segunda-feira, fevereiro 07, 2011

GHOST (1990)

GHOST - O ESPÍRITO DO AMOR
Um filme de JERRY ZUCKER


Com Patrick Swayze, Demi Moore, Tony Goldwyn, Whoopi Goldberg, Vincent Schiavelli, etc.

EUA / 127 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA a 13/7/1990
Estreia em Portugal a 9/11/1990


Molly Jensen: «I love you»
Sam Wheat: "Ditto»

“Ghost” é, na sua essência, um melodrama que consegue ultrapassar o anedótico conceito do Bem e do Mal, e as respectivas retribuições no afterdeath – luz celestial para o primeiro, demónios da escuridão para o segundo. Ressalvando esta redundante dicotomia, o filme até que é agradável de se ver. Muito por causa das expressões de Demi Moore (nunca a actriz esteve assim tão fragilizada, diria mesmo, sedutoramente frágil) e da ideia de que um grande amor sobrevive para além da morte, mas sobretudo por causa da feliz ideia que foi a repescagem da canção de Hy Zaret e Alex North (“Unchained Melody”) de 25 anos antes, quando a versão dos Everly Brothers a celebrizou em todo o mundo (ver post sobre este assunto também aqui neste blogue). A melodia tem tonalidades muito cinemáticas, e não será por acaso que as duas melhores sequências do filme a têm como suporte musical – sobretudo a cena da moldagem do barro, que permanecerá sem dúvida como uma das maiores referências do erotismo no cinema.


Outra das razões do sucesso de “Ghost” será porventura o argumento de Bruce Joel Rubin – premiado com o Oscar da Academia – no qual se destaca um equilíbrio bem oleado entre as ferramentas do romance,  do thriller e do divertimento. Não nos esqueçamos que o realizador, Jerry Zucker, é um especialista em comédias, tendo-nos dado títulos como os hilariantes “Airplane” (1980) e “Top Secret” (1984) ou destacando-se também como produtor na trilogia “Naked Gun” (1988/91/94) e no filme “My Best Friend’s Wedding” (1997); em “Ghost” podemos assistir a uma representação bem humorada de Whoopi Goldberg (actriz aconselhada por Patrick Swayze para o papel de Oda Mae Brown), que lhe valeria também o Oscar, o BAFTA e o Globo de Ouro para a melhor Actriz Secundária.


Vinte anos após a sua estreia, e apesar de todas as suas imperfeições (de referir, em particular, o actor medíocre que Patrick Swayze sempre foi), “Ghost” continua a ser um filme bastante popular, nomeadamente pelas razões acima apontadas. Não o considero merecedor da nomeação que conseguiu para o Oscar de Melhor Filme (sobretudo quando comparado com outros títulos de 1990) que a Academia por uma vez teve razão em não lhe atribuir (o vencedor seria “Dances With Wolves”, de Kevin Costner, e o grande derrotado “Goodfellas”, de Martin Scorsese, já para não falar da terceira parte da saga do “Godfather”), mas é sem dúvida um bom entretenimento, que se aconselha sobretudo a todos os românticos do cinema.


CURIOSIDADES:

- Quando o filme se estreou em Monterrey, no México, todas as salas ofereciam lenços às espectadoras com a indicação “solo para mujeres” (como se um homem não pudesse chorar também)

- Sondra Rubin. a mãe do argumentista Bruce Joel Rubin, é a freira mais velha que cambaleia ao ver a quantia de 4 milhões de dólares escrita no cheque que lhe é dado por Oda Mae Brown. Também a mãe do realizador, Charlotte Zucker, tem uma curta aparição no filme – é a mulher do banco que recebe o pedido de Mae Brown para a abertura de uma nova conta bancária

- O terrível som feito pelos demónios da escuridão (ou do “inferno”) foi conseguido diminuindo drasticamente a velocidade de um registo de choros de bébés


- As actrizes Molly Ringwald e Nicole Kidman chegaram a fazer audições para o papel de Molly, enquanto que Meg Ryan o recusou. Uma das razões que levou depois à contratação de Demi Moore, foi o facto da actriz conseguir chorar facilmente de ambos os olhos

- Tom Hanks, Tom Cruise, Kevin Bacon, Al Pacino, Bruce Willis (na altura casado com Demi Moore), Harrison Ford, Nicolas Cage, Mickey Rourke, Johnny Depp e Alec Baldwin foram alguns dos muitos actores que recusaram o papel de Sam Wheat

- Vincent Schiavelli, o actor que desempenha o papel do fantasma do metropolitano, morreu de cancro do pulmão em 2005. Patrick Swayze morreu quatro anos depois, em 2009, também de cancro, mas do pâncreas. Ambos os actores tinham 57 anos.

