segunda-feira, novembro 15, 2010
domingo, novembro 14, 2010
AS ESCOLHAS DOS 20
O CINEROAD, um dos mais concorridos blogues de cinema que por aí abundam, está a levar a cabo mais uma excelente iniciativa sobre os gostos particulares dos seus visitantes, desta vez relacionados com os géneros cinematográficos. Fui um dos 20 escolhidos e por isso aqui fica o meu texto de justificação das escolhas feitas. Passem por lá se quiserem ler os comentários.
Quando o Roberto Simões amavelmente me convidou a participar nesta iniciativa, alertei-o para o facto de não se ir chegar a qualquer conclusão válida, dada a infinidade de escolhas para cada uma das categorias. Mas isso só seria verdade se fosse esse o objectivo do Roberto. Não o é de facto. O que realmente este “jogo” accionou foi o acender de 20 rastilhos diferentes que irão explodir (mais de metade já explodiu) em outras tantas e acesas discussões sobre aquilo que une todos os frequentadores deste blogue – o amor pelo CINEMA. Parabéns, portanto, pela faiscante ideia!
Quanto às minhas próprias escolhas, alerto desde já para a necessidade de não as levarem muito a sério, pois tratam-se apenas das escolhas feitas no dia em que enviei o respectivo email ao responsável por este CINEROAD. Se esse email fosse remetido no dia imediatamente a seguir provavelmente alguns desses títulos seriam completamente diferentes. Por outro lado, a obrigatoriedade de nos cingirmos apenas a 4 géneros veio dificultar ainda mais esta missão impossível. A propósito, aproveito para deixar aqui a minha frustração pelo facto do Thriller (algo fundamental no cinema) não constar dos géneros seleccionáveis. Bem que podia ter substituído a Animação (apenas uma pequenina e inocente provocação). E, já agora, porquê a descriminação conferida ao Cinema Oriental? Quem aprecia um Kurosawa, um Ozu ou um Mizoguchi (só para citar três nomes do topo do cinema japonês) facilmente escolheria um dos filmes desses realizadores para figurar em alguns dos outros géneros. Por essa ordem de ideias, então deveriam ter sido incluídos, por exemplo, os cinemas “Latino-Americano”, “Francófono”, “Ibérico”, e por aí fora...
Bom, mas vamos lá então ao que interessa, aos porquês da minha selecção, feita escrupulosamente dentro dos parâmetros pré-definidos. Para já dizer que tenho 57 anos e que adoro cinema desde tenra idade. Acho isso importante, até porque tanto quanto julgo saber a grande maioria dos intervenientes neste blogue é de uma idade bastante inferior à minha. E tenho constatado, ao longo dos anos, que a vida nos vai moldando lentamente os gostos, inclusivé no modo como vemos e apreciamos os filmes que acabam por fazer parte intrínseca dessa mesma vida.
![]() |
| "INGLORIOUS BASTERDS", de Quentin Tarantino (2009) |
A escolha do filme do último triénio foi a mais fácil de todas, Tenho para mim que o cinema sempre assentou em dois pilares fundamentais – a coluna da indústria e a coluna da arte. Durante muitos anos conseguiram equilibrar-se uma à outra e assim sustentar o templo; mas é minha convicção que com o passar dos anos esse último suporte foi sendo minado por térmitas vorazes (não, a “culpa” não foi do Sansão do DeMille) e hoje em dia, já em pleno século XXI, só através de escoragens esporádicas é que ainda se vai conseguindo, a muito custo, manter o edifício em pé. Portanto, a missão de escolher um filme que representasse estes últimos três anos teria forçosamente muito que ver com a coerência desta minha maneira de pensar. Se não me quisesse enganar a mim próprio e seguir fielmente as minhas ideias, a escolha só poderia recair no filme “Avatar” que infelizmente acredito ser o verdadeiro arauto do cinema do futuro. Mas mesmo em tempos de naufrágios o meu instinto de sobrevivência sempre me ajudou e, por isso, fui buscar forças ocultas e agarrei-me em desespero a uma das (poucas) tábuas de salvação que ainda consegui encontrar à minha volta (sabe-se lá se ainda restos do Titanic). E escolhi, quase por instinto, a que me pareceu mais sólida e capaz de me trazer a sobrevivência no futuro (considero que o Quentin Tarantino já nos deu provas suficientes de que o seu nome funcionará quase como um cheque em branco para o cinema que está para vir). Só não sei é quanto tempo mais andarei a boiar…
