domingo, agosto 11, 2019

WOODSTOCK (1970)

WOODSTOCK - 3 DIAS DE PAZ, MÚSICA E AMOR
Um filme de MICHAEL WADLEIGH



EUA / 184 min (Director's Cut: 228 min) / COR /16X9 (2.20:1)


Estreia nos EUA a 26/3/1970
Estreia em Moçambique a 24/4/1971
(LM, Teatro Scala)



 

No próximo fim-de-semana faz 50 anos que o concerto histórico de "Woodstock" aconteceu: três dias de paz, música e amor, em que cerca de 500.000 pessoas se reuniram no Verão de 69 numa área de 600 acres de terreno (a fazenda de Max Yasgur, na cidade rural de Bethel, Nova Iorque) para, com um único espírito colectivo, ouvirem alguns dos seus heróis predilectos: Joan Baez, Crosby Stills and Nash, Santana, Joe Cocker, The Who, Janis Joplin, Ten Years After, Canned Heat, Jefferson Airplane, Melanie, Country Joe & The Fish, John Sebastian, Jimi Hendrix... A frase «Não confiem em ninguém com mais de 30 anos.», que foi pela primeira vez usada nos protestos de 1964 pela liberdade de expressão, era na altura um elo de ligação entre os jovens, que desse modo reivindicavam o direito de tomarem a conduta das suas vidas em mãos próprias.

 
 
 


Vale a pena relembrar. Afinal, nenhum outro festival de música teve tanta repercussão e tanta importância como este. Para entender o fenómeno é preciso voltar atrás no tempo. O mundo, e especialmente os Estados Unidos, passava por tempos difíceis de guerra, violência e desilusão. A década de 60, a mais conturbada do século, chegava ao fim, com uma sensação reinante de “e agora ?” no ar. E é nesse clima de final de festa, no último ano da década, que o maior evento de música já realizado encontra terreno fértil para se consolidar.

 
 
 
 
 

O festival foi idealizado e levado a cabo por quatro jovens: John Roberts, Joel Rosenman, Artie Kornfeld e Michael Lang. John era o mais velho dos quatro, tinha 26 anos, e era o herdeiro da fortuna de uma farmácia e de uma fábrica de pasta de dentes. Ele e o seu amigo Joel possuiam um capital para investir e colocaram um anúncio no Wall Street Journal e no New York Times: «Jovens com capital ilimitado procuram oportunidades de investimento legítimas e propostas de negócios interessantes e originais.» Lang e Kornfeld tInham as ideias interessantes e originais, mas não tinham o dinheiro. Os dois pensavam fundar uma gravadora independente especializada em rock, localizada numa cidade afastada de Manhattan chamada Woodstock ou em realizar um festival misto de exposições e música ao vivo. Esta última foi a ideia que acabou por vingar.

 

 
 
 

Vieram de Norte a Sul do Pais. Durante três dias viveram, comeram, dormiram lado a lado para ouvirem a música rock de um geração perdida no tempo - os hippies, uma cultura de gente que apregoava Paz e Amor, no final da «sua» década. O filme "Woodstock", realizado por Michael Wadleigh (com Martin Scorsese como adjunto) e estreado apenas no ano seguinte, em Março de 1970, apresenta-nos os preparativos para o grande concerto histórico: as torres de som, o palco, helicópteros trazendo músicos, as reacções dos habitantes locais bem como a declaração de Woodstock como concerto grátis quando se concluiu que era impossível controlar aquela multidão habituada a não pagar para ouvir música. "Woodstock" mostra-nos a tempestade que alagou os campos mas que não fez desistir aquelas centenas de milhares de espectadores à espera daquele que foi o maior concerto da história. "Woodstock" é um dos pontos altos da tomada de consciência da geração dos anos sessenta nos EUA e, principalmente do movimento de contestação à Guerra do Vietname que viria a culminar na marcha sobre Washington.


