Mostrar mensagens com a etiqueta john cassavetes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta john cassavetes. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, julho 18, 2025

ROSEMARY'S BABY (1968)

A SEMENTE DO DIABO
Um filme de ROMAN POLANSKI




Com Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, etc.

EUA / 136 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA a 12/6/1968
Estreia em MOÇAMBIQUE (L.M.) a 12/10/1969 (teatro Manuel Rodrigues)



Rosemary: «What have you done to him?
What have you done to his eyes, you maniacs!"
Roman: "He has his father's eyes»



Em tempo de estreia do novissimo Polanski (“The Ghost Writer” / “O Escritor Fantasma”) sabe bem regressar aos tempos áureos do realizador polaco, em que ele se encontrava no auge de uma clara felicidade na sua vida pessoal. O que não o impediu de arquitectar uma das obras mais inquietantes da sua filmografia. Tudo começa (intencionalmente) num tom cor-de-rosa de novela, em que nos são introduzidos os protagonistas do filme, um jovem casal (Guy e Rosemary Woodhouse) que, como tantos outros nessa mesma situação, procuram um apartamento para poderem iniciar o caminho a dois. Guy (John Cassavetes) é um ambicioso actor, Rosemary (Mia Farrow) uma devota católica desejosa de se tornar mãe. Instalam-se em Manhattan, no edifício Dakota (que muitos anos depois se tornaria célebre pelo assassinato de John Lennon).

A calma idílica do casal continua a ser-nos mostrada pela câmara cínica de Polanski que assim vai acentuando o contraste para tudo quanto mais tarde nos irá confirmar os pressentimentos mais terríveis. E esta transição, lenta e quase imperceptível, é a “chave” que faz com que a história de “Rosemary’s Baby” funcione e o desenrolar do filme vá aumentado a angústia do espectador. Sómente através de pequenos e subtis passos é que Rosemary (e nós, através dela) começa a suspeitar que algo está errado à sua volta. São os vizinhos, os Castevet, que por detrás da sua aparente amabilidade vão denunciando uma impertinência crescente. É a morte de uma inquilina e mais tarde de um amigo do casal em condições misteriosas. É a cegueira súbita sofrida por um colega de Guy que permite a este alcançar um papel há muito desejado. São os seus próprios pesadelos que se lhe apresentam cada vez mais reais. É a afamada reputação do local, onde se teria em tempos praticado magia negra.

Mas Rosemary vai afastando todos os maus presságios, tal o desejo de ser mãe pela primeira vez; e finalmente recebe a boa nova – vai ter um filho. No entanto a espiral de acontecimentos estranhos continuam, e Rosemary vai descobrindo que a “teoria da conspiração” não pertence afinal ao seu imaginário, sendo pelo contrário bem real. Acaba por fim de dar à luz mas dizem-lhe que houve complicações e o bébé morreu, não lhe permitindo sequer vê-lo. Mantêm-na sob o efeito de tranquilizantes mas Rosemary sabe que estão todos a mentir, até porque ela consegue ouvir um choro infantil através das paredes. Finalmente consegue reunir as forças necessárias e descobrir a passagem secreta para o local onde se encontra o seu bébé. Depois é o horror da descoberta (-“o que fizeram aos seus olhos?” - “tem os olhos do pai”, respondem-lhe) e progressivamente a aceitação da inevitabilidade de se ter tornado mãe, nem que seja a mãe do filho de Satanás.

O grande achado do final desta ghost story é de nunca o bebé nos ser mostrado. Presume-se a sua monstruosidade, mas deixa-se o close-up à imaginação do espectador. Técnica de sugestão clássica, aplicada aqui por um virtuoso, e com bons resultados, visto muito gente ter falado no aspecto terrível do bébé. Existe apenas uma breve imagem dos olhos mas essa imagem pertence ao pesadelo que Rosemary teve antes de engravidar. Este drama psicológico, de um horror subtil mas terrivelmente eficaz, é servido por um excelente grupo de actores onde naturalmente se destaca Mia Farrow que tem aqui o papel de uma carreira.

