quarta-feira, fevereiro 22, 2012

THE DESCENDANTS (2011)

OS DESCENDENTES
Um filme de ALEXANDER PAYNE


Com George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Judy Greer, Beau Bridges, Matthew Lillard, etc.


EUA / 115 min / COR / 16X9 (2.35:1)


Estreia nos EUA a 2/9/2011
(Festival de Telluride)
Estreia em PORTUGAL a 19/1/2012
Estreia no BRASIL a 27/1/2012


Matt King: [to Elizabeth] «Goodbye, Elizabeth.
Goodbye, my love, my friend, my pain, my joy.
Goodbye. Goodbye. Goodbye»

"The Descendants" é um filme com várias surpresas. Todas elas surpresas boas. A primeira de todas, a que salta mais à vista, é que, afinal, George Clooney consegue ser um bom actor. Provavelmente porque aquela personagem lhe assente que nem uma luva, ou porque lhe tenha sido suficiente ser ele próprio, sem grandes invenções. Mas na verdade parece haver ali muito mais representação do que a necessária para promover campanhas publicitárias do Nespresso. Já galardoado com o Globo de Ouro, nomeado para o próximo Óscar, o actor de 50 anos é, pode dizer-se, o grande trunfo deste filme. Trocando o habitual charme por uma postura mais vulgar, insegura, por vezes desajeitada, Clooney é extremamente convincente no papel de Matt King, um homem que nunca aprendeu a lidar com a própria famíla. Quer com as filhas, de cujos problemas sempre passou ao lado, quer com a mulher, que só a iminência da morte o faz acordar para a realidade.
Outra grata surpresa do filme é, de um modo geral, a grande qualidade do elenco secundário, desde Judy Greer, no papel da mulher do amante de Elizabeth King, passando pela pequena Amara Miller (Scottie, a filha mais nova) e culminando na grande revelação que é Shailene Woodley, uma actriz de 20 anos, vinda do mundo das séries televisivas e que tem aqui o seu primeiro grande papel no cinema. Shailene é de tal modo brilhante que, a espaços, consegue roubar o filme ao próprio Clooney. Como quando revela o segredo da relação extra-conjugal da mãe, naquela reacção (um misto de surpresa, pudor e diversão) à palmada que o pai lhe dá no rabo ou, sobretudo, na sequência da piscina, quando toma conhecimento do estado irreversível da mãe e oculta o pranto debaixo da água (um dos grandes momentos deste filme, senão mesmo o maior de todos e que nos ficará para sempre na memória).
Terceira surpresa: o equilíbrio com que o filme percorre a corda bamba, sem nunca resvalar para o melodrama piegas (uma palavra que agora está na moda) e convencional. E seria muito fácil, dada a história que nos é contada: a de Matt King, um advogado e proprietário de terras no Hawaii, sempre muito ocupado com os seus afazeres e por isso pouco presente na sua própria vida familiar. Herdeiro principal, juntamente com uma série de primos, de um grande território virgem, pode vir a tornar-se, a curto prazo, num dos homens mais ricos da região. Só que um acidente de barco atira-lhe a mulher para uma cama de hospital, em coma profundo. As prioridades são assim dramaticamente alteradas e Matt vê-se a braços com as duas filhas, raparigas problemáticas,das quais se tenta aproximar. Como se tal não bastasse, fica a saber que a mulher mantinha uma relação extra-conjugal e que tencionava divorciar-se. Entretanto os médicos revelam-lhe a dura realidade: o coma de Elizabeth é irreversível e ele tem de tomar a difícil decisão de autorizar que a desliguem das máquinas, apesar de a própria ter deixado tais instruções por escrito.
Alexander Payne é um atípico realizador americano. Oriundo de uma família grega (de apelido Papadopoulos), Payne, nascido a 10 de Fevereiro de 1961, em Omaha, Nebraska, estudou na Universidade de Salamanca, em Espanha, vindo mais tarde a licencear-se em História pela Universidade de Stanford, após o que concluiu com êxito o curso de cinema da UCLA, em 1990. Admirador confesso de Kurosawa, Buñuel, Ashby, Leone e Scorsese, Payne realizou a sua primeira longa-metragem há já 15 anos: "Citizen Ruth" [1996], com Laura Dern como protagonista. A partir daí, apenas mais 4 filmes: "Election" [1999], "About Schmidt" [2002], no qual conseguiu arrancar um magnífico desempenho a Jack Nicholson, "Sideways" [2004], talvez o seu melhor filme até à data, e agora, sete anos depois, este "The Descendants".