 
 
 
 

A música começou na tarde de 15 de Agosto, sexta-feira, às 17:07h e continuou até a metade da manhã do dia 18 de Agosto, segunda-feira. O festival fechou a via expressa do Estado de Nova Iorque e criou um dos piores engarrafamentos da nação. Também inspirou um monte de leis locais e estatais para assegurar que nada como aquilo jamais aconteceria novamente. "Woodstock", como poucos eventos históricos, tornou-se uma espécie de herança cultural, para os EUA e para o mundo. Assim como “Watergate” representa a crise nacional americana, Woodstock é hoje sinónimo do poder dos jovens e dos excessos dos anos 60. «O que nós tivemos aqui foi algo que ocorre uma vez na vida», diz o historiador Bert Feldman. Dickens disse isto primeiro: «Foi o melhor dos tempos. Foi o pior dos tempos.» É uma mistura que nunca será reproduzida novamente.

 
 
 
 
 

O evento tornou-se um verdadeiro ícone da contracultura. A força jovem e a liberdade assustaram os mais velhos e conservadores. As reportagens chegaram na altura a grande parte do planeta, mas em Portugal o festival passou despercebido na imprensa censurada. Apesar do que ficou para a história, "Woodstock" não foi o primeiro grande festival, afinal dois anos antes tinha havido Monterey, onde Jimi Hendrix já tocara, mesmo que fosse a sua prestação em "Woodstock" que tivesse ficado eternizada. O genial guitarrista pegou no hino nacional americano e estilhaçou-o com a guitarra perante os cerca de 25 mil resistentes que na madrugada do último dia ainda lá se encontravam. Devido à impossibilidade de controlo das entradas, "Woodstock" deu um prejuízo gigantesco - mais de 10 milhões de dollars, aos dias de hoje - e se não fosse o sucesso do documentário sobre o festival, os promotores nunca teriam sido capazes de pagar as dívidas. Muitos dizem que "Woodstock" foi o fim de toda a ingenuidade e utopia que cercavam os anos 60. Outros dizem que foi o apogeu de todas as mudanças e desenvolvimento na sociedade. Mas todos concordam que o festival foi um marco incontornável na história da música.

 
 
 
 
 
CURIOSIDADES:

- A montagem do filme teve por base 120 horas de material filmado.

- A edição do realizador, feita em 1994, apresenta pela primeira vez diversas actuações não incluídas na versão estreada nos cinemas: Grateful Dead, Janis Joplin, Jefferson Airplane ou Canned Heat. Outros grupos, que actuaram no festival, nunca apareceram em qualquer versão do filme. Casos dos Creedence Clearwater Revival (estes a pedido expresso de John Fogerty, devido a problemas registados no som, durante a actuação do grupo), Mountain, The Band e Tim Hardin.

- Apesar de ter actuado com Crosby, Stills And Nash, Neil Young não aparece no filme (apenas na banda sonora, nos temas “Sea of Mdness” e “Wooden Ships”). Isso deveu-se a uma birra do cantor e compositor canadiano, que se recusou terminantemente a ser filmado.

- Joni Mitchell foi convidada para participar no Festival, mas o seu empresário não a autorizou a deslocar-se para garantir a sua presença no programa televisivo “The Dick Cavett Show”. Companheira de Graham Nash na altura, Joni compôs depois o tema “Woodstock”, que foi um enorme êxito para os Crosby, Stills and Nash.


- O tema “Freedom”, que tornou a actuação de Richie Havens uma das mais míticas do festival e do filme, nem sequer constava do alinhamento inicial. Foi devido à muita insistência do público que Havens resolveu cantá-la. O cantor já se aguentava há mais de três horas em palco (a pedido da organização que na altura não tinham nenhum outro artista para continuar o espectáculo), com um público entusiasta sempre a puxar por ele. Com o repertório esgotado, Havens, em último recurso, iniciou uma improvisação em torno de um blues tradicional, "Motherless Child", repetindo a palavra 'freedom' como um mantra. Foi o primeiro grande momento do festival.

- Country Joe McDonald foi inopinadamente atirado para o palco, com uma guitarra acústica e sem o seu grupo, os The Fish. E Country Joe entraria para a história da música com um golpe de asa que no momento lhe ocorreu. Transformou a sua canção "Fish Cheer" em "Fuck Cheer" - e assim levou aquele gigantesco anfiteatro humano a gritar um imenso e libertador 'Fuck!'. Foi o segundo momento memorável do concerto.

