terça-feira, janeiro 14, 2014

PARA SEMPRE MÓNICA


É uma sequência célebre, está no “Les Quatre Cents Coups”, estreia de François Truffaut. lrreconciliado com a escola e a família, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), alter-ego de Truffaut e miúdo cheio de fome pela vida, anda pelas ruas de Paris, com um amigo, a fazer trinta por uma linha (e em francês, "faire les quatre cents coups" significa isso mesmo). No átrio de um cinema, eles deparam-se com a mesma foto da rapariga que reproduzimos em cima. Não resistem: roubam a foto e fogem a sete pés. A rapariga em questão é sueca e chama-se Harriet Andersson. Na foto, está cristalizado o esplendor dos seus 20 anos. Ela é a protagonista de “Mónica e o Desejo”, 12º filme de lngmar Bergman, rodado em 1953. Estreado em França com a classificação de M/16 e considerado um filme erótico (e não é que é mesmo, erótico e sibilino?), a sua reputação foi escandalosa. E hoje? Como será recebida esta "Mónica" no cinema Nimas por quem a descobrir agora pela primeira vez, 60 anos depois, e quase sete após a morte de Bergman? Há filmes bons, há maus, mas não há filmes velhos na história do cinema - e eis uma bela prova.


No extraordinário "Laterna Magica", livro de memórias em que Bergman também viaja no tempo, fala-nos o realizador sueco de uma paixão, Harriet Andersson, «alguém estranhamente forte e vulnerável, com um talento atravessado por rasgos de génio (...) que ora se deixa levar pela emoção da personagem ora inscreve a objectividade das coisas. E o seu humor era cáustico, jamais cínico». É bem provável que o cinema moderno (simbolicamente representado por esse inaugural “Les Quatre Cents Coups”) tenha esperado por uma personagem e por uma actriz assim para eclodir. Por uma miúda vinda do music hall que, em frente à câmara, não podia ser mais directa e sensual. A Mónica de Bergman e de Harriet é pura incitação e revolta, gesto de liberdade, convite à viagem. Continua a escapar-se entre os dedos sem tese ou teoria que a limitem no tempo.


Harriet Andersson tem hoje 81 anos. Falámos com ela ao telefone entre Lisboa e Estocolmo. Uma das maiores testemunhas do mistério do cinema de Bergman, ela começou naquele filme uma próspera carreira e uma longa colaboração com o cineasta, com quem de resto viveu alguns anos a seguir a “Mónica...”. Harriet recorda Bergman como um homem doentiamente ciumento («pergunte a qualquer mulher que com ele tenha vivido: todas lhe dirão o mesmo...»), mas também aquele a quem deve tudo como actriz. «Quando o encontrei, em 1952, ele já era muito conhecido na Suécia. Tinha uma fama tramada pois diziam que ele gostava de bater nos seus actores, coisa que nunca fez ou que, pelo menos, nunca vi acontecer. E eu estava bastante nervosa por causa disso. Para nós, “Mónica e o Desejo” era só um pequeno filme de verão e de baixo orçamento. Não tínhamos a menor suspeita da importância que ele acabaria por ganhar na história do cinema.»


A Harriet pede-se uma história de rodagem, uma memória especial, forçosamente passadista, sobre a sua experiência de trabalho com Ingmar, mas a actriz prefere nada sublinhar. «Às vezes também me perguntam qual é o meu filme favorito de Bergman. Mas eu nunca digo qual é. E não digo porque não sei. É que gosto de todos. Francamente, gosto de todos. Ora isto não é coisa que se possa dizer de um cineasta qualquer, pois não?» Também se procura explicação para 'isto': o que significa ver o cinema de Bergman nesta alvorada de 2014? Sem ponta de saudosismo, a resposta da actriz é puro gelo: «Receio que não signifique grande coisa. Mesmo aqui na Suécia, Bergman é um nome esquecido. As gerações mais novas não sabem sequer quem ele foi. É claro que isto me magoa, mas não há nada a fazer. Os tempos mudaram e os filmes mudaram. Eu também já não vou ao cinema, não suporto pipocas e gente a falar ao telemóvel, prefiro ficar em casa, sózinha, a ver DVD. Com o passar dos anos, acho que estou cada vez mais parecida com uma personagem de Bergman…»

(Francisco Ferreira in revista Atual do semanário Expresso, 11/1/2014)


