quinta-feira, julho 23, 2015

NIAGARA (1953)

NIAGARA
Um filme de HENRY HATHAWAY


Com Marilyn Monroe, Joseph Cotten, Jean Peters, Max Showalter, Denis O'Dea, Richard Allan, etc

EUA / 92 m / COR / 
4X3 (1.37:1)

Estreia nos EUA: New York, 21/1/1953
Estreia em Portugal: 22/10/1953

«Marilyn Monroe and "Niagara" a raging torrent of emotion that even nature can't control»


É deveras curioso que os dois motivos pelos quais este filme ainda desperta interesse nos nossos dias, sejam precisamente aqueles contra os quais os críticos da altura mais se insurgiram: a belíssima fotografia em Technicolor e o desempenho de Marilyn. Porque a quase totalidade dos chamados film-noir eram rodados a preto e branco (e, curiosamente, o trailer de "Niagara" também foi apresentado a preto e branco) e porque a presença sensual da deusa platinada eclipsava tudo o mais. Se hoje pudessemos retirar a cor e a actriz do filme, pouco ou nada sobejaria que nos fizesse recordar "Niagara". Este foi o filme que fez de Marilyn uma estrela. Foi aqui que ela rodou as primeiras cenas em que aparece nua, debaixo do chuveiro, atrás de uma cortina (ou seja, ainda muito difusa), e foi contratada como artista principal, passando por cima do já consagrado Joseph Cotten, o qual, diga-se de passagem, se revelou uma escolha muito pouco credível para o papel de George Loomis (o próprio realizador confessaria mais tarde a sua frustração por não ter podido contar com o actor James Mason).


Mas voltemos a Marilyn, o principal motivo pelo qual este filme deve ser visto. A íntima carga de liberalização com que ela personifica a esposa adúltera, adquire imediata expressividade nos seus signos básicos, quer seja o bamboleio agressivo e com um toque de vulgaridade quer a sua forma inigualada de entreabrir os lábios, sugerindo ao mesmo tempo desejo, indecisão, ironia ou prazer. Algumas cenas ficarão para sempre no imaginário cinéfilo (e também masculino): logo no início do filme, deitada com um cigarro na mão, fingindo dormir quando o marido entra no quarto; na saída do chuveiro, com a cabeça apertada numa touca, ela é toda energia pronta a explodir; o comportamento demoníaco, rindo descaradamente depois de ela e Cotten terem tido sexo na véspera do dia em que tinha combinado com o amante o seu homicídio; ou a cena mais célebre de todas, quando vestida de um vermelho vivo, atravessa lentamente o pátio e escolhe um disco para ser tocado no gira-discos ("Kiss").


"Niagara" é o único filme da filmografia de Marilyn em que ela aparece maliciosa e absolutamente maldosa, sem a usual e redentora benevolência do seu ar inocente e ingénuo. O seu personagem (Rose Loomis) estereotipa a figura da mulher sensual, manipuladora e egoísta, que não olha a meios para atingir os seus fins; neste caso, a morte do marido às mãos do amante. A personalidade de Rose expõe algumas características de Marilyn, como o gosto e a vontade de viver. Mas estas qualidades são minimizadas, para manter a imagem da criminosa que o público precisa condenar. Essa dualidade está bem presente na cena do estrangulamento por Cotten: aparecem dois planos do corpo - um longe e o outro mais perto, uma mancha de luz cercada de sombra, simbolizando drasticamente o contraste da sua personalidade. A luz sugere a sua energia e vitalidade e a escuridão a sua cruel amoralidade.



E depois de Marilyn, o que resta? Sem dúvida a brilhante fotografia em exuberantes coloridos, que nos faz lembrar, com alguma nostalgia, o modo de vida daqueles anos 50. As cataratas imponentes, cenário de qualquer lua-de-mel que se prezasse, o motel constituído por pequenas mas confortáveis casas familiares (as "Rainbow Cabins", construídas de propósito para o filme), os serões passados a dançar à volta do gira-discos. Quanto ao enredo, "Niagara" tenta seguir uma linha hitchcockiana de suspense, mas sem grandes resultados. Aquela história de adultério, entrecruzada por cenas de ciúme e desequilíbrios emocionais só faz mesmo algum sentido quando integrada no espírito da época. Uma última referência a Jean Peters, no papel de Polly Cutler, a esposa fiel e (aparentemente) "certinha" do filme, que contrabalança assim a personagem de Marilyn. É com ela que o filme encerra, quando é salva in extremis do barco que levará Cotten, no seu suicídio, para o fundo das cataratas de Niagara Falls.

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2 comentários:

Miguel Moreira disse...

Eu não consigo gostar muito deste filme da Marilyn. É interessante ver a loira num papel pouco associado a ela, malvada e calculista. Marilyn faz um desempenho aceitável mas revelaria muito mais talento para a comédia. As cataratas irritam-me porque fazem imenso barulho. Incomoda-me bastante ver o filme com o barulho delas de fundo

Rato disse...

É curioso, nunca pensei que o som das cataratas pudesse incomodar um espectador. Quanto às aptidões artísticas da Marilyn, diria que efectivamente estariam mais perto das comédias. Mas..., mas... o grande desempenho dela até foi num filme dramático, o magnífico "The Misfits (Os Inadaptados)", já comentado aqui no Rato Cinéfilo.
Obrigado, Miguel, pelo comentário