O cinema de Payne, pelo menos nos últimos três filmes (os únicos que vi), começa a evidenciar algumas constantes: personagens solitários, de baixa auto-estima, por vezes presos a certas angústias, histórias que oscilam constantemente entre o cómico e o trágico, o recurso frequente a monólogos, o tratamento, enfim, de relações humanas conflituosas, onde frequentemente o adultério e outros tipos de traições se encontram presentes, para além, também, do recurso habitual a um humor irónico e pouco convencional. Tudo isto misturado com muito bom gosto e servido sempre por uma excelente qualidade técnica. Por último, e talvez o mais importante de tudo, Alexander Payne é dos raros realizadores americanos que consegue ter a última palavra na montagem final dos seus filmes, sendo também argumentista de todos eles. A solo, ou acompanhado, como é o caso aqui, com Nat Faxon e Jim Rash.
Em "The Descendants" a missão de adaptar a obra homónima da escritora havaiana Kaui Hart Hemmings (que no filme desempenha o papel de Noe, a secretária de Matt), parece ter sido especialmente complexa, dada a profusão de sentimentos que o personagem principal atravessa. Mas o resultado final é bastante satisfatório, muito ajudado pela montagem escorreita de Kevin Tent e pela fotografia luminosa de Phedon Papamichael, a qual, apesar de nos mostrar muitas das maravilhas naturais do Hawaii, se afasta bastante do imaginário turístico. Um único senão: a utilização da voz-off para a narração na primeira pessoa, a denotar uma certa preguiça na transcrição da obra literária para o grande écran. Mas, de uma maneira global, estamos aqui em presença de um filme muito agradável de se olhar, apesar dele se desprender uma certa tristeza. Mas se o filme é por vezes triste, mesmo sombrio, os toques humorísticos conseguem dar-lhe a volta e torná-lo numa comédia dramática, original e refrescante.
Alexander Payne é, sem qualquer dúvida, um cineasta a ter em conta. Quer pelos filmes já realizados quer sobretudo pelas boas expectativas geradas. Aguardam-se os próximos capítulos. Entretanto, é já na madrugada da próxima segunda-feira, dia 27 de Fevereiro, que se realiza a cerimónia de entrega dos Óscares da Academia. Parece que Billy Crystal volta a ser o desejado anfitrião, e "The Descendants" encontra-se nomeado para 5 estatuetas: Filme, Realização, Montagem, Argumento-Adaptado e Actor Principal (George Clooney). Que injustiça Shailene Woodley não ter sido indigitada para melhor actriz secundária, tal como aconteceu nos Globos de Ouro. Felizmente que a jovem actriz tem já arrecadados diversos prémios em outros certames de cinema, quase todos atribuídos por associações de críticos: San Diego Film Critics, National Board of Review, Hollywood Film Festival, Hamptons International Film Festival, Florida Film Critics Circle, Dallas-Fort Worth Film Critics, para além de numerosas nomeações, numa demonstração inequívoca da sua grande revelação neste filme.
(NOTA: O filme veio a vencer apenas o Óscar do melhor Argumento-Adaptado) 

3 comentários:

Fábio Henrique Carmo disse...

Rato, esse é o tipo de filme que vai crescendo a cada momento em que você se lembra dele. Garanto que daqui a alguns dias estará atribuindo 4 estrelas. Há cenas neste filme que ficarão para sempre na minha memória, não só pelo aspecto técnico, mas também pela intensidade emocional, com a que Shailene mergulha na piscina (tenho certeza que essa cena vai entrar para a história do cinema). Aliás, que talento essa menina tem. Total injustiça ela não ter sido indicada ao Oscar. Clooney tem a melhor atuação da carreira. Melhor filme do Alexander Payne, sem dúvida!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Um filme sensível, muito bem escrito. Todo o elenco está perfeito.

O Falcão Maltês

O Narrador Subjectivo disse...

O Artista estava muito bom, mas não me importaria de ter visto Clooney a ganhar o Oscar.

http://onarradorsubjectivo.blogspot.com/