sexta-feira, agosto 28, 2015

THE LAST HOUSE ON THE LEFT (2009)

À ÚLTIMA CASA À ESQUERDA
Um filme de DENNIS ILIADIS

Com Garret Dillahunt, Michael Bowen, Josh Cox, Riki Lindhome, Aaron Paul, Sara Paxton, Monica Potter, Tony Goldwyn, Martha MacIsaac, etc.

EUA / 114 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 13/3/2009
Estreia em PORTUGAL: 2/7/2009


If bad people hurt someone you love,
how far would you go to hurt them back?



Esta nova versão de “The Last House On The Left” (1972) é uma das excepções que confirma a regra. E essa regra é a de que a grande maioria dos remakes é inferior ao produto original. Não é o caso aqui. E também, diga-se de passagem, não seria muito difícil melhorar o filme de Wes Craven (que curiosamente produz este segundo filme), atendendo a que se tratava de algo de qualidade muito rasca, que ainda hoje custa a acreditar que se tenha tornado num filme de culto. Talvez devido a todas as proibições que despoletou um pouco por todo o lado, ou talvez pela novidade do argumento, que transforma predadores em presas: os assassinos das duas raparigas irão sucumbir, sem dó nem piedade, às mãos implacáveis dos pais de uma delas. Mas nem a originalidade da história seria aproveitada da melhor maneira. Na verdade, o filme com que Wes Craven debutou em 1972, e para o qual também escreveu o argumento, é algo a que falta practicamente tudo aquilo que é necessário para que, pelo menos, possa ser visto sem grande enfado e com um mínimo de interesse por parte do público. A realização (montagem incluída, também da responsabilidade de Craven), é feita às três pancadas, denotando uma ignorância atroz das mais básicas técnicas cinematográficas; a direcção de actores é péssima; a interpretação idem, idem; até a música utilizada (algo bizarro, que oscila entre o bluegrass e a música country)  é de péssimo mau-gosto.


Dennis Iliadis, o director grego que assina esta nova versão, nasceu em Atenas, tendo passado a sua adolescência em Paris e no Rio de Janeiro. Frequentou a Brown University, em Rhode Island, mudando-se depois para Londres, para a Royal College of Art. Rapidamente ganhou espaço no mundo do cinema, tendo dirigido a sua primeira longa-metragem na Grécia, (“Hardcore”, 2004), um filme sobre prostitutas, que viria a ganhar o Audience Award no Festival de Oldenburg, na Alemanha. Não conheço, pelo que não me é possível emitir qualquer opinião sobre esse filme-estreia. Mas esta segunda incursão na realização (o seu primeiro filme americano), é uma boa surpresa. Pelo menos, Iliadis consegue algo essencial neste tipo de filmes, que é a criação de uma atmosfera forte e credível, que se encontrava completamente ausente no primeiro filme. Longe de ser um grande filme, este “Last House On The Left” tem vários pontos de interesse, sobretudo para os aficcionados  do slash-horror, que começa logo no aproveitamento eficaz do argumento original, eliminando o supérfluo ou o simplesmente anedótico (a parelha dos polícias que anda completamente perdida no primeiro filme). De igual modo, Iliadis substitui o tipo de música, adicionando ao seu filme temas adequados, onde a inquietação e o suspense estão sempre presentes. A direcção de actores é muito boa e, de um modo geral, é de louvar o ritmo e o estilo conseguidos desde os créditos iniciais. Aquela última cena, de tão absurda e gratuita, é que era perfeitamente escusada. É algo que está a mais, que destoa do resto, mesmo que nesse resto existam algumas sequências de extrema violência.