![]() |
| "WEST SIDE STORY", de Robert Wise e Jerome Robbins (1961) |
Dos géneros por mim escolhidos o mais fácil de lhe colocar uma “máscara” na cara foi sem dúvida o Musical. Mesmo assim ainda experimentei uns vinte ou trinta modelos e, acreditem, todos lhe assentavam que nem uma luva. Mas depois lembrei-me que só por volta dos meus 18/20 anos é que me comecei a interessar por esse género tão específico e que até então arrogantemente desdenhava (convém lembrar que a juventude dessa época, a “minha” juventude, queria era “sex, drugs and rock ‘n’ roll” – nunca um epíteto foi tão apropriado a um tempo). Foram responsáveis por essa mudança radical filmes como “Cabaret” (1972), “Sweet Charity” (1969), “Fiddler on the Roof” (1971) ou “Paint Your Wagon” (1969). E esses primeiros incentivos levaram um grande safanão quando pela primeira vez vi o “West Side Story” em reposição, numa sala enorme e no esplendor dos 70 mm e das 6 bandas estereofónicas (a técnica de ponta desses anos). Fiquei completamente siderado e a partir dessa altura iniciei uma viagem no tempo para descobrir todos os grandes tesouros musicais do passado. Trata-se portanto de uma homenagem e também de uma escolha do meu foro íntimo (para além de pessoal), tal como de certo modo o foram as restantes três, nas quais no entanto as dificuldades aumentaram exponencialmente.
![]() |
| "LOVE STORY", de Arthur Hiller (1970) |
Abreviando: depois de recordar muitas dezenas de histórias de amor, todas elas vividas por terceiros nos écrans das minhas memórias, acabei por concluir que o “maior” Romance de todos só poderia mesmo estar ligado ao meu primeiro amor de juventude (o tal que nunca se esquece). Nessa premissa, apenas três filmes se colaram, indissociavelmente, a essa ligação a dois – o “Friends”, de 1971 (quando é que falas dele, Roberto?), “Romeu e Julieta” (1968) e este “Love Story” de 1970. A opção entre os três seria completamente arbitrária, não fosse o caso de ter reencontrado esse primeiro amor da juventude aqui há uma dezena de anos atrás e de, uma vez mais, termos revisto esse último filme na companhia um do outro. Querem melhor justificação para a escolha final?
![]() |
| "THE FLY", de David Cronenberg (1986) |
Para o cinema Fantástico (como eu gosto de chamar a tudo o que se considera de horror, gore, terror, sobrenatural e por aí fora) a tarefa da escolha complicou-se ainda mais, até porque neste caso não podia deitar mão a qualquer subterfúgio íntimo que me pudesse sossegar o espírito na decisão a tomar. Ainda por cima sou um grande fã do género e as referências surgem-me de todo o lado: os clássicos dos anos 30 e 40, os filmes ingleses da Hammer, toda a escola italiana (Dario Argento, Mario Bava, Lucio Fulci), a originalidade dos orientais, alguns dos mais perturbantes Polanski, enfim, aqui o termo “infinito” tem toda a razão de poder ser aplicado. Acabei por me decidir pelo Cronenberg, por ser um realizador que já me deu muitos prazeres, todos eles maravilhosamente horripilantes. O maior dos terrores será sempre o psicológico, o que sentimos bem dentro de nós. E Cronenberg, que usa a mente e o corpo humano para molde das suas fantásticas histórias é certamente um mestre no género. Além do mais, esta versão da “Mosca” tem o aliciante extra de ser simultâneamente uma história de amor-louco, o que contribuíu ainda mais para ter sido a feliz seleccionada (naquele preciso dia do envio do email, convém relembrar).
