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sábado, agosto 09, 2025

BARRY LYNDON (1975)

BARRY LYNDON
Um filme de STANLEY KUBRICK


Com Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Kruger, Gay Hamilton, Marie Kean, Leonard Rossiter, Philip Stone, Leon Vitali, etc.

GB-EUA / 184 min / COR / 
4x3 (1.85:1)

Estreia na GB e nos EUA a 18/12/1975
Estreia em PORTUGAL (Lisboa) a 25/2/1977 (estúdio Apolo 70)



«Penso que tem de se visualizar completamente o problema de pôr a história que se quer contar no rectângulo luminoso. Começa com a selecção do livro; continua através da criação do tipo correcto de financiamento e das circunstâncias legais e contratuais sob as quais vamos fazer o filme. Prossegue com o casting, a criação do argumento, dos cenários, dos adereços, da fotografia e da representação. E quando o filme já foi todo filmado, ele só está parcialmente terminado. Penso que a montagem é a continuação da realização. Os efeitos musicais, visuais e finalmente as legendas fazem parte do processo de contar uma história. E o repartir destes trabalhos por diferentes pessoas é uma coisa péssima.»   (Stanley Kubrick)


“It was in the reign of George III that the aforesaid personages lived and quarreled; good or bad, handsome or ugly, rich or poor they are all equal now”

“Barry Lyndon” foi dos filmes mais ansiosamente aguardados de Kubrick, que vinha de nos ofertar duas genuínas obras-primas do Cinema: “A Clockwork Orange”, em 1971 e sobretudo “2001: A Space Odyssey” em 1968. Oito anos e cinco meses, foi o tempo que decorreu entre a estreia em Lisboa (no Monumental, a 1 de Outubro de 1968) deste último filme e o aparecimento do “Barry Lyndon” no estúdio Apolo 70 a 25 de Fevereiro de 1977. Tempo  demasiado, quando se pensa que pelo meio até houve uma revolução e que só por causa dela tivemos direito em território nacional a mais um filme do genial realizador, essa “Laranja Mecânica” de contornos maquiavélicos, que se estreou nos cinemas Castil e Império a 29 de Novembro de 1974.

“Barry Lyndon” é um longo fresco de três horas, uma viagem obrigatória e fascinante por dezenas de quadros vivos do século das luzes que nenhuma pintura conseguiu representar tão bem como o fizeram as objectivas de John Alcott (algumas delas especialmente encomendadas à NASA, devido à pouca luz existente na maioria dos interiores – filmados, como se sabe, num processo até aí original, em que apenas velas de cera foram usadas como focos de luz). O filme, rodado nas paisagens naturais da Irlanda e Inglaterra (não se construíram quaisquer cenários) é baseado numa obra de pouca implantação de William D. Thackeray, da qual Kubrick conseguiu extrair o que lá não se vislumbrava sequer (uma das suas capacidades mais comuns, essa de conseguir converter romances medianos em absolutas obras de arte – veja-se o caso idêntico da já citada “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess).

A perplexidade dos críticos face à escolha deste escritor por parte de Kubrick foi exactamente a mesma com que esses críticos reagiram à decoração Luis XVI que envolvia a parte final de “2001: Odisseia no Espaço”. Ora acontece que essa decoração e este romance têm exactamente o mesmo século XVIII por enquadramento, o qual era um período histórico muito querido do cineasta. Relembrem-se, por exemplo, o quadro atrás do qual o Quilty da “Lolita” é morto; o castelo dos “Horizontes de Glória” (cujo luxo contrasta com a atmosfera das trincheiras); ou o casino abandonado da “Laranja Mecânica” (onde o bando rival de Alex tenta violar uma “miudoska” junto a uma pintura pastoral).

