terça-feira, agosto 09, 2011

COMO SE AVALIA UM FILME?


Recebi um email de um leitor, com uma pergunta que, com a sua autorização, não resisto a transcrever: «Tenho uma angústia na minha vida (não que seja recente, mas só agora me ocorreu escrever-lhe para a tentar solucionar): não sei avaliar um filme. Isto é, não sei, depois de vê-lo, e ao contrário de si, dizer se é bom ou mau. Problema que me leva a escrever-lhe, por forma a saber, sucintamente, como é que posso fazer para passar a conseguir avaliar um filme quanto à sua qualidade e/ou interesse». O jovem que me escreve tem 19 anos, é aluno do primeiro ano de Direito, mas a pergunta, na sua espontaneidade, traduz o sentimento de perplexidade em que se encontra a maioria das pessoas que tentam orientar-se pelos críticos e ajustar o seu gosto pelo deles. Antes de lhe deixar aqui uma sugestão que talvez o ajude a ver cinema sem angústia, aproveito o exemplo de um filme em cartaz, que mereceu desde uma desprezível estrelinha dos críticos até às quatro (quase obra-prima). Trata-se de mais um filme do prolixo Soderbergh, um realizador que, de tanto filmar e produzir (34 títulos em 25 anos, entre cinema e TV), se esquece de pensar.
Falar de um filme a propósito de 'Confissões de Uma Namorada de Serviço' – que eu fui ver, não por ter ainda qualquer ilusão, depois de ter visto Che, mas porque eu próprio tinha feito um filme sobre o tema – é ser condescendente. No final, um amigo ao meu lado comentou: «O filme acaba de um modo arbitrário: não tem final». Respondi-lhe: o filme não tem final, pela simples razão de que também não tem princípio nem meio; é uma sucessão arbitrária de cenas avulsas, montadas sem qualquer ordem perceptível, frequentemente desfocado e enquadrado (?) de qualquer maneira. Parece que está na moda.
Ora, eu penso que é preciso voltar às coisas básicas. O que se pede a um filme? Antes de mais, que nos conte uma história, «com princípio, meio e fim», como mandava Aristóteles, o pai da crítica de cinema. Depois disso, o critério para o apreciar é simples: é preciso que, do princípio ao fim, nunca se interrompa aquilo a que Coleridge chamou «the suspension of disbelief», isto é, a ilusão de que aquilo a que estamos a assistir se está mesmo a passar, naquele momento, à nossa frente. O que implica duas coisas: nunca nos aborrecermos nem perdermos o fio à meada. Tão simples quanto isto.
Depois, convém que o filme nos acrescente alguma coisa, que seja uma experiência enriquecedora, que nos abra horizontes, que nos ajude a compreender melhor o mundo, e que, por isso, nos suscite o interesse em conhecer melhor o autor e a sua obra. E os críticos, que papel têm nisto tudo? Simples. Deixar-se guiar, sem preconceitos, pelos mesmos critérios, ajudar-nos a identificar os bons filmes e a ver mais longe. Sem perder de vista que, como dizia Éluard, «os artistas dão-nos olhos novos e os críticos óculos para vermos melhor»
António Pedro Vasconcelos in "Sol", 1/8/2011

5 comentários:

Enaldo disse...

É sintomático que alguém que empoucos anos será advogado, promotor de justiça ou juiz chegue às universidades sem ter um mínimo de compreensão daquilo que viu.

Não é culpa dele, mas algo não funciona nos sistemas de ensino.

JC disse...

Tb vi o filme. Depois de ter visto "Tree of Life" e este, acho vou deixar de ir ao cinema por uns tempos. Pelo menos, enquanto me lembrar destes dois.
Abraço

Elisabete Cardoso disse...

Não vi o filme, mas diria ao jovem para não se apoiar muito nos criticos portugueses (que salvo raras excepções são muito tendenciosos e até maus). O segredo é ver, ver e ver cinema. O que é bom para cada um não são necessariamente os filmes mais intelectuais, mas as histórias, actores, etc que nos marcam. Aqueles filmes que vemos e revemos durante anos com o mesmo prazer são os melhores (para nós).

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Muito bom o texto.Tem toda razão.

O Falcão Maltês

José Luís disse...

Também que penso que este texto é mesmo excelente.