- Para além de ter ganho 2 Oscars (Argumento e Actriz Secundária), “Ghost” teve ainda mais três nomeações nas categorias de Filme, Montagem e Música Original (Maurice Jarre)



domingo, fevereiro 06, 2011

"Lonely Rivers Flow To The Sea, To The Sea..."

Perguntem a alguém com mais de 35 anos se conhece a canção “Unchained Melody” e provavelmente essa pessoa começará de imediato a trautear a letra: «Oh, my love, my darling / I’ve hungered for your touch / A long, lonely time...». O jovem autor que escreveu tais palavras teve de esperar bastante tempo antes de ver o tema cantado em público. Mas quando isso finalmente aconteceu, “Unchained Melody” foi directa aos topos de vendas em todo o mundo.
Hyman Harry Zaritsky (nascido a 21 de Agosto de 1907, em Nova Iorque), conhecido por Hy Zaret, ainda punha um brilhozinho nos olhos sempre que recordava a razão pela qual tinha escrito a letra da canção - tinha 16 anos e estava perdido de amores pela rapariga mais bonita da vizinhança, Mary Louise, conhecida por Cookie. Mas a timidez impediu-o de confessar os seus sentimentos à eleita do seu coração. Em vez disso escreveu aquelas palavras e foi à sua vida. Muito mais tarde soube que a rapariga tinha casado, o que o fez voltar ao poema para o actualizar. Estava-se em 1936, e Zaret frequentava na altura um curso de Verão na Escola de Artes Teatrais de Triuna, em Yaddo. Aí conheceu Alex North, três anos mais novo (nasceu a 4 de Dezembro de 1910), que lhe compôs a música para “Unchained Melody”. «I pestered him and pestered him to compose a piano copy for me. Finally, he told me that he had music for a song. Basically, I sang the words and he guided me with what he wanted for the music. You might say I sang the song under his guidance», recorda Zaret. 
«I asked Alex North if “Unchained Melody” was going to be a hit. Alex said it was going to be a big hit. He wanted me to team up with him to write lyrics, but I took the raving with a grain of salt and thought it was no way to earn a living. I wanted to write that song ‘cause I needed money for college».Outra razão pela qual Zaret não acedeu ao convite de Alex, foi para não enfurecer ainda mais a sua mãe, uma professora de música clássica, que não gostou mesmo nada que o filho tivesse escrito uma canção de contornos populares.
Enquanto os dois amigos trabalhavam na canção, faziam figas para que Bing Crosby, que morava perto deles, viesse a gravar “Unchained Melody” - «I’d spoken to Bing Crosby’s wife so I thought it was a good connection. I styled it for him, you know, his songs had a dip at the end». Como o desejo não se concretizou, Zaret disse a North que gostava que a orquestra de Duke Ellington a interpretasse. Levou algum tempo – dezanove anos – mas este último desejo foi finalmente concretizado quando em 1955, Al Hibbler, que tinha sido vocalista da orquestra, gravou “Unchained Melody”.
A canção aparece pela primeira vez no cinema nesse mesmo ano de 1955, no filme “Unchained”, interpretado por Todd Duncan. Mas foram as versões de Al Hibbler e depois a de Jimmy Young que fizeram de “Unchained Melody” um enorme êxito mundial (#3 nas tabelas da Billboard e #1 nas tabelas inglesas). Nomeada para os Óscares de 1956, foi cantada por Harry Belafonte durante a cerimónia da Academia, mas a vencedora seria “Love Is a Many-Splendored Thing”.