“The Last House On The Left” afasta-se um pouco dos clichés que a grande maioria dos filmes de terror apresenta actualmente, bem como dos maneirismos técnicos comuns a tantos eles. Os movimentos de câmara são precisos e objectivos - o oposto das tremideiras que se verificam em grande parte de filmes do género (uma moda que se deseja passageira, criada por filmes como "REC", Paranormal Activity" e respectivas sequelas) - denotando já uma competência bastante eficaz de Dennis Iliadis, que consegue extrair o máximo de emoção e energia dos seus actores. Estes têm desempenhos francamente bons (talvez Riki Lindhomme, no papel de Sadie, seja a excepção), sobretudo Monica Potter e Tony Goldwyn (os pais de Mari) que dominam o écran na segunda parte do filme, ao levarem a cabo a vingança sobre os assassinos da filha. Para quem nunca viu o filme de 72, um conselho: não gastem tempo (ou sobretudo dinheiro) com ele, porque com toda a certeza saíriam defraudados da experiência. O melhor mesmo é esquecerem que este novo filme é um remake, pelo simples facto de ele possuir o seu mérito próprio, que seguramente merece ser levado em conta. Para os mais impressionáveis, não resisto a citar a publicidade feita para o primeiro filme:

TO AVOID FAINTING
KEEP REPEATING
IT'S ONLY A MOVIE
... ONLY A MOVIE
... ONLY A MOVIE
... ONLY A MOVIE
... 


CURIOSIDADES:

- Numa entrevista de Março de 2009, Sara Paxton revelou que a sequência da violação levou 17 horas a filmar.

- Tony Goldwyn esteve inicialmente relutante em aceitar o papel do pai de Mari, devido à violência descrita no argumento. No entanto, mudou de ideias depois de ver o primeiro filme de Iliadis, “Hardcore” (2004)




Notação do filme de 1972: 

quinta-feira, agosto 27, 2015

PLAYTIME (1967)


PLAY TIME - VIDA MODERNA
Um filme de JACQUES TATI

Com Jacques Tati, Barbara Dennek, Rita Maiden, France Delahalle, Valérie Camille, Erika Dentzler, Nicole Ray, etc.

FRANÇA - ITÁLIA / 
124 min (155) / 16X9 (1.85:1)

Estreia em FRANÇA: 16/12/1967
Estreia em PORTUGAL: Lisboa (cinema Monumental): 15/3/1968


"Playtime" é menos um filme e mais uma tentativa de sucesso que nos pretende encorajar a ver o mundo com novos olhos. Efectivamente a obra-prima intemporal do realizador Jacques Tati tem a ver, do princípio ao fim, com mergulhar o espectador num conjunto totalmente novo de experiências sensoriais. Como nenhuma outro filme, "Playtime" tem o poder de nos fazer questionar as nossas próprias faculdades de ver e ouvir. Conhecido durante anos como um desajeitado Senhor Hulot em grandes obras como "Les Vacances de Monsieur Hulot" [1953] e "Mon Oncle" [1958], Tati era muito mais do que um clown, embora ele representasse esse papel com toda a pose. 

O trabalho cómico de Tati é uma ponte entre o cinema mudo e o sonoro, entre o vaudeville e a era moderna. Mas é pela sua sensibilidade visual que melhor o recordamos. Os gags dos seus filmes não são de modo algum gags, mas estranhos e rápidos momentos que, juntos, nos dão a sensação de que o mundo está ligeiramente distorcido. Quando há bastantes desses momentos - e eles estão literalmente amontoados a cada canto da mise en scène inacreditavelmente densa da obra - começamos a perceber que eles estão ali não tanto para nos fazer rir mas para considerarmos o nosso papel como espectadores.

"Playtime" decorre numa versão fria e clínica de uma cidade futurista, e os cenários altivamente rectilíneos foram construídos a partir do solo e ficaram muito caros. "Playtime" foi um filme imensamente dispendioso - até porque foi rodado em 70 mm - e os seus lucros na bilheteira foram minúsculos, deixando Tati inactivo durante uma década após a sua estrela. Tativille é uma das grandes realizações do design do cenário - ou da megalomania, dependendo da perspectiva de cada um. O cenário tem as suas próprias estradas, sistemas eléctricos e um dos edifícios de escritórios até tinha um elevador que estava operacional. E, desde os dias do Expressionismo Alemão, nunca um cineasta conseguira tanto com a perspectiva forçada: construiu-se cuidadosamente à escala para fazer algo parecer muito mais longe do que realmente está.