“Pessoalmente não acredito nas sociedades secretas - declarou Polanski na altura - o que me interessa é dar aparências passíveis de se poder acreditar nelas”. Não seria isto brincar com o fogo? Um ano depois, a sua própria mulher, a actriz Sharon Tate, com quem se casaria após a rodagem do filme, era vítima de uma seita satânica liderada por Charles Manson. A realidade tinha largamente ultrapassado em horror a ficção.

"Rosemary’s Baby" foi um enorme êxito logo na estreia, com filas de bilheteira que se estendiam por quarteirões inteiros. Êxito que se prolongou no ano seguinte devido aos trágicos acontecimentos em que Polanski se viu envolvido. Hoje, à distância de mais de meio século, tem-se a noção clara de que “Rosemary’s Baby” foi um filme à frente do seu tempo já que anunciou a psicose de feitiçaria que iria submergir a América nos anos seguintes, além de se ter tornado a primeira referência para filmes do género. E Polanski só dez anos depois nos conseguiria dar outro filme tão ou mais inquietante do que este – “Le Locataire” / “O Inquilino”.

CURIOSIDADES:

- O edifíco Dakota foi rebaptizado de "The Bramford" para o filme.

- Foi durante a rodagem que Mia Farrow recebeu os papéis de divórcio enviados por Frank Sinatra, com quem se casara apenas dois anos antes.

- É a própria Mia Farrow que entoa a canção de embalar ouvida no início e no fim do filme.

- Antes de Mia Farrow uma grande quantidade de actrizes famosas chegou a ser equacionada para o papel de Rosemary: Tuesday Weld, Jane Fonda, Julie Christie, Elizabeth Hatman, até em Sharon Tate, a sua futura mulher, Polanski chegou a pensar. O mesmo se passou com a escolha do papel de Guy: Robert Redford, Richard Chamberlain, Jack Nicholson, James Fox.

- Quando Mia Farrow fala ao telefone com o colega de Guy é a voz de Tony Curtis que se ouve do outro lado.



terça-feira, agosto 21, 2012

THE DIRTY DOZEN (1967)

DOZE INDOMÁVEIS PATIFES
Um filme de ROBERT ALDRICH

Com Lee Marvin, Ernest Borgnine, Charles Bronson, Jim Brown, John Cassavetes, Richard Jaeckel, George Kennedy, Trini Lopez, Ralph Meeker, Robert Ryan, Telly Savalas, Donald Sutherland, Clint Walker, Robert Webber, etc.

EUA - GB / 150 min / COR / 
16X9 (1.75:1)



Estreia nos EUA a 15/6/1967
Estreia em PORTUGAL a 10/1/1968
(Lisboa, cinema Império)
Estreia em MOÇAMBIQUE a 5/7/1968
(LM, teatro Manuel Rodrigues)


Major John Reisman: «You've seen a general inspecting troops before haven't you?
Just walk slow, act dumb and look stupid!»

"The Dirty Dozen", um dos mais excitantes filmes de guerra dos anos 60, teve, na sua estreia, o condão de unir o público e dividir a crítica. Mas hoje, passadas mais de 4 décadas, o filme continua a ser bem representativo das tendências profundas do cinema americano daqueles anos. A odisseia de um comando suicida nada teria de original se Aldrich não fizesse dela um empreendimento onde a violência funciona como catarse. Poucas obras testemunham com tanta força as energias que a guerra liberta, energias que possuem algo de inquietante, tanto pelo espectáculo que oferecem como pelo interesse que suscitam junto do público. Lee Marvin (num papel que lhe deu fama internacional) interpreta John Reisman, um duro e veterano major americano, conhecido pelo seu temperamento irascível e muito pouco ético, mas que no entanto consegue obter bons resultados nos cenários bélicos em que se vê envolvido. É por isso que os seus superiores hierárquicos resolvem fazê-lo voluntário de uma missão de alto risco: atacar um castelo francês, ocupado pelos alemães, e liquidar o maior número possível de altas patentes nazis que periodicamente passam lá os tempos livres, em companhia das frauleins que se ocupam do repouso dos guerreiros. Uma missão perigosa e em tudo suicida, uma vez que o único punhado de homens que Reisman pode dispor são doze celerados, condenados à morte, a trabalhos forçados ou a longas penas prisionais. E que ainda têm de ser devidamente treinados.