- Quando o sitarista Ravi Shankar subiu ao palco, pelas 22h do primeiro dia do festival, a chuva apareceu. Quarenta minutos depois, Shankar e os seus músicos saíram de cena, para se abrigarem do aguaceiro. De seguida, os Incredible Sring Band recusaram-se a actuar, alegando falta de condições técnicas e de segurança, o que obrigou os organizadores a forçarem a ida para o palco de Melanie, muito antes do previsto. A jovem cantora folk, que estava com uma tosse nervosa, subiu aterrorizada ao estrado. Sob uma chuva torrencial, mas perante uma enorme audiência rendida ao ambiente místico criado por uma constelação de velas acesas empunhadas pelos espectadores que se encontravam na colina, Melanie dirá mais tarde que, enquanto fazia ouvir a sua voz, vivia uma experiência interior que estava no mesmo comprimento de onda de quem a escutava.

- O pedido de Michael Lang para que os artistas duplicassem o tempo das actuações foram uma bênção para uma banda desconhecida de San Francisco, o grupo de Carlos Santana, que recebeu um dos cachês mais baixos do festival, cerca de 750 dollars. Nos antípodas dos "trocos" que receberam, Santana e respectiva banda, embora chamados de emergência ao palco, puseram o público em transe com o seu rock latino, sustentado por uma secção rítmica poderosa e uma guitarra eléctrica incendiária. A interpretação inesquecível do tema "Soul Sacrifice" é uma das cenas imortalizadas pelo filme, e Carlos Santana viu a sua carreira lançada para os píncaros que hoje conhecemos.

- Os Who chegaram a Bethel cerca do meio-dia de sábado, 16, e só entraram em palco perto do nascer do sol de domingo. Estiveram, pois, horas infindáveis à espera da sua actuação, com o líder do grupo, o guitarrista Pete Townshend, a mostrar um desânimo inquietante. Não tinha com que se entreter - Townshend não era grande apreciador de alucinogénios. Pior: os The Who estiveram mesmo perto de não tocar. Às tantas, surgiu um diferendo financeiro entre o agente do grupo e os organizadores do festival, que demorou a ser resolvido. Chegados a um acordo, a banda britânica deu um concerto memorável, tocando na íntegra a sua ópera-rock "Tommy", editada dois meses antes. Os The Who saíram de Woodstock com uma aura mítica, mas posteriormente sempre afirmaram que tinham detestado o festival.

- Antes de subir ao palco, Joe Cocker teve de acalmar os seus músicos, nitidamente paralisados de medo ante a imensa multidão que viam à frente. Dois deles chegaram mesmo a vomitar, tal era o pânico. Mas tudo se recompôs, até que um Joe Cocker possesso interpretou a sua versão de "With a Little Help From My Friends", um original dos Beatles. A voz poderosa e os movimentos corporais alucinados arrebataram o público, num dos grandes momentos de "Woodstock" imortalizados pelo filme de Wadleigh.

- Os Led Zeppelin, grupo que na época se encontrava no topo, declinou o convite para actuar em Woodstock. Nesse mesmo fim-de-semana deram um concerto em New Jersey, não muito longe do local onde decorria o festival. Também Bob Dylan, The Jeff Beck Group (com Rod Stewart), Iron Butterfly, Jethro Tull, Procol Harum, The Byrds e The Moody Blues, entre outros, não aceitaram tocar em Woodstock. Os Beatles chegaram a ser contactados, mais por cortesia do que por qualquer esperança na sua aparição pública (como se sabe o grupo tinha abandonado há já alguns anos os espectáculos ao vivo). No entanto John Lennon chegou a equacionar a sua presença como integrante da Plastic Ono Band.

- O festival redundou num enorme fiasco financeiro. Os únicos itens que deram algum dinheiro foi o filme e a banda-sonora, precisamente onde os promotores não tinham investido.

- "Woodstock" foi distinguido com o Óscar do melhor documentário, tendo também sido nomeado para as categorias de Montagem e Som.