 

segunda-feira, janeiro 13, 2014

BERGMAN E NÓS


17 de fevereiro de 1960, 21h30: a Filmitalus (uma distribuidora que já não existe) estreia no Império (uma sala de cinema que mudou de ramo) "Sorrisos de Uma Noite de Verão", um "estudo audaz sobre as diversas facetas do amor, um filme original, picante, que apresenta situações amorosas singulares e surpreendentes", dizia a publicidade publicada nos jornais que acrescentava ser o filme só para adultos, maiores de 17 anos. No dia seguinte, o Visor 27 do "Diário de Lisboa" chamava-lhe "filme desusado" e acrescentava que "de qualquer maneira recomendamo-lo sinceramente a todos". Foi assim que Bergman chegou a Portugal, com um filme atrasado cinco anos (os "Sorrisos ..." são de 1955) que era o seu 16º, já ele se tornara uma celebridade internacional e nós por cá ainda nada. Mas fez sucesso, um bom sucesso - esgotou sessões no cinema da Alameda que tinha 1418 lugares, não era nenhuma saleta de centro comercial...


Não tardou que outros filmes lhe viessem no rasto. "Morangos Silvestres" ainda em 1960, "Uma Lição de Amor" e "A Fonte da Virgem" em 1961, "O Rosto" e "O Olho do Diabo" em 1962, "Um Verão de Amor" e "O Sétimo Selo" em 1963, "Mónica e o Desejo" e "Luz de Inverno" em 1964 - e por aí fora. Quem se dê ao trabalho de confrontar datas de produção e de estreia em Portugal concluirá que, até muito tarde, até aos anos 80, não conseguimos acertar o passo com a sua obra, andámos a ver filmes desordenadamente, até porque, pelo caminho, além de cortes (os seios de Harriet Andersson em "Mónica...", é claro) e diálogos por traduzir (a confidência erótica de Bibi Andersson, em "A Máscara", evidentemente), houve pura e simples proibições ("O Silêncio" e "Noite de Circo" só os vimos depois do 25 de abril). Alguns houve que nunca estrearam comercialmente e só foram mostrados na Cinemateca, em 1989. Um deles é "A Prisão" que abriu, anteontem, a grande enxurrada de filmes de Bergman no Nimas e que poderá ser visto, de novo, em fevereiro.


Corriam os anos 60 pela metade quando comecei (e comigo, toda uma geração que, por esse tempo, chegava à juventude) a ver os filmes de Bergman. Os jovens cinéfilos que então éramos, já tinham visto Ford, Lang ou Anthony Mann, mas o cinema era, sobretudo, um lugar de entretenimento. Só que em Bergman entrava pelos olhos dentro que ele estava a lidar com grandes questões: Deus, a morte, o sentido da vida, o sofrimento, a redenção dos simples. E fazia-o com uma estética severa e numa língua áspera e impossível de entender (a sorte que nós tivemos em ouvir Bergman em sueco, Dreyer em dinamarquês, Wajda em polaco, Eisenstein em russo!...). Aquilo fazia o cinema subir três degraus (quem podia ver a procissão dos flagelados de "O Sétimo Selo" e não pensar na grande pintura), era uma arte, sem dúvida, e uma coisa que se podia discutir com vera dignidade. Ainda por cima, eram temáticas que cruzavam imenso com o catolicismo que nós, em larga maioria, professávamos, mesmo que em trânsito para outras interpretações do mundo.


Bergman foi, pelo menos para uma geração, o rastilho para que começássemos a olhar o cinema com uma gravidade que, antes, não supúnhamos adequada. Por outro lado, também estes filmes nos ensinavam que o cinema não é feito (só) de histórias, mas (sobretudo) de modos de as contar: os flashbacks de "Morangos Silvestres" em que Isak Borg não deixa de ser velho quando se visita em miúdo no seio da família; o fixo olhar de Harriet Andersson na nossa direção, mesmo no fim de "Mónica e o Desejo", quando estamos prestes à sua condenação moral e esse olhar nos interpela, silencioso, a perguntar que direito temos de o fazer; os corredores desertos do hotel de "O Silêncio", onde se fala uma língua ignota e há portas que dão para coisas inomináveis; a mulher que fala do lado de lá da morte, já cadáver e em decomposição, num uivo da mais abissal das solidões (e não é um fantasma, não é uma morta-viva, não é uma ressuscitada, é mesmo um cadáver), nesse "Lágrimas e Suspiros" em que tudo se funde em vermelho; o labirinto indecifrável de "A Máscara", com cenas em que nos perdíamos, subjugados, em leituras tão díspares que nunca encontrámos um fio que fechasse o filme.


