quarta-feira, setembro 07, 2011

Entrevista a WOODY ALLEN: «Gostava de ter sido um grande músico»

Retrato de uma lenda viva na primeira pessoa. Levanta-se às 6.30 horas da manhã, exercita-se numa passadeira rolante, escreve, toca clarinete e vê jogos de basquete. Diz que leva uma vida de classe média. Rodou os últimos filmes na Europa, mas preferia não sair de Nova Iorque. Apesar da sua falta de auto-estima, de que faz prova nos seus filmes, Woody Allen já foi nomeado para mais de 20 Óscares, nas categorias de realizador, produtor e argumentista. A esse sucesso contrapõe o que diz ser uma vida desinteressante e metódica, feita de hábitos peculiares, em que invariavelmente entra o exercício na passadeira rolante, duas horas de escrita e ensaios de clarinete.
E para os tempos livres? Gosta de beber uma cervejinha diante da televisão, em t-shirt, e sai de casa para assistir jogos de basquete. Em “Meia-Noite em Paris” o realizador norte-americano prega-nos uma partida aos disfarçar-se de Owen Wilson e revive a nostalgia da Belle Époque, privando com Hemingway, Dali, Picasso e Buñuel, numa aproximação à “Rosa Púrpura do Cairo” que conta com Marion Cotillard, Rachel McAdams e até a primeira-dama francesa, Carla Bruni. Durante meia hora partilhámos com Woody Allen um mundo que está para lá do ecrã. As suas conversas filsóficas conduzem irremediavelmente à sua crença num derradeiro final inapelável e finito. Mas por que será que nos deixa sempre um sorriso nos lábios?
- Você deve ser um homem muito atarefado. Ainda consegue encontrar tempo para descansar entre os vários projectos que tem em mãos?
- Parece que sou uma pessoa muito ocupada, mas na verdade não sou.

- Não me diga!
- É verdade. Não sou muito ocupado. Durante o ano tenho tempo para fazer o meu filme, para escrever, fazer o casting, realizá-lo e montá-lo. E ainda me resta tempo para tocar com a minha banda, fazer digressões de jazz. Mas também para brincar com os meus filhos, levá-los à escola, fazer os meus exercícios, assistir aos jogos de basquete, ver filmes, passear...Pode parecer que trabalho muito mas não é verdade.

- Como é o seu dia típico?
- Levanto-me de manhã cedo, por volta das 6.30h, levo os miúdos à escola e escrevo. Por volta do meio dia, pratico um pouco de clarinete, e posso ir a um jogo de basquete. No dia seguinte se não me apetecer não escrevo. Mas normalmente apetece-me. Está a ver, não é o mesmo que uma professora ou um médico. Todos os dias têm de estar presentes à mesma hora até ao fim do dia. A minha vida é muito mais preguiçosa.
- A sua família também gosta desta parte de ir aos festivais e ficar fechada num hotel?
- Eles gostam imenso. Sempre que faço um filme em Barcelona, Londres, Paris ou Roma eles podem passar vários meses num hotel e fora de Nova Iorque. Gostam mais do que eu que preferia não sair de lá. Até porque em casa tenho tudo o que preciso. O ar condicionado, os medicamentos, o clarinete. Está tudo ali.

- A verdade é que faz quase uma filme por ano. Trabalhar parece ser quase uma necessidade. Está a ver-se trabalhar quando tiver, por exemplo, a idade de Manoel de Oliveira, que tem 103 anos e ainda muitos projectos para concretizar?
- Isso seria óptimo. Acho que vou continuar a trabalhar até não poder mais ou até deixarem de financiar os meus filmes. Obviamente não tanto quanto o Manoel, pois ele é um fenómeno. Trabalharei enquanto a saúde não me falhar.

- A personagem de Owen Wilson parece estar com uma mulher que não ama. Isso sucede várias vezes nos seus filmes. Acha que por as pessoas não gostarem de estar sózinhas aceitam viver com pessoas que não amam?
- Há uma quantidade enorme de pessoas que têm essa vida. Muitas estão em relações em mesmo em casamentos porque têm medo de estar sózinhas. Preferem o compromisso de um casamento em que estão contentes 20% do tempo e descontentes os outros 80% a não ter ninguém. Se fosse possível acabar com uma relação premindo um botão penso que muitos o fariam mas como é complexo e leva algum tempo, a solidão com companhia acaba por tornar-se mais agradável.
- A personagem de Hemingway diz no filme que o amor de uma grande mulher pode fazer-nos esquecer a morte. É a opinião de Hemingway ou a sua?
- É a de Hemingway.

- Concorda com ele?
- Não, não concordo. Concordo mais com a personagem do poeta [W.H.] Auden, que fala na morte ser o som de uma tempestade ao longe durante um piquenique. Sobre a morte eu tenho uma posição muito concreta: sou contra.