Dez anos depois, em 1965, Os Righteous Brothers gravaram “Unchained Melody” e a nova versão (produzida por Phil Spector) estabeleceu de vez o carácter intemporal e a grandeza da canção. Já em 1990, o filme “Ghost” utilizou-a numa cena inesquecível, em que Demi Moore e Patrick Swayze deram asas à sua sensualidade. Foi quanto bastou para que toda uma nova geração descobrisse pela primeira vez a canção.
Alex North continuou a compor música para filmes, tendo feito uma brilhante carreira no cinema: “A Streetcar Named Desire”, “Viva Zapata”, “Spartacus”, “The Misfits”, “Cleopatra”, “Who’s Afraid of Virginia Woolf?”,  “Prizzi’s Honor”, “Good Morning, Vietnam”, são alguns dos títulos das muitas dezenas de filmes que constam no seu currículo, e que lhe valeram um total de 15 nomeações para os Oscars. Estranhamente nunca ganhou, tendo-lhe a Academia atribuido um Oscar honorário em 1986, “in recognition of his brilliant artistry in the creation of memorable music for a host of distinguished motion pictures”. Alex North viria a falecer em Los Angeles, a 8 de Setembro de 1991. Tinha 80 anos.
Zaret recebeu alguns royalties por “Unchained Melody”, mas foram todos gastos numa acção judicial que interpôs à CBS, corporação que só em 1982 foi obrigada a registar a canção. Actualmente os direitos da canção estão na posse de Paul McCartney e da sua editora MPL. 
Em 1964 Zaret encontrou de novo Cookie, a sua musa da juventude. Casada pela segunda vez, encontrava-se a viver nessa altura em Fayettedville. Acompanhado pela mulher e dois dos seus filhos, Zaret visitou-a, tendo passado alguns dias em casa dela. Apesar de ter escrito outras canções, “Unchained Melody” permanecerá para sempre a referência maior do seu trabalho como letrista. Zaret viria a falecer em Westport, Connecticut, a 2 de Julho de 2007, apenas 50 dias antes de completar os 100 anos.
Existem actualmente mais de 500 versões de “Unchained Melody”, que ao longo de 55 anos foram sendo gravadas pelos mais diferentes intérpretes, nos mais variados estilos. Em Novembro de 2009 coloquei no meu antigo blogue, o Rato Records, uma colecção de 49 dessas versões em CD duplo, que se tornou rapidamente um dos itens preferidos dos visitantes daquele blogue. Tratando-se de uma canção que o cinema ajudou a popularizar, aqui fica de novo essa coletânea, agora em exclusivo para os amigos do Rato Cinéfilo. Quem ainda não a tem é de aproveitar, pois de certeza que a não encontram à venda por aí.  

