sexta-feira, novembro 11, 2011

WEST SIDE STORY (1961)

AMOR SEM BARREIRAS
Um filme de JEROME ROBBINS e 
ROBERT WISE


Com Natalie Wood, Richard Beymer, Russ Tamblyn, Rita Moreno, George Chakiris, Simon Oakland, Ned Glass, William Bramley, Tucker Smith, Tony Mordente, David Winters, Eliot Feld


EUA / 152 min / COR / 16X9 (2.20:1)


Estreia nos EUA a 18/10/1961 (NY)
Estreia no BRASIL a 25/12/1961
Estreia em PORTUGAL a 23/4/1963
(Lisboa, cinema Monumental)


Maria: «All of you! You all killed him! And my brother, and Riff. 
Not with bullets, or guns, with hate. Well now I can kill, too, 
because now I have hate!»

Desde que vi “West Side Story” pela primeirissima vez (no dia 25 de Outubro de 1970), quase uma década depois do filme se ter tornado célebre em todo o mundo, que uma forte suspeita tomou conta de mim: a de que, muito provavelmente, aquele seria o melhor musical de sempre. Contudo, essa primeira visão, no esplendor dos 70 mm e das 6 bandas estereofónicas do écran gigante do Teatro Manuel Rodrigues, em Lourenço Marques, poderia ser enganosa, visto toda aquela espectacularidade se poder sobrepôr ao real valor do filme. Por isso aprendi a viver com aquela suspeita durante mais umas décadas, sentindo-a cada vez mais forte dentro de mim, sobretudo quando assistia a outros musicais, antigos ou modernos, que comparativamente ficavam sempre em segundo lugar. Hoje, passados 40 anos, e numa altura em que o musical está morto e enterrado (e as ressureições pontuais não passam de almas penadas), aquela suspeita velhinha deixou-me enfim sossegado: “West Side Story” é, sem qualquer dúvida, o melhor musical de todos os tempos!
De Berkeley a Minnelli, de Fred Astaire a Gene Kelly, a comédia musical cantara a alegria de viver em filmes inesquecíveis da chamada era de ouro de Hollywood: “Top Hat”, “Shall We Dance?”,”The Wizard Of Oz”,”An American In Paris”, “Singin’ In The Rain”, “The Band Wagon”, “Seven Brides For Seven Brothers”, “A Star Is Born”, foram alguns desses filmes. “West Side Story” veio romper com essa tradição, envolvendo-a num banho de violência, melodrama e tragédia. A partir dali nada seria igual nos meandros do musical americano - o filme de Robbins e Wise ocupou o fiel da balança e nunca mais de lá saíu. Pode dizer-se que com “West Side Story” o musical atingiu a idade adulta, o ponto cimeiro de um género que fez as delícias dos nossos pais e avós. A sua estreia, logo a abrir a década de 60, foi de imediato um êxito fabuloso, sobretudo na Europa, onde o filme foi acolhido com um entusiasmo muito maior do que em terras americanas. Só em Paris permaneceu mais de cinco anos consecutivos na mesma sala de estreia (um recorde de 249 semanas que ainda hoje se mantém).
Foi Jerome Robbins (1918–1998), célebre coreógrafo norte-americano, quem pensou em transpor Romeu e Julieta de Shakespeare para um musical da Broadway, aproveitando o cenário dos mal afamados meandros nova-iorquinos. Originalmente, a peça deveria opor católicos e judeus e por isso chegou a chamar-se “East Side Story”. Mas como as rixas entre porto-riquenhos e ianques estavam ao rubro na altura (devido a uma emigração massiva dos primeiros), a trama foi orientada nesse sentido. O espectáculo foi levado à cena em 1957, com o nome definitivo de “West Side Story, e pouco depois surgiu a ideia de fazer dele um filme. John Green, que viria a ser o director musical da versão cinematográfica, afirmou na altura que Leonard Bernstein tinha escrito um dos melhores scores musicais de sempre e que as letras de Stephen Sondheim constituíam um cometimento de vulto na sua área. A adaptação revestiu-se, por isso, de uma carga quase religiosa de veneração pelo original, apenas com ligeiras alterações na ordem dos números musicais.
