sábado, abril 09, 2011

OS FILMES DE BREL


Jacques Brel foi para sempre imortalizado quer pela excelência das suas composições quer pelas extraordinárias interpretações das mesmas nos mais diversos palcos, sobretudo no mítico Olympia de Paris, sala que lhe deve em grande medida toda a sua fama. Não fossem os recitais de Brel na década de sessenta e o Olympia seria apenas mais um lugar de espectáculos como tantos outros. Mas hoje não vamos evocar todo esse período áureo da canção francesa de que o cantor belga se tornou o principal representante. Em vez disso iremos debruçar-nos sobre a outra vertente do mito, aquela que se encontra directamente relacionada com o actor.
O interesse de Brel pelo mundo dos filmes acontece simultâneamente com o abandono dos espectáculos. Estamos em 1966 e em 28 e 29 de Outubro o cantor despede-se do palco do Olympia: esses dois concertos (inesquecíveis para quem teve o privilégio de assistir e felizmente documentados em DVD) ficariam conhecidos como “Les Adieux à L’Olympia”. Depois da última canção o pano fechou e Brel teve de regressar ao palco por várias vezes, sem no entanto brindar a assistência com qualquer encore, como aliás era seu hábito. Depois retirou-se para o camarim mas o público não arredou pé. Os aplausos duraram vinte longos minutos e Brel teve mesmo de voltar a subir ao palco, já em roupão, para um agradecimento final: «Isto justifica quinze anos de amor. Mas não é preciso exagerar. Os artistas de variedades não são deuses, e eu não passo de um artesão, de um fabricante de canções.»
Depois de mais dois grandes espectáculos fora de portas (no Carnegie Hall de Nova Iorque e no Albert Hall de Londres), o último recital  aconteceria no ano seguinte numa pequena sala de cinema de Roubaix, no dia 16 de Maio. A partir dessa data nunca mais Brel interpretaria as suas canções sobre um palco, para profundo desgosto de um público que não compreendia o abandono do seu ídolo com apenas 38 anos de idade.

Mas Jacques precisava de algo para preencher a ausência dos palcos e dar vazão a toda à sua criatividade. Nesse mesmo Verão de 1967 inicia-se frente às câmaras de filmar, dirigidas pelas mãos competentes do realizador André Cayatte. O filme chamou-se “Les Risques du Métier” e veio a estrear-se quatro dias antes do Natal, com enorme sucesso junto do público. Brel desempenhava o papel de Jean Doucet, um professor, casado (Emmanuelle Riva era a actriz com quem ele contracenava), que vê o seu mundo desabar quando é acusado de pedofilia por uma aluna que por ele se apaixona.

O argumento baseava-se em factos reais, ocorridos em 1961 na Bélgica (numa escola da região de Senonchamps) e foi só por essa razão que Brel aceitou estrear-se no cinema: «Logo que André Cayatte me apareceu uma noite em Marselha com aquela história e a propôr-me o papel, tive uma revelação: compreendi de imediato que a minha aceitação poderia ajudar um pouco a que se fizesse justiça em casos análogos. É normal que tais erros aconteçam na realidade e em França a justiça não evoluiu desde os tempos de Napoleão. Se a mesma coisa se tivesse passado na Suécia, por exemplo, não teria havido qualquer drama sobre o assunto.»