![]() |
| "THE PARTY", de Blake Edwards (1968) |
Finalmente a Comédia, uma das maiores artes do cinema de todos os tempos. Estive quase a optar por outro género, dada a tarefa gigantesca que se me deparou pela frente. Mas enchi-me de coragem e, tal como no género do fantástico, fui revendo os filmes das minhas memórias: os clássicos do Chaplin e do Keaton, os filmes subversivos dos Irmãos Marx, as “screwball comedies”, as paródias do Jerry Lewis, o mundo tão particular do Jacques Tati, o Mel Brooks e o Woody Allen dos primeiros anos, as italianadas deliciosas da Sofia e do Mastroianni, o Brel no “L’émmerdeur”, o requinte do Lubitsch ou a acutilância de um Wilder, eu sei lá..., o céu é o limite para todos esses paliativos da infelicidade. Por fim, socorri-me uma vez mais de uma artimanha íntima e perguntei-me quais os filmes em que o elemento dramático se encontrava reduzido à expressão mínima ou mesmo inexistente (a ideia de encontrar a “comédia total”) e que hoje em dia ainda têm o condão de instantâneamente aplacarem os meus maus humores e que por isso tenho sempre “à mão de semear” para uso urgente. Aí as hipóteses foram drasticamente reduzidas a meia dúzia de títulos e esta “Festa de Loucos” ocupou naturalmente o lugar da frente. Para quem nunca viu (e acredito que sejam muitos entre vocês), este delirante filme de Blake Edwards (que foi responsável também pela série da pantera-cor-de-rosa) é filmado quase inteiramente dentro de uma faustosa mansão de um produtor de Hollywood na qual se realiza uma festa para a qual é convidado por engano um infeliz actor indiano que tinha sido despedido alguns dias antes durante a rodagem de um filme. A personagem é desempenhada, com sotaque incluído (“birdie-num-num”), pelo genial actor inglês Peter Sellers, que atinge aqui o apogeu máximo de toda a sua comicidade.
E pronto, caros amigos e cinelovers, desculpem a extensão invulgar desta missiva, mas penso que no fim de contas é no uso (e abuso) de todas as caixas de comentários que reside a força e o grande interesse deste CINEROAD. Uma longa vida recheada de bons filmes é tudo quanto vos desejo. E não se fiquem só pelas “obras-primas”, vejam também os rascas e os supérfluos, que de igual modo vos trarão memórias deliciosas no fim da estrada.
sábado, novembro 13, 2010
THE SHADOW OF YOUR SMILE
UM TRIBUTO A GRACE KELLY
quinta-feira, novembro 11, 2010
THE GHOST AND MRS. MUIR (1947)
O FANTASMA APAIXONADO
Um filme de JOSEPH L. MANKIEWICZ
Com Gene Tierney, Rex Harrison, George Sanders, Edna Best, Anna Lee, Natalie Wood
EUA / 104 min / PB / 4X3 (1.37:1)
Estreia nos EUA a 26/6/1947
Estreia em Portugal a 20/10/1947
Captain Gregg: "Blasted women! Always make trouble when you allow one aboard... "
Um filme de JOSEPH L. MANKIEWICZ
Com Gene Tierney, Rex Harrison, George Sanders, Edna Best, Anna Lee, Natalie Wood
EUA / 104 min / PB / 4X3 (1.37:1)
Estreia nos EUA a 26/6/1947
Estreia em Portugal a 20/10/1947
Captain Gregg: "Blasted women! Always make trouble when you allow one aboard... "
Vi este filme, pela primeira vez, ainda não tinha 13 anos, no Tivoli, quando o Tivoli cheirava a Fox e eu dizia Vinte Century Fox. Talvez por isso, a palavra vintage, que só aprendi muito mais tarde, me esteja visualmente associada ao emblema da casa de Zanuck e me apareça sempre, entre holofotes cruzados, ascendendo e descendendo por espaços efémeros.
Lembro-me que gostei. Lembro-me que gostei muito. Mas nunca imaginei que ia gostar tanto e que tanto, toda a vida, me ia lembrar desta história de amor e de morte. Aos 12-13 anos, os grandes amores são solitários e são coisa de nós com nós, sem mais corpo do que o próprio. Por esse lado, podia, obscuramente, como através de um espelho, desvendar parte importante do criptograma do filme. Mas ainda era muito cedo (e agora talvez seja muito tarde) para desvendar a parte que com essa parte se soma. Aos doze anos, a morte é uma palavra vaga e os fantasmas brincadeiras para sustos a pregar uns aos outros.