Uma das características deste século XVIII, na perspectiva de Kubrick, é a justaposição da violência e da morte à arte nele representada. Em “Barry Lyndon” o cineasta restitui a essa época o seu peso histórico, ressalvando para  plano decorativo toda a ligeireza de uma felicidade frívola e vaporosa. O mundo moderno nasceu efectivamente no século das luzes e Kubrick procura aqui as suas origens. Para ele a obra de arte é um diálogo entre o passado e o futuro e onde o presente se encontra excluído; e este princípio kubrickiano tem qualquer coisa de inquietante e destrutivo, uma vez que privilegia a morte face à vida. Para ele o século XVIII é uma época profundamente minada, esperando por uma destruição próxima e onde por detrás do luxo e dos prazeres reina a morte e a desintegração.

Barry Lyndon, personagem cujo trajecto de vida Kubrick acompanha a par e passo e durante um longo período de tempo, vai envelhecendo lentamente de uma ponta à outra do filme, como se a vida pressagiasse, em cada instante, a morte que virá. Barry não chega a morrer mas fica mutilado e imobilizado numa imagem fixa quando sobe para a carruagem que o irá transportar para fora da história e para fora do filme. E fica-nos apenas a voz-off que nos informa do regresso de Barry à Irlanda para de novo se entregar ao jogo, mas sem o proveito de outrora. E que depois o seu rasto se irá perder...

A ascenção e queda de Edmond Barry (sempre o fascínio do poder e do seu controle como tema constante na obra de Kubrick) sugere-nos uma versão prosaica da aventura napoleónica. O percurso de um jovem rural, com uma ambição desmedida que atravessa o mar para ir combater no continente, sobe rapidamente na vida mundana e depois inicia o processo inverso, acabando isolado na sua ilha natal, lembra-nos inequivocamente a própria vida de Bonaparte. Tal como refere a voz-off no filme, «Barry faz parte dos que nasceram suficientemente inteligentes para alcançarem a fortuna mas que são incapazes de a manter. Porque as qualidades e a energia que levam um homem a cumprir a primeira missão são muitas vezes as mesmas que o levam depois à sua perdição»

Barry Lyndon” é um filme extremamente belo, talvez o esteticamente mais perfeito de Kubrick e mesmo da história do Cinema. É uma beleza que se derrama em todos os nossos sentidos, sem excepção, e que por lá se mantém em cada memória do filme. É por isso que é tão gratificante vê-lo tantas e tantas vezes. E mais uma vez a música teve honras de prima-dona. Tal como “Assim Falava Zarathrusta” ou o “Danúbio Azul” dos Strauss identificava “2001” e a “Nona” do Beethoven ou a “Pega Ladra” do Rossini se colavam para sempre à “Laranja” (não esquecendo o “Singin’ in the Rain”) em “Barry Lyndon” é sobretudo a exaltante “Sarabande” de Handel, que faz deste novo concerto kubrickiano uma soirée inesquecível, que vai do ritmo das marchas e da graça das danças de O’Riada até ao Trio de Schubert. Logo desde o momento da première que a associação entre as imagens e a música ficará para sempre convertida num espelho de dupla face, no qual nos iremos revendo ao longo das nossas vidas.

Mas não é apenas a música a narrar a história ambígua de Edmond Barry. Para além dela temos também a excelência do guarda-roupa, a arquitectura dos salões, dos jardins e dos seus lagos, a conferirem à narrativa a distinção suprema da arte kubrickiana. A câmara de filmar regista toda esta beleza transbordante nos mais pequenos pormenores dos gestos, dos olhares e dos espaços envolventes da ociosidade absoluta de uma classe social com comportamentos de autómato e caras de manequim, que por um espaço de tempo relativamente breve vai tolerar a presença do objecto estranho que Edmond Barry representa, antes de o expulsar e remeter definitivamente às suas origens.

Depois daquele dramático duelo final (que levou qualquer coisa como 42 dias a ficar pronto na mesa de montagem), um dos momentos magistrais de todo o filme (e que curiosamente não constava do livro, foi totalmente inventada por Kubrick) onde uma mis-en-scène de enquadramentos xadrezísticos confere uma dimensão quase épica ao confronto entre padrasto e enteado. Depois do já citado “desaparecimento” de Edmond, vem o epílogo quase fantasmagórico no salão de Lady Lyndon. A ordem aristocrática foi enfim restabelecida e de Barry não restará mais nada que uma pequena nota de pagamento para ser assinada. Uma pausa, uma breve recordação e é tudo.