Em 1968 Brel negligencia, em certa medida, a sua promessa de não voltar a encarar as luzes da ribalta. Mas a sua adaptação para a língua francesa de uma peça musical, um original americano de Joe Darion, leva-o a interpretar a personagem mítica de Don Quixote, a qual lhe assenta como uma luva, fazendo-o sentir novamente a criança, o louco aventureiro, o sonhador, o herói frustrado que sempre carregou no mais íntimo do seu ser. Estreado em Bruxelas, no Teatro Royal de La Monnaie, em Outubro de 1968, L’Homme de La Mancha” é um êxito retumbante. Na última semana a bilheteira não abriu porque estava tudo esgotado até ao fim do contrato com aquele Teatro.
Brel rumou então a Paris e pôs o espectáculo em cena no Théâtre des Champs-Elysées, de 11 de Dezembro até 17 de Maio de 1969 - com um novo Sancho Pança (Robert Manuel), dada a morte repentina (aos 47 anos, por hemorragia cerebral no aeroporto de Istanbul) de Dario Moreno, o conhecido cantor que entrara na versão original. Repetiu-se o mesmo estrondoso êxito e naturalmente começaram a chover os pedidos para digressões a nível nacional e internacional. Mas o Grande Jacques recusou. Ele tinha abandonado os palcos porque não queria cair na rotina e acabar a sua vida como um velho cantor que se aplaude por favor ou por reverência. Continuar com o “L’Homme de la Mancha” indefinidamente seria ir contra os seus princípios. E, para variar, voltou-se de novo para o Cinema.
Quase em simultâneo com o aparecimento do musical tinha-se estreado um segundo filme com Jacques Brel no protagonista principal. Chamou-se “Les Anarchistes ou La Bande a Bonnot”. «Não fiz um filme sobre gangsters», afirma o realizador Philippe Fourastier, «para mim a história é antes do mais a do movimento anarquista na sua grande época. Desde a minha adolescência que esse movimento me apaixona.» Interrogado sobre esta nova experiência cinematográfica, Brel responde simplesmente: «Diverti-me imenso, é apaixonante fazer um filme como este. No Les Risques du Métier” não tive a necessidade de compor um personagem, Cayatte quis-me tal como eu sou. Neste, pelo contrário, tive realmente de encarnar um gangster, um tipo que existiu há 50 anos e que matou. Julgava que um papel de composição seria mais difícil para o debutante que sou. Mas na verdade é mais fácil. De qualquer maneira não representei o papel como um actor profissional mas apenas para me divertir. Aliás, o cinema não é mais do que um jogo, um jogo para pessoas crescidas.»

No início do Verão de 1969 Brel entra num novo filme, para o qual compõe também a música, de parceria com François Rauber, à semelhança do que já tinha feito nos dois filmes precedentes. Trata-se de “Mon Oncle Benjamin”, um filme de aventuras passado no século XVIII, onde o actor encarna um médico de província, Benjamin Rathery, amante do bom vinho, dos presuntos bem fumados e das mais belas raparigas. E que é adorado pelos pobres da região, que já não conseguem passar sem ele. «Sou o contrário de Benjamin», declara Jacques, «mas sinto-me seu irmão. Adoro o seu lado vingador, a sua sede de liberdade, mas não partilho a sua paixão pelo deboche – sou um calmo, um solitário, um inimigo do escândalo.»

Jacques Brel estava sempre em movimento. Detestava o imobilismo, a preguiça… Dizia que era preciso ser-se curioso… ir ver! Descobrir coisas. Ter a coragem de dizer «não sei, vou ver…». Brel preferia ir VER. Costumava dar o exemplo do piloto de avião que tinha de voar com mau tempo. Ele, que era um apaixonado pelos aviões dizia: «Se está mau tempo não se levanta voo! É uma atitude certa. Mas, é preciso ir ver. Eu levanto voo e se realmente for impossível operar regresso a terra. Mas, pelo menos posso dizer que fui VER…»