Precisei de mais trinta anos (trinta e dois, se contar pelos dedos) para saber que o Capitão Daniel Gregg (Rex Harrison) não era fantasma nenhum ou era o fantasma todo. Nesse dia, preguei o imenso poster do filme (o original) na parede que fica na frente da minha secretária na Gulbenkian. Eu já lá não estou, o poster ainda lá está (Agora, já não está. Mas, embora empalidecido pelo sol - quem é que se lembra de pôr fantasmas ao sol? - continua no meu gabinete. Na Cinemateca). Gene Tierney (Lucy Muir) em primeiro plano, imensa e vogante, «with that taunt in her smile». Rex Harrison, na sombra, atrás dela, «with that haunt in his kiss». E, no canto direito, em baixo, muito mais pequenino, George Sanders «without a ghost of a chance». «The Flesh ... So Wéak.» «The Spirit ... So Wiliing.» Podia ser ao contrário, mas assim sossega mais. E também por lá se diz, na capa de um livro fechado, que «the film becames the delight of your life.» Não sei se "delight" é a palavra mais própria, mas muita coisa em a minha vida "becamou".
Mrs. Muir - já o disse - é Gene Tierney, nos anos de "Laura", de "Leave Her to Heaven", de "Dragonwyck", nos anos em que mais Gene Tierney foi, mulher patchuli, mulher asfódela. Mr. Muir - quem quer que tenha sido - nunca o conhecemos. Morreu antes do filme começar, de um flato ou de coisa parecida, deixando-lhe a cara e o corpo magníficos envoltos em crepes, como em crepes se envolviam as viúvas inglesas do princípio do século, tempo e país do início da acção. A advinhar pela família com quem a deixou a viver (sogra e cunhadas), nem ela nem nós perdemos grande coisa. Mas deixou-lhe uma filha de sete anos, papel confiado à criança que então era Natalie Wood.
Para fugir dessa casa londrina, casa de um morto, casa de mortos, decide Mrs. Muir, com enorme escândalo da família, mudar de ares e mudar de mares, levando-se a ela, à filha e à criada (Edna Best) para uma praia sobre o Atlântico, onde, de noite, o vento assobiava nas frinchas de madeiras velhas e onde brenhas de ondas se batiam contra os penhascos. Das muitas casas que lhe mostraram, nenhuma a convence. E só quis a casa que não lhe queriam mostrar, porque - dizia -se - estava assombrada pela alma penada do Capitão Gregg, que nela se suicidara. O fantasma não assusta Lucy Muir. Um fantasma é o medo que a gente tem dele. E o medo do desejo não é medo de Gene Tierney. Por isso, na casa, ama tudo o que nela ficou do capitão: o óculo na varanda do quarto dele, o bezerro dourado que trouxe de uma das suas muitas viagens, o retrato dele toscamente pintado, fardado de lobo de mar, com um sorriso entre o sarcástico e o diabólico.
Uma mulher em sombra (o luto, os véus) troca um morto por um fantasma. E se o morto a quisera enterrar viva (em Londres) o fantasma vai e vem do mar, atravessa-lhe as janelas e propõe-lhe a mágica dissolução, tão mágica como esse plano, entre todos mágico, em que, na primeira noite passada na velha casa, Lucy acorda e vê o mar através da janela, essa janela que fechara antes e que durante o sono se abriu. E, quando já tem a certeza que ele está ali, Mrs. Muir desencadeia a aparição. Levanta-se, vai à cozinha e risca um fósforo para acender o lume. As luzes todas apagam-se, a trovoada e os relâmpagos começam. E é nesse momento que ela diz: «/ know you are there» E Rex Harrison surge diante dela, malcriadissimo como só Rex Harrison soube ser, para uma discussão nada metafísica sobre o direito de qualquer deles à posse exclusiva da casa. Fantasma de desejo, Harrison é também fan tasma da violação (de desejo da violação), donde a agressividade irónica das relações entre eles.
E se Rex Harrison exige que o retrato dele volte para o quarto, que é agora quarto dela, Gene Tierney tapa-o quando se despe, escondendo a nudez da imagem em movimento ao olhar da imagem fixa.
É depois que começa, nos muitos encontros com o fantasma, a felicidade dela, tão mais intensa quanto mais necrófIla e solitária. «I’m so happy», diz. Debalde, o fantasma lhe responde que tudo quanto ela vê é uma ilusão, «like a blasted lantern slide». Debalde, o fantasma lhe diz: «I’m here because you believe I’m here.» Essa ilusão, essa crença, são o mundo de Mrs. Muir, tanto como o mar e a praia, ou tanto como a música off (que também está ali e não está ali), uma das mais geniais partituras do genial Bernard Herrmann (deêm-me só essa música e já todo o fIlme vem atrás).
Quando o Capitão lhe diz que é uma ilusão, Lucy Muir responde que «It’s not very convincing, but I suppose it’s all right». E ilusão não é o livro que o Capitão lhe dita, memórias de marinheiro escritas por uma mulher. «What they didn't know about life would fill an encyclopaedia.» E, entre as muitas coisas que ela não sabia, está essa palavra que dá origem a uma das mais prodigiosas fIntas jamais feitas aos códigos dos bons tempos de Hollywood. O capitão dita-a, sem que o ouçamos. Ela pára de escrever à máquina, cora e recusa-se a escrevê-la. O capitão berra e insulta. A câmara coloca-se em frente de Gene Tierney e, dedo a dedo, hesitantemente, esta procura, letra a letra, a palavra que tem quatro. E quem se lembra do teclado AZERT, não tem muita dificuldade, seguindo-lhe os movimentos, em saber que ela começou no F e acabou no K. Foi a primeira vez que esta palavra, não aparecendo, apareceu num fIlme. Como o fantasma. Exactamente como o fantasma, também fantasma dela.
O livro faz Mrs. Muir voltar a Londres. O livro publica-se, não fantomaticamente. E Londres e o livro vão trazer ao fIlme o terceiro «morto»: o escritorzeco Miles Fairley (George Sanders). Há sempre um momento em que, no reino dos mortos, alguém se volta para trás, à busca de uma imagem mais "real". Gene Tierney inicia o seu terceiro Iove affair, com a fraca réplica do capitão, que é a presença sedutora de George Sanders. O fantasma começa por tentar expulsá-lo. Depois, rende-se à vida, no seu segundo "suicídio". E é enquanto ela dorme («Ah! Comme Gene Tierney est belle quand elle dort!») que Rex Harrison se vem despedir dela, na mais bela sequência de sempre da história de Hollywood. «Oh, Lucia» (a voz de Harrison, a música de Herrmann) «you are so little and so lovely» Depois, recita-lhe Keats (Ode to a Nightingale) e fala-lhe de como teria gostado de a levar a ver o sol da meia-noite, os fiordes da Noruega. «What you have missed, Lucia, by being born too late to traveI the Seven Seas with me! And what I've missed too» Depois, ele que, antes, num momento em que ela demasiado se aproximou dele, lhe dissera rudemente: «Keep your distances, madam», inclina-se para ela num quase beijo que, de novo, interrompe. E afasta-se para a janela e para o óculo, que nunca mais vai poder ver o invisível. No sol da manhã seguinte, o capitão desapareceu da vida e da casa de Lucy Muir, que só o capitão tratava por Lucia, como se ela viesse de Lammermoor.
Mas com ele - pouco depois dele - desaparece também George Sanders. Quando Gene Tierney o vem buscar a terra firme (a casa dele) descobre que esse outro "sonho" ocultava a dura realidade de uma banal mentira e de uma banal mediocridade (Sanders era casado e a sua história uma história contada a muitas e passada com muitas). Daí para diante não há mais homens - vivos ou mortos - na vida de Mrs. Muir.
E o tempo começa a passar muito depressa. Depressa envelhece Mrs. Muir. Depressa a filha cresce e a filha casa, para só então contar à mãe que ela também, em criança, vira o fantasma. E depressa chega uma tarde (um fim de tarde) em que Mrs. Muir, de cabelos brancos, se sente muito cansada e pede à criada um copo de leite. Não chega a bebê-lo. O copo escorrega-lhe das mãos e Mrs. Muir morre, agasalhada, na cadeira em frente ao mar em que sempre se sentou. A imagem desdobra-se. E os dois fantasmas - o dele e o dela, como foram quando eram - ficam a olhar para a velha morta. Depois, descem as escadas de mãos dadas e depois abrem a porta e desaparecem, entre a música, no meio da névoa.
«I have been half in love with easeful Death ... /
Was it a vision or a waking dream?» (Keats).
Was it a vision or a waking dream?» (Keats).
De todas as artes, o cinema é a mais onírica. E essa dimensão nunca existiu tanto como nos filmes "germanizados" ou "germanizantes" feitos em Hollywood nos forties. Joseph L. Mankiewicz (1909-1993), o realizador de “The Ghost and Mrs. Muir” e que só agora nomeio, não era alemão, mas descendia de alemães e na Alemanha se formou. Toda a sua vida procurou o cinema total. Apesar de muitas outras obras -primas, nunca esteve tão perto como neste filme de que disse recordar sobretudo «o vento, o mar e a procura de qualquer coisa de diferente». «E as decepções que se tem»
Não há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher que nasceu tarde demais para atravessar os sete mares e para ver o sol da meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo demais para a poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há cedo nem tarde e que o único amor que existe - porque é o único em que acreditamos que existe é o amor surreal, esse que Rex Harrison e Gene Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta.
João Bénard da Costa
quarta-feira, novembro 10, 2010
segunda-feira, novembro 08, 2010
domingo, novembro 07, 2010
OS FILMES DO DARIO
![]() |
| Nascido a 7 de Setembro de 1940, em Roma, Itália |
Filho de uma fotógrafa brasileira e de um produtor de filmes italiano, Dario Argento nasceu em Roma, Itália, no dia 7 de Setembro de 1940. Fanático dos filmes de Hitchcock, Antonioni, Bergman e Mario Bava, Argento roda a sua primeira longa-metragem (“O Pássaro das Plumas de Cristal”) em 1969, depois de ter colaborado com Bernardo Bertolucci no argumento de “Once Upon A Time In The West”, de Sergio Leone. Como não podia deixar de ser tratava-se de um filme de suspense, um thriller, mas filmado já de um modo algo estilizado, pouco comum para a época. Ennio Morricone assina a partitura musical, a primeira de várias colaborações ao longo dos anos. Apesar do filme incluir diversas cenas violentas ornamentadas de mórbidos detalhes, o filme é inesperadamente um êxito no box-office internacional.

Argento, ainda um pouco surpreendido pelo grande sucesso obtido pelo seu primeiro filme, descobre deste modo o estilo que irá aprofundando ao longo dos anos: um misto de suspense e horror (este ocuparia cada vez mais o centro das atenções), com cenas de explícita violência mas filmadas de uma maneira algo subjectiva e onde a música se encontra sempre presente e assinada a maior das vezes pelos mesmos autores (Morricone, Simonetti, Pignatelli, Donaggio) o que também contribui para a “imagem de marca” da obra do realizador italiano. «Não tenho medo de olhar para o meu lado escuro, não desvio o olhar quando vejo a violência do mundo à minha volta.» Desde sempre interessado pela psicanálise freudiana, Argento gosta de explorar os limites do medo no écran. Mas não prega sustos gratuitamente, está sinceramente interessado em analisar a angústia contemporânea.

Considerado uma referência básica do cinema de horror italiano, Dario Argento influenciou obras de realizadores actualmente muito conhecidos, como Quentin Tarantino, Brian de Palma, Wes Craven ou John Carpenter, que dirigiu “Halloween” em sua homenagem. Até Stanley Kubrick, um dos maiores mestres do Cinema, confessou ter sido influenciado por ele, sobretudo na utilização de cores e em certos movimentos de câmara.