ALGUNS DOS QUE JÁ PARTIRAM:
Alan Wilson (“Canned Heat”) - 3/9/1970 (27 anos)
Jimi Hendrix (“The Jimi Hendrix Experience”) - 18/9/1970 (27 anos)
Janis Joplin - 4/10/1970 (27 anos)
Keith Moon ("The Who") - 7/9/1978 (32 anos)
Tim Hardin - 29/12/1980 (39 anos)
Bob Hite (“Canned Heat”) - 6/4/1981 (36 anos)
Felix Pappalardi (“Mountain”) - 17/4/1983 (43 anos)
Richard Manuel (“The Band”) - 4/3/1986 (42 anos)
Paul Butterfield (“The Butterfield Blues Band”) - 4/5/1987 (44 anos)
Tom Fogerty ("Creedence Clearwater Revival") - 6/9/1990 (48 anos)
Jerry Garcia (“Grateful Dead”) - 9/8/1995 (53 anos)
Rick Danko (“The Band”) - 10/12/1999 (56 anos)
John Entwistle ("The Who") - 27/6/2002 (57 anos)
Noel Redding (“The Jimi Hendrix Experience”) - 11/5/2003 (58 anos)
Spencer Dryden (“Jefferson Airplane”) - 11/1/2005 (66 anos)
Mitch Mitchell (“The Jimi Hendrix Experience”) - 12/11/2008 (61 anos)
Ravi Shankar - 11/12/2012 (92 anos)
Alvin Lee (“Ten Years After”) - 6/3/2013 (68 anos)
Richie Havens - 22/4/2013 (72 anos)
Johnny Winter - 16/7/2014 (70 anos)
Joe Cocker - 22/12/2014 (70 anos)
Marty Balin (“Jefferson Airplane”) - 27/9/2018 (76 anos)

5 comentários:

Ganza disse...

CURIOSO.... AINDA ESTA SEMANA ESTIVE A REVER O "dvd" DESTE FABULOSO ACONTECIMENTO A PROPÓSITO DOS JEFFERSON AIRPLAIN, GRATEFUL DEAD, JIMI HENDRIX, ETC., E OUTROS GOSTOS PESSOAIS,FIQUEI IMPRESSIONADO COMO PUDE GOSTAR TANTO DE REVER ISTO, E CADA VEZ MAIS ME CONVENÇO QUE ESTE FOI O EVENTO MAIS DEMOCRÁTICO, EMBLEMÁTICO, CULTURAL, MUSICAL, GERACIONAL, DUMA ÉPOCA E DO SÉCULO....
UM ABRAÇO...

ps ( pena foi o meu Benfica)

Rato disse...

Olá Zé!
Não sei se te lembras, mas assistimos juntos à estreia (dia 24/4/1971, um sábado à noite), no balcão do Scala (cinema que hoje já não existe, o espaço está agora integrado numa loja comercial). Tínhamos 17 anos e nesse dia consegui levar os meus pais e uns primos meus mais velhos, que obviamente detestaram o filme, sobretudo por causa do "barulho" da música.
Abraço!

José Morais disse...

A "edição de coleccionador" comemorativa do 40º aniversário contém 4 dvd's: o filme (director's cut) nos dois primeiros, actuações extra no terceiro e uma série de entrevistas no último. Vale a pena, sobretudo para a malta da geração de 60, a quem este filme traz tantas recordações.

Candido Cesar disse...

Rato, hoje tenho 64 anos e me lembro como Woodstock me impressionou. Assisti mais de 20 vezes ao filme: fui com namorada, depois irmão, irmã, amigos, convidados, etc. Eu ficava extasiado quando via Santana, Joe Cocker, Jimmy Hendrix e voltava ao cinema mais uma vez para tirar alguma dúvida sobre eventual detalhe que pudesse ter perdido.
Comprei então o álbum triplo de vinyl que até hoje é meu xodó e que é a única lembrança física daquilo que para mim foi um marco que nunca mais se repetirá.
Abraços!

Klausberg disse...

Grande rato,

Amigo, como não lembrar dessa efeméride que marcou nossa época? No início de 69 tinha estado em Portugal e de volta ao Brasil percebi que aquele ano seria especial para a música mundial e, não me desapontei ao escutar a trilha sonora do festival.
Foi como tomar uma pancada no tórax. Interpretações fantásticas, a descoberta de grupos como Santana. Emocionar-se com Janis, The Who e Hendrix. Indescritível.
Assisti ao filme bem mais tarde, em 1974, por acaso num cinema chamado Scala que ficava ao lado de um outro chamado Coral, em Botafogo no Rio de Janeiro.
Tenho diversas versões da trilha sonora e o DVD do filme e, ainda hoje, fico impressionado com tudo isso.
Saudades de um tempo onde a música era relamente mágica.
Um forte abraço