CURIOSIDADES:

- A rodagem do filme estendeu-se por cerca de 300 dias, durante um período de dois anos, tendo-se iniciado na Irlanda por volta de Junho de 1973. Posteriormente a equipa teve de mudar para Inglaterra por se ter tido conhecimento que o nome de Stanley Kubrick constava numa lista do IRA de alvos a abater.

- Robert Redford foi a primeira escolha de Kubrick para o papel de Barry Lyndon mas o actor recusou. Nessa altura, e devido ao estrondoso êxito de “Love Story” alguns anos antes, Ryan O’Neal era o segundo da lista dos actores mais rentáveis de Hollywood, logo a seguir a Clint Eastwood; e a Warner Bros exigiu ao realizador que o nome do actor escolhido fizesse parte dessa lista, caso contrário não financiaria o filme. Como os restantes nomes do Top 10 eram actores já de certa idade ou inapropriados para o papel, Kubrick não teve outro remédio senão entregar o papel principal a Ryan O’Neal, o qual, diga-se, revelou-se essencial para o desempenho daquela personagem.


- Influenciado certamente por Sergio Leone, Kubrick costumava tocar trechos da banda sonora durante a rodagem das cenas para assim influenciar a representação dos actores.

- Marisa Berenson era apenas um ano mais velha do que Leon Vitali, o actor que faz de seu filho mais velho (Lord Bullingdon). Nos meses que antecederam as filmagens a actriz deixou de se expôr ao sol, seguindo as ordens de Kubrick para desse modo adquirir a palidez necessária ao desempenho de Lady Lyndon.

- O filme foi o vencedor de 4 Oscars: Direcção Artística e Cenários, Cinematografia, Guarda-Roupa e Música. Teve ainda mais 3 nomeações: Filme, Realização e Argumento-Adaptado. O grande vencedor da Academia seria nesse ano "One Flew Over the Cuckoo's Nest", com um total de 5 Oscars. Stanley Kubrick ganharia o BAFTA inglês.







terça-feira, agosto 17, 2010

A CLOCKWORK ORANGE (1971)

LARANJA MECÂNICA
Um filme de STANLEY KUBRICK

Com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, James Marcus

GB-EUA / 136 min / COR / 
16X9 (1.66:1)

Estreia nos EUA a 19/12/1971
Estreia na GB a 13/1/1972
Estreia em Moçambique: 27/7/1974 
(LM, cinema Scala)
Estreia em Portugal a 29/11/1974 
(Cinemas Castil e Império)



Alex: «Viddy well, little brother. Viddy well»


“As aventuras de um jovem cujos principais interesses são a violação, a ultra-violência e Beethoven"

Assim rezava a publicidade a este pesadelo Orwelliano capturado em filme por Stanley Kubrick. O realizador acrescentava tratar-se de uma sátira social sobre o condicionalismo psicológico, um conto de fadas sobre o castigo, enfim uma história construída à volta de um mito fundamental da natureza humana. Mas o cinéfilo mais elementar sabia já na altura que as explicações pouco importavam. O que interessava, realmente, em primeiro e último lugar, era que se tratava de um filme de Stanley Kubrick. Tudo o mais era acessório.

Deve ter sido o filme por cujo visionamento mais esperei (e desesperei) em toda a minha vida. E que mais dinheiro me fez saír das algibeiras. Depois de uma ante-estreia nos EUA, em 19 de Dezembro de 1971, o filme faria a sua estreia comercial em Londres, logo no início de 1972, a 13 de Janeiro, quase quatro anos depois da estreia do último Kubrick, o também inesquecível “2001 Odisseia no Espaço”.

Os ecos do estrondoso êxito depressa chegaram aos quatro cantos do mundo, inclusivé, claro, a Moçambique, onde então eu me encontrava a viver. Tendo já, nessa altura, uma admiração ilimitada pela obra conhecida do realizador (por causa da sua “Lolita”, “Dr. Strangelove”, “Horizontes de Glória” e acima de todos o já citado “2001”), comecei a ler sofregamente tudo quanto conseguia encontrar sobre o novo filme o qual, sabia-se então demasiado bem, nunca iria ser visto em telas portuguesas.