Robert Aldrich já tinha abordado o género de guerra com “Attack!” [1956], um filme onde um tenente interpretado por Jack Palance é confrontado com a cobardia e o sadismo dum superior, e em que os horrores da guerra eram já mostrados com todo o rigor e honestidade. O propósito de Aldrich neste “The Dirty Dozen” é, uma vez mais, a denúncia da guerra, no que ela tem de mais absurdo: «Penso que a guerra revela simultaneamente o melhor e o pior do homem, e não apenas o pior. Lembrem-se por exemplo da sequência em que Jim Brown corre pelo pátio do castelo, deixando cair as granadas nos tubos de ventilação encharcados de gasolina. Não são apenas os alemães que cometem acções particularmente atrozes, os americanos também o fazem. Todas as guerras são desumanizantes, não existe uma guerra “limpa”. E essa sequência é uma alusão à utilização do napalm, por causa do conflito do Vietname, que nessa altura estava no auge.»

“The Dirty Dozen” encontra-se dividido em três partes distintas: a apresentação e treino dos doze criminosos, um ensaio geral que procura mostrar o quanto assimilaram a instrução recebida (num pessoal ajuste de contas com outro grupo de militares) e a missão propriamente dita. É na primeira parte, filmada num bom ritmo e com um vigor inesperado, que reside o maior interesse do filme, ao serem-nos introduzidas as diversas personalidades dos doze homens, que irão ser lentamente reprogramáveis pela máquina militar. Uma máquina militar que se encontra representada ao mais alto nível, e em que a aparente rectidão de princípios mais não é do que um sinónimo de hipocrisia. Recorde-se a abertura do filme, antes de passarem os créditos iniciais: o enforcamento de um condenado à morte, cuja precisão glacial nos remete para uma indiferença a roçar o sadismo; ou ainda as relações de domínio e humilhação que os instrutores vão exercendo sobre os doze homens, prometendo-lhes não a absolvição das penas mas, com quase toda a certeza, uma morte “gloriosa” em combate (que acabará efectivamente por acontecer à esmagadora maioria deles).

Baseado num romance de E.M. Nathanson e adaptado por Lukas Heller ( a sua terceira colaboração com Aldrich, depois de “What Ever Happened to Baby Jane” e “Hush… Hush, Sweet Charlotte”) e Nunnaly Johnson (“Jesse James”, “The Grapes of Wrath”, “Tobacco Road”, “How to Marry a Milionaire”…), "The Dirty Dozen" traz-nos de novo as reacções de um grupo de homens confrontados com a inevitabilidade da morte, mas que lutam desesperadamente contra tal fatalidade. Só que aqui estamos na presença de actores tremendamente convincentes, como Lee Marvin, Charles Bronson, Ernest Borgnine, Robert Ryan e, acima de todos, um verdadeiro one-man-show: John Cassavetes, simplesmente fabuloso. A possibilidade de vermos juntos todos estes grande actores do passado (infelizmente, só cinco deles se encontram ainda entre nós, com idades entre os 78 e os 90 anos: Trini Lopez, Jim Brown, Donald Sutherland, Clint Walker e George Kennedy) é ainda uma das razões pelas quais o retorno aos "Doze Indomáveis Patifes" me dá sempre tanto prazer.

Contrariamente ao que disse alguma crítica na altura da estreia (e reincindindo todas as vezes que o filme era reposto), não me parece que "The Dirty Dozen" faça o elogio da violência e do militarismo. Muito pelo contrário, estamos aqui bem longe do heroísmo e do patriotismo, predicados tão comuns ao típico filme de guerra. Aldrich interroga-se mesmo sobre a essência desse heroísmo, pondo em dúvida o direito de matar, que normalmente lhe está associado. Devido a uma certa ambiguidade dos seus protagonistas (simultaneamente heróis e crápulas), Aldrich coloca um espelho diante do espectador, obrigando-o a questionar-se sobre as razões duma eventual fascinação pela violência e selvajaria que desfilam pelo écrã e, sobretudo, obrigando-o a tomar partido. Muitas vezes mal apreendido, chegando por vezes ao cúmulo de ser apontado como fascizante (esquecendo-se por exemplo “The Green Berets”, filme realizado no ano seguinte pelo ultra-conservador John Wayne, e, esse sim, um filme medíocre e panfletário), "The Dirty Dozen" é na verdade um filme profundamente anti-belicista, que nos faz mergulhar no furor e no absurdo da guerra, de todas as guerras.

