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sexta-feira, julho 18, 2025

YOUNG FRANKENSTEIN (1974)

FRANKENSTEIN JÚNIOR
Um filme de MEL BROOKS




Com Gene Wilder, Peter Boyle, Marty Feldman, Madeline Kahn, Teri Garr, Cloris Leachman, Kenneth Mars, etc.


EUA / 106 min / PB / 
16X9 (1.85:1)


Estreia nos EUA a 15/12/1974
Estreia em PORTUGAL (Lisboa) a 26/6/1975 (cinema Condes)



Dr. Frederick Frankenstein: «I am not a Frankenstein. I'm a Fronkonsteen»

O tratamento renovado de um tema tão solidamente implantado no cinema como é o de Frankenstein é tarefa onde já falharam imensos realizadores. Mais ou menos fiéis ao romance de Mary Shelley, grande parte dessas tentativas de reinvenção do mito ao longo dos anos têm-se perdido num falso terror de pacotilha, num desrespeito total pelo espírito que presidiu à criação do personagem. Por isso foi com algum cepticismo que me desloquei ao cinema Condes, em Lisboa, naquela segunda-feira, dia 30 de Junho de 1975, para assistir a este filme. Ainda por cima tratava-se de uma comédia, e assinada por alguém que me era completamente desconhecido. É que apesar de ser já a sua quarta longa-metragem, “Young Frankenstein” foi o primeiro filme de Mel Brooks a ser exibido em solo lusitano. Era por isso uma estreia absoluta.

A surpresa revelou-se total e... deliciosa! Posso mesmo dizer que foi das vezes em que uma ideia pré-concebida se viu completamente estilhaçada por aquela autêntica revelação - um humor corrosivo e delirante que conseguia dar uma volta de 180 graus ao romance original sem nunca o agredir. Pelo contrário, Mel Brooks serve-se dele como veículo de reconstrução e homenagem aos filmes de James Whale dos anos 30, conseguindo algo que iria perdurar para sempre na história do cinema. Essencialmente, Brooks pegou em dois clássicos eternos dos filmes de terror (“Frankenstein” de 1931 e “The Bride of Frankenstein” de 1935) e fez com eles um outro clássico absoluto, agora nos domínios da comédia. A par de “Blazing Saddles” (curiosamente do mesmo ano e também uma homenagem satírica, desta vez ao western), “Young Frankenstein” permanece como a obra máxima de Brooks, mais de cinco décadas depois.

A história começou a ser escrita por Gene Wilder, muito antes de Mel Brooks entrar em cena e partilhar com ele a autoria do argumento. Anunciado como The scariest comedy of all time!”, o filme fala-nos do regresso do neto do barão de Frankenstein, Frederick (Gene Wilder) à terra natal dos seus antepassados para tomar posse do legado que lhe foi deixado pelo avô. Neuro-cirurgião famoso, professor de medicina numa universidade americana, Frederick (que prefere que o tratem por Fronkonsteen devido aos embaraçosos antecedentes familiares), despede-se da sua noiva, Elizabeth (Madeline Kahn) antes de embarcar no comboio que o levará até à Transylvania.

Para além do castelo o testamento contempla também Igor (Marty Feldman, numa actuação histórica, que se confunde com o próprio filme), neto do criado do barão, e que arranja uma assistente, chamada Inga (Teri Garr), para o seu novo amo. Quando chegam ao castelo são recebidos por uma governanta, Frau Blücker (Cloris Leachman), antiga amante do barão de Frankenstein. A breve trecho Frederick descobrirá o gabinete de trabalho do seu avô, bem como o diário onde o barão registou todas as suas experiências médicas. A tentação de criar vida a partir da morte está nos genes da família e rapidamente Frederick deita mãos ao trabalho visando a criação de um novo ser. Mas uma acidental troca de cérebros irá desencadear resultados catastróficos, só que, desta vez ...hilariantes!