- Mas identifica-se mais com a opinião de Auden?
- É isso que eu sinto. É algo que está sempre lá fora. Mesmo nos melhores momentos. Mesmo nas celebrações, nos casamentos, nos melhores momentos. A morte está lá sempre.

- É o seu maior receio?
- Sim, é o meu maior receio. Não é o seu?
- Mas o Hemingway também diz que «quem não desafiar a morte não poderá escrever nada grandioso»...
- Isso é verdade. A minha cobardia em vida custou-me muito. No meu quotidiano e na minha arte. Se eu fosse mais corajoso e menos cobarde, poderia ter alcançado mais, ido mais longe. Teria escrito melhor e faria melhores filmes. Em geral teria uma vida melhor. Bom, por outro lado, se fosse demasiado ousado também poderia já não estar vivo.

- Porque não se considera um grande artista ou grande escritor?
- Porque é verdade, não sou. Mas mesmo se fizesse essa pergunta a um grande mestre, digamos Picasso, ele diria a mesma coisa. Teria alcançado mais se os seus eventuais limites tivessem sido ultrapassados. Todos os artistas são muito conscientes das suas falhas.

- Conheceu alguns dos artistas que aparecem no seu filme, como Dali, Buñel ou Picasso?
- Conheci algumas pessoas que foram bons artistas. De todos, o primeiro que conheci depois tornou-se meu amigo, o Groucho Marx. Sempre achei divertido e sempre gostei dele. Quando o conheci, ele foi muito simpático. Mas eu pensei: «estou eu aqui num restaurante com o Groucho Marx e ele não tem o seu bigode...» Parecia um tio judeu, um parente afastado da minha mãe. Ele foi sempre humano, o que me desgostou um bocadinho, por não ser aquele tipo que estava sempre a contar piadas. Por isso, quando tive a oportunidade de conhecer Louis Armstrong, acabei por não arriscar...

- Porquê?
Estas pessoas são deuses para mim e  gosto de os manter assim.
- Como se sentiu então ao construir estas personagens? Divertiu-se a recriar Hemingway e Picasso?
- Claro, foi divertido colocar-me na pele deles. Ao longo da minha vida conheci alguns artistas importantes. Nunca conheci Hemingway, mas conheci outros escritores famosos. Conheci e trabalhei com o Saul Bellow, conheci o Gabriel Garcia Marquez. Ambos venceram o prémio Nobel. Conheci pessoas muito famosas, mas normalmente nunca fico amigo delas porque não as quero conhecer melhor do que aquilo que elas representam.


- Que encanto especial tem para si a nostalgia? O filme salienta que devemos viver o presente. Mas há também este lado nostálgico...

- Está a tocar no ponto. Nós extrapolamos apenas o melhor. Quando vejo certos objectos, um livro por exemplo, recordo-me de quando era jovem, dos comic books que lia. Mas quando vou mais longr, percebo como certas coisas eram terríveis... A escola, a II Guerra Mundial estava a decorrer... Na realidade era horrível. Quando pensamos na Belle Époque, pensamos na Gigi, nas roupas, no champanhe. Mas aconteciam coisas horríveis ao mesmo tempo. As mulheres morriam ao dar à luz, não havia cura para a tuberculose, sífilis ou poliomielite. Eram tempos terríveis. Seria óptimo poder recuar no tempo e passar lá um dia. Almoçar e regressar.

- Se pudesse fazer isso, a que época recuaria?
- Provavelmente iria à Paris da Belle Époque. Também adoraria conhecer Viena no virar do século, cheia de génios, compositores e artistas.

- Sei que trabalha com a sua irmã, como produtora. É um homem de família?
- Sim, sou um homem de família. Não vivo a vida dos boémios dos anos 20, isso é certo. Tenho uma vida muito de classe média. Vivo num bairro rodeado por corretores de bolsa e banqueiros. Não conheço ninguém. Tenho o meu dia-a-dia. A minha diversão é ver televisão com uma t-shirt vestida e beber uma cerveja a ver football.

- Pensa que poderia ter sido outra pessoa, com outra queda artística que não realizador?
- Não que eu quisesse ser outra coisa, mas às vezes penso que gostaria de ter tido um talento diferente. Gostaria de ter tido um grande talento musical. Gostava de ter sido um grande músico.

- Além do clarinete, há outros instrumentos que o tentem?
- Não, isso não. O clarinete é o meu instrumento. Não o trocaria pelo piano.