O tempo passava, a lenda crescia e a vontade de ver aquele filme passava a obsessão. Até que no Verão de 73 vim de férias à metrópole e a distância para Inglaterra reduziu-se drasticamente. Era chegada a altura, até porque já corriam rumores que o filme iria sair de cartaz brevemente devido a todo o tipo de pressões a que fora sujeito durante aquele ano e meio de exibição em terras de Sua Majestade. Finalmente, uma quinta-feira, dia 30 de Agosto de 1973, apanhava o avião rumo a Londres. E no dia seguinte, logo ao início da tarde, dirigi-me ao local onde o filme estava a ser exibido. Era um complexo de três ou quatro pequenas salas chamado Cinecenta, não muito longe de Picadilly Circus. Comprei o bilhetinho mágico e sentei-me. A grande espera tinha chegado ao fim.

«There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, 
Georgie, and Dim, and we sat in the Korova Milkbar trying 
to make up our rassoodocks what to do with the evening, 
a flip dark chill winter bastard though dry»

Era esta a primeira frase do filme, dita após um encadeado de cores (vermelho, azul e laranja) introduzirem, ao som da música para o funeral da Queen Mary de Henry Purcell, um grande plano do rosto maquiavélico de Malcolm McDowell e iniciarem um longo travelling para trás, percorrendo todo o Milk Bar Korova.

Mesmo sem dominar muito bem na altura a língua inglesa (e ainda com a agravante do calão “inventado” para os diálogos) a expectativa foi largamente excedida - aquele punhado de imagens e sons deixou-me completamente siderado, desde a frase inicial até à derradeira «I was cured, all right!». Resultado: passei ali o resto do dia, tendo visto o filme mais duas vezes de seguida. E nas vésperas de regressar a Portugal, alguns dias depois, iria ainda despedir-me num quarto e último visionamento e comprar também o LP da banda sonora para me acompanhar na viagem (depois, ao longo dos anos, perderia de vez a conta das vezes a que assisti a este filme – mas têm sido umas larguissimas dezenas).

Felizmente a censura então existente em Portugal não chegava ao ponto de nos impedir de viajar e por isso abençoada hora a que resolvi ir a Londres; é que, passado pouco tempo, foi mesmo o próprio realizador quem mandou retirar o filme do circuito de exibição em Inglaterra devido inclusivé a ameaças de morte frequentemente recebidas. Na altura Kubrick afirmou que apenas depois da sua morte o filme poderia regressar aos écrans ingleses. O que veio efectivamente a suceder - só após o falecimento do realizador, a 7 de Março de 1999, é que "A Clockwork Orange" voltou a ser exibido legalmente em Inglaterra – foram 25 anos em que muita cópia pirata deve ter circulado de mão em mão. Em Portugal, entretanto, teve de ser feita uma revolução para o filme poder pisar solo lusitano, em Novembro de 1974 (em Moçambique apareceu ainda antes, em fins de Julho, onde o vi mais duas vezes no Teatro Scala de Lourenço Marques - lembro-me perfeitamente de ostentar para com os amigos uma atitude um tanto ou quanto "superior", por já ter visto quatro vezes algo que eles iam assistir em primeirissima mão e cerca de um ano depois!)

Muitas foram as discussões, as mesas redondas que em diversos países foram confrontando os aspectos sociais, morais e políticos que o filme abordava. O próprio Kubrick contribuía, embora involuntariamente, para esses intermináveis dossiers de opinião através das várias entrevistas que concedeu na época. Essas questões, de interesse reduzido ou mesmo nulo para a compreensão do filme, andavam sempre à volta da violência ou da frágil flor de estufa do chamado livre-arbítrio. E os debates eram tanto mais anacrónicos quando eles próprios aparecem corporizados no próprio filme (nas figuras do capelão, do ministro e do escritor, entre outros). 