Há hoje a hipótese de tão cativantes encontros no ecrã do Nimas? Quero acreditar que sim, pois há gerações que, muito provavelmente, nunca viram um filme de Bergman num grande ecrã e na sala escura. E a sua obra é de tal modo soberba que não há indiferenças que resistam. Não vale pedir que aqui se trie essa obra por ordem de hipotéticas prioridades. Entre os 17 filmes que Paulo Branco agora comprou, não há coisas descartáveis.

(Jorge Leitão Ramos in revista Atual do semanário Expresso, 11/1/2014)

sexta-feira, janeiro 03, 2014

WARHOL E O ESTRELATO


Se houve artista que compreendeu o glamour de Hollywood, esse foi Andy Warhol. O artista, filho de imigrantes polacos, re-trabalhou os clichés e "glamorizou-os". Warhol, que conheceu bem mais do que os garantidos 15 minutos de fama enquanto estava vivo, tornou-se ainda mais valioso depois de morto e, em 2012, foi o artista do século XX cuja obra atingiu o valor mais alto em leilão. A sua Factory, o estúdio-laboratório no village nova-iorquino onde criava as suas obras e juntava o seu séquito, foi uma versão excêntrica de um estúdio de Hollywood no seu período dourado: constante ebulição, diferentes projectos filmados simultaneamente, comportamentos sociais ultrajantes (Warhol queixava-se que estavam sempre a ser invadidos pela polícia). A Factory faz também lembrar o primeiro estúdio de cinema, criado por Edison, a Black Maria, onde se filmava o desempenho de estrelas de vaudeville, de pugilistas, e de heróis do faroeste como Bufallo Bill. 


No final de 1969, Andy Warhol criou uma revista, a Interview, como álibi para poder conversar com celebridades. A revista era famosa pelas entrevistas, conversas supostamente íntimas com as estrelas. Apesar de gostar de escrutinar a vida das estrelas, Warhol confessou, no seu inimitável estilo, que quando era entrevistado preferia que lhe ditassem as respostas: «Sou de tal maneira vazio, que não encontro nada para dizer», afirmou numa entrevista a Gretchen Berg publicada nos Cahiers du Cinéma. As capas da Interview são, na sua esmagadora maioria imagens de artistas de Hollywood (Anjelica Houston, Jodie Foster, Michael Jackson, Liza Minelli, entre muitíssimos outros) revisitados pela estética Pop, e isso faz de Warhol o retratista supremo das estrelas de Hollywood.

(Edgar Pêra in "Hollywood: Estórias de glamour e miséria no império do cinema", 2013)





quarta-feira, janeiro 01, 2014


O QUE É UM ROUND-ROBIN?


É o meu anti-herói favorito. Ia apresentá-lo e ele interrompe-me: «A minha biografia? Para quê? Basta ir às esquadras de Los Angeles. Está lá tudo.» E, no entanto, apesar do abundante cadastro policial, Robert Mitchum é um rio tranquilo. Nasceu cansado. Macho e cansado. O segredo das suas personagens é serem homens robustos, sólidos como armários, mas cansados de esconder as coisas que nem palavras lentas, nem gestos quase imperceptíveis, conseguem dizer. Mitchum, por exemplo, escondia uma ferocíssima gentileza. Cantava e compunha. Escrevia poemas e prosa. De "Out of the Past" a "Angel Face", a emoção de Mitchum é uma emoção ferida. Se lhe dissessem que tinha um olhar inexpressivo, ainda se diminuiria mais: «Consigo ter três expressões: olho para a esquerda, olho para a direita e olho a direito.» Tinha sentido de humor, quero dizer, o corpo de Robert Mitchum tinha sentido de humor. 