- Se encontrasse um génio da lâmpada, o que lhe pediria?
- O que eu quero não é possível. Gostaria que a condição humana fosse muito diferente do que é. Que não envelhecêssemos depois de uma certa idade, que não ficássemos doentes. A condição humana é trágica, pois todas estas coisas acontecem. E rápido. Eu gostaria de uma mudança redical. Acho que a única forma de se fazer essa mudança é mesmo a magia. Não acho que seja a ciência, nem os filósofos, psicólogos ou políticos. Enquanto não aparecer alguém com esse toque de magia, acabaremos todos na mesma situação terrível.

- Como olha para os seus filmes antigos? Há algum de que goste particularmente?
- Sim, tenho alguns filmes de que me orgulho. Sempre gostei de “A Rosa Púrpura do Cairo”, “Maridos e Mulheres”, “Balas Sobre a Broadway”. Recentemente tenho gostado de “Match Point” e de “O Sonho de Cassandra”, talvez por serem temas mais negros.

- E de quais gostou menos?
- O filme que gostei menos de fazer foi “A Maldição do Escorpião de Jade”. Não deveria ter-me contratado a mim próprio para o papel principal. Tinha óptimos actores e acabei por os desiludir. Se tivesse contratado o Jack Nicholson ou alguém como ele – um protagonista mais sólido – teria tido um filme melhor. Fui fraco nesse papel e o resultado final acabou por se ressentir disso. Existem alguns filmes meus que me fazem sentir melhor, mas não são muitos.
- “Annie Hall”?
- Foi um grande sucesso comercial, mas essa é já uma boa razão para não gostar dele [risos]. Mas não desgosto. Diverti-me imenso a fazê-lo. Lembro-me de fazer “Maridos e Mulheres” e de me divertir a vê-lo. Com o “Match Point” e o “Balas na Broadway” passou-se o mesmo. Mas a “Rosa Púrpura” acho que foi aquele que mais me satisfez. A maior parte dos filmes que fiz nunca mais os vi.

- Não me diga que não gosta de “Manhattan”...
- Não lhe posso dizer porque nunca o vi...

- Porquê?
- Não quero voltar a ele porque me arrisco a ficar destroçado.

- No entanto, mesmo depois disso, já teve bastantes mulheres dos seus sonhos...
- Sim, posso dizer que conheci algumas mulheres dos meus sonhos. A minha segunada mulher [Louise Lasser] – a primeira não conta, pois tinha apenas vinte e poucos anos – foi uma mulher dos meus sonhos. Era fantástica e demo-nos muito bem, mas depois não deu certo. Entretanto, conheci mulheres realmente incríveis, que deram grandes contributos para a minha vida. Mas nem sempre resulta. Nem sempre podemos viver juntos, e aí é que está o problema. Quando se está no show business há uma tendência para conhecermos muitas mulheres de sonho. Se eu trabalhasse num escritório talvez conhecesse mulheres agradáveis, mas nunca mulheres do outro mundo. Quem é que no seu emprego conheceria alguém como a Scarlet Johansson, ou a Penélope Cruz ou agora a Naomi Watts? Isso não acontece. Agora, eu posso trabalhar com elas o dia todo. Tenho essa possibilidade de conhecer estas mulheres fantásticas, mesmo que nada aconteça.
- Pode dizer-se que os filmes são sobre a procura do sentido da vida? Sente que já o encontrou?
- Não, e o problema é que, quanto mais velhos ficamos, mais esse problema se agrava. Tudo se torna mais deprimente.

- A que é que hoje atribui mais valor na sua vida?
- Bom, acho que é ao ar.

- Está a falar a sério?
- Para mim o mais importante é ter saúde. É o meu valor prioritário. O conhecimento seria a minha segunda escolha, depois o dinheiro, e a seguir o amor. Serão essas as quatro coisas mais importantes para mim.

- E nessa ordem?
- Talvez. A saúde é definitivamente o mais importante. Depois vem o conhecimento. O dinheiro é muito importante, muito mais importante do que eu achava quando era mais novo. O amor também é muito importante, mas se tivermos saúde, conhecimento e uma certa estabilidade financeira, normalmente temos boas oportunidades de encontrar o amor. E será até algo mais divertido. É divertido procurar o amor.

(Entrevista de Paulo Portugal, publicada na revista Tabu nº 261, de 2 de Setembro de 2011)

3 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Ótima entrevista! Entrevistei o Allen em 2004. Fui tremendo de medo, mas ele foi bem simpático.

O Falcão Maltês

Elisabete disse...

Sou grande fã dele! Este problema tem vindo a agravar-se com o passar do tempo :) Aguardo com expectativa a estreia do último filme e venham mais (que nós estamos cá para ver, se Deus quiser).
Dúvida: o rato cinéfilo está ou anda no facebook?

Rato disse...

Não. Elisabete, aqui o Rato é completamente avesso a redes sociais.