O mundo de Tativille é desprovido de emoções, seco e estéril, mas Hulot, que vagueia por meio dele com um divertido alheamento, encontra ocasionalmente pequenas amostras de vida orgânica. Encontra uma vendedora de flores, por exemplo, que traz um pouco de cor àquela cidade cinzenta; e só Hulot é capaz de dar algum sentido à iluminação de rua bizarramente concebida ao comparar o seu formato com o de um pequeno bouquet. "Playtime" tem muito a dizer sobre uma modernidade fria que choca com formas de vida mais velhas e terrenas. A um determinado nível, o filme mostra como o viver da cidade moderna tem potencial para esmagar qualquer réstia de individualidade que uma pessoa possa ainda ter.

As elaboradas piadas visuais de "Playtime" são demasiado numerosas para serem contadas aqui. Basta dizer que quase todo o objecto individual da existência moderna - televisões, carros, supermercados, aeroportos, aspiradores - recebe nova vida e nova forma como objecto cómico. Todos os padrões em "Playtime" entram em ebulição na cena incrível do restaurante, que dura 45 minutos e é tão densa visual e sonoramente que repetir os visionamentos é absolutamente essencial. Mas visionamentos repetidos são simplesmente mais oportunidades de prazer. Nenhum filme oferece uma experiência de visão tão rica como "Playtime".
Ethan de Seife in 1001 Movies You Must See Before You Die, 2003


Segundo as palavras do próprio Tati, "Playtime" é «um filme que o espectador faz para si mesmo». Apelo à actividade, ao valor operacional do nosso olhar, que deve procurar as conexões necessárias entre as figuras e os objectos que atravessam a tela. É esta uma forma de reagir contra a passividade crescente da nossa civilização tecnocrática, com o predomínio de uma imagem regularmente consumida em plena apatia. Perante o carácter espectacular da nossa forma de habitarmos o mundo, Tati reage e produz um filme que exige de nós uma acção, uma intervenção permanente, uma inteligência construtiva. Por isso, a tarefa de ver Tati não é inteiramente fácil: "Playtime" é um filme longo (e na versão original ainda o era mais) e insólito, onde a linha narrativa é sempre anárquica e desnecessária, onde as personagens nunca chegam a ter contornos definidos (excepto Monsieur Hulot, mais por tradição, é certo, e mesmo assim desaparece durante imensas cenas do filme), onde o que primordialmente conta é a unidade de cada sequência organizada em torno de um lugar e do aproveitamento sistemático das sua possibilidades cómicas (espaciais e sonoras).


Paradoxalmente (ou talvez não), Tati, rejeitando a cumplicidade entorpecedora das imagens, reduz o seu filme a uma superfície para ver e ouvir. Todos os efeitos cómicos são de tipo visual ou auditivo, e nunca de tipo linguístico. A palavra quando surge é no prolongamento de uma acção, tem um valor puramente objectivo. E daí advém nova dificuldade para o espectador: estamos todos habituados a um humor que resulta em grande parte do diálogo e das situações provocadas pelo desenvolvimento do diálogo. Aqui, nada disso; Tati engendra todos os seus gags com base em mecanismos visuais ou auditivos e, por vezes, no melhor dos casos, pela integração de uns nos outros. Seria impossível descrever, enumerar, resumir, classificar ou analisar os inúmeros gags que enchem este filme. Basta dizer que a imaginação de Tati é assombrosa, que a sua exploração do espaço como combinação de vários elementos dispersos e contraditórios é extraordinária, ou ainda que a utilização de uma presença agressiva dos sons é exemplar.

Deixando cair um chapéu-de-chuva em pleno Orly («os arquitectos não previram a queda de um chapéu-de-chuva», comentou Tati em particular) ou experimentando os ruídos dos estofos das cadeiras numa sala de espera envidraçada, Tati é sempre surpreendente e invulgar. As cenas capitais são aquelas que se desenrolam no restaurante acabado de inaugurar. A destruição metódica da ordem programada, a desarmonia dos gestos e dos objectos, a disfuncionalidade de um sistema concebido apenas em termos de função, entusiasmam qualquer público do mundo, independentemente do seu maior ou menor conhecimento das leis que geram o cinema. Como expressão cinematográfica, "Playtime" aponta a presença de um autor genial: Jacques Tati. Mas uma primeira impressão é mais do que insuficiente. É preciso rever Tati. Sempre!



quarta-feira, agosto 26, 2015

SOURCE CODE (2011)

O CÓDIGO BASE
Um filme de DUNCAN JONES



Com Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright, Michael Arden, etc.