Nada disto interessava realmente, porque sendo o filme sempre circular, todas as teses e todas as antíteses se anulam ou voltam para trás; de facto, os polícias comportam-se como vadios e os vadios passam a ser bravos polícias. O ministro do Interior conservador e o escritor trabalhista manipulam Alex da mesma forma. Esta forma circular do filme acentua ainda a busca sempre recomeçada e nunca satisfeita do desejo: a sexualidade instaura-se pela via da carência. Se o percurso de Alex é completamente frenético, entre a imaturidade e o desejo nunca satisfeito, é porque ele tem tudo a dar e a receber ao mesmo tempo de si mesmo. Alex tem de inventar completamente o seu Édipo, se assim se pode dizer, porque tem como progenitores uns pobres de espírito.

“2001” foi até onde Hollywood nunca chegou e “A Clockwork Orange” agita-se alegremente onde Hollywood mil vezes nos conduziu: à violência, ao espectáculo, à sublimação, à catarse..., mas reinventa-os! Kubrick mistura livremente o chocante e o irónico com o humor negro. O personagem do guarda da prisão (Michael Bates) parece saído directamente dum sketch dos Monty Phyton, enquanto que os pais de Alex são basicamente estúpidos e embuídos de um sentimentalismo piegas. No quarto Alex tem uma escultura representando um conjunto de Cristos em posição de chorus line e comete um assassínio com uma escultura fálica.

A contribuição de “A Clockwork Orange” para a quebra de antigos tabus no Cinema não foi feita apenas através da nudez e da violência sexual apresentadas, mas sobretudo pela estética geral do filme onde se destacam os originais e bizarros cenários e uma atitude misantrópica que envolve anarquia, sadismo, comédia negra e um profundo cinismo do poder governamental. Neste filme a sistemática desmontagem dos mitos e dos símbolos, das instituições e dos seus processos tem uma dimensão épica.

E esse processo é-nos apresentado em sucessivos quadros em que, à importância da imagem, da cor, do movimento e das palavras, a música e a sonoridade assumem integralmente a importância da sua parte. Filme de som, de sonoridade, em que a música é projectada para além do espaço criado pelas imagens e para além do espaço imaginado pelo espectador.

Ainda as palavras de Kubrick: «as aventuras de Alex são uma espécie de mito psicológico. O nosso subconsciente encontra alívio em Alex como o encontra nos sonhos. Sofre ao ver Alex amordaçado e castigado pelas autoridades, enquanto uma boa parte do nosso consciente confessa que é necessário que assim seja». Esta afirmação de Kubrick contem a ideia retomada de diversas maneiras pelos críticos: O público que aplaude uma dada passagem violenta ou erótica não se apercebe que o sujeito do filme é ele próprio... jogo irónico de reflexos entre o público e o objecto da sua fascinação - o sexo e a violência.

CURIOSIDADES:

- Kubrick chegou a afirmar que se Malcolm McDowell não se encontrasse disponível, provavelmente nunca teria realizado o filme. O realizador tinha visto quatro ou cinco vezes “If” (um filme de Lindsay Anderson, que acabara de lançar o actor num personagem – Mike Travis – retomado depois em “O Lucky Man” e mais tarde em “Britannia Hospital”) e só descansou quando conseguiu a colaboração de Malcolm.

- As esculturas no Bar Korova são da autoria da artista Liz Jones, que se inspirou em trabalhos de Allen Jones.

- Devido à coagulação do leite sob as luzes do estúdio, Kubrick exigiu que de hora a hora todos os copos fossem esvaziados, lavados e enchidos de novo. Nas paredes do Bar encontram-se diversos quadros, um deles a pintura de uma mulher nua. Esse mesmo quadro aparece em “The Shinning”, realizado por Kubrick em 1980.

- No livro, o apelido de Alex nunca é revelado. "DeLarge" é uma referência a uma passagem no livro na qual Alex se denomina a si próprio "Alexander the Large" enquanto se entretem a violar duas moças de 10 anos (no filme têm bastante mais idade).

