segunda-feira, julho 04, 2011

LOLITA (1962)

LOLITA
Um filme de STANLEY KUBRICK



Com James Mason, Shelley Winters, Sue Lyon, Peter Sellers, Gary Cockrell, Jerry Stovin, Diana Decker, Lois Maxwell, etc.

GB-EUA / 152 min / P&B /

4X3 (1.37:1)

Estreia nos EUA a 12/6/1962

Estreia em PORTUGAL a 11/5/1972


Lolita Haze: «I'm really sorry that I cheated so much.
But I guess that's just the way things are»

Apresentado pela primeira vez em 1962, no Festival de Veneza (onde concorreu ao Leão de Ouro), “Lolita” começou por não atraír o grande público, devido sobretudo ao inevitável paralelo entre o filme e o livro, comparação sem grande significado que no entanto perdura até aos nossos dias. Tendo em conta o global desinteresse fílmico de Kubrick pelos problemas da sentimentalidade amorosa, é bastante evidente e significativo o motivo da escolha: o romance de Nabokov desenvolve com ofuscante clareza aquele que é o tema dos temas kubrickiano, aquele a partir do qual se produzem todos os seus filmes: a obsessão.

O facto de Kubrick apostar muito mais no lado subjectivo dessa obsessão, por oposição ao seu objecto físico, ou seja, ao corpo adolescente de Lolita (Sue Lyon) evidencia já o afastamento do conteúdo do romance, enquadrando-se todo o filme numa atmosfera onírica, onde a subtileza é a nota dominante das relações entre Humbert (James Mason, num dos grandes papeis da sua carreira) e as pessoas à sua volta. A relação “normal” entre homem e mulher sempre primou pela ausência no cinema de Kubrick, e esta “Lolita” é um bom exemplo disso. A paixão de Humbert situa-se num plano acima do erotismo e da permissividade, indiferente à idade da “ninfa”, e enquadrando-se num desvio à norma social institucionalizada. É uma espécie de agonia amorosa (que faz lembrar o “Amor-Louco” de Breton), uma exaltação profundamente maior do que aquela que a imaginação pode criar.

Magistralmente interpretada por Shelley Winters, Charlotte Haze, a mãe de Lolita, é o polo atractivo de toda a aversão de Humbert pelos estereotipos presentes no modo de vida americano dos anos 50. Mas enquanto Nabokov não vai além de um certo sarcasmo no modo como descreve essa sociedade, Kubrick apodera-se da figura de Charlotte (e de todos os preconceitos pequeno-burgueses que ela representa) para dar mais ênfase ao tormento de Humbert. Será nesse ambiente de desejos recalcados que o professor se deixará subjugar pela jovem teenager, iniciando o percurso sem retorno que o conduzirá à solidão e à mais negra decrepitude moral.

Já as diversas máscaras de Clare Quilty (espantoso Peter Sellers) estão inteiramente na órbita do imaginário repressivo-depressivo de Humbert As múltiplas aparições de Sellers-Quilty são física e verbalmente grotescas, espelhando toda a culpabilidade de Humbert, e conferindo o peso da realidade e uma dimensão concreta ao delírio da perseguição de que Humbert é vítima. Digamos, para simplificar, que Quilty representa o lado transgressor de Humbert, a materialização dos seus mais secretos desejos.

O filme de Kubrick é considerado ainda hoje como um objecto estranho na sua filmografia. Mas só poderá estar convicto dessa opinião quem passar por “Lolita” apenas um olhar apressado e superficial. Na verdade, todos os temas caros ao realizador estão já contidos nesta adaptação da obra de Nabokov. O argumento, da autoria do próprio escritor, viria a ser nomeado para o Oscar da Academia, mas seriam os Globos de Ouro a perspectivarem o essencial do filme, ao fazerem recaír quatro nomeações sobre o realizador e os três actores (Mason, Winters e Sellers) que foram os principais responsáveis pela envergadura e longevidade da obra.

CURIOSIDADES:

- Errol Flynn chegou a ser equacionado para interpretar o professor Humbert, mas veio a falecer antes do filme começar a ser rodado, a 14 de Outubro de 1959. Laurence Olivier, David Niven, Cary Grant e Noel Coward foram alguns dos actores que rejeitaram o convite.

- Os famosos óculos de Lolita, em forma de coração, apenas foram usados na publicidade do filme.


- Uma das razões de Kubrick ter escolhido Sue Lyon (de entre cerca de 800 candidatas) teve a ver com o tamanho dos seios da jovem actriz, para evitar que a personagem denotasse a pouca idade com que Nabokov a descrevera no livro (12 anos). Além disso, Kubrick teve o cuidado de acrescentar dois anos à sua Lolita (Sue Lyon também tinha a mesma idade - 14 anos -  na altura da rodagem), de modo a aproximá-la mais da adolescência e evitar ao máximo a conotação do filme com o universo pedófilo (estigma do qual no entanto não se viria a livrar).


- Ficaria célebre o tema principal do filme, da autoria de Bob Harris e Nelson Riddle.

- O argumento foi escrito pelo próprio autor do livro, Vladimir Nabokov, mas Kubrick alterou-o substancialmente. Sobretudo no carácter de Peter Sellers, Clare Quilty, que no livro não tem a importância central com que aparece no filme. Até a própria Lolita passou de morena a loura.




LOBBY CARDS:

2 comentários:

JoanaRute disse...

Há muito que o quero ver :D
Será estas férias !

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pense numa obra-prima. Pensou? LOLITA! O melhor de Kubrick. O Mason, a Shelley Winters e o Peter Sellers estão magníficos. Tá aí um filme tão bom quanto o livro.

O Falcão Maltês