EUA-CANADA / 93 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 28/3/2011
Estreia em PORTUGAL: 14/4/2011

Colter Stevens: «Christina, what would you do if you knew you had less than one minute to live?»
Christina Warren: «I'd make every second count»

Em 1938, uma jovem tenta provar durante uma viagem de comboio, a existência de uma passageira idosa desaparecida, apesar dos outros passageiros negarem a sua existência. Em 1993, um jornalista da meteorologia vê-se subitamente preso no mesmo dia, sendo obrigado a vivê-lo vezes sem conta. Em 2001, Jake Gyllenhaal descobre um vórtice temporal e recebe mensagens vindas do futuro. Passados dez anos..., imagine agora que abre os olhos e, subitamente, dá por si num comboio rumo a Chicago. Sentada à sua frente encontra-se uma bela rapariga e apesar de não a conhecer de lado algum, ela fala consigo como se fossem velhos amigos. Com a desorientação natural do momento, mal se dá conta da senhora que passa por si e lhe derruba café nos sapatos. A sensação de confusão aumenta quando, nos lavabos do comboio, olha para o espelho e o rosto que vê reflectido não é o seu, apesar de ser o mesmo que se encontra no seu bilhete de identidade. Começa a ficar deveras inquieto, mas antes que consiga perceber o que se passa, o comboio explode.


Volta a abrir os olhos e desta vez encontra-se numa apertada cápsula escura. A sua memória continua difusa. Ouve uma voz vinda de um monitor: «Descobriu a bomba, capitão?» «Qual bomba? Mas onde é que eu estou?», responde de modo trémulo. «A sua localização não interessa, o que importa é localizar a bomba no comboio e descobrir quem é que a colocou. Vamos reenviá-lo... não se esqueça que só tem 8 minutos!» Um clarão e dá por si novamente no mesmo comboio, frente à mesma rapariga, que lhe repete as mesmas palavras. A mesma senhora volta a entornar-lhe café nos sapatos. Tudo se repete, mas tudo parece também ligeiramente diferente. Com mais perguntas do que respostas a correrem-lhe na cabeça, há no entanto uma ideia recorrente que não o larga: «Tens 8 minutos para encontrar a bomba.» Pouco tempo depois, e para complicar ainda um pouco mais as coisas, dizem-lhe que afinal... já morreu há dois meses em combate.



E assim, de explosão em explosão, de constantes "viagens" entre o comboio e a pequena cápsula, o processo repete-se, ad infinitum. É enclausurado entre estes dois intrigantes universos que vive o personagem principal de "Source Code", o capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal), especialista em missões no Afeganistão. Sentimos uma sensação estranha de déjà vu, como se estivéssemos a assistir a uma frenética versão hitchcockiana de "O Feitiço do Tempo". Neste seu segundo filme (o primeiro, dois anos antes, tinha sido o claustrofóbico "Moon - O outro lado da Lua"), Duncan Jones demarca-se definitivamente do estigma de ter um pai tão célebre como é David Bowie, e assina um empolgante e vertiginoso thriller de ficção científica, que o confirma como um dos mais interessantes jovens realizadores da actualidade (nasceu em Londres, a 30 de Maio de 1971).


Tal como Christopher Nolan (apenas um ano mais velho, mas já com uma dezena de filmes em carteira), também Duncan Jones percebeu que é possível seguir as regras de Hollywood e manter o traço inegável de autor. O seu toque pessoal é sentido ao longo do filme, não só por retomar os temas da individualidade e solidão de "Moon", mas pela forma como transforma este "Source Code" num caso de eficiência narrativa. De qualquer modo, para além do seu mérito pessoal, Jones tem que agradecer - e muito - a Ben Ripley, pelo excelente argumento que lhe colocou nas mãos. Como o conceituado crítico Roger Ebert tão bem evidenciou, «Here's a movie where you forgive the preposterous because it takes you to the perplexing» Ou seja, por outras palavras, esqueçam o absurdo ou a inveromilhança da história e deixem-se imergir de livre vontade no prazer e na emoção que "Source Code" transmite. De certeza que darão por muito bem empregue a hora e meia que o filme dura.


