosemary Woodhouse) que, como tantos outros nessa mesma situação, procuram um apartamento para poderem iniciar o caminho a dois. Guy (John Cassavetes) é um ambicioso actor, Rosemary (Mia Farrow) uma devota católica desejosa de se tornar mãe. Instalam-se em Manhattan, no edifício Dakota (que muitos anos depois se tornaria célebre pelo assassinato de John Lennon).
A calma idílica do casal continua a ser-nos mostrada pela câmara cínica de Polanski que assim vai acentuando o contraste para tudo quanto mais tarde nos irá confirmar os pressentimentos mais terríveis. E esta transição, lenta e quase imperceptível, é a “chave” que faz com que a história de “Rosemary’s Baby” funcione e o desenrolar do filme vá aumentado a angústia do espectador. Sómente através de pequenos e subtis passos é que Rosemary (e nós, através dela) começa a suspeitar que algo está errado à sua volta. São os vizinhos, os Castevet, que por detrás da sua aparente amabilidade vão denunciando uma impertinência crescente. É a morte de uma inquilina e mais tarde de um amigo do casal em condições misteriosas. É a cegueira súbita sofrida por um colega de Guy que permite a este alcançar um papel há muito desejado. São os seus próprios pesadelos que se lhe apresentam cada vez mais reais. É a afamada reputação do local, onde se teria em tempos praticado magia negra.
Mas Rosemary vai afastando todos os maus presságios, tal o desejo de ser mãe pela primeira vez; e finalmente recebe a boa nova – vai ter um filho. No entanto a espiral de acontecimentos estranhos continuam, e Rosemary vai descobrindo que a “teoria da conspiração” não pertence afinal ao seu imaginário, sendo pelo contrário bem real. Acaba por fim de dar à luz mas dizem-lhe que houve complicações e o bébé morreu, não lhe permitindo sequer vê-lo. Mantêm-na sob o efeito de tranquilizantes mas Rosemary sabe que estão todos a mentir, até porque ela consegue ouvir um choro infantil através das paredes. Finalmente consegue reunir as forças necessárias e descobrir a passagem secreta para o local onde se encontra o seu bébé. Depois é o horror da descoberta (-“o que fizeram aos seus olhos?” - “tem os olhos do pai”, respondem-lhe) e progressivamente a aceitação da inevitabilidade de se ter tornado mãe, nem que seja a mãe do filho de Satanás.
O grande achado do final desta ghost story é de nunca o bebé nos ser mostrado. Presume-se a sua monstruosidade, mas deixa-se o close-up à imaginação do espectador. Técnica de sugestão clássica, aplicada aqui por um virtuoso, e com bons resultados, visto muito gente ter falado no aspecto terrível do bébé. Existe apenas uma breve imagem dos olhos mas essa imagem pertence ao pesadelo que Rosemary teve antes de engravidar.
Este drama psicológico, de um horror subtil mas terrivelmente eficaz, é servido por um excelente grupo de actores onde naturalmente se destaca Mia Farrow que tem aqui o papel de uma carreira.
“Pessoalmente não acredito nas sociedades secretas - declarou Polanski na altura - o que me interessa é dar aparências passíveis de se poder acreditar nelas”. Não seria isto brincar com o fogo? Um ano depois, a sua própria mulher, a actriz Sharon Tate, com quem se casaria após a rodagem do filme, era vítima de uma seita satânica liderada por Charles Manson. A realidade tinha largamente ultrapassado em horror a ficção.
"Rosemary’s Baby" foi um enorme êxito logo na estreia, com filas de bilheteira que se estendiam por quarteirões inteiros. Êxito que se prolongou no ano seguinte devido aos trágicos acontecimentos em que Polanski se viu envolvido. Hoje, à distância de mais de três décadas, tem-se a noção clara de que “Rosemary’s Baby” foi um filme à frente do seu tempo já que anunciou a psicose de feitiçaria que iria submergir a América nos anos seguintes, além de se ter tornado a primeira referência para filmes do género. E Polanski só dez anos depois nos conseguiria dar outro filme tão ou mais inquietante do que este – “Le Locataire” / “O Inquilino”.
CURIOSIDADES:

- O edifíco Dakota foi rebaptizado de "The Bramford" para o filme

- Foi durante a rodagem que Mia Farrow recebeu os papéis de divórcio enviados por Frank Sinatra, com quem se casara apenas dois anos antes

- É a própria Mia Farrow que entoa a canção de embalar ouvida no início e no fim do filme

- Antes de Mia Farrow uma grande quantidade de actrizes famosas chegou a ser equacionada para o papel de Rosemary: Tuesday Weld, Jane Fonda, Julie Christie, Elizabeth Hatman, até em Sharon Tate, a sua futura mulher, Polanski chegou a pensar. O mesmo se passou com a escolha do papel de Guy: Robert Redford, Richard Chamberlain, Jack Nicholson, James Fox.

- Quando Mia Farrow fala ao telefone com o colega de Guy é a voz de Tony Curtis que se ouve do outro lado.


4 comentários:

nowhereman disse...

Um filme que ao longo dos anos nunca perdeu o seu fulgor. Revejo-o de vez em quando, sempre com o mesmo prazer. Na verdade aqui o Rato foi bem directo ao cerne do sucesso do filme - a construção, o saber fazer evoluir paulatinamente uma história de amor para para uma história de terror tem toda a importância. Mesmo para quem vê o filme mais do que uma vez (e eu já o vi umas dezenas largas ao longo de todos estes anos) e que deseja ser "levado" nesse processo de transformação. Uma direcção de facto brilhante de Polanski, a anos-luz desse seu último filme que por aí se anda a arrastar.

Bússola do Terror disse...

É interessante que o mesmo tema voltou a ser usado depois por outros filmes de terror um pouco mais sangrentos, como Nasce Um Monstro e O Bebê Maldito: uma mulher, depois de constatar que gerou um ser monstruoso, acaba por se deixar levar pelo tal instinto materno e aceitar a bizarra criatura como filho.

Rafael Santos disse...

Sem dúvida um dos melhores filmes do género. Consegue-me transmitir uma grande sensação de desconforto como poucos o conseguem.
Blog bastante interessante. Já me tornei um seguidor :)

Ps: Deixo-lhe o convite para visitar o meu recente espaço: a-loose-tooth.blogspot.com

Cumps,
Rafael Santos

Daniele Muniz disse...

Realmente um filme inquietante. Não é agressivo, mas incômodo... As vezes a pacacidade de Rosemary irrita um pouco, mas faz parte da personagem, que por sinal, causa amor por Mia Farrow. Amo este filme!