Neste ano de 1969 Brel inscreve-se numa das melhores escolas de aviação, em Geneve-Cointrin. Lá, vai encontrar Jean Liardon, que além de seu instrutor se vai tornar um dos seus grandes amigos. Em 17 de Abril de 1970 Brel obtém a certificação IFR (Instrument Flight Rules) e torna-se co-piloto de Learjet. Entretanto estreia-se um 4º filme, uma semana antes do Natal: “Mont-Dragon”, de Jean Valère, onde Brel interpreta pela primeira vez um personagem pouco simpático. A crítica arrasa o filme, acusando-o de ser uma má imitação do “Teorema” de Pasolini, não poupando sequer o actor.
Devido ao grande insucesso do filme precedente, Brel aceita trabalhar sob as ordens de um realizador francês de méritos reconhecidos: Marcel Carné. Durante a rodagem do filme, “Les Assassins de l’Ordre”, os dois homens mantêm uma ligação bastante próxima, passando horas a falar sobre cinema e também sobre o universo feminino. Carné fará o seguinte comentário: «Brel parecia odiar as mulheres de um modo quase visceral. A tal ponto que não me lembro de mais ninguém dizer tanto mal delas. Não de um modo desprezível e gratuito, como o fazem certos homossexuais, mas com qualquer coisa de doloroso na voz, como uma ferida secreta no coração. Julgo que alguma mulher o terá feito sofrer terrivelmente e que Brel nunca se conseguiu recompor». Sobre as qualidades do actor, Carné adiantaria: «Acho que é um segundo Gabin. Tem, como ele, o sentido do cinema, é perfeito em todos os planos.» O filme é recusado para ser apresentado no Festival de Cannes e as críticas mostram-se extremamente reservadas. Mas desta vez Jacque Brel é poupado, tendo sido elogiada a sua interpretação do juiz Level.
Depois de ter representado em cinco filmes, Brel pensa ter chegado o momento de poder ir um pouco mais além e dirigir-se a si próprio no projecto seguinte. Chamar-se-á “Franz” e Brel assinará também o argumento, juntamente com Paul Andréota, e uma vez mais comporá a música de parceria com François Rauber. O filme, que tem a participação da cançonetista Barbara, será rodado na praia de Blakenberge e merece o seguinte comentário por parte de Brel: «Trata-se de uma história de amor entre pessoas de quarenta anos, mas tento mostrar que a idade não conta, que o amor não funciona, quer seja aos dezoito, aos quarenta ou aos sessenta anos, por enfermar sempre dos mesmos erros. “Franz” é uma crónica, uma canção de hora e meia com o seu lado flamengo irracional, um mundo dentro do qual se deixaram enclausurar pessoas feridas mas que não sofrem, pessoas sózinhas mas que não sentem a solidão. Ou seja, idiotas com um desespero sorridente e bem educado.»

Durante semanas a fio, Brel fala do seu filme como um miúdo a quem acabaram de dar um novo brinquedo – com entusiasmo mas também com humildade. Apesar de vir a constituir apenas um pequeno sucesso, “Franz” consegue no entanto boas críticas que elogiam a estreia do popular cantor atrás das câmaras. Mas para Brel pouco importam as críticas ou a afluência do público. O mais importante é que conseguiu realizar uma obra sua: «A partir do momento em que a montagem de “Franz” ficou concluída, soube que posso fazer filmes. Dou a mim próprio dez anos para me tornar num realizador aceitável. Mas se um dia souber o que é preciso fazer para realizar um filme de sucesso, nesse dia abandonarei o cinema.»

O ano de 1972 assiste ainda à estreia de mais dois filmes interpretados por Brel: “L’Aventure C’est l’Aventure”, de Claude Lelouch e “Le Bar de la Fourche”, de Alain Levent. O primeiro, uma deliciosa comédia com a participação de Lino Ventura, Charles Denner e, entre outros, de Johnny Hallyday, revelar-se-á um dos maiores sucessos do cinema francês que se estende de igual modo além fronteiras. A história de cinco crápulas mercenários cuja única religião é o usufruto dos prazeres da vida, cativa de igual modo a crítica, que não se esquiva a enaltecer o enorme divertimento que é esta aventura de Lelouch. O filme seria rodado nas Caraíbas, Estados Unidos, Itália e África e Lino Ventura guardará para sempre uma excelente memória dos meses de filmagens: «Nunca me diverti tanto a fazer um filme. Lelouch é um monstro, que usa métodos de trabalho pouco ortodoxos. Mas que eficácia!»

