sexta-feira, fevereiro 04, 2011

SALAS DE CINEMA - APOLO 70

Quando o na altura chamado Drugstore Apolo 70 abriu as suas portas ao público, em Lisboa, vivia-se ainda uma certa euforia da viagem à Lua, motivo pelo qual aquele espaço foi assim designado. Situado na Av. Júlio Dinis, entre as Avenidas 5 de Outubro e da República, a inauguração ocorreu com pompa e circunstância no dia 26 de Maio de 1971, uma quarta-feira. Tal como foi noticiado na imprensa da época, e como era usual, não faltaram as autoridades da praxe, desde o comandante da PSP aos secretários de Estado do Comércio e da Informação e Turismo, além de inúmeros convidados. Com uma área de três mil metros quadrados, distribuída por dois pisos (rés-do-chão e cave), o Drugstore Apolo 70 albergava 41 lojas, um luxuoso restaurante, um salão de jogos, um bowling de 4 pistas, e... uma magnífica sala de cinema - projectada pelo arquitecto Augusto Silva e decorada por Paulo Guilherme - com capacidade para 300 espectadores. Rezava a publicidade que era, imagine-se, o maior Drugstore da Europa!
A primeira sessão de cinema só ocorreu no dia seguinte, com a exibição do filme “Tell Them Willie Boy Is Here / O Vale do Fugitivo”, de Abraham Polonski, um western de contornos políticos interpretado por Robert Redford, Katharine Ross e Robert Blake. No programa de apresentação da nova sala, distribuído gratuitamente ao público (norma corrente na grande maioria das salas de cinema daqueles anos), podia ler-se: «Ao abrir as portas, todo o cinema que se preza orgulha-se de se apresentar ao público referindo normalmente a excelência da sua projecção, a comodidade dos seus lugares, o bom gosto do seu ambiente, o interesse espectacular da sua programação, etc. Apolo 70 poderia começar também por isso (e cremos que o faria com inteira justiça), mas as responsabilidades que irá contrair são sobretudo de um outro tipo. Com o que a sua declaração de princípio pretenderá atingir um alcance muito mais vasto».
Pessoalmente, o meu primeiro contacto com o Apolo 70 ocorreu durante as férias de Verão daquele mesmo ano de 1971. No dia 2 de Agosto, uma segunda-feira, fui à matiné das 16:45 ver o filme “Os Amores de Uma Loura”, do Milos Forman. Ainda conservo esse bilhete, pelo qual paguei a módica quantia de 15 escudos na altura. A partir de então tornei-me um frequentador assíduo daquele espaço, onde tive a oportunidade de ver muito bom cinema. Recordo títulos como “Harold and Maude”, “Mon Oncle”, “The Front Page”, “Catch 22”, “Salmo Vermelho” e tantos, tantos outros. A programação estava a cargo do cineasta e crítico de cinema Lauro António, que, para além da programação normal, nos costumava brindar também com as chamadas sessões especiais da meia-noite. Foi no decurso dessas sessões especiais que descobri grandes filmes da história do cinema. Recordo dois ciclos em especial – um dedicado à Greta Garbo e outro à dupla Fred Astaire / Ginger Rogers – ambos fizeram as minhas delícias.

Apesar do centro comercial ter chegado aos dias de hoje, aquela mítica sala de cinema encerrou em 1990, seguindo o exemplo de tantas outras da capital. Há uns anos atrás voltei a percorrer os corredores daquele espaço da minha juventude. Mas acredito que o aperto que senti no peito nessa altura servirá de travão ao desejo de nova visita ao local. Prefiro quedar-me apenas com a saudade de outros tempos...

MUSEU DO CINEMA

in "Cinéfilo" nº 109, 1930

ZOO BE ZOO BE ZOO BE ZOO BEE ZOO

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

VANITY FAIR HOMENAGEIA HITCHCOCK

O nº de Março de 2008 da revista norte-americana Vanity Fair trazia uma curiosa homenagem ao mestre do suspense, Sir Alfred Hitchcock. Intitulada “The Hollywood Portfolio of Hitchcock Classics”, constava de onze recriações de outras tantas cenas de célebres filmes do realizador, de “Rebecca” (1940) até “Marnie” (1964) , feitas por fotógrafos tão prestigiados como Julian Broad, Norman Jean Roy, Mark Seliger e Art Streiber. Cada “retrato” continha um breve comentário sobre o filme respectivo, bem como os nomes dos actores intervenientes. Actores dos nossos dias que deste modo dão nova vida a personagens que habitam há muito a nossa memória cinéfila.