IN CAMERA - DEMI MOORE

sábado, fevereiro 05, 2011

“CATEMBE” – O FILME MAIS CENSURADO DO MUNDO

Pois é, tinha de ser português o filme da história do cinema mais cortado pela censura – razão pela qual entrou no Guinness Book of Records. Sofreu 103 cortes, passando de 1h e 20m a 47 minutos e, mesmo assim, a sua projecção foi proibida pelo antigo regime. Só depois do 25 de Abril foi publicamente apresentado e apenas por duas vezes, a primeira das quais numa sessão histórica da Cinemateca - a sala encontrava-se a abarrotar, depois do jornalista Carlos Pinto Coelho ter publicitado o filme numa entrevista ao Canal 2 da RTP. A segunda exibição ocorreu em Setembro de 2010, numa sessão especial promovida pelo movimento Chão no cinema Nimas, em Lisboa. Mas afinal, de que tratava o filme? Primeira (e última) longa-metragem do realizador Manuel Faria de Almeida (natural de Moçambique - nasceu em Lourenço Marques, a 18 de Agosto de 1934), “Catembe” foi filmado em 1965 e pretendia retratar a vida de Lourenço Marques dos anos sessenta, cruzando documentário e ficção, nomeadamente a história de amor entre um pescador negro, de vida miserável, e uma jovem prostituta de raça branca, de nome Catembe (Filomena Lança). Refira-se, de passagem, que “Catembe” era também o nome da região existente frente a Lourenço Marques, do outro lado da baía Espírito Santo.
Ainda o filme não tinha começado a ser rodado e já o seu destino estava traçado. Apesar do apoio financeiro do SNI (Secretariado Nacional de Informação), conseguido pelas Produções Cunha Teles, a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) tinha-se já apercebido das intenções em se fazer tal filme e entregue ao então ministro do Interior Santos Júnior uma nota secreta com todos os detalhes. «Apesar do financiamento, havia muito pouco dinheiro», disse Faria de Almeida. «Tinha a planificação e nada era repetido. Tudo era feito à justa. Ainda tentámos alguns apoios junto da Câmara Municipal, mas ninguém deu nada, à excepção do hotel, o Avis, onde ficaram a dormir o Augusto Cabrita e o Tropa. Eu fiquei em casa dos meus pais». E Faria de Almeida recorda ainda: «Na verdade eu sabia que a ideia que em Portugal se fazia de Moçambique era a dos pretos com bandeiras na mão, em alas, deixando passar o Presidente da República vestido de branco, brindado por papelinhos multicolores atirados das varandas. Ninguém sabia como as pessoas ali viviam, que pessoas, como pensavam elas, como se divertiam e quais os seus problemas. Era isto que eu queria mostrar, e pensava que as entidades oficiais tinham percebido a intenção».
As filmagens duraram cerca de três semanas, seguidas de perto pela imprensa local e pelos habitantes da região, que inclusivé chegaram a entrar em algumas cenas. Depois de montada a primeira versão, o filme foi visionado por representantes do Ministério do Ultramar, que propuseram algumas emendas. De seguida, foi visto pela Agência Geral do Ultramar, que levantou inúmeros problemas. Faria de Almeida cita um exemplo, tal como vem referido no documento da censura: «Em vários passos das entrevistas feitas no início do filme, os entrevistados referem-se à metrópole falando "em Portugal", como se Lourenço Marques não fosse também Portugal. Crê-se que este inconveniente deverá e poderá ser eliminado». O “inconveniente” foi eliminado, em conjunto com todos os outros. Ao todo, e como já referido, foram 103 cortes no projecto original, que tinha a duração de uma hora e vinte. «Um grupo de entidades visionou o filme cortado e disse que estava bem. Mas, como é evidente, não era possível apresentá-lo assim. Remontei o filme que ficou com 45 minutos», revela Faria de Almeida. No entanto, o esforço foi inglório. A 28 de Fevereiro de 1966 a Censura comunicou ao distribuidor que decidira «suspender o filme por não ser oportuna a sua exibição».
«Eu gosto do filme assim como está mas, quando foi apresentado à Censura que o proibiu, peguei no negativo e depositei-o na Cinemateca». Manuel Faria de Almeida nunca mais fez nenhum filme, embora tenha realizado diversos documentários. A Lourenço Marques só voltou. mais uma vez em trabalho, em 1968. «Fica-se desesperado quando se leva assim um revés. Deixei de pensar em fazer mais filmes». De qualquer forma não fugiu totalmente ao seu destino, traçado desde cedo na terra natal. Foi membro fundador do Cine-Clube de Lourenço Marques em 1957. Mais tarde, contou com o apoio do Fundo do Cinema Nacional para estudar cinema na London School of Film Technique e ganhou o primeiro prémio do Festival Cinestud de Amesterdão, com o filme feito durante o curso, “Streets of Early Sorrow”, inspirado no massacre de Sharpeville na Africa do Sul. Estagiou em França, no IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos) e trabalhou nos arquivos da Cinemateca. Foi presidente da Tobis Portuguesa e do Instituto Português de Cinema, chefiou o Centro de Formação da RTP – Radiotelevisão Portuguesa e participou na criação da Televisão de Macau. Trabalhou ainda no lançamento da Europa TV e da RTP Internacional e passou pela Direcção de Programas e Direcção de Cooperação. Tem várias obras sobre a história do cinema e sobre realização. A qualidade da obra e o currículo do autor justificam a curiosidade sempre que “Catembe” se mostra. Ainda assim, é com modéstia que Manuel Faria de Almeida se apresenta. «Pouca gente sabe que o filme existe, já foi feito há cinquenta anos. Mas quando se diz que vai passar, ainda há muita gente que o vai ver. E claro que há muitos outros que, com certeza, nem se mexem».
Referem-se, de seguida, alguns excertos de uma entrevista que Faria de Almeida concedeu a Maria do Carmo Piçarra em Fevereiro de 2009, publicada numa edição da revista electrónica Doc-On-Line:

MCP: Voltando um pouco atrás, fale-me um pouco do Faria de Almeida cineclubista e depois estudante de cinema. Como surgiu a ideia de ir estudar para fora? Que condições lhe foram colocadas pelo Fundo do Cinema?
FA: Fui um dos sócios fundadores do Cine-Clube de Lourenço Marques. Tínhamos a sorte da censura em Lourenço Marques ser muito boa... Nós passámos “O Couraçado Potemkine”, “A Mãe”, todas essas fitas, em pleno Salazarismo. Em 1958 / 59. Entretanto também gostava de fazer filmes, lia muita coisa, estudava o mais possível os livros que havia.