O físico dele não tem nada de cómico, como o corpo bailarino de Chaplin ou o corpo acolagénico e desdobrável de Jerry Lewis. Tem o humor subtil de um actor que, quando era miúdo, queria ser invisível. «A beleza desse gajo - disse Lee Marvin - é parecer tão quieto. Mexe-se. E a verdade é que não se está a mexer.» A preguiçosa calma dele era inspiradora. Em "Farewell My Lovely", Mitchum engata uma incendiária Charlotte Rampling: - «Para minha casa?», pergunta ele; - «Para quê? Tens tudo o que é preciso contigo», jura ela. E tinha. Um metro e oitenta de falsa timidez, cabelos escuros e olhos azuis. Não ia ter com as mulheres porque as mulheres vinham ter com ele, mas gozou um casamento de 57 anos com a namorada de juventude.


Marilyn deu-se bem com Mitchum no "River of No Return". Provocou-o: «Nestas filmagens uma rapariga não se diverte grande coisa.» O duplo de Mitchum lançou-lhe logo o anzol: «Ah sim? Que tal um round-robin?» Sabia lá bem Marilyn o que era um round-robin. O duplo de Mitchum explicou-se em francês: um ménage à trois, mas em duetos. Ela e ele, ela e Mitchum. «Oooohh, era coisa para me matar», riu-se ela. «Ninguém morreu disso», arriscou ele. Premonitória, ela não desarmou: «Aposto que sim. Só que nas notícias, depois dizem que a rapariga morreu de causas naturais.»


E Mitchum calado. Como calado ficou, nos ensaios, ao ouvir a professora de dicção de Marilyn pedir-lhe que desse ênfase a cada frase. Preminger, o realizador, estava siderado com a violência dos movimentos da boca dela. Era impossível filmá-la. Bem pedia que ela relaxasse e nada. Quando foram filmar, Mitchum deu uma palmada amorosa no inenarrável rabo de Marilyn: «Agora acaba com o disparate e fala como um simples ser humano.» E ela, como se a língua do Espírito Santo lhe caísse em cima, começou a falar normalmente. O anti-herói favorito, digo eu, é aquele a quem invejamos a mão.
(Manuel S. Fonseca in revista Atual do semanário Expresso, 28/12/2013)

segunda-feira, dezembro 30, 2013

A ÚLTIMA VIAGEM DE 2013

Alguns dos passageiros que embarcaram em 2013
no comboio da saudade:

1 de Janeiro
PATTI PAGE Cantora, 85 anos)

15 de Janeiro
NAGISA OSHIMA (Realizador, 80 anos)

21 de Janeiro
MICHAEL WINNER (Realizador, 77 anos)

2 de Abril
JESÚS FRANCO (Realizador, 82 anos)

6 de Abril
BIGAS LUNA (Realizador, 67 anos)

8 de Abril
ANNETTE FUNICELLO (Actriz e cantora, 70 anos)

8 de Abril
SARA MONTIEL (Actriz e cantora, 85 anos)

22 de Abril
RICHIE HAVENS (Músico, 72 anos)

7 de Maio
RAY HARRYHAUSEN (Director de Efeitos Visuais, 92 anos)

20 de Maio
RAY MANZAREK (Músico e compositor, 74 anos)

23 de Maio
GEORGES MOUSTAKI (Músico e compositor, 79 anos)

31 de Maio
JEAN STAPLETON (Actriz, 90 anos)

6 de Junho
ESTHER WILLIAMS (Actriz, 91 anos)

19 de Junho
JAMES GANDOLFINI (Actor, 51 anos)

29 de Junho
JIM KELLY (Actor, 67 anos)

22 de Julho
DENNIS FARINA (Actor, 69 anos)

25 de Julho
BERNADETTE LAFONT (Actriz, 74 anos)

26 de Julho
J.J. CALE (Músico e compositor, 74 anos)

28 de Julho
EILEEN BRENNAN (Actriz, 80 anos)

8 de Agosto
KAREN BLACK (Actriz, 74 anos)

10 de Agosto
EYDIE GORMÉ (Cantora, 84 anos)

24 de Agosto
JULIE HARRIS (Actriz, 87 anos)

1 de Outubro
GIULIANO GEMMA (Actor, 75 anos)

27 de Outubro
LOU REED (Músico e compositor, 71 anos)

9 de Dezembro
ELEANOR PARKER (Actriz, 91 anos)

10 de Dezembro
ROSSANA PODESTÀ (Actriz, 79 anos)

14 de Dezembro
PETER O'TOOLE (Actor, 81 anos)

15 de Dezembro
JOAN FONTAINE (Actriz, 96 anos)