POSTERS

PORTFOLIO

terça-feira, agosto 25, 2015

LES VACANCES DE MONSIEUR HULOT (1953)

AS FÉRIAS DO SENHOR HULOT
Um filme de JACQUES TATI

Com Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Louis Pérault, André Dubois, etc.

FRANÇA / 114 min / PB / 
4x3 (1.37:1)

Estreia em França: 25/2/1953
Estreia em PORTUGAL: Lisboa (cinema Tivoli), 22/2/1954




O sr. Hulot chega no seu velho e fumarento carro a uma pacata vila à beira mar. Amistoso, prestável e simpático, Hulot deixa sem querer atrás de si um rastro de caos e desastres. Se abre uma porta um vendaval vira o hotel de pernas para o ar. Um passeio de canoa termina, inevitavelmente, na maior confusão. Se sai a cavalo o animal vira-se contra ele. Uma partida de ténis pode deixar os seus adversários à beira de um ataque de nervos. Um piquenique a bordo do seu carro evolui para uma monumental barafunda, e até na véspera da sua partida consegue despedir-se com um desastre de proporções alarmantes.

Depois de "Há Festa na Aldeia" Jacques Tati assina em 1953 "As Férias do Sr. Hulot", o filme onde nasce a fabulosa personagem de Hulot. Vencedor do Prémio Louis Delluc, nomeado para o Grande Prémio do Festival de Cannes e para o Oscar de Melhor Argumento Original da Academia de Hollywood, "As Férias do Sr. Hulot" é curiosamente um filme construído em torno de situações pitorescas, hilariantes e inesperadas, sem um verdadeiro enredo. Na verdade, Tati limita-se a colocar o seu alter-ego Hulot no meio de uma pacata vila da costa da Normandia para umas férias sossegadas. Um quotidiano relaxante e despreocupado que se vai tornando numa corrente de confusões, incidentes e barafundas à medida que o simpático e prestável Hulot vai atravessando as mais banais situações.

Jacques Tati utilizou tão subtilmente a voz humana neste filme, que chegou a provocar mal-entendidos: alguns espectadores criticaram o “defeito de gravação” que não permitia ouvir distintamente o diálogo dos veraneantes na sala ou no terraço do pequeno hotel. Mas foi intencionalmente que Tati tornou essas conversas quase inaudíveis para revelar a insipidez que as caracterizava. Os hóspedes do hotel são para Tati pessoas insignificantes e sem interesse. A sua quase inexistência revela-se através desta confusão sonora. Tati procura também tirar um certo efeito ao acentuar a sonoridade das informações fornecidas pela rádio, sublinhando assim a solenidade ridícula do locutor.

A cada novo visionamento “Les Vacances de Monsieur Hulot” revela-se um filme cada vez mais conseguido na sua arte de mostrar o modo como o tempo passa para aqueles banhistas da classe média que o acaso reuniu e que o acaso separará. Para Tati, tratava-se de adoptar uma estética relacionada com a matéria psicológica e social que pretendia estudar. Ora, ao longo dos longos dias de lazer, o universo mental dos banhistas revela, devido precisamente à inclusão desse admirável catalisador que é Hulot, a sua inconsistência fundamental e vai diluir-se como se fosse atacado por uma doença desconhecida. Para impor esta densidade do não-ser em plena germinação, era necessária uma estética maleável. Daí a ausência propositada de estruturação dramática, de progressão, de continuidade. Daí, esse maravilhoso rigor na incerteza, essa perfeição do inacabado.

Todas as vezes a que assisti a este filme ímpar sempre o fiz com um sorriso permanente, com uma sensação de felicidade serena. Porque é sempre um prazer ver Tati a manipular de forma genial o seu irónico espírito de observação, capaz de criar uma inesperada e fabulosa perspectiva das situações mais vulgares, enquanto dá forma acabada ao delicioso homem das calças curtas, passadas largas, gestos sincopados, eterno cachimbo e pequeno chapéu, que se tornou numa das mais imortais e geniais criações cómicas de toda a História do Cinema.