É no meio da floresta de Brocéliande, em pleno coração da Bretanha, que Alain Levent filma “Le Bar de la Fourche”, o terceiro filme de Brel a estrear-se em 1972, durante o Verão. Levent já conhecia Brel de “Mon Oncle Benjamin” e de “Franz” (foi o responsável pela fotografia destes dois filmes), mas é no decurso da rodagem deste novo filme que se estabelece uma forte amizade entre os dois homens. «Quis fazer um filme alegre», dirá o realizador, «As situações são explosivas, há suspense, mas a atmosfera geral é de bom humor e um certo calor humano passa pelo écran». Para esta sua estreia Alain Levent socorreu-se bastante da personalidade de Jacques Brel, que encarna um novo Benjamin, e que uma vez mais compôs a música – o filme inicia-se por uma canção evocando a aventura e as raparigas bonitas. Apesar das boas intenções, o filme denota uma certa falta de originalidade, o que lhe vale algumas farpas da parte da crítica. No entanto o desempenho de Brel é uma vez mais elogiado, muito embora o filme não consiga atrair audiências, passando quase despercebido.
Já há algum tempo que Brel desejava realizar um segundo filme. A oportunidade surge e é em Bruxelas que ele vai filmar “Le Far West”, uma história sobre a felicidade, a ternura e o sonho. Fanático dos lendários westerns, Jacques, a personagem principal, veste-se à cowboy para percorrer a Bélgica – é a procura de algo que já não existe, um imaginário que se encontra guardado no coração de cada um. «”Le Far West”», explica o nosso realizador, «é a história dos tipos de quarenta anos que estão fartos da vida moderna e procuram encontrar de novo a infância. E para nós, os quadragenários, essa infância é Buffalo Bill e os cowboys. Este meu segundo filme fará reviver os garimpeiros de ouro, as caravanas dos pioneiros que encantaram a minha infância. O meu herói decide ser um cowboy e viver à maneira do Oeste americano. Mas na Bélgica, o que evidentemente não é muito fácil. O meu objectivo é fazer sonhar as pessoas, de as levar a comunicar entre si, de pensarem que a vida pode ser bela, alegre, terna, simples... e generosa.»
Mas desta vez a crítica abate-se impiedosa sobre o filme, lamentando que o Brel cineasta nada tenha a ver com o Brel das canções. «A lição de moral que Brel nos quer dar parece-nos bem banal», pode ler-se no Télérama, «Existem três minutos excelentes no filme, mas não são cinematográficos – é o tempo em que Brel canta uma bela balada sobre a infância.» Jacques fica estarrecido ao ler estas linhas. Ele tem a consciência que o seu filme está longe de ser perfeito, mas sabe que após este fiasco não terá mais ocasião de provar que poderá fazer melhor: «”Franz” não ganhou dinheiro mas “Le Far West” perdeu. Por isso não seria honesto pedir a quem quer que fosse uma nova oportunidade. Mais tarde, talvez daqui a cinco anos, logo se verá.» Infelizmente sabe-se hoje que passados esses cinco anos Brel já não se encontrava entre nós.
Para se abstrair do seu falhanço como realizador, Brel resolve filmar de novo com Molinaro. «Quando aceitei participar no “L’Émmerdeur” não conhecia sequer o argumento. Mas Molinaro e Ventura, dois bons amigos, perguntaram-me se o queria fazer com eles. Disse logo que sim, porque para mim o mais importante são as pessoas com quem trabalho». Esta história, baseada na peça “Le Contrat”, de Francis Véber (responsável também pelo argumento), que coloca em confronto dois universos completamente distintos, dois homens sem qualquer tipo de afinidade entre eles, é como introduzir o vaudeville dentro de um film noir. Uma missão que poderia parecer impossível à partida, mas que resulta em cheio quando o filme se estreia, em Setembro de 1973.

“L’Émmerdeur” é uma comédia delirante, que fecha com chave de ouro a carreira de Brel no cinema, a ponto de hoje o título ser imediatamente evocativo da sua imagem e da excelência do desempenho daquela personagem, um Pignon duzentos por cento prestativo que acaba por fazer desabar toda a fortaleza granítica de um assasino profissional, o duro monsieur Milan, personagem caracterizada também de maneira fabulosa por esse grande actor que foi Lino Ventura. E desta vez a crítica não tem dúvidas a considerar que em “L’Émmerdeur” Jacques Brel tem o melhor papel da sua carreira. Podia ler-se no jornal La Libre Belgique de 11 de Outubro, por exemplo: 