Ainda em actividade, Dario Argento é hoje considerado um dos mestres absolutos do terror. As sua temáticas estão geralmente relacionadas com traumas infantis; os “seus assassinos” foram marcados na infância e movimentam-se num mundo próximo dos contos infantis dos irmãos Grimm ou do universo tortuoso de Edgar Allan Poe. Tecnicamente, os seus filmes apresentam sempre um estilo muito particular: longos travellings, o uso da câmara subjectiva, a inclusão frequente de close-ups (grande parte das vezes dos olhos dos assassinos), as cores e os ambientes barrocos a causarem impressionantes efeitos na tela. E a música, sempre a música a unir todos estes elementos visuais.

Presença habitual no Fantasporto, ainda recentemente, em Março de 2007, Dario Argento apresentou ali o seu penúltimo filme “La Terza Madre / Mother of Tears”, onde mais uma vez dirige a sua própria filha, Asia Argento. O filme é o capítulo final da trilogia iniciada em 1976 com “Suspiria” e que prosseguiu três anos depois com “Inferno”, duas das obras maiores da sua carreira. O argumento centra-se numa jovem estudante americana que inadvertidamente abre uma urna e desencadeia uma série de incidentes aterrorizadores. O gore no seu melhor.

O CD agora disponibilizado neste blogue reúne 15 temas originais de alguns dos filmes mais celebrizados do realizador italiano, como “Il Gatto A Nove Code”, “Profondo Rosso” (uma das bandas sonoras mais inovadoras dos anos 70, com música progressiva assinada pelo grupo pop italiano Goblin), “Suspiria”, “Inferno”, “Tenebrae” ou “Phenomena”. Esta coleção poderá servir de cartão de visita à obra de um dos nomes mais conceituadaos do Cinema de Terror, que felizmente já começou a ser editada em Portugal.
FILMOGRAFIA:
2011 - Dracula 3D
2009 - Giallo / Reféns do Medo
2007 - La Terza Madre / A Terceira Mãe / Mother of Tears (ing)
2004 - Il Cartaio / O Jogador Misterioso
2001 - Non Ho Sonno / Insónia (br)
1998 - Il Fantasma Dell'Opera / O Fantasma da Ópera
1996 - La Sindrome di Stendhal / Viagem ao Inferno
1993 - Trauma
1990 - Due Occhi Diabolici / Two Evil Eyes (ing) (Segmento de "The Black Cat")
1987 - Opera / Terror na Ópera
1985 - Phenomena
1982 - Tenebre
1980 - Inferno
1977 - Suspiria
1975 - Profondo Rosso / A Casa Que Escorria Sangue / Deep Red (ing)
1973 - Le Cinque Giornate / The Five Days (ing)
1971 - 4 Mosche di Vellutto Grigio / Quatro Moscas no Veludo Cinza (br)
1971 - Il Gatto a Nove Code / O Gato das Nove Vidas
1970 - L'Uccello Dalle Piume di Cristallo / O Pássaro com Plumas de Cristal
Dario Argento é também o produtor, autor e argumentista da quase totalidade dos seus filmes.
2004 - Il Cartaio / O Jogador Misterioso
2001 - Non Ho Sonno / Insónia (br)
1998 - Il Fantasma Dell'Opera / O Fantasma da Ópera
1996 - La Sindrome di Stendhal / Viagem ao Inferno
1993 - Trauma
1990 - Due Occhi Diabolici / Two Evil Eyes (ing) (Segmento de "The Black Cat")
1987 - Opera / Terror na Ópera
1985 - Phenomena
1982 - Tenebre
1980 - Inferno
1977 - Suspiria
1975 - Profondo Rosso / A Casa Que Escorria Sangue / Deep Red (ing)
1973 - Le Cinque Giornate / The Five Days (ing)
1971 - 4 Mosche di Vellutto Grigio / Quatro Moscas no Veludo Cinza (br)
1971 - Il Gatto a Nove Code / O Gato das Nove Vidas
1970 - L'Uccello Dalle Piume di Cristallo / O Pássaro com Plumas de Cristal
Dario Argento é também o produtor, autor e argumentista da quase totalidade dos seus filmes.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




