Tomando à letra a expressão “ruas de Nova Iorque”, suposto lugar de acção da peça, Robert Wise decidiu filmar mesmo na rua: «Jerome Robbins ficou intrigado com a ideia de filmar os números de dança nas ruas de Nova Iorque, mas percebeu que se tratava de um grande desafio, porque as suas mais estilizadas coreografias iriam contrastar com os ambientes mais realistas de todo o filme. Não se podem dizer que fossem completamente reais, porque não se viam as multidões habituais. Tínhamos apenas algumas pessoas e um carro ocasional que passava e escolhíamos lugares que possuíssem uma forma que pudesse trazer à memória a noção de um palco».
Conhecem-se as numerosas divergências surgidas durante as filmagens entre Robert Wise e Jerome Robbins, que inclusivé levou a produção a despedir este último, porventura devido em grande parte ao seu perfeccionismo obsessivo. Mas foi exactamente essa procura constante da perfeição a razão pela qual Wise não hesitou em chamá-lo de novo quando o filme entrou na fase de montagem. Na verdade, existiu sempre entre os dois homens uma elevada dose de cumplicidade, traduzida na relação entre os enquadramentos pormenorizados de Wise e as coreografias milimétricas de Robbins. E quando a música serve exemplarmente a ligação entre o cinema e o bailado, então o resultado só pode ser brilhante. Com efeito, que seria de “West Side Story” sem a genial (e aqui o termo pode ser usado sem qualquer prurido) partitura musical de Leonard Bernstein? Atente-se num exemplo apenas – a sequência “Tonight”, feita em montagem paralela de cinco acções diferentes (os Jets, os Sharks, Tony, Maria e Anita), na qual as melodias e as imagens se entrelaçam umas nas outras, sem nunca caírem no risco perigoso da cacafonia.
Um dos grandes desafios que se colocaram à dupla de directores foi a abertura de “West Side Story”. Depois de um curioso genérico de Saul Bass (a princípio não passam de uma série de riscos na tela, onde a cor se vai distribuindo por várias tonalidades, e só depois reconhecemos a ilha de Manhattan), começamos a sobrevoar Nova Iorque em amplos e belos movimentos de grua, panorâmicas e mergulhos de câmara numa aproximação aos edifícios e às ruas (uma aproximação “coreografada”) que termina no pátio de um bairro típico daquela época (anos 50), onde um grupo de jovens se encontra encostado ao gradeamento do recinto. E depois são os estalares dos dedos que introduzem o primeiro tema musical, “Jet’s Song” (conhecem algum outro filme que seja imediatamente reconhecido por um simples estalar de dedos?). Toda esta sequência inicial deverá sem hesitações ser atribuída a Robbins, além de todos os bailados do filme. Apenas as partes não dançadas são da autoria de Robert Wise (1914-2005), ex-montador de Orson Welles (é dele a responsabilidade pela montagem de “Citizen Kane” e de “The Magnificent Ambersons”).
“West Side Story” está recheado de sequências inesquecíveis. Mas, como em tudo, existem umas mais inesquecíveis do que outras. Lembro aqui algumas delas, as suficientes para colocarem este filme no topo dos melhores musicais de sempre: 1) Toda a sequência do baile, que se inicia em imagens desfocadas (fazendo a ligação da cena imediatamente anterior – Maria a rodar no atelier de costura – com a evolução dos pares na pista de dança) e que engloba o instante preciso em que Tony e Maria se apercebem da existência um do outro (dois focos iluminados à esquerda e à direita do écran, com tudo o mais desfocado, e uma música suave a sobrepôr-se ao ritmo frenético da dança colectiva). 2) A canção-chave do filme, "America", cantada e dançada no telhado do edifício onde habitam os porto-riquenhos, com uma Rita Moreno sensualissima. 3) A representação do casamento (“One Hand, One Heart”), talvez a cena emotiva mais serena e bela de todas. 4) O já citado número do “quinteto” em que a canção “Tonight” é interpretada simultâneamente em cinco palcos diferentes.