- Durante a filmagem da cena do tratamento Ludovico, Malcolm McDowell sofreu um arranhão numa das córneas, tendo ficado temporariamente cego. Na cena da humilhação em palco partiu duas costelas. E na cena em que os antigos compinchas (agora polícias) lhe mergulham a cabeça num fétido bebedouro de porcos, ia-se afogando dado toda aquela sequência ter sido filmada num só take, sem interrupções.

- A cobra de estimação de Alex (Basil) foi introduzida por Kubrick no filme ao aperceber-se de que Malcolm tinha a fobia de répteis.

- A banda sonora de “2001: A Space Odyssey / 2001: Odisseia no Espaço” (filme realizado por Kubrick em 1968) encontra-se bem visível no escaparate da loja de discos. Outras capas de discos que com alguma atenção se podem ver na loja: “Lorca” (Tim Buckley), “Atom Heart Mother” (Pink Floyd), “Déjà Vu” (Crosby Stills Nash & Young), ou “After The Gold Rush” (Neil Young), tudo albuns de 1970.

- Antes de Kubrick se envolver no projecto, Mick Jagger chegou a ser abordado para o desempenho principal, ficando os droogs a cargo dos restantes Stones. Tim Curry e Jeremy Irons recusaram também o papel.

- A cena de violação em casa do escritor é baseada num ataque que quatro GIs americanos levaram a cabo contra a mulher do autor do livro, Anthony Burgess, quando o casal se encontrava a viver na Malásia. Em consequência dessa agressão mulher viria a sofrer um aborto.

- No filme, as referências fálicas abundam: a cobra a subir por entre as pernas da mulher do poster; os chupa-chupas das moças na loja de discos; a ponta da bengala de Alex; o objecto de "arte" usado por Alex para matar a mulher dos gatos.

- Malcolm McDowell escolheu a canção "Singin' in the Rain" para entoar durante a cena da violação, porque era a única da qual sabia a letra, resolvendo deste modo o problema de Kubrick que já desesperava pela melhor maneira de filmar essa cena.

- O automóvel usado pelo gang chamou-se “Adams Probe 16” tendo só sido feitos três modelos.

- Para filmar a tentativa de suicídio de Alex, sob a perspectiva do próprio, foram atiradas 6 câmeras Newman Sinclair do edifício até que se conseguisse captar a chegada ao solo em posição frontal.

- De acordo com Malcolm McDowell a cena acelerada de sexo a três, ao som da “abertura de Guilherme Tell”, e que no filme dura 1 minuto e 20 segundos, levou 28 minutos a ser filmada.

- A cena em que Julian (um treinador de body building chamado David Prowse) leva Alex ao colo desde a entrada até à sala interior da casa do escritor foi filmada 48 vezes. Prowse ficou de tal maneira exausto que Kubrick "condescendeu" um pouco na filmagem da cena seguinte em que Prowse transporta o escritor em cadeira de rodas – foram apenas necessárias 6 takes.

- A linguagem falada por Alex e o seu bando foi inventada por Anthony Burgess, que a apelidou de "Nadsat": uma mistura de inglês, russo e calão. Algumas das palavras são tiradas directamente da língua russa: droog (amigo), malchick (rapaz), korova (vaca) ou moloko (leite). Kubrick chegou a recear o uso excessivo de tal linguagem no filme, tornando-o pouco perceptível para o público. Tal receio veio a revelar-se totalmente infundado.

- O nome do filme, "A Clockwork Orange", é baseado numa expressão coloquial britânica, «as queer as a clockwork orange» («tão original como uma laranja mecânica»).

- O filme foi nomeado para 4 Oscars: Filme, Realização, Montagem e Argumento-Adaptado, não tendo conseguido qualquer uma das estatuetas. Mais uma vez a Academia mandava às urtigas um filme charneira da história do Cinema. Tal como em Inglaterra, onde também só teve direito a nomeações (sete), para os BAFTA. Prémios só viriam da parte de críticos (de Nova Iorque e Kansas City) e jornalistas (do Sindicato Italiano).

- Em 2007, o American Film Institute classificou “A Clockwork Orange” no 70º lugar dos Melhores Filmes de Todos os Tempos.