Gags visuais (como a bossa deslizante de Igor) e sonoros (o relinchar dos cavalos sempre que o nome Blücker é pronunciado), diálogos brilhantes e irreverentes, uma fotografia fabulosamente iluminada a preto e branco, actores dirigidos com mão de mestre e que se sentem como peixes na água, tudo se conjuga harmoniosamente, para conferir a “Young Frankenstein” uma saudável alegria, um piscar de olhos aos cinéfilos da plateia. Algumas das situações são verdadeiros achados, como o encontro do monstro (Peter Boyle) com o eremita cego (um bem disfarçado Gene Hackman), a apresentação ao público em toada de music-hall (“Puttin’ On the Ritz”, de Irving Berlin) ou quando Elizabeth, a puritana noiva de Frederick entretanto chegada ao castelo, se deixa possuír pela criatura, por entre gorgeios voluptuosos de ópera («Oh, sweet mystery of life at last I've found you! At last, I know the secret of it all!»).

Se, classicamente, o monstro é imolado pelo fogo e destruído, neste filme o final é totalmente diferente. Para remediar o mal feito, Frederick troca o seu brilhante cérebro com o da criatura, a qual acaba por desposar Elizabeth. Vêmo-la bamboleando-se ao jeito das vamps do cinema americano (e com um arranjo capilar a evocar a “Noiva de Frankenstein”) a caminho do leito nupcial, onde a espera o antigo monstro, agora convertido num exemplar burguês. Quanto a Frederick, acaba por ficar no castelo e no leito de Inga, a qual, num derradeiro e divertido gag, acaba por descobrir que afinal o professor ganhou algo bem mais valioso (pelo menos para ela) na troca de cérebros efectuada.

Resta acrescentar o rigor com que os cenários são concebidos, no mais perfeito estilo do cinema de terror, do castelo de portas com batentes gigantescos aos corredores com teias de aranhas, e às próprias ruas da cidade com uma atmosfera capaz de acordar em nós reminiscências do expressionismo alemão dos anos 20. Cinema de puro divertimento, mas que consegue fazer a revisão cuidadosa da matéria dada: um mito fundamental do cinema de terror, que vem das nossas raízes cinéfilas, e que povoará para sempre as nossas memórias.

CURIOSIDADES:

- O cenário do laboratório do castelo é o mesmo onde foi rodado o original “Frankenstein”.

- Na sequência de abertura, em que a câmara vai lentamente descobrir o túmulo do barão de Frankenstein, o relógio existente na cripta assinala a meia-noite mas ouvem-se 13 badaladas em vez das esperadas doze.

 - No final do encontro do monstro com o eremita cego, este vem à porta gritar-lhe «I was gonna make espress». Tal réplica foi improvisada por Gene Hackman, cujo nome não apareceu nos créditos finais quando o filme foi exibido pela primeira vez. Consta que muita gente não reconheceu o conhecido actor.


- Durante as filmagens era frequente os actores desmancharem-se a rir, o que originou muitos takes extras de várias cenas. Esses momentos podem ser vistos no documentário que acompanha a edição do filme em DVD e Blu-Ray.

- Em 2006 a revista Premiere incluiu “Young Frankenstein” na lista das melhores 50 comédias de todos os tempos.

- Os elementos da banda Aerosmith foram assistir ao filme numa pausa das gravações de um novo album. Steven Tyler escreveu na manhã seguinte o tema “Walk This Way”, inspirado pelo gag de Marty Feldman ao descer a escada da estação de comboio juntamente com Gene Wilder.

- “Young Frankenstein” foi nomeado para 2 Óscares (Som e Argumento-adaptado) e para 2 Globos de Ouro (Filme Musical ou Comédia e Actriz Secundária – Madeline Kahn).

- A versão musical de “Young Frankenstein” estreou-se na Broadway, no Hilton Theater de Nova Iorque, a 8 de Novembro de 2007, tendo estado mais de um ano em cena.

- Todos os actores do filme já faleceram. O realizador Mel Brooks é o único que ainda se encontra vivo: completou 99 anos no passado dia 28 de Junho.