«Le film doit beaucoup à l’interprétation de Jacques Brel, qui a trouvé ici son meilleur rôle à l’écran et nous donne certainement son interprétation la plus attachante. Notre compatriote incarne avec énormément de présence et de sensibilité, le personnage du “crampon”, être tout ensemble minable et insupportable, naïf et rusé, misogyne et tendre; il faut dire que ce personnage lui sied comme un gant: l’homme semble s’y être projeté autant que le comédien». Enorme sucesso, “L’Émmerdeur” faria 600.000 entradas apenas em Paris, na altura da estreia. Depois desta última consagração, Jacques Brel abandonaria o mundo do cinema, tal como seis anos antes tinha feito com o mundo das canções. Mas contrariamente a 1967, quando abandonou a cena para se dedicar a outras formas de arte, esta foi uma retirada real para a privacidade.
Além destes dez filmes, Brel realizou também duas curtas metragens produzidas em 1952 e 1962, na altura em que ele era simplesmente cantor. E fez a sua última aparição no écran aquando da versão cinematográfica da comédia musical "Jacques Brel Is Alive and Well and Living In Paris" onde aparece numa cena a cantar "Ne me quitte pas", sentado num bar. Quanto a canções escritas propositadamente para filmes foram apenas cinco: "Pourquoi faut-il que les hommes s'ennuient" ("Un Roi Sans Divertissement", 1963), "Les Coeurs Tendres" ("Un Idiot a Paris", 1967), "La Chanson de Van Horst" ("Le Bar de la Fourche", 1972), "L'Enfance" ("Le Far West", 1973) e "Il Neige Sur Liège" (usada no filme "La Belgique Vue du Ciel", 1979). Estes temas figuram como bónus no CD da banda-sonora de "L'Homme de la Mancha", que se disponibiliza para todos os interessados:

Querendo fugir para o mais longe possível do ambiente que o tinha rejeitado drasticamente, Brel mete-se na aventura de dar a volta ao mundo em barco à vela – no “Askoy” que ele comprara para esse efeito – juntamente com Madly Barny, que conhecera durante a rodagem do filme de Lelouch, e com quem chegará às ilhas Marquesas, no Pacífico, onde ficará a viver. Dum simples ponto de vista biográfico e artístico, o período em que Brel se dedica ao cinema é, no entanto, significativo. Com efeito, este período representa, com excepção para o álbum BREL de 1977, a última expressão da sua vida artística.

Na ilha Hiva Oa, no arquipélago das Marquesas, em Julho de 1976, Jacques Brel decide repetir a sua certificação de piloto e faz um curso com o piloto Michel Gauthier. Mas só após a resolução de vários problemas burocráticos, relacionados com a doença entretanto diagnosticada (um cancro num pulmão), consegue a revalidação da sua licença para voar. Compra um Beech Twin-Bonanza em Tahiti, e passa a fazer regularmente o circuito das ilhas para entregar correio, encomendas, medicamentos e até víveres necessários às populações esquecidas naquele fim do mundo.


O bimotor Beech Twin-Bonanza é baptizado de JOJO, alcunha do melhor amigo de Jacques Brel, Georges Pasquier, falecido em 1974. Em Julho de 1977, Brel vai a Paris gravar o seu último disco, um derradeiro testemunho de amor para com todos os seus inúmeros fans. Uma tristeza enorme envolve as canções presentes no album, de que foi feita uma tiragem de dois milhões de exemplares. O autor, compositor e intérprete que mais canções escreveu sobre a morte, viu-se prematuramente agredido por ela, dando-lhe permissão sem dramas nem protestos, e deixando um testemunho de vida e coerência. A gravação do tema “Vieillir” foi extremamente penosa, segundo testemunhos credíveis de alguns dos músicos que se encontravam presentes e que ficaram com lágrimas nos olhos quando a canção terminou. Não só pela crueza da letra da canção mas pelo esforço que Brel teve de fazer para a cantar (practicamente só tinha um pulmão a funcionar, e mal): «Morrer..., isso não é nada. Mas envelhecer..., ah! Envelhecer!»

Na altura das gravações do disco rencontra o seu velho amigo Jean Liardon. Juntos voam até à Suiça num Stampe et Vertongen SV.4, um bimotor belga, de dois lugares. Depois regressa ao seu paraíso tropical, mas menos de um ano depois, no Verão de 1978, faz a sua última longa viagem de avião. Não como piloto, mas como passageiro em estado terminal. A sua doença, entretanto agravada, leva-o até Paris, onde vem a falecer no hospital Avicenne de Bobigny no dia 9 de Outubro com uma embolia pulmonar. Tinha 49 anos. Três dias depois o seu corpo regressará a Hiva Oa.

Jacques Brel descansa no cemitério de Atuona, em Hiva Oa, no arquipélago das ilhas Marquises, ao lado do pintor francês Paul Gauguin. A sua placa mortuária esteve na origem de um diferendo entre a família e Madly Barny, em 1999. A sua última companheira em vida ganhou o processo nos tribunais, obtendo o direito de colocar a imagem dos seus dois rostos na pedra tumular, que se encontra virada para o pôr-do-sol. Quanto ao Beech Twin-Bonanza JOJO está agora exposto num hangar do Aeroclube Jacques BREL em Hiva Oa, perto do Aeroporto também chamado…Jacques BREL. Nome que, em Dezembro de 2005, foi eleito pelo público do RTBF (Radiodifusão e Televisão Belga de Língua Francesa) como o maior belga de todos os tempos.

FILMOGRAFIA:

1967 - Les Risques du Métier / Os Ossos do Ofício (estreia a 21/12)
1968 – Les Anarchistes ou La Bande a Bonnot (estreia a 30/10)
1969 – Mon Oncle Benjamin / O Meu Tio Benjamin (estreia a 28/11)
1970 – Mont-Dragon (estreia a 16/12)
1971 – Les Assassins de L’Ordre (estreia a 7/5)
1972 – Franz (estreia a 2/2) + realização e co-argumento
1972 – L’Aventure C’est L’Aventure / Aventura é Aventura (estreia a 4/5)
1972 – Le Bar de la Fourche (estreia a 23/8)
1973 – Le Far West (estreia em Maio) + realização e argumento
1973 – L’Emmerdeur / O Chato (estreia a 20/9)


ALGUMAS ENTREVISTAS DE JACQUES BREL:


5 comentários:

Billy Rider disse...

Que post magnífico, amigo Rato. Os meus parabéns! Dos 10 filmes do Brel só vi 3 até hoje: o primeiro, "Les Risques du Métier" (que preciso rever um dia destes), o "L'Aventure C'est L'Aventure" e, claro, o delicioso "L'Émmerdeur". Fui à Amazon francesa e encontrei mais alguns por lá. Mas acho que em Portugal nenhum foi editado.
Por falar neste País de anedota, lembro que o concurso equivalente ao da televisão belga (que elegeu Jacques Brel como o maior belga de todos os tempos), ou seja, organizado pela RTP, teve o desplante de eleger o Salazar como o maior português de todos os tempos. Palavras para quê? E depois deitam culpas à crise...

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Post muito bom, Rato. Não sabia nada sobre o Brel ator.

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Rato disse...

Pelo menos, e se puder, veja o "L'Émmerdeur", que é o original onde Billy Wilder se foi inspirar para fazer o "Buddy Buddy", com o Walter Matthau e o Jack Lemmon, tendo conseguido uma boa versão, mas muito aquém deste.
Pois é, já neste tempo os americanos se fartavam de roubar as boas ideias dos europeus.

José Morais disse...

Musicalmente sou um brel-dependente mas confesso que só conheço 2 filmes - "L'Aventure C'est L'Aventure" e "L'Émmerdeur". Em ambos estes títulos Brel mostra inequivocamente que era também um fabuloso actor de comédia. Gostava imenso de o ver nos papeis ditos "sérios" para constatar se a excelência se mantém.
Não espanta o carinho que os belgas sempre mostraram pelo seu filho pródigo. Mal Brel é universal, um artista único e insubstituível. O mundo das artes nunca mais foi o mesmo depois da sua morte.
Obrigado por esta homenagem.

Anónimo disse...

Por incrível que possa parecer hoje em dia Brel teria feito 82 anos na passada sexta-feira se fosse vivo. Mas todos os deuses duram pouco tempo, apenas o necessário para perdurarem por toda a eternidade.