MCP: É corrente a ideia de que não houve em Portugal um cinema de resistência assumida, ideologicamente, ao Estado Novo mas, tal como o Faria de Almeida, que outros autores terão guardados filmes que não foram vistos? O cinema só se cumpre quando se projecta. Quantas obras estão guardadas sem terem sido projectadas?
FA: Eu fui completamente contra o regime... O Lopes Ribeiro a dada altura queria fazer uma série de filmes sobre os quarenta anos da União Nacional. Queria fazer não sei quantos documentários... Talvez uns dez. E na altura pagava muito bem. Pagava 50 contos ao bolso. Eu não fiz. Não me lembro já o que me tinha proposto mas não fiz. Houve colegas meus que fizeram. Eram 50 contos...


MCP: Enquanto esteve em França, o António da Cunha Telles diligenciou por cá no sentido de conseguir o apoio do Fundo do Cinema ao “Catembe”. Como e quando lhe surgiu a ideia para o filme? E o que o inspirou quanto ao uso do Cinema Directo?
FA: Nesse tempo em Inglaterra o Cinema Directo aparecia e via-se o Dziga Vertov. O Fernando Lopes acaba por fazer o “Belarmino” em Cinema Directo. Não sei... Eu gostava muito do Alain Resnais, do Chris Marker e da Agnès Varda.

MCP: Nesse período o regime procura estimular a realização de filmes que promovam as “províncias ultramarinas” na metrópole.
FA: Mas aí também é importante o Cunha Telles, que tinha ocupado um lugar de chefia na Mocidade Portuguesa – não sei como lhe chamavam…Portanto era uma pessoa que inspirava uma certa confiança ao regime. Então se era ele a propor um filme sobre Lourenço Marques, feito por um realizador natural de Lourenço Marques e que tinha sido bolseiro do Fundo, parecia tudo muito bem.


MCP: O Faria de Almeida continuou a filmar documentários esporadicamente?
FA: Depois houve um período bom em que fui trabalhar para a Telecine. Ai fiz alguns documentários. O “Portugal Desconhecido”, por exemplo, que foi o meu terceiro filme a ganhar o Prémio Paz dos Reis. Fiz, na Telecine, o filme da vida e obra do Ferreira de Castro. Foi um período bom, de trabalho, que eu gostei... Depois houve um período em que havia um homem rico lá em Lourenço Marques que queria fazer em Portugal uma série de cinemas pequenos. Nessa altura os cinemas pequenos eram muito bons. Era o Estúdio, do Império; era o Satélite, do Monumental; onde se podiam exibir filmes de maior qualidade e tinham frequentadores jovens. Comecei a trabalhar para fazer um cinema – que é o Cine-Bolso. Depois deu-se o 25 de Abril e o homem de Moçambique, que era o capitalista, fugiu de lá. Não tinha dinheiro para pagar, uma complicação, e acabou por o vender a uns indianos que puseram lá uns filmes pornográficos. E acabou-se. Aquilo teve para ali quatro ou cinco meses com cinema... Mas enfim, a seguir ao 25 de Abril, também esse tipo de cinema entrou em crise porque começaram a aparecer os filmes semi-pornográficos - o “Emanuelle”, e por aí fora…

MCP: Para o catálogo do ciclo de “Cinema Novo” que a Cinemateca organizou nos anos 80, foi pedido a cada um dos cineastas do movimento que escolhessem os dez filmes portugueses mais importantes de sempre. O Faria de Almeida colocou o  “Catembe” na sua lista. Porquê? Por causa do significado simbólico?
FA: Talvez. Já não me lembro dessa lista mas acho que sim. É importante não esquecer.