5) A coreografia de “Cool” (uma das mais difíceis e morosas de conseguir), em que os Jets tentam atingir a calma e o sangue frio necessários após a morte do seu líder. 6) A cena entre Tony e Maria no quarto desta (“Somewhere, there’s a place for us…”), onde a constatação de viverem num mundo violento antecede a sua primeira e única noite de amor. 7) Toda a sequência final no pátio de jogos, um dos momentos mais altos da carreira de Natalie Wood. Primeiro o conforto na morte de Tony (reprise do tema “Somewhere”, bruscamente interrompido). Depois a revolta, brandindo a arma ameaçadora em seu redor e a apropriação do corpo de Tony («DON’T TOUCH HIM!»). Finalmente a resignação, a despedida («Te adoro, Anton»), o deixar-se caír de joelhos (o xaile negro que alguém lhe coloca na cabeça mais não simboliza do que o caír do pano, a consumação da tragédia). Segue-se a saída de cena de todos os intervenientes e o genérico final, mais uma vez brilhantemente assinado por Saul Bass.
Outra grande maravilha de “West Side Story é a fotografia, assinada por Daniel Fapp. O écran largo (milimetricamente utilizado) e as cores quentes e simbólicas, por vezes a lembrar o cinema indiano de Bollywood (repara-se por exemplo na porta envidraçada do quarto de Maria), são imagens de marca deste filme grandioso, que para além de ser visto e ouvido também pode ser sentido. Atente-se na importância dada à cor vermelha, que tudo invade. É vermelha a camisa de Bernardo (George Chakiris) na introdução dos Sharks ou na luta decisiva debaixo da ponte, como também é vermelho o vestido de Maria (Natalie Wood) naquele pungente acto final, ou ainda as paredes do salão de baile, em contraste óbvio com o vestido branco da protagonista.
A nível interpretativo o elo mais fraco do filme será porventura Richard Beymer, cuja falta de alquimia com Natalie Wood é um reflexo das relações mantidas por ambos os actores à margem das câmaras - nada cordiais ou amigáveis. Mas mesmo assim terá sido preferível ao facto de Elvis Presley quase ter ficado com o papel. Russ Tamblyn, Rita Moreno e George Chakiris, todos com experiência anterior em dança, constituem o trio forte de “West Side Story”. E quanto a Natalie Wood, poderei ser parcial (dado ter sido uma das actrizes que mais me tocaram naquela época), mas não concordo mesmo nada com todas as críticas que lhe foram feitas na altura. Pelo contrário, julgo que a sua Maria é uma personagem excepcionalmente bem conseguida, onde a inocência inicial se vai progressivamente transformando até dar lugar àquela figura inesquecível e trágica do final. Perguntaram aos responsáveis pela adaptação (Ernest Lehman e Arthur Laurents) a razão pela qual a personagem feminina não morre no final, uma vez que a inspiração da peça tinha sido a tragédia de Romeu e Julieta. A resposta foi que não podiam acabar com toda aquela força de que Maria é possuída no final…
“West Side Story”, um dos filmes mais citados, copiados e inspiradores de toda a história do cinema, foi muito justamente contemplado com 10 Óscares, nas categorias de Filme, Realização, Cinematografia, Direção Artística, Montagem, Actor Secundário (George Chakiris), Actriz Secundária (Rita Moreno), Guarda-Roupa, Música e Som; tendo tido mais uma nomeação para o Argumento adaptado. Recentemente saíu em Blu-ray a edição dupla comemorativa do 50º aniversário que se recomenda vivamente, por causa da sua alta qualidade de som e imagem, além da existência de novos documentários e entrevistas – uma edição digna do melhor musical de todos os tempos!
 CURIOSIDADES:

