segunda-feira, janeiro 23, 2012

THE SINGING DETECTIVE (1986)

O DETECTIVE CANTOR
Um filme em 6 partes de DENNIS POTTER
e JON AMIEL


Com Michael Gambon, Patrick Malahide, Janet Suzman, Joanne Whalley, Jim Carter, Janet Henfrey, Bill Paterson, Alison Steadman, Sharon D. Clarke, Ron Cook, George Rossi, etc.


AUSTRALIA - GB / 415 min /
 COR / 4X3 (1.33:1)


Estreia na GB em 16/11/1986



Philip Marlow: «Am I right, or am I right?»

Esta histórica produção da britânica BBC – uma mini-série de 6 episódios, num total de 415 minutos – é hoje considerada como uma obra-prima absoluta do século XX, o “Citizen Kane” da televisão, para usar uma expressão de Stephen King. Vi-a em directo no final dos anos 80, quando a RTP teve o bom gosto de a incluir na sua programação. Passou-se entretanto um quarto de século, mas foi coisa que nunca mais me saiu da cabeça. Tive agora oportunidade de a rever, depois de ter encomendado a respectiva caixa de DVD’s (dois com os 6 episódios e um terceiro com extras) na Amazon inglesa, e constatei que “The Singing Detective” mantém todo o seu brilho. Da autoria de Dennis Potter (1935-1994), realizada por Jon Amiel e com Michael Gambon no papel principal, a história fala-nos de um escritor de novelas policiais, Philip Marlow, que sofre de uma dolorosa e degenerativa doença de pele (“psoriatic arthropathy”). Preso a uma cama de uma enfermaria hospitalar, Marlow é um homem amargurado que já desistiu de viver. Impossibilitado de escrever, deixa-se levar pela sua fértil imaginação, fundindo memórias e traumas do passado com momentos actuais, num caleidoscópio onde o real e o ilusório constantemente se misturam.
De facto, é dentro da cabeça de Marlow que quase tudo se passa. Conforme referiu o próprio Potter, «a necessidade que Marlow sente em recriar a sua novela é apenas um exercício mental para não ficar louco.» E nessa recriação Marlow vai buscar os episódios mais traumáticos do seu passado para os exorcizar, adaptando-os à realidade do momento. No fio condutor da série podemos dividir os factos em quatro patamares distintos e sobrepostos: a infância, a intriga do livro policial (que dá o nome à série), a estadia no hospital e ainda um último patamar onde todos os outros três se misturam. Marlow usa a sua doença como uma metáfora, uma manifestação física dos seus traumas e das suas angústias. Por outro lado, a noção de culpa - um tema constante na obra de Potter - está sempre presente no seu espírito, desde o suicídio da mãe à acusação do colega de escola. Bem como a sua atitude perante o sexo, exemplarmente assumida naquele jogo de palavras que ele tem com o psiquiatra: "woman" - "fuck" - "dirt" - "death". O evoluir da história vai contudo no sentido da recuperação (física e mental) de Marlow, que no fim acabará por deixar o hospital, iniciando, quem sabe, uma etapa menos problemática da sua vida. E a última despedida será para a enfermeira Mills (lindissima Joanne Whalley), o seu “anjo da guarda”, a causa principal de todas as canções.
Depois de “Pennies From Heaven” [1978] e antes de “Lipstick on Your Collar” [1993], também imprescindíveis e também já disponíveis em DVD, “The Singing Detective” mantém-se a obra mais representativa de Potter (como escreveu Stephen Gilbert, «é o seu Hamlet, o seu Ulysses, o seu Album Branco») e aquela que mais influência teve numa nova maneira de se encarar o cinema e o espectáculo musical. E os seus descendentes não são apenas os mais óbvios, como Alain Resnais - "Smoking/No Smoking" [1993], "On Connait La Chanson" [1997] (filme que lhe é dedicado) ou "Pas Sur La Bouche" [2003] ou Jacques Demy - "Une Chambre en Ville" [1982]. A sua influência, directa ou indirecta, estende-se por vários campos artísticos, como o da música popular por exemplo (os Manic Street Preachers usaram frases da sua autoria no single "Kevin Carter" e Guy Garvey designou a sua banda de Elbow por causa de Philip Marlow ter dito em "The Singing Detective" que era a palavra mais bela de se pronunciar da língua inglesa).
Uma das características mais marcantes da obra de Potter é a música, ou melhor, a sua sábia utilização. À semelhança de "Pennies From Heaven" (onde se recorreu a canções conhecidas dos anos 30) temos também aqui uma colecção de temas, agora dos anos 40 (os anos 50 ficariam guardados para mais tarde, para a série "Lipstick On Your Collar"), introduzidos ao longo dos diversos episódios ("Skin", "Heat", "Lovely Days", "Clues", "Pitter Patter" e "Who Done It?") com grande dose de humor e sentido de oportunidade. Nas palavras de Potter, as canções que povoam as memórias de Marlow não são mais do que «hard little stones thrown at him.» Devido à sua grande importância disponibiliza-se neste blogue a banda-sonora original de "The Singing Detective".
In “Pennies From Heaven”, Dennis Potter's earlier 'play with music in six parts', the popular songs of the 1930s were used in a new, exciting but essentially simple way to counterpoint the hero's ecstatic longings and his 'real' rather squalid life. In “The Singing Detective” there are fewer songs but Potter now uses them in a much more tense, layered and ambiguous way. The film itself is perhaps well described as a psychological case-history unravelled in convoluted thriller style and set to dance music. An unsuccessful writer named Philip Marlow, wracked by a skin disease, passes awful hospital time by remembering his childhood, enacting the plot of one of his detective stories and fantasizing himself through a long trip to some degree of recovered reality and health. And the songs are there to connect, underline, comfort, distract, tickle, upset and ultimately turn stale memories into insight and true feeling. Sometimes the musical setting is wrenched or conjured out of the heat of Marlow's bedridden fever, as when a rather nasty old fellow patient 'sings' "It Might As Well Be Spring" bizarrely in the voice of the youthful Dick Haymes and then suddenly we are listening to Marlow's father performing the same thing 40 years earlier in a working men's club.
That Second World War leit-motif, "Lili Marlene", first comes from a 1945 gramophone, then like a clip from some lost and priceless Ealing film-noir, in the lips of a mysterious woman by a river and finally prompts a ghastly anecdote about Hamburg frauleins and victorious tommies. The bland period obliviousness of the Mills Brothers' "Paper Doll" also 'sung' by three sets of characters, accumulates ironies and implications well beyond the normal reach of either rubbishy old songs - or serious television drama. "Dry Bones" transforms the oppressive hospital ward into a hallucinating night club with high-kicking nurses, and bossy doctors made into chorus boys. Other songs do simpler work, comic or poignant. "Blues In The Night" almost saves the bedridden Marlow from acute sexual embarrassment with a pretty nurse, "The Very Thought Of You" becomes a mourning elegy better than a Psalm and "We'lI Meet Again" - an unpromising source for fresh associations - is triumphantly used by Potter to top off a Finale where the elaborate wrought bitter and iron of the Singing Detective's twisted shape becomes as straight, clear and whole as Vera Lynn's early voice. (Kenith Trodd)
 CURIOSIDADES:

- O título original da série era “Smoke Rings”

- Tal como Philip Marlow, a personagem central de “The Singing Detective”, também Dennis Potter sofreu daquela doença de pele ("psoriatic arthopathy") no final dos anos 50

- A cena da retirada do corpo nu da mulher do Rio Tamisa foi rodada em pleno inverno. Kay McKenzie, Alison Steadman e Janet Suzman foram as actrizes que tiveram de interpretar essa mesma cena, devido às imposições do argumento

- Michael Gambon sujeitava-se diariamente a mais de 6 horas de maquilhagem, a qual só durava duas ou três horas devido ao calor da iluminação

- As sequências do hospital foram todas rodadas num hospital de Tottenham, em Londres

- A sequência em que um doente salta para a cama de Marlow julgando tratar-se da sua mulher aconteceu na realidade a Potter durante uma das suas inúmeras estadias em hospitais


3 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Que interessante, Rato. E o elenco é de peso. Vou procurar urgentemente. Obrigado pela dica.

O Falcão Maltês

Billy Rider disse...

Particularmente prefiro "Lipstick On Your Collar" (muito provavelmente por causa das músicas dos anos 1950). Mas tenho de reconhecer que este é o trabalho mais completo de Potter, algo que as televisões de todo o mundo deviam passar de tempos a tempos. Vou ver se a mando vir também, pois infelizmente não foi editada entre nós.

José Morais disse...

Nas minhas andanças por aqui, tenho-me deparado com coisas fabulosas de que nunca tinha ouvido falar. Esta certamente é mais uma delas. Obrigado pelas lembranças, caro Rato