Estátua de Jacques Tati junto ao Hotel de la Plage, 
em Saint Marc Sur Mer, onde o filme foi rodado

segunda-feira, agosto 24, 2015

BIO-FILMO: JACQUES TATI

Nascido em Le Pecq, França, a 9 de Outubro de 1908
Falecido em Paris, França, a 4 de Novembro de 1982




Jacques Tatischeff nasceu a 9 de Outubro de 1908, em Le Pecq (França), onde teve uma educação privilegiada. Descendente da aristocracia russa, o seu primeiro trabalho foi ajudar o pai no negócio de emoldurar fotografias. Em adolescente foi um entusiasta do desporto e praticou rugby, ténis e boxe em vários clubes desportivos. Nos vestiários, gostava de entreter os colegas fazendo mímica e comédia. Nos anos 30 participou em peças de teatro e musicais nos teatros parisienses, alcançando grande sucesso. Foi nesta década que realizou a curta-metragem “Gai Dimanche” [1935]. Depois da II Guerra Mundial prosseguiu com a sua carreira de actor e representou pequenos papéis em dois filmes de Claude Autant-Lara, “Sylvie et le Fantôme” [1946] e “Le Diable au Corps” [1947].


Em 1947 escreveu, realizou e protagonizou a curta-metragem “L’École des Facteurs”, uma homenagem prestada aos filmes mudos dos anos 20 que contém referências a Buster Keaton e Charles Chaplin. “Jour de Fête” [1949], a sua primeira longa-metragem, foi um sucesso estrondoso e recebeu críticas muito favoráveis, tendo-lhe sido atribuído o Prémio de Melhor Realizador no Festival de Veneza. Este poderia ter sido o primeiro filme francês a cores mas, por razões técnicas, a versão filmada a cor não pôde ser usada na altura e só viria a público em 1995. Um facto curioso consiste na recusa de Tati em contratar actores profissionais, tendo preferido ensinar actores amadores.


Com a sua primeira obra iniciou-se num tipo de filme do qual nunca se conseguiria distanciar: comédias físicas sem enredo que se assemelham, por vezes, a comédias mudas dos anos 20. São comédias que quase sempre contrapõem o mundo das crianças (no qual Tati se vê reflectido) ao mundo dos adultos, incluindo piadas à burguesia e críticas à implacável marcha da tecnologia, que Tati aborda de um modo brincalhão e muito pouco político. Esse tipo de abordagem, não ofensiva, faz com que os seus filmes sejam apreciados por diferentes públicos e que ninguém se sinta insultado pela sua obra. Outra característica do seu trabalho é explorar a fundo as possibilidades cómicas do som e da imagem para chegar àquilo que constituiu a pintura mais fiel e significativa que o cinema alguma vez realizou da moderna sociedade tecnológica.

O diálogo não é usado para dar informações ao público, mas antes como se fosse mais uma forma de ruído de fundo. É a curiosa interacção entre este ruído de fundo, música e imagem que faz dos seus filmes obras únicas e intemporais. Em 1953 lançou a sua segunda longa-metragem, “Les Vacances de Monsieur Hulot”, que foi igualmente um enorme sucesso, particularmente nos EUA, e que lhe abriu as portas da fama internacional. Pessoalmente, considero "Les Vacances..." o melhor filme do cineasta. Se a perfeição existe, ela certamente que anda por estes lados. É aqui que surge o seu “alter-ego”, que iria entrar em quatro das suas seis longas-metragens: Monsieur Hulot, um homem inofensivo de meia-idade que, sem querer, provoca desastres por onde passa, sem se dar conta da confusão que gera. Hulot é um solitário que não provoca nem grandes ódios nem grandes paixões, tal como Tati

No entanto, o traço que os distingue é o perfeccionismo do realizador que choca com o desleixo da personagem. Monsieur Hulot foi a estrela de “Mon Oncle” [1958], uma sátira sobre a influência da tecnologia na sociedade e na vida familiar. A família central vive numa casa ultra moderna em que tudo funciona através de botões automáticos. As personagens parecem e agem como se fossem máquinas. O filme foi considerado uma obra-prima pelos críticos e marcou o ponto alto da sua carreira, tendo-lhe sido atribuído o Prémio do Júri em Cannes e um Óscar nos EUA para o Melhor Filme Estrangeiro. É o primeiro filme a cores de Tati e, provavelmente, o mais popular de todos.