Aldrich não ilude as expectativas do espectador que quis ir ver um filme de guerra e oferece-lhe todas as passagens obrigatórias do género. Mas, pela violência das imagens, a ambivalência dos personagens (onde não faltam sequer algumas cenas de pendor cómico - lembre-se por exemplo a hilariante passagem em revista das tropas em parada, feita por um recém-promovido Donald Sutherland a general) e sobretudo pela excelente mise-en-scène, Aldrich alerta os mais desprevenidos para o significado de ver e apreciar um tal espectáculo. Um grande filme, sem dúvida, que soube conservar o seu particular fascínio ao longo dos anos, apesar de quase sempre conotado como um filme “de homens e para homens” (veja-se a jocosa alusão que é feita no filme “Sleepless in Seattle” [1993], em que é apontado como o “filme preferido dos homens”, em oposição a “An Affair to Remember” [1957], um filme conhecido por agradar particularmente ao sexo feminino).

CURIOSIDADES:

- O castelo francês que aparece na última parte, e que é o objectivo da missão suicida, foi desenhado especialmente para o filme pelo director artístico William Hutchinson, e é considerado um dos maiores cenários jamais construídos no cinema

- Os produtores chegaram a oferecer a John Wayne o papel principal do Major John Reisman. Felizmente que o actor não aceitou (ou "The Dirty Dozen" não teria tido o impacto que teve, seria certamente apenas mais um filme do inexpressivo Duke), tendo partido para a realização de outro filme de guerra: o famigerado (pelas piores razões) "The Green Berets"

- Lee Marvin, Telly Savalas, Charles Bronson, Ernest Borgnine e Clint Walker, todos eles serviram na 2ª Guerra Mundial

- Jack Palance não aceitou o papel de Telly Savalas por causa dos seus contornos racistas

- A personagem de Lee Marvin, o major John Reisman, foi baseada em John Miara, um amigo pessoal de Marvin de Massachusetts, que esteve com ele quando ambos fizeram parte do Marine Corps, durante a 2ª Guerra Mundial

- A cena em que Donald Sutherland passa revista às tropas em parada foi inicialmente escrita para Clint Walker que a recusou, por não se sentir à vontade em desempenhá-la. A cena, hilariante, tornou-se célebre, e foi a principal responsável pela contratação de Sutherland para o filme "M.A.S.H." [1970], que fez dele uma estrela internacional.



 - "The Dirty Dozen" foi o maior sucesso da MGM de 1967, tendo sido nomeado para um Globo de Ouro (John Cassavetes como actor secundário) e 4 Óscares, nas categorias de Montagem, Som, Actor Secundário (John Cassavetes) e Efeitos Sonoros. Acabaria por ganhar este último

- Os passos previstos para a missão (decorados exaustivamente por todos os intervenientes) eram os seguintes: «One: down to the road block we've just begun - Two: the guards are through - Three: the Major's men are on a spree - Four: Major and Wladislaw go through the door - Five: Pinkley stays out in the drive - Six: the Major gives the rope a fix - Seven: Wladislaw throws the hook to heaven - Eight: Jiminez has got a date - Nine: the other guys go up the line - Ten: Sawyer and Gilpin are in the pen - Eleven: Posey guards points Five and Seven - Twelve: Wladislaw and the Major go down to delve - Thirteen: Franko goes up without being seen - Fourteen: Zero hour, Jiminez cuts the cable Franko cuts the phone - Fifteen: Franko goes in where the others have been - Sixteen: we all come out like it's Halloween»

- Foi solicitado a Robert Aldrich que retirasse a cena em que Jim Brown atira as granadas para os tubos de ventilação, por ser considerada controversa (implicava a morte pelo fogo dos alemães encarcerados na cave do castelo). Aldrich recusou, dizendo que tal cena era muito importante, por mostrar que «a guerra é um inferno.»




LOBBY CARDS: