sexta-feira, julho 03, 2015

AI NO KORIDA (IN THE REALM OF THE SENSES) (1976)

O IMPÉRIO DOS SENTIDOS
Um filme de NAGISA OSHIMA



Com Tatsuya Fuji e Eiko Matsuda

JAPÃO - FRANÇA / 109 min / 
COR / 4X3 (1.50:1)

Estreia em CANNES a 15/5/1976
Estreia em PORTUGAL: Outubro 1976



Kichizo: «You want to make love all the time, huh?»
Sada: «You don't think it's wrong, do you?»
Kichizo: «I think it's wonderful. You're beautiful»
Sada: «I was afraid of not being like others. I was so worried about it, I even went to see a doctor. 
He said I was sensitive where sex was concerned»
Kichizo: «Sensitive? I hope it's incurable. Because I adore your oversensitivity»


A década de 70 assistiu, nos países mais desenvolvidos, a uma libertação dos costumes, que originou uma forte atenuação da censura. O cinema erótico pôde então expandir-se desde a forma mais soft até ao chamado "hard-core", ou seja, pornográfico. Nagisa Oshima nada tem de pornógrafo: os seus filmes atestam pelo contrário uma personalidade exigente, inimiga, é certo, de qualquer forma de conformismo, mas que não transige nem os seus ideais estéticos, nem políticos. Em "O Império dos Sentidos", Oshima aborda o erotismo numa perspectiva quase mística, à maneira de Georges Bataille ou de Sade (a quem o nome da heroína - SADA - faz curiosamente referência). Causará surpresa saber que o argumento (da autoria do próprio Oshima) segue de muito perto um episódio autêntico, que abalou os anais judiciários nipónicos antes da guerra (e fez da jovem castradora uma pioneira dos movimentos feministas!).


Tal como se apresenta, o filme torna-se um hino ao amor sem limites, mas ritualizado ao máximo, parecendo-se muito menos com uma crónica galante do que com uma espécie de holocausto. "Amor louco" ou pecado, transgressão ou vício, consoante a óptica. A de Oshima é da austeridade e da pureza. Por isso os seus amantes aprofundam o amor até à exaustão, isto é, até à morte. Amantes de uma longa cópula raramente interrompida, desafio a uma erecção permanente, corrida para orgasmos sucessivos. SADA e KICHIZO, uma mulher e um homem que se vão consumindo mutuamente. Mas acima de tudo é uma mulher que conduz toda a acção, que ousa possuir mais do que ser possuída, numa transgressão evidente. O homem passa à situação de participante, cobaia entregue às mãos da sua amante, colaborando com um pénis que a tudo resiste até se perder na ligação ao corpo para pertencer totalmente à mulher. Entretanto, um elemento não menos participante vai atravessando as situações, vai corroendo os corpos: a morte. THANATOS nunca sai de cena, mesmo quando EROS parece dominar.


É sempre a morte que reina. Um velho mendigo, uma velha geisha "consumida" em violência edipiana; uma faca; um nastro por fim, instrumento de orgasmo total e último. É então que, gasto o percurso numa viagem em busca do absoluto, parece nada mais restar do que a satisfação última de um amor sublime: a morte num suicídio-entrega-a-dois. Justamente o que os dois amantes recusam. A mulher sobreviverá ao acto final, após castração e apropriação dos órgãos genitais do seu amante. Há imagens que marcam um filme, sem que o definam ou forneçam uma chave para o seu possível mistério. Assim é o caso, o desta castração derradeira. Dir-se-ia que todo o filme se funde, fugazmente, nesta conclusão e não surpreenderá se virmos na sua trajectória assim consumada um mecanismo simbólico que lhe confere uma clara dimensão erótica, ao nível da própria escrita. O que é admirável é que esta castração (castrar=perder) coincide com a mais louca libertação.


"O Império dos Sentidos" é um filme-acto-de-amor em busca dos valores absolutos que se esgotam no homem. É uma viagem ao âmago dos corpos, percorrendo com prazer o prazer do sexo, num sublime exercício de amar. Feito em grandes planos, quase todos fixos e longos, pintado a uma côr onde o vermelho de pungente erotismo rasga o ecrã. Com cenários e enquadramentos que, para além dos espaços e das figuras, definem a própria progressão dramática. Quando SADA e KICHIZO se assimilam um ao outro, ambos trocam de quimonos. SADA leva consigo o quimono de KICHIZO, que funcionará como "fétiche" durante uma viagem de comboio.


Outras vezes, é ainda o quimono que revela as personagens, quando o branco do exterior é trocado pelo vermelho do interior dos forros. Cores e formas, subjugando o espectador, arrastando-o para uma viagem de amor e loucura. Aposta última na sensibilidade de cada um. No delírio de um orgasmo que se busca no infinito. Num hino memorável à mulher e à sua força libertadora.
O grande sucesso do filme (crítica e público) levou Oshima a dar-lhe uma continuação livre, em que o fantástico tomou o lugar do erotismo: "O Império da Paixão" (1978).


CURIOSIDADES:

- Após a estreia na Alemanha, o filme foi confiscado e acusado de pornografia. Contudo, 18 meses mais tarde um tribunal federal permitiu a sua exibição sem quaisquer cortes.

- A versão original, de 109 minutos, foi encurtada pelo produtor Anatole Dauman (com a anuência de Oshima) para 102 minutos. Foi esta a versão que foi distribuida na maioria dos países onde o filme não foi proibido. Actualmente, na edição francesa em DVD, podem ver-se as duas versões, enquanto que na edição da Criterion (americana) os minutos cortados são apresentados como "extra". Ler mais aqui.

- A cena onde Sada puxa o pénis de uma criança como punição a um mau comportamento foi opticamente re-enquadrada em Inglaterra, de modo a não se ver os órgãos genitais. Este procedimento manteve-se na edição em DVD do filme (Região 2). Nos EUA a mesma cena (cerca de 56 segundos) foi totalmente cortada.


2 comentários:

nowhereman disse...

Na altura da estreia gostei imenso do filme e lembro-me bem da grande polémica gerada acerca do maior ou menor grau "pornográfico" da obra. Comprendem-se as divergências ao pensarmos que a democracia portuguesa ainda se encontrava titubeante e um filme destes teria de ter tido o impacto que realmente teve. Hoje em dia, claro, tal discussão não faria qualquer sentido.
Não o tenho em DVD e por isso tinha alguma curiosidade em o voltar a ver. Talvez os canais de cinema da TV Cabo o passem um dia destes

Antonio Filho disse...

Bom filme e crítica bastante intrigante.