Em 1967 foi lançado “Playtime”, o seu projecto mais ambicioso. Tati investiu todo o seu dinheiro na produção deste filme, tendo chegado ao ponto de criar um cenário da dimensão de uma pequena cidade (mais tarde apelidada de Tativille). Os críticos não viram com bons olhos as suas tendências megalómanas e, além disso, ao banir os jornalistas de chegar perto do seu cenário, o realizador obteve muita publicidade negativa. Uma tempestade danificou Tativille, obrigando Tati a prolongar as filmagens por vários meses. “Playtime” acabou por ser um fracasso tanto a nível de crítica como a nível de público.

As dívidas contraídas na produção de “Playtime” obrigaram o realizador a parar por uns tempos. Só realizou mais dois filmes e com um orçamento muito mais reduzido: “Trafic” (1971), uma sátira sobre a relação do homem com o automóvel em que Hulot aparece pela última vez; e “Parade” [1974], um filme sobre o circo produzido para a televisão sueca. É evidente que todos os filmes de Tati se inserem num projecto ideológico ambíguo, que têm por tema essa forma de complicar a vida a que chamamos “progresso”. Sentimos isso, num plano quase físico, por um certo desconforto. Oscilando entre um pessimismo resignado e uma ternura pueril, Tati chega por vezes a incomodar. Ele próprio diz que, num mundo dominado pelo objecto técnico, pretende reencontrar «une certaine gentillesse», e Monsieur Hulot é isso mesmo, na sua amabilidade e compreensão tão desinteressadas.

Tati impôs universalmente a personagem de Hulot, que, e isso constitui a sua grande originalidade, não é cómica em si, assumindo antes um simples papel de catalisador para nos fazer ver o que têm de realmente cómico a vida quotidiana e todos os nossos semelhantes que dela fazem parte. Recordemos uma cena de "Trafic" [1971], onde um carro lançado a alta velocidade faz girar sobre si mesmo um polícia de trânsito. Nesse engarrafamento, Hulot desempenha apenas o papel de espectador de primeira fila, com o qual nos podemos indentificar, das diversas reacções dos automobilistas prejudicados: o seu único gesto verdadeiramente cómico, e que pode passar despercebido com facilidade porque é realizado discretamente na última fase da acção, é o de se benzer rapidamente ao passar em frente de um padre, este em primeiro plano, o qual para ver melhor a vela danificada a eleva no gesto típico da consagração. Este gag insólito pode resumir todo o peculiar humor de Tati, baseado no simples e geral princípio de que a comicidade está em nós mesmos, em qualquer um de nós.


Talvez Tati goste da técnica como uma criança: para brincar com ela e ver como funciona, tal como na derradeira cena de “Playtime” os automóveis giram em torno de uma praça ao ritmo de um carrossel. Contudo, a relação do homem com a técnica é sempre inadequada. E, num aspecto mais limitado, Tati reage contra a americanização da vida francesa. Hoje, que a humanidade se encontra cada vez mais apetrechada de tecnologia, numa proporção directamente inversa à sua sociabilidade, faz imensa falta um autor assim, tão genialmente diferente. Como reconhecimento da sua contribuição para o cinema, Jacques Tati recebeu o “César d’Honneur” em 1977. O seu último projecto, com o título provisório de “Confusion”, não chegou a ser terminado porque o realizador morreu entretanto, vítima de uma embolia pulmonar a 4 de Novembro de 1982 em Paris. Passaram-se 30 anos, a obra é curta (demasiado curta) mas a verdade é que Jacques Tati é, e será sempre, um marco fundamental e intemporal na História do Cinema. 


FILMOGRAFIA:

1974 – Parade (TV)
1971 – Trafic / Sim, Sr. Hulot
1967 – Playtime / Play Time: Vida Moderna
1958 – Mon Oncle / O Meu Tio
1953 – Les Vacances de Monsieur Hulot / As Férias do Sr. Hulot
1949 – Jour de Fête / Há Festa na Aldeia