LOBBY CARDS:

sábado, fevereiro 18, 2017

ONE FROM THE HEART (1982)

DO FUNDO DO CORAÇÃO
Um filme de FRANCIS FORD COPPOLA

Com Frederic Forrest, Teri Garr, Raul Julia, Nastassja Kinski, Harry Dean Stanton, Lainie Kazan

EUA / 107 min / COR / 4X3 (1.37:1)

Estreia nos EUA a 15/1/1982 
(Radio City Music Hall, New York)
Estreia em PORTUGAL a 23/3/1983 
(Cinemas Apolo 70 e Satélite, Lisboa)



“One From the Heart” é uma fábula romântica, um filme de Disney
num mundo de adultos” (Francis Ford Coppola)
Hank: «If I could sing, I'd sing. I can't sing, Frannie!»

Foi em Tóquio que Coppola leu, pela primeira vez, o argumento de Armyan Bernstein que daria origem a “One From the Heart”. A acção desenrolava-se em Chicago e contava de uma forma muito simples e bela, segundo o cineasta, a história de dois casais. Profundamente influenciado pelos espectáculos kabuki, Coppola quer introduzir no filme o máximo de artifício possível e decide transferir a acção para Las Vegas.

Tudo parecia simples, até que Coppola se explicou melhor. Na sua visão a história simples e bela teria de adquirir foros de fantasia e Las Vegas teria de se transformar na ideia de Las Vegas e numa metáfora da América. Las Vegas tinha que ter a realidade de um sonho, a que só o estúdio e o cinema electrónico podiam dar asas. E deram. Coppola teve, nos seus estúdios de Hollywood, a Las Vegas que só há no mundo das ideias.

«Tenho de dizer que, em muitos aspectos, “One From the Heart” foi o antidoto para “Apocalypse Now”. Aquele filme tinha sido tão dificil de fazer; tão estranho e assustador, que eu quis fazer um filme que fosse o seu oposto. Algo mais como uma fábula; mais como as comédias musicais que eu costumava dirigir na universidade. E também, nos últimos dias de “Apocalypse Now”, eu tinha chegado à conclusão que o cinema estava prestes a passar por uma extraordinária mudança, na medida em que estava pronto para se tornar electrónico. Eu tinha a certeza que os filmes iam ser rodados e montados digitalmente. e que iriam ser capazes de utilizar muitas das vantagens do meio electrónico. Fiquei muito entusiasmado com a criação de um "estúdio do futuro", que permitisse combinar elementos do teatro, da música e da dança e, ao mesmo tempo, que fosse capaz de usar elementos cinematográficos de montagem e realização.»

Em “One From the Heart” a tecnologia (o cinema electrónico) é a agulha que muda a direcção do cinema de Coppola. Dito de outro modo, a direcção visível em “Apocalypse Now” encontra finalmente o seu terreno exacto: o palco, a teatralização, o espectáculo total. O que se exige aos actores é que eles ensaiem e representem como no teatro, reaprendendo o valor da duração de cada cena, em vez de se apoiarem na fragmentação e na montagem convencional do cinema americano. O que vale também para a equipa técnica do filme, sobretudo na valorização extrema da luz.

Lembremos Coppola, uma vez mais: «A luz é, a meu ver, a base do meu trabalho. Quando era criança, gostava de regular a iluminação. Antes de começar “One From the Heart” sentia-me como um pintor que fosse tratar um assunto comum e não desejasse acrescentar uma dimensão suplementar a tudo o que sobre esse assunto já se vira antes, mas que quisesse concentrar todos os seus esforços no estilo do quadro. E a luz fazia parte da minha pesquisa estética.»

A referência ao escritor Goethe é uma constante no discurso de Coppola«Para as cores nós estudámos o seu impacto e os laços com as noções de masculino e feminino, que existem, segundo Goethe, em todos os domínios da natureza e da física. O vermelho, por exemplo, está sempre associado com o que estimula o nosso sistema hormonal para nos despertar, para fazer bater mais depressa o nosso coração. O azul ou o verde, pelo contrário, encorajam esse mesmo sistema ao repouso e à calma. É por isso que em Las Vegas utilizam cores intensas durante a noite para que continuemos a jogar até de madrugada. Nessa base, escolhemos o vermelho para Franny e o verde para Hank.»

Começando de uma forma majestosa com aquele plano muito elevado do deserto, onde as dunas parecem corpos de amantes e onde as luzes das ruas de Las Vegas podem ser a nossa última cartada em cima da mesa, numa desesperada aposta na felicidade, “One From the Heart” é no fundo uma evocação, tocante e bela, de uma forma de fazer cinema numa Hollywood há muito desaparecida. Hoje em dia, em que a maioria dos décors são criados por computador, em que se usam (e abusam) dos efeitos digitais, recordar “One From The Heart” é constatar, uma vez mais, que os grandes criadores estão sempre um passo à frente da sua época. “One From the Heart” é um filme que adora a magia e a teatralidade dos cenários, dos mundos do faz-de-conta, onde uma simples alteração da iluminação pode tornar as paredes transparentes. Como se fossem não apenas um espaço real mas também estados de espírito.

Melodrama com evidentes reflexos do universo operático, “One From the Heart” é uma obra de pura ilusão e, por isso, de pura verdade. Tudo é ilusão, parece dizer-nos o foco de luz sobre a cortina que se abre para deixar ver não se sabe se o palco se o mundo. As coisas são ilusórias? Que importa se não são as coisas o seu suporte, mas sim o desejo das coisas e do que está para além das coisas? Tudo é ilusão e há mundos que, à semelhança da mais bela das raparigas, se desvanecem como spit on the grill.

Ainda uma final e justa referência à fabulosa banda sonora (disponibilizada neste blog, numa edição especial), onde a música de Tom Waits é de capital importância na integração perfeita das canções com o enredo do filme. Coppola disse na altura a Tom Waits que as pegadas que se viam na areia, logo no genérico inicial, eram as pegadas de Zeus e Hera. E que o filme era essencialmente sobre a influência dos deuses nos sentimentos dos seres humanos. Seguindo esse conceito, todas as canções foram gravadas antes do início da rodagem e usadas depois à medida que as cenas iam sendo filmadas.

“One From the Heart” não foi só um desastre. Foi, isso sim, o dilúvio: um cataclismo financeiro. Sem exagero, pode dizer-se que não ficou pedra sobre pedra na utopia de Francis Ford Coppola. Os números da box-office são, de resto, o mais cruel testemunho: dos vinte e seis milhões investidos, apenas uns irrisórios trezentos mil dólares foram recuperados. Em Hollywood coisas como esta, pagam-se. Os nomes associados a fiascos semelhantes vão tradicionalmente para a “lista negra” dos produtores.

Mas Coppola conseguiu resistir. Mesmo à beira da falência total a lendária energia do cineasta veio uma vez mais em seu auxílio: «Em vez de ser 'chagado' durante seis meses por ter cometido o pecado de fazer um filme que eu queria fazer, escapei-me para Tulsa com uma data de malta nova, para não ter que ouvir os “sofisticados”. Em vez de me estar a preocupar, pus-me a trabalhar, a pensar que um aumento na produção me poderia salvar. Tínhamos feito muita experimentação electrónica, que iria dar frutos; e poderíamos, nessa altura, fazer filmes com orçamentos modestos e controlados. Foi o que sucedeu. “The Outsiders” fez dinheiro suficiente, numa altura em que eu precisava de bastante.»



CURIOSIDADES:

- A única versão que existe em DVD foi editada em 2004. Não é a versão original que passou nos cinemas, mas sim uma remontagem feita na altura por Coppola, em que foram retiradas algumas cenas e acrescentadas outras. As sequências originais alteradas aparecem integralmente num DVD de extras.