São no total 21, entre os quais  Charlize Theron (atendendo a fatídica chamada de “Dial M For Murder”, em vez de Grace Kelly), Renée Zelwegger (nas alturas, tal como Kim Novak em "Vertigo"), Jodie Foster (aterrorizada pelos míticos pássaros de Bodega Bay, à semelhança do que em 1963 aconteceu a Tippi Hedren), Javier Bardem e Scarlett Johansson (personificando os amantes voyeurs de “Rear Window”), Marion Cottilard (cortada em vários planos rápidos que em “Psycho” também vitimaram Janet Leigh), Naomi Watts (retomando a frigidez falsa de Tippi Hedren em “Marnie”) ou ainda Gwyneth Paltrow e Robert Downey Jr. (seduzindo-se reciprocamente, à imagem de uma Grace Kelly e de um Cary Grant em “To Catch A Thief”). E à deriva no mar alto num lifeboat, Julie Christie e Eva-Marie Saint estão entre os sete náufragos que procuram um porto seguro.

Apresentam-se aqui as onze imagens desta galeria única, bem como um vídeo onde nos podemos aperceber do trabalho dispendido na recriação de todas estas cenas. Um trabalho meticuloso e de resultados surpreendentes, a provar o interesse que o cinema de Hitchcock continua a despertar na actualidade. Razão tinha o velho mestre, quando afirmava que o seu cinema era puramente visual – todas estas fotografias o demonstram inequivocamente.

“REBECCA” (1940)

“LIFEBOAT” (1944)

“STRANGERS ON A TRAIN” (1951)

“DIAL M FOR MURDER” (1954)

“REAR WINDOW” (1954)

“TO CATCH A THIEF” (1955)

“VERTIGO” (1958)

“NORTH BY NORTHWEST” (1959)

“PSYCHO” (1960)

“THE BIRDS” (1963)


“MARNIE” (1964)
FOTOGRAFANDO AS CENAS:

terça-feira, fevereiro 01, 2011

THE NAME IS BARRY..., JOHN BARRY

John Barry, músico e compositor britânico, faleceu no passado domingo, dia 30 de Janeiro, em Nova Iorque, vítima de um ataque cardíaco. Tinha 77 anos (nasceu a 3 de Novembro de 1933, em York) e o seu nome ficará para sempre ligado aos filmes de James Bond, para os quais escreveu os temas mais emblemáticos: “From Russia With Love”, “Goldfinger”, “Thunderball”, “Diamonds Are Forever”, “You Only Live Twice”, e o próprio tema indicativo do agente secreto 007. Mas a sua contribuição para o mundo do cinema não se esgota aqui, foi muito mais além. 
Quem não recorda com saudade os temas musicais de filmes como “Born Free”, “Midnight Cowboy”, “Out Of Africa”, “Somewhere In Time” ou “Dances With Wolves”? A lista é longa e recheada de nomes que hoje fazem parte intrínseca da história do Cinema. Dele disse Sir Richard Attenborough: «He's never satisfied with what he does. Every day he wakes up and believes that into his mind and soul is going to come some magical arrangement of notes that he's going to ultimately either entrance you with in a concert hall or cinema. It's because he thinks there's still a peak to climb that he's a great film music composer». 
Entre 1967 e 1993 John Barry foi nomeado 6 vezes para os Oscars da Academia, tendo arrebatado a estatueta dourada por 4 vezes. Mas a lista de prémios com que foi premiado ao longo da sua brilhante carreira é impressionante, como se pode avaliar aqui. Numa sentida homenagem a este grande senhor, que nos deu ao longo da sua vida tantas melodias inesquecíveis, disponibiliza-se em anexo a coletânea “Themeology – The Best of John Barry”, publicada em 1997, e que contém alguns desses temas imortais. O cinema ficou muito mais pobre por estes dias.