- As canções de Natalie Wood foram dobradas por Marni Nixon para a edição final do filme, muito embora a actriz as tenha interpretado com a sua própria voz (e muito bem, conforme se pode constatar num dos documentários que a acompanha a edição em Blu-ray). De igual modo Richard Beymer foi dobrado por Jimmy Bryant, Rita Moreno por Betty Wand (mas apenas no tema “A Boy Like That”), e Russ Tamblyn por Tucker Smith (que desempenha o papel de Ice, o seu braço-direito)

- George Chakiris, antes de ser Bernardo (líder dos Sharks) no filme, tinha interpretado a personagem de Riff (líder do gang oposto, os Jets) na produção teatral levada à cena em Londres.

- O filme foi rodado no west side de Manhattan, uma zona que foi demolida logo após as filmagens terem sido concluídas, dando lugar ao Lincoln Center.


- Seis intérpretes da versão original da Broadway aparecem igualmente no filme: Carole D’Andrea (Velma), David Winters (Baby John no palco, A-Rab no filme), Jay Norman (Juano no palco, Pepe no filme), Tommy Abbott (Gee-Tar), Tony Mordente (A-Rab no palco, Action no filme) e William Bramley (Officer Krupke).

- Partiu de Robert Wise a estranha ideia de ter Elvis Presley na personagem de Tony.

- Audrey Hepburn recusou o papel de Maria por se encontrar grávida na altura. Outras actrizes que chegaram a ser equacionadas para as principais personagens foram Suzanne Pleshette, Jill St. John e Elizabeth Ashley; enquanto que do lado masculino os actores falados foram, entre outros, Anthony Perkins, Warren Beatty, Bobby Darin, Burt Reynolds, Richard Chamberlain, Troy Donahue e, claro, o já citado Elvis Presley.


- Na sequência do telhado (canção “America”), quando as raparigas fazem pouco das ideias de Bernardo, uma delas diz «We came with our hertas open», ao que um dos membros dos Sharks lhe responde: «You came with your pants open!». Por causa da censura da altura, a frase teve de ser mudada para «You came with your mouth open». Esta não foi no entanto a única alteração introduzida nas letras de Stephen Sondheim, tendo outras canções sido afectadas também.

- A canção “One Hand, One Heart” foi escrita por Bernstein para o musical “Candide”. Como não chegou a ser usada, o compositor resolveu adicioná-la ao score de “West Side Story”.

- Durante a rodagem do número “The Taunting Scene”, em que Anita quase chega a ser violada pelos Jets, Rita Moreno não aguentou a pressão e desfez-se em lágrimas. A razão prendeu-se com o facto da actriz ter sido mesmo violada em criança.

- O filme foi rodado em seis meses e a montagem levou mais sete.


- A canção “Gee Officer Krupke” foi banida pela BBC devido a referir drogas e ser considerada sexualmente ambígua.

- A produção original de “West Side Story” estreou-se na Broadway (no teatro Winter Garden) a 26 de Setembro de 1957, onde foi levada a cena 732 vezes.

- Em 2007 o American Film Institute classificou “West Side Story” em 2º lugar (a seguir a “Singin’ In The Rain”) na lista dos melhores musicais (e em 51º lugar na lista dos melhores filmes de sempre).

- No passado dia 9 de Agosto de 2011 o filme foi de novo apresentado em Nova Iorque, numa sessão comemorativa do 50º aniversário. Estiveram presentes George Chakiris, Russ Tamblyn, Marni Nixon, Robert Banas, David Bean, Harvey Evans, Bert Michaels e Eddie Verso e o produtor Walter Mirisch.

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4 comentários:

Billy Rider disse...

Subscrevo a afirmação de que "WEST SIDE STORY" é o melhor musical de todos os tempos. Aliás, acho que é uma afirmação muito pouco polémica - talvez com uma única alternativa, "Singin' In The Rain". Mas como gostei sempre mais de tragédias do que comédias, o meu voto para number 1 também vai para este.

José Morais disse...

Mais um magnífico post, caro Rato. Este blogue está cada vez melhor. Imprescindível para quem ama o verdadeiro cinema.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Grande musical. Já o vi inúmeras vezes... e a Rita Moreno... ah, a ardente Rita Moreno...


O Falcão Maltês

Darci Fonseca disse...

Para mim um dos melhores filmes de todos os tempos. Absoluta revolução nos filmes musicais. Influencia direta dos clips modernos como "Thriller" e quetais. E além de tudo a maravilhosa Natalie. There's a place for us, somewhere a place for us. Obra-prima inigualável. Arte pura.