Nascido a 5 de Dezembro de 1890, em Viena
Falecido a 2 de Agosto de 1976, em Los Angeles, EUA
Poucos cineastas marcaram tanto a sua época, pela amplitude e extrema coêrencia da sua obra, como Fritz Lang. Inventor de uma «escrita» cinematográfica, ele demonstra, logo nos seus primeiros filmes que, diferentemente do teatro, o cinema só funciona sobre efeitos, imagens, fragmentos de sequências…
Lang tornou-se a figura de referência da Nouvelle Vague: para Godard “Ele é o cinema”, para Rivette “Os filmes de Fritz Lang oferecem o exemplo mais preciso, a concepção mais alta e a mais ambiciosa de realização”.
Num ensaio de Henri Langlois, o lendário fundador da Cinemateca Francesa escreve: “O que há de notável na obra de Murnau é a sua mobilidade. O que há de notável na obra de Fritz Lang é a sua estabilidade.” No contexto, Langlois refere-se à diversidade da obra do primeiro e à unidade da obra do segundo, escavando sempre no mesmo sentido. Mas é possível ler a frase doutro modo e considerar cada um dos filmes de Murnau como uma variação rimada sobre dado tema (a poesia de que um dia falou Godard) e os filmes de Fritz Lang como a sólida implantação arquitectónica duma inabalável estrutura.
Por isso, a obra de Lang é também a duma partilha entre a luz e as sombras, retirando da sua formação plástica e, mais tarde, das teorias de Gordon Craig, o sentido profundo da oposição entre uma e outras, oposição no interior da qual se joga e se perde o homem na sua dimensão individual ("Matou", "Só Vivemos Uma Vez", "Feras Humanas") ou colectiva ("Metropolis", "Fúria", "Os Carrascos Também Morrem"). Daí a sua adesão-recusa do expressionismo. Tocado pela sua veemência, pelos seus monstros semi-divinos e semi-humanas (os vários Mabuse, os nazis dos filmes dos anos 40), Lang nunca aderiu à deformação do real implícita em tal estética.
Fritz Lang nasceu a 5 de Dezembro de 1890, em Viena. O pai era arquitecto e, desde muito cedo, Lang foi atraído pelas artes plásticas, estudando pintura e desenho em Viena na Academia de Artes Gráficas e depois em Munique.
Em 1911-1912 inicia a partir de Munique uma longa viagem pelo mundo. Em 1913 instala-se em Paris onde ganha a vida como pintor de bilhetes postais e caricaturas. Fez a guerra e foi gravemente ferido (perdeu um olho). No hospital, começou a interessar-se pelo cinema e escreveu vários argumentos para Joe May na senda do filme fantástico e demoníaco.
O mais célebre é "Hilde Warren und der Tod" em que ele próprio veio a ser actor, no papel da Morte. O êxito deste argumento levou Erich Pommer, o patrão da DECLA, a contratá-lo. Em 1919, Pommer chamou-o à realização e quis confiar-lhe o célebre "O Gabinete do Dr. Caligari". Lang recusou, mas assinou nesse ano 7 filmes, entre os quais "As Aranhas", nome duma misteriosa organização que se abate sobre um homern que do desporto passara a dedicar-se à procura dum fabuloso tesouro dos Incas. A teia de Fritz Lang começava.
Dois anos depois iniciava a sua colaboração com Thea-Von Harbou que viria a ser sua mulher e que escreveu os argumentos de quase todos os filmes desta primeira fase. O primeiro trabalho de ambos é o assombroso "A Morte Cansada" (também conhecido por "As Três Luzes") portentosa variação onírica sobre a morte e o amor, em que o exotismo do filme anterior se combinava já com a meditação sobre o sentido da vida e da morte.
A plena consagração chegou em 1922, com as duas partes do primeiro "Mabuse", inaugurando o filme negro que em Hollywood iria ter o futuro que se sabe. "Os Nibelungos" com as suas estruturas admiravelmente equilibradas, "Metropolis", porventura a expressão cimeira do cinema alemão dos anos 20, "Os Espiões" - de novo a organização misteriosa e implacável - e "Uma Mulher na Lua", de alucinante beleza, perfazem a carreira de Lang no cinema mudo, impondo-o como um dos maiores nomes da história do Cinema.
Percebendo depressa o que o sonoro podia trazer à sua estética, Lang assina depois "M", uma das obras mais lendárias e um dos pontos culminantes da sua carreira. Inicialmente o filme devia ter-se chamado "Os Assassinos Estão Entre Nós", mas o título foi retirado para não parecer provocação ao ascendente movimento nazi. E ainda antes do advento deste, Lang recriava Mabuse no "Testamento", uma das mais terríficas aproximações do Mal de que o cinema conserva memória.
Apesar dos seus conflitos com os nazis, Goebbels, quando aqueles chegam ao poder, convida-o a dirigir os serviços de cinema do III Reich, percebendo bem a imensa força dessa arte e o muito que com ela podia fazer se um homem como Lang a quisesse utilizar ao serviço da causa. Frontalmente, o autor de "Os Carrascos Também Morrem" recusa e logo a seguir abandona a Alemanha, fazendo uma breve estadia em Paris (onde realiza o abissal "Liliom").
A 1 de Junho de 1934 assina um contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer e parte para a Califórnia, onde se naturaliza americano em Fevereiro de 1935. Depois de várias tentativas infrutíferas - cinco projectos nas gavetas - Lang roda em 1936 o seu primeiro filme para a MGM, "Fúria", trabalhando depois para vários estúdios de Hollywood. Em 1945, funda a sociedade “Diana Productions” que no entanto só produz dois filmes. Vários projectos concebidos ao longo destes anos não chegaram a ser realizados, como seja um filme sobre Billy-the-Kid, um filme sobre o Golem e uma adaptação do General do Diabo, de Zuckmayer.
Esta fase americana é a fase mais incompreendida da sua carreira. Durante muitos anos, a crítica unânime em reconhecer a genialidade da sua fase alemã, sustentava também, quase unânimemente, que o sistema e os produtores americanos tinham “cilindrado” Lang e que este, na América, nunca pudera dar uma pálida ideia do seu valor, desbaratando o talento em obras menores. Só nos anos 50 se reparou essa clamorosa injustiça verificando-se, contra ideias feitas, que os seus filmes nos Estados Unidos são, na generalidade, obras que nada devem às anteriores. Na América, Lang terá até levado às últimas consequências o rigor e o despojamento que são apanágio dessa “arquitectura do destino” que é a sua obra.
"Fúria" prolonga o mundo de "Matou", transportando para os Estados Unidos um idêntico desejo de destruição e uma idêntica capacidade do mal; "Só Vivemos Uma Vez", um dos seus maiores filmes, confere ao film-noir a dimensão das grandes tragédias e abre a posteridade donde vêm "Os Filhos da Noite", "Bonnie e Clyde", "Pierrot le Fou"; os filmes antinazis dos anos 40 ("Feras Humanas", "Os Carrascos Também Morrem", "Prisioneiro do Terror") inserem o nazismo num universo de mal absoluto, em que o prazer de aniquilar sobreleva a instância política; "Suprema Decisão" e "Almas Perversas" vão aos limites da destruição sexual; "O Segredo da Porta Fechada" e "Desengano" culminam uma ética; "Rancho das Paixões" e "O Tesouro do Barba Ruiva" retomam o exotismo aventuroso nos limites da paixão do poder; "Corrupção", "A Cidade das Trevas", "AVerdade e o Medo" são as suas máximas meditações sobre o destino.
Em 1957, Fritz Lang regressou à Alemanha onde, no ano seguinte, repegava um projecto que já vinha dos anos 20 e de Joe May, na selva obscura e subterrânea do magnífico "Túmulo Índio". Mas para os alemães ele permanecia o hornem do "Mabuse" e foi com os mil olhos do terrível doutor que terminou a portentosa carreira em 61.
Dois anos depois despedia-se do cinema aos 73 anos no filme de Godard "O Desprezo", como actor, no meio das estátuas gregas e das divindades implacáveis que trouxera ao mundo das imagens.
Coleccionava objectos de arte africana e oriental e viajava pelo mundo inteiro.
Em 1964 preside ao Júri da Semana Internacional do Filme em Mannheim.
Em 1965 é distinguido com o oficialato das Artes e Letras.
Voltou à América no fim dos anos 60 e depois de um breve regresso à República Federal em 1972, morre em Los Angeles, a 2 de Agosto de 1976, com 85 anos.
FILMOGRAFIA:
1960 – Die Tausend Angen des Dr Mabuse / O Diabólico Dr. Mabuse
1959 – Das Indische Grabmal / O Túmulo índio
1959 – Der Tiger Von Eschnapur / O Tigre de Eschnapur
1956 – Beyond a Reasonable Doubt / A Verdade e o Medo
1956 – While the City Sleeps / Cidade nas Trevas
1955 – Moonfleet / O Tesouro do Barba Ruiva
1954 – Human Desire / Desejo Humano
1953 – The Big Heat / Corrupção
1953 – The Blue Gardenia / A Gardénia Azul
1952 – Clash By Night / Desengano
1952 – Rancho Notorious / O Rancho das Paixões
1950 – American Guerrilla in the Philippines / Guerrilheiros nas Filipinas
1950 – House By The River / A Casa à Beira do Rio
1948 – Secret Beyond the Door / O Segredo da Porta Fechada
1946 – Cloak and Dagger / O Grande Segredo
1945 – Scarlet Street / Almas Perversas
1944 – The Woman in the Window / Suprema Decisão
1944 – The Ministry of Fear / Prisioneiros do Terror
1943 – Hangmen Also Die! / Os Carrascos Também Morrem
1942 – Moontide
1941 – Confirm or Deny
1941 – Man Hunt / Feras Humanas
1941 – Western Union / Os Conquistadores
1940 – The Return of Frank James / O Regresso de Frank James
1938 – You and Me / Sózinho na Vida
1937 – You Only Live Once / Só Vivemos Uma Vez
1936 – Fury / Fúria
1934 – Liliom
1933 – Das Testament Des Dr. Mabuse / O Testamento do Dr. Mabuse
1931 – M / Matou
1929 – Die Frau Im Mond / A Mulher na Lua
1928 – Spione / Espiões
1927 – Metropolis
1924 – Die Nibelungen: Kriemhilds Rache / Os Nibelungos: A Vingança de Kriemhilds
1924 – Die Nibelungen: Siegfried / Os Nibelungos: A Morte de Siegfried
1922 – Dr. Mabuse, der Spieler / Dr. Mabuse, o Jogador
1921 – Der Müde Tod / A Morte Cansada
1921 – Vier um die Frau
1920 – Das Wandernde Bild / A Imagem Miraculosa ou A Senhora das Neves
1920 – Die Spinnen 2 – Teil: Das Brillantenschiff
1919 – Harakiri / Hara-Kiri
1919 – Die Spinnen 1 – Teil: Der Goldene See
1919 – Der Herr der